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Programa do Jon

Por Jacques

– … E em uma aula de Física, em um curso pré-vestibular, após terminar uma explicação, o professor pergunta “Todos entenderam?” e um aluno particularmente pouco brilhante responde “Ah, professor… Tudo o que o senhor explica me entra por um ouvido e sai pelo outro…”, então o professor se vira para o aluno e diz “É mesmo? Eu não sabia que o som se propagava no vácuo…” He, he, he. Boa essa. Aham. E o primeiro convidado desta noite aqui no Programa do Jô é o senhor Jon Osterman, também conhecido como Dr. Manhattan! Antes de tudo, Dr., você gostaria de ouvir alguma música em particular? Talvez um… Blues?

 

– Não, obrigado, senhor Jô, eu queria… Ah, entendi. Seu lendário e muitas vezes circunstancialmente reprovável bom humor.

 

– A seu inteiro serviço, Jon. Então. Você veio aqui para. Divulgar um dvd? É isso?

 

– Não, nada disso, senhor Jô.

 

– Cd, então?

 

– Também não, senhor.

 

– Livro, então?

 

– Não.

 

– Então veio promover sua peça de teatro, onde é produtor, roteirista, ator, contra-regra e vendedor de bala de goma?

 

– Também não…

 

– Então veio aqui para lamentar a sua eliminação prematura em algum reality show?

 

– Negativo.

 

– Então… Ahn… Nossa produtora… Encontrou o seu nome em um pedaço de papel que estava enrolado em uma pedra, que foi arremessada contra o carro dela?

 

– Não, eu…

 

– A propósito, você é doutor de quê? Rins, coração, pulmões, bexiga?

 

– Não sou doutor em nada, Jô!

 

– Mas aqui na ficha…

 

– Eu explico. O codinome “Dr. Manhattan” foi criado na década de 60 para meter medo nos russos e foi tirado do Projeto Manhattan, que originou a bomba atômica. E também se refere ao fato de eu ter sido desintegrado por radiação e ter retornado com esse tom de pele singular e alguns poderes.

 

– Hmm… Isso. Está escrito aqui. Reconfiguração molecular, imortalidade, invulnerabilidade, alteração de tamanho, intangibilidade, teleporte, auto-clonagem ilimitada, desintegrar pessoas. Nossa.

 

– Sim. E tem mais alguns que eu ainda não nomeei…

 

– Impressionante, Jon. Mas como é esse negócio de desintegrar pessoas? Que coisa bizarra.

 

– Ah… É bem simples, Jô, eu aponto minha mão para o alvo, digo, pessoa, que então explode em pedacinhos. É muito engraçado. Se eu pudesse demonstrar.

 

– Mas não seja por isso! ALEX! Venha cá!

 

Posicionado próximo ao Jô, Alex, com os olhos arregalados, responde:

 

– Sim, senhor Jô?

 

– Venha até aqui, Alex, o moço quer falar com você.

 

– Não, senhor Jô!

 

– Porque não? Está com medo?

 

– Sim, senhor Jô!

 

– Pode vir sem medo, o Dr. está brincando.

 

– Não, senhor Jô!

 

– Não vai vir mesmo, Alex?

 

– Não, senhor Jô!

 

– “Não, senhor Jô!”, “Sim, senhor Jô!”. Você não sabe dizer outra coisa não, Alex?

 

– Não, senhor Jô!

 

– Hmm… Você está muito engraçadinho hoje, sabia, Alex?

 

– Sim, senhor Jô!

 

– Certo. Vai ter que ficar pra próxima, Jon. Mais uma dúvida. Esse seu poder de desintegrar pessoas… Ele… Funciona em argentinos?

 

– Boa questão, essa, Jô. Terei de averiguar isso qualquer dia desses.

 

– Faça isso. Outra dúvida: com tantos poderes assim; dá para fazer o Corinthians ser campeão da Libertadores da América?

 

– Acredito que milagre seja o departamento de seu próximo entrevistado, Jô.

 

O Doutor aponta para Inri Cristo, que estava sentado na primeira fila, acompanhado de três de suas seguidoras.

 

– Concordo. E tem mais um poder aqui. “Visão do futuro”. Como funciona isso?

