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O Dicionário do Diabo, de Ambrose Bierce

Por Jacques

Este livro da Editora Mercado Aberto nos mostra a visão de vida de seu autor, o norte-americano Ambrose Gwinnett Bierce, que fazia da amargura, pessimismo, humor negro, ironia e ceticismo os combustíveis com os quais ateava fogo ao conservadorismo, a hipocrisia e a credulidade de sua época, o século XIX.

Tendo lutado na Guerra da Secessão, este autor viu o que de pior o ser humano é capaz de realizar, o que foi mais tarde refletido em sua obra literária, repleta de contos ambientados na guerra.

Seguem abaixo alguns verbetes escolhidos a dedo:

ABSURDO, s. Declaração de fé manifestamente contrária a nossa própria opinião.

COMÉRCIO, s. Tipo de transação na qual “A” surrupia de “B” os bens de “C”, e como compensação “B” rouba da carteira de “D” o dinheiro pertencente a “E”.

CRISTÃO, s. Aquele que crê que o Novo Testamento é um livro de inspiração divina, admiravelmente indicado para as necessidades espirituais de seu vizinho. Aquele que segue os ensinamentos de Cristo até o limite em que não atrapalhem uma vida de pecado.

FANÁTICO, s. Alguém que sustenta de maneira diligente e intransigente uma opinião diferente da nossa.

FILOSOFIA, s. Rota de muitas estradas, levando do nada a lugar algum.

HUMILDADE, s. Paciência necessária para se planejar uma vingança que valha a apena.

Ambrose Bierce

LÓGICA, s. Arte de pensar e argumentar em estrita concordância com as limitações e incapacidades da incompreensão humana. A base da lógica é o silogismo, que consiste numa premissa maior, outra menor e numa conclusão. Por exemplo:
– Premissa maior: Sessenta homens podem executar um trabalho sessenta vezes mais rápido do que um homem só.
– Premissa menor: Um homem pode cavar um buraco em sessenta segundos.
Conclusão: Logo, sessenta homens podem cavar um buraco em um segundo.

MATAR, v. t. Criar uma vaga sem designar um sucessor.

PAGÃO, s. Criatura inculta que incorre na loucura de adorar o que se pode ver e sentir.

Pode-se notar que Bierce não se importava com quem saísse ferido por sua forma ferina de escrever, simplesmente não ligando para conceitos tidos como “absolutos”.

No mundo de hoje, onde o “politicamente correto” tornou-se uma forma velada de censura, esse é o tipo de escritor que faz falta.

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  1. Domênico Gay
    10/02/2010 às 05:07

    O problema é que qualquer escritor que escrevesse isso hoje em dia, estaria:
    A) Sendo cínico;
    B) Sendo cínico para ganhar dinheiro;
    C) Sendo cínico para ganhar dinheiro porque conhece o mercado;
    D) Sendo cínico para ganhar dinheiro porque conhece o mercado e sabe que o politicamente incorreto tem um excelente nicho.

    Ninguém mais incorre no erro, hoje em dia, de realmente pensar sobre religião, modo de vida, filosofia ou assuntos considerados “profundos”. Ou as pessoas aceitam o que já existe sem refletir, ou aceitam as reflexão feita por outras pessoas – num passado longíncuo – e aceitam como verdade, ou riam novas versões dos pensamentos/religiões/filosofias porque teria a alternativa “C” como “filosofia de vida”.
    Ah, claro, há os outros dois tipos de pessoas, minorias que estão realmente interessadas em não ser levadas pela correnteza das religiões e filosofias de vida, mas é muito preguiçosa pra realmente refletir sobre o assunto: Os Ateus, que se limitam á renegar tudo e todos e atacar os que acreditam em qualquer coisa como forma de “defesa de suas crenças em nada”, e os não-ateus, que acreditam em um deus livre de qualquer crença específia, porque leram superficilamente sobre um punhado de religiões mas ficaram indecisos, nesse mundo de opções globalizadas, e preferem não alegar pertencer à “essa ou áquela religião”.

    Eu prefiro que não hajam novos autores nessa linha de pensamento, porque na nossa atual aldeia global, seria mais um “O Segredo” da vida. E livro de auto-ajuda já tá cheio nas prateleiras das livrarias.

    • Jacques
      13/02/2010 às 18:36

      Domênico,
      É curioso o fato de que citasses que hoje em dia Ambrose Bierce ficaria conhecido como cínico, pois na época em que este livro foi lançado, seu nome era “O Dicionário do Cínico”, por influências religiosas.
      O resultado disso foi a enxurrada de livros com o título “Alguma coisa do Cínico”, que eram, em sua esmagadora maioria, estúpidos, a ponto de as editoras rejeitarem automaticamente qualquer livro com a palavra “cínico” no título.
      E então quer dizer que os escritores de que gostas não escrevem por dinheiro?
      Me engana que eu gosto…
      Para mim, qualquer um que force o cérebro das pessoas a pegar no tranco tem sua validade, principalmente na atual aldeia global, onde pirralhos de 13 anos constroem sites na base do recortar e colar com assuntos de que não fazem a menor ideia.
      E toda religião é inventada, goste você ou não.

  2. Sedrez Araujo
    14/02/2010 às 20:03

    Não nos esqueçamos da apresentação feita do autor: “..fazia da amargura, pessimismo, humor negro, ironia e ceticismo os combustíveis com os quais ateava fogo ao conservadorismo, a hipocrisia e a credulidade de sua época”…
    Logo, imagino que a intensão do mesmo – e não vou aqui fingir que o conheço pesquisando seu nome na Internet sem vocês saberem – era o de satirizar seu momento histórico, não o de escrever um tratado ou propor dogmas.
    Parece-me que A. G. Bierce passou, em sua vida, por experiências que lhe abriram os olhos para como os vícios humanos conduzem a humanidade, não significando, entretanto, que não lhe fosse mais possível enxergar virtudes, como pode parecer à princípio. Como não sou amargo, sou otimista e crédulo, prefiro acreditar que ele simplesmente precisava extravasar sua indignação com o sistema em que vivia, ou para alertar seus contemporâneos ou para divertí-los com suas citações incrivelmente precisas e atemporais.
    Se Bierce vivesse hoje, no Brasil, seria, certamente, colunista da Veja.

  3. 17/02/2010 às 12:45

    Concordo com o Domênico quando ele diz que as pessoas se limitam em assumir uma posição já imposta, sem indagar, questionar ou pesquisar. Assim é fácil. Pega-se o bonde andando.

    Mas também concordo com o Jax quando ele diz que qualquer um que force o cérebro das pessoas tem sua validade. Esses livros são interessantes, nem que seja pra criticá-los. Como o Mauro disse, também não conheço o autor, mas ele satiriza seu momento histórico e essa tendência de querermos tudo mastigadinho, sem necessidade de raciocínio (como a Wikipedia, por exemplo).

    O Hugo, num outro post, colocou uma frase que diz que as pessoas só deveriam escrever sobre o que conhecem, mas eu pergunto: quem define se a gente conhece ou não? Acho todo escrito válido. Muita coisa que leio acho ruim, absurda, contraditória, mas mesmo assim sigo lendo, pois fortalece meu ponto de vista.

    Quem já leu Discurso do Método de Descartes, ou Pluralidade dos Mundos, de Fontenelle, ou mesmo ficção científica de Julio Verne percebe muita falha no raciocínio por falta de informação, principalmente espacial, mas mesmo assim são textos ricos, que expandem horizontes.

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