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Fúria de Titãs – mais do mesmo

Por Rafael

Eu não tinha visto a nova versão Fúria de Titãs até mês passado, quando convenci minha mulher a assistir comigo a versão de 1981 e a de 2010 na colada. Dá pra imaginar o que acontece: frustação. Todo mundo deve achar que eu vou meter o pau, como toda a crítica fez, dizendo que mudaram a história, que não ficou igual e bla, bla, bla. Na minha opinião, versão nova é para isso mesmo. Eu não gostei de tudo, mas até que foi divertido.

Depois que vi, comentei com o pessoal no XXVI Café Nerd do Fim de Tarde, tiramos um sarro e resolvi escrever o resultado da conversa num comparativo entre o filme de 2010, o de 1981 e a mitologia grega. Ei-lo:

O bem e o mal

É difícil pros americanos entenderem que não há deus do bem e deus do mal na mitologia grega. Pra um americano entender uma história, tem que ter os mocinhos e os índios, digo, bandidos. O interessante da mitologia grega é justamente o que foi eliminado no filme: os deuses são como humanos, possuem desejos e ambições, falham, se arrependem. Não tem como definir Zeus como o deus do bem e Hades como o deus do mal. Hades é deus dos mortos, é ele que cuida da gente quando morremos. Não tem porque ele ser mau, senão, mantendo as devidas proporções, coveiro seria bandido.

Aliás, eu nunca estudei roteiro, mas quem estuda podia me esclarecer por que todos (eu disse todos) os filmes têm que ter um mocinho, um bandido e um romance? Não tem como fazer uma história diferente? Sério, não seria inovador se não tivesse um romance num filme de ação?

Enfim, foi uma pena retratarem o bem  e o mal dessa forma na mitologia. O Ralph Fiennes de Hades ficou bem legal, se prestou pro personagem que fizeram, mas o Liam Neeson de Zeus ficou um sarro…

Zeus

O Zeus de 81 tem mais cara de deus grego, com seu cabelo e barba encaracolados. O Zeus de agora parece ter saído do Senhor dos Anéis. Tudo bem, é o que está na moda… Se aparecesse um deus encaracoladinho, iam criticar muito. Pelo menos não tem o cabelo tipo Justin Bieber ou Restart.

Medusa

Bah, não tem como negar que ficou muito legal a medusa do filme novo. No Fúria de 81 ela era um monstro. Pelo que sei, a Medusa “encantava” as pessoas e as petrificava. Não tinha como encantar com aquele rosadinho, né? Na nova produção ela ficou mais desenvolta com os novos efeitos especiais. Ela até anda! Eu gostei das duas Medusas. A antiga, pelo desafio da época em fazer esse tipo de efeito e da nova pela importância que deram pra ela.

Bubo

Mal aproveitado, é só isso que eu tenho pra dizer. Substituíram ele pela Io, pra apelar mesmo, pros nerds que acham que mulher só se encontra em filme ficarem felizes. Eu gostava da coruja. No filme novo ela é um coadjuvante de dar pena (sem trocadilho).

Escorpiões

É nessa parte que eu fiz careta no filme novo. Legal usar computação gráfica pra fazer criaturas enormes e batalhas épicas, mas não insultem nossa inteligência. Não é só culpa do Fúria de Titãs, é um cheat que os cineastas têm feite em vários filmes. É só ficar “sacudindo a câmera” pra dar a sensação de que estamos dentro da batalha, certo? Errado! Assim não se entende direito o que está acontecendo e parece uma baita batalha, confusa e cheia de ação. Como comentamos no Encontro Nerd, aliás, como o Ochôa mesmo disse, bom mesmo era Jurassic Park, que tinha a câmera parada e conseguia fazer cenas tensas.

No filme de 81 a luta (porque de batalha não tinha nada) foi legal. Era só mais um desafio e não O Senhor Desafio, como no filme novo. Acabou sendo mais difícil lutar contra os escorpiões que contra o Kraken.

Kraken

Eu estou de saco cheio de ver tudo que é monstro com a mesma cara desde Godzilla (1998). É só fazer um monstro com um bocão e deu pra bola, é o terror dos terrores. Francamente, o que come o Kraken pra sobreviver? Tem alimento suficiente pra manter o metabolismo dele nos padrões ideais?  Umas 2 baleias azuis por dia? Esse monstro derrotou titãs e morre muito fácil. O legal do filme de 81 é que, além de ser um monstro feio, ele tem umbigo hehehe adoro a parte que aparece o umbigo!