 

– Muito simples, Jô. Eu sei o que vai acontecer no meu futuro com certeza total.

 

– Hmmm… E poderia nos dar um exemplo disso, Jon?

 

– Pois não. Daqui a instantes você me perguntará “Porque?”.

 

– Porque?

 

– Porque o que, Jô?

 

– Porque eu vou lhe perguntar “Porque?”, Jon?

 

– Você não vai perguntar, Jô. VOCÊ JÁ PERGUNTOU!

 

– Ahh… É… Mas assim é fácil! Você diz para a pessoa “Você vai falar “abacate”! E a pessoa pergunta “Vou falar o quê, “abacate”? E aí você diz “Viu só como eu sabia o que você iria dizer?” Ah, por favor.

 

– Ceticismo, hein? Então se eu lhe disser que seu relutante assistente ali será atacado por um dinossauro daqui a instantes, você não acreditaria em mim, Jô?

 

– Beem. Mesmo que isso fosse cientificamente possível, Jon, porque me pergunta isso, se já sabe a resposta, já que sabe o seu futuro?

 

– Boa pergunta, Jô! Eu lhe perguntei porque não tinha escolha a não ser perguntar, entende?

 

– Hmm… Então você faz aquilo que prevê, doa a quem doer?

 

– Exatamente, Jô.

 

– Então quer dizer que o Alex ali será atacado por um dinossauro, queira ele ou não?

 

– Sim! Isso não depende dele, Jô.

 

– Ahn… E depende de quem, então?

 

– DE MIM! Desculpe. Foi brincadeira. O futuro simplesmente está lá, assim como o passado, e não pode ser mudado, Jô.

 

– Então que dizer que esse negócio de voltar no tempo para mudar algo não é possível?

 

– Claro que não, Jô. Isso é um absurdo descabido.

 

– Ah… E um sujeito ser desintegrado e voltar sabe-se lá de onde com mais poderes que o Super-Homem e o Barack Obama juntos não é um absurdo descabido?

 

– Ora… Eu estou aqui do seu lado, não estou, Jô?

 

– Está, sim. Só que ainda não demonstrou nenhum de seus “poderes”, Dr..

 

– Muito bem. Então vamos matar dois Red Shirts com um disparo só.

 

O Dr. Manhattan aponta sua mão direita para o centro do palco, de onde surge um velociraptor com garras metálicas. O animal olha para a plateia com um ar esfomeado. O Dr. assobia alto e o animal olha para ele, que aponta para Alex e fala em voz alta:

 

– Aqui! Pega, Ósti!

 

O animal abre a boca e se avança em Alex, que se pendura em uma cortina, com o réptil saltando para tentar alcançá-lo, e grita:

 

– SOCORRO, PATRÃO ! TIRA ESSE BICHO DAQUI! ELE QUER ME DEVORAR!

 

– Ah, Jon, você já provou que estava certo. Poderia se livrar do… Ósti? É esse o nome do animal?

 

– Sim. Eu tirei do epíteto específico dele,“Ostermanraptor manhattanensis”…

 

– Você… Homenageou a si mesmo ao nomear o bicho, Jon?

 

– Sim. Isso me poupa tempo.

 

– E… As garras do… Ósti. São feitas de quê?

 

– Adamanhattium, Jô! Eu mesmo criei.

 

– Certo. Mas poderia devolver o animal ao seu local de origem? Ele está para devorar meu assistente e leva um bom tempo para treiná-los…

 

– Poxa. Mas ele nunca sai lá da frente da minha casa. Ele fica lá, à espreita, se alimentando de Testemunhas de Jeová e poodles. Mas tudo bem. Ele já se divertiu.

 

O Dr. aponta a mão direita para Ósti, que é teleportado. Alex desce da cortina e fica com uma expressão de emburrado.

 

– Muito bem, Jon. Sumiu com o animal. Se bem que ele poderia se chamar Pinochet. He, he, he.

 

– Você tem que fazer piada com tudo, Jô?

 

– Bem vindo ao meu mundo, Jon. Mas espere aí, o Alex só foi atacado por um dinossauro porque você teleportou o bicho sabe-se lá de onde.

 

– Isso é irrelevante, Jô. Eu previ que ele seria atacado e ele foi, o que agora é passado e não pode ser mudado.

 

– Hmm… Sei…

 

– E agora que você se convenceu de que eu falo a verdade, eu posso lhe contar o porque de eu ter vindo aqui. Eu vim até aqui para avisá-lo de que você vai sofrer um ataque cardíaco daqui a poucos instantes…

 

– Ahn… Isso é… Sério, Dr.?

 

– Sim… Pode apostar a sua vida nisso, Jô!

 

– Engraçadinho. E… Quando exatamente isso vai ocorrer? Ai meu pai…

 

– Bem, Jô… Vai acontecer…

 

– Sim… Sim…

 

– AGORA MESMO!

 

– AAAHHHH! Quer que eu tenha um ataque, Jon?

 

– Mas é claro que não, Jô. Foi apenas uma brincadeira inofensiva. Eu vim aqui para avisá-lo do que vai ocorrer, para impedir que aconteça o mesmo que aconteceu com o Michael Jackson…

 

– E… O que houve com ele, Jon?

 

– Ele morreu! E já faz algum tempo. Poxa, trabalha na tv e não…

 

– Eu sei que ele morreu! Mas antes disso, o que houve com ele?

 

– Ele estava vivo! Boa essa, hein? Me desculpe, não deu para evitar. Bem… Eu previ que ele iria sofrer um ataque cardíaco, então tentei bolar uma maneira de contar a ele sem alarmá-lo, e nessa hora me deu vontade de comer panquecas, então eu fiz a massa, preparei o molho e, quando me dei por conta, já estava quase na hora do Michael ter seu ataque, daí eu larguei tudo e me teleportei até Neverland, onde apareci bem na frente dele e gritei “Michael, você vai sofrer um ataque cardíaco!”.

 

– Ahh… E ele, o que disse, Jon?

 

– Ele deu dois rodopios, colocou a mão direita sobre o peito, disse “Ááu!”, e caiu duro no chão…

 

– Nossa… E o que você fez depois, Jon?

 

– Eu procurei um telefone, e como a sala estava mal iluminada, eu tateei por cima dos móveis, onde encontrei um objeto estranho…

 

– Ahn… Estranho como, Jon?

 

– Bem estranho, Jô. Eu acendi a luz para ver o que era e, quando vi, joguei o objeto longe e me teleportei para longe dali, apavorado…

 

– E… Esse objeto… Era o que eu penso que era, Dr.?

 

– Sim, Jô. Era uma prótese de nariz! Ela… Ainda me dá arrepios

 

– Ah… Era isso. Eu sabia. Mas e porque você não teleportou o Michael para um hospital?

 

– Porque eu estava em pânico! Era o Michael Jackson, poxa… Ídolo de milhões.

 

– E você o matou, Jon? E ainda confessa…

 

– Eeuu? Nada disso, Jô. Admito que minha entrada em Neverland foi um tanto… Abrupta. Mas os exames revelaram que o que matou o Michael foi uma parada cardíaca provocada por uma parada cardíaca.

 

– Que foi provocada por você! E ainda fica tentando tirar o corpo fora…

 

– Ah… Era só o que me faltava. Daqui a pouco vão querer me culpar pela morte do Elvis, também.

 

– Você… Teve algo a ver com a morte do Elvis, Jon? A propósito, ele morreu mesmo?

 

– Sim, Jô, ele morreu de fato. E o que ocorreu foi que ele me desafiou a trocar as embalagens dos frascos de seus remédios sem tocá-los, e eu os troquei e ele resolveu provar um por um para verificar qual era qual e daí deu no que deu.

 

– E a culpa obviamente não foi sua, não é, Jon?

 

– Ora… Claro que não. Da mesma forma que a morte do John Bonhan também não foi culpa minha.

 

– O baterista do Led Zeppelin? O que você fez com ele?

 

– Eu, nada, Jô. Ele é que me desafiou a beber vodka até desistir. Se bem que… Pensando melhor agora… Ele deveria estar bêbado para propor aquilo.

 

– Nossa. E você conta isso com a maior naturalidade do mundo, Jon? Isso foi bem perturbador.

 

– Você achou, Jô? Então é melhor eu nem lhe contar sobre o que houve com o John Lennon, o Kurt Kobain, o Pavaroti e o Bob Dylan.

 

– Ahhh… Você matou esses também? Mas espere aí, o Bob Dylan ainda está vivo!

 

– Por pouco tempo, Jô. Por pouco tempo.

 

– Mas você confessa que matou todas essas pessoas? E sem nenhum remorso?

 

– Remorso pelo que, Jô? O que aconteceu tinha de acontecer.

 

– AAHHH! Você… É um monstro, sabia, Jon?

 

– Não sou não, Jô. E sabe porque?

 

– Hmm… Porque?

 

– Porque ISSO é um monstro, Jô!

 

Nisso, o Dr. Manhattan aponta sua mão direita para o centro do palco, de onde surge uma versão menor daquela criatura que aparece no final da série Watchmen. A criatura aproxima seu único olho de Jô, que coloca uma mão sobre o peito e sussurra para o Dr.:

 

 

– Parece que você estava falando a verd…

 

E desmaia. Jô acorda no dia seguinte em uma cama de hospital, com o Dr. Manhattan em pé ao lado da cama, sorrindo com um ar de satisfação. Ele fala com dificuldade:

 

– Ahhh… Jon… Seu maldito. Você quase… Me matou… Aai…

 

– Ora, Jô… Não seja mal-agradecido. Eu teleportei você para cá, onde os médicos o reanimaram.

 

– Ahn… E a criatura? Atacou alguém? Ai…

 

– Depende da abrangência de sua definição de “alguém”… Enquanto eu estava aqui assistindo você ser reanimado, o Inri Cristo estava tentando exorcizar a criatura usando trechos de músicas do Odair José. A criatura não gostou muito e o devorou ali mesmo; as seguidoras dele tentaram linchá-la depois disso. Pena que eu não estava lá para ver.

 

– E… O que foi feito da criatura? Aaah…

 

– Depois que eu me certifiquei de que você estava bem, voltei até lá e a descriei. Ela tinha um cheiro horroroso. As seguidoras do falecido Inri Cristo resolveram fazer um… Aham… “Ensaio sensual” para uma revista masculina para arrecadar dinheiro para construírem uma estátua em homenagem ao seu antigo messias. Elas dizem que a estátua se chamará “Inri Cristo Redentor”.

 

– Ahh… Esses ensaios sempre são por uma boa causa, Jon.

 

– Sim… A propósito, eu só me lembrei de teleportá-lo para cá porque você tinha me perguntado porque eu não tinha feito isso com o Michael.

 

– Então… Se eu não tivesse lhe perguntado aquilo, eu estaria morto agora, Jon?

 

– Jamais saberemos, Jô… Jamais saberemos. Ah, eu já ia me esquecendo. O meu poder de desintegrar pessoas funciona em argentinos, sim… Tive de tentar umas quatro vezes, mas consegui.

 

– Aahh… O que aprontou dessa vez, Jon? Se bem que estou com medo de saber.

 

– Ora, Jô, veja por si mesmo.

 

O Dr. aponta a mão direita para a tv do quarto e a liga. Na tela aparece uma multidão segurando velas e cantando hinos religiosos, e embaixo da tela, aparecem os dizeres: “Tragédia nacional: Morre Maradona. Presidenta Cristina Kirchner culpa oposição…”.

 

– Hmmm… Pelo menos teve algo de bom nessa história toda, Jon… Ai…

 

– Sem dúvida. Eu pensei que já que tinha de livrar o mundo de um argentino, que tinha de ser um de que o mundo menos sentiria falta. E fiz isso graças a você, Jô, que me perguntou se isso seria possível.

 

– Ahn… Acho… Que eu posso viver com isso, Jon. Ai…

 

– Bem vindo ao meu mundo, Jô.

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  1. 24/07/2011 às 12:52

    hahaha, ri pra caramba com esse texto aqui em casa. acho que o manhathan poderia desintegrar coisas mais próximas ali do programa do jô mesmo, hehe…
    abraço!

    • 03/08/2011 às 18:08

      Valeu, Vinícius.
      Esse texto não ficou ruim, só longo demais.
      Estou corrigindo isso…
      Até a próxima.

  1. 17/07/2012 às 08:21

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