Perseu

Eu acho que acabaram com o plot dele. Antes ele tinha que salvar Andrômeda, sua amada, mas agora ele só quer se vingar de Hades (o malvado). Se vingar porque? E como? Matando o Kraken se vinga de Hades? Ele nem sabe do plano de Hades pra dominar o Olimpo, então pra que se vingar matando o Kraken? Fora isso, o Perseu é um cara muito confuso. Ele não tem motivação plausível. Ele mata o Kraken não pra salvar Andrômeda, mas pela vingança.

Perseus é um pescador e nada mais. Nunca tocou em armas. No entanto, em questão de dias, Perseus se transforma em um guerreiro nato. A explicação que tentam dar é que ele é um semi-deus, como se o simples fato de ser semi-deus significa que a pessoa automaticamente é um guerreiro. Só que nem todo deus é um guerreiro (Baco, por exemplo). O treinamento dele com o guerreiro Draco é terrível. Leva três minutos, sendo que Perseus consegue segurar os golpes do mega treinado soldado já na primeira tentativa e desarme ele na segunda. Preferia que nem tivesse esse treino, ou que ele se surpreendesse por “saber” lutar já de berço.

Calibus

O filme novo é tão cheio de buraco na trama que Calibus também é rebaixado a mero contratempo. A maquiagem ficou muito legal, ele deixou de seu o filho de uma cabra pra ser uma aberração total. Alguém podia passar um Nebacetim naquele machucado na cabeça. Podiam ter aproveitado ele melhor, pois ele tinha uma grande importância no filme anterior. Agora é só um pau mandado do Hades.

Bruxas

Eu nem vou comentar. Até elas têm cara de Godzilla.

 

Ainda teria muita coisa a analisar, como o Djin, que se veste como um árabe, fala como uma árabe e, no fim, abre o roupão, mostra a bomba e se explode (como um árabe?). Mas não vou viajar… Deixa isso pra depois.

Contudo, o filme é legal. Um filme de ação, com um roteiro quase tão corrido quanto A Bússola de Ouro (que ganha o prêmio nas categorias Passar Informação o Mais Rápido Possível e Temos Muito Pra Dizer, Mas Pouco Tempo), moderno, atualizado, mas que teve que fugir da mitologia pra se encaixar nos padrões atuais. Mais um filme do mesmo tipo de sempre.

 

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  1. 2T
    05/01/2011 às 21:38

    hahaha, muito divertida sua analise. hahaha

  2. Ananke
    07/01/2011 às 08:55

    rsrsr Muito bom!

    Sobre dar para explicar “por que todos (eu disse todos) os filmes têm que ter um mocinho, um bandido e um romance? Não tem como fazer uma história diferente? ” Tambem não estudo roteiro ou cinema, mas arriscaria dizer que o que acontece é que o ocidente tem uma predileção por esse tipo de narrativa do héroi, onde existe o bem que enfrenta o mal. O enredo é previsível: no inicio o mocinho enfrenta dificuldades, mas depois triunfa( no ultimo momento, as vezes), mostrando que “o bem sempre vence no final”. A sociedade ocidental se organiza assim: o bem e o mal são lados opostos e em luta, como você mesmo colocou. Ja no oriente a coisa é um pouco diferente…Quanto ao Romance…bem, podemos imaginar que o amor tambem tem um lugar privielgiado nesse tipo de narrativa. Ou então é um pretesto para bota uma gata ( que exige um gato viril) para alavancar a bilheteria.

    • 11/01/2011 às 13:23

      Hoje em dia qualquer filme é previsível, pois todos seguem a chamada “jornada do heroi” (acho que é assim que se chama). Até Nosso Lar tem a jornada do heroi. Mas por favor, roteiristas, tem que haver outra maneira de contar uma história legal!

  3. 10/01/2011 às 17:57

    Não vi esta porcaria de refilmagem e nem quero ver.
    E pensar que esse lixo ficou entre as dez maiores bilheterias do ano passado…
    Detonaram com um dos filmes de minha infância (junto com os do Sinbad e do Jerry Lewis) e isso não se perdoa.
    Juro que não tinha notado que o Kraken original tinha umbigo…
    Isso quer dizer que ele tinha mãe…
    Como diz aquela expressão “Eu tenho medo…”
    A função do romancezinho meia boca é levar o público feminino ao cinema, conforme disse a Ananke.
    E nem tudo está perdido no reino dos blockbusters made in USA, se você assistir o filme A Origem, saberá do que eu estou falando.
    Esse filme não tem herói,nem vilão, nem romance e é muito bom.
    Até mais.

    • 11/01/2011 às 13:26

      Eu não sei porque aconteceu essa nostalgia frenética pelos anos 80. Quem viveu, viveu. Eu vivi e foi legal. Só que agora o pessoal está se aproveitando dessa onda e refilmando tudo, estragando coisas que já eram pacíficas. Acho que das duas, uma: ou acabaram os roteiristas (o que não acredito), ou o senso comum está cada vez mais tolerante.

      • Fábio Ochôa
        12/01/2011 às 09:19

        Ou o xiitismo aumentou bastante.
        Quer dizer… hoje não basta ver um filme, tem que odiar ou amar. Quando lançaram aquele King Kong, o dos anos 70, que passou na Sessão da Tarde umas vinte milhões de vezes, não vi nenhum fã espumando que “mataaaaram o fiiiilme originaaaal, mataaaaaram”, embora sim, das três versões acho que aquela realmente é a mais fraca.

        E vamos ser honestos, cinematograficamente falando, os anos 80 foram uma bela merda, não foram? Raras vezes o gosto médio rastejou tanto na lama, a cada ano era psicopata de machado retalhando meninas de calcinhas, comédias picantes passadas em universidades, exércitos de um homem só besuntados de óleo e chacinando metade da população destes países sem água potável, a dupla de policiais incompatíveis, com o certinho e o psicopata, futuro pós-apocalíptico com gangues punk-joãozinho 30 rodando por aí, etc, etc, etc.

        Gosto muito do cinema atual. Sério. Um filme que nem A Origem não seria feito em nenhuma outra década, e se fosse nos anos 80 teríamos o Schwazzenegger dando biaba e matando metade do elenco que ele encontra no mundo dos sonhos. Estrada para Perdição, por exemplo, se fosse anos 80, sairia o Tom Hanks e entraria o Michael Douglas querendo passar a piroca em todo mundo.
        O cinema atual não é só Transformers, tem muita coisa legal por aí, talvez até mais do que há 10, 20 anos atrás.
        Chega de nostalgia, né?

      • 19/01/2011 às 15:47

        Tudo é cíclico, Rafael.
        Em 2020 a década de 90 vai entrar na moda novamente….
        E topa aturar N’ Sync, Macarena, Ace of Base e por aí afora.
        O Ochôa mencionou o Restart, que me remete a um acontecido deveras desagaradável: eu estava zapeando pelos canais quando sem querer assisti a uns cinco segundos de entrevista com eles…
        Foi uma forma bem deprimente de descobrir que sofro de epilepsia fotossensível…

  4. 12/01/2011 às 10:29

    Quando passaram 2000000 de vezes, na sessão da tarde, o King Kong não viste um monte de fã reclamando porque não existia Internet naquela época, seu velho! Hahahaha! Deve ter tido gente que queria, mas não tinha pra quem reclamar!

    Quando escrevi o post, não quis bancar o xiita, mas não consegui evitar. Eu defendi o Quarteto Fantástico quando todo mundo falou que não era só pra eles enfrentarem o Galactus sozinhos. Defendi Homem de Ferro, quando disseram que ele não teria tecnologia disponível pra sair do Afeganistão. Não quis bancar o saudosista, defensor dos anos 80, até porque não sou. Só que não tem como negar que muita coisa que marcou nossa (pelo menos a minha) infância tem aparecido repaginado, tirando o brilho que tinha anos atrás. Ver, por exemplo, TV Pirata naquela época não tem a mesma graça que ver Casseta e Planeta hoje (mesmo tipo de programa, repaginado).

    Sobre a merda cinematográfica dos anos 80 cito De Volta para o Futuro, Blade Runner, Os aventureiros do Bairro Proibido, As Sete Faces do Dr. Lao, Conta Comigo, Te Pego lá Fora, Caça Fantasmas, Gremilins, Labirinto, Inimigo Meu, A Lenda, Krull, Conan, O Último Guerreiro das Galáxias, Willow na Terra da Magia, Indiana Jones, Mad Max, entre tantos. Uma coisa é não ter tecnologia, outra é faltar produção. A Bússola de Ouro é um filme moderno, cheio de tecnologia, mas sem produção nenhuma, sem roteiro, com muita informação e pouco tempo.

    Não acredito que o gosto médio tenha rastejado na lama naquela época. O que fica pra hoje em dia quando o gosto médio troca de banda como troca de cueca, passando de Avril, pra Blink, CPM22, Calypso, NX zero, Cine, Restart… O que fica pra hoje, quando a maior bilheteria da história é a de Avatar, um filme de roteiro pobre, previsível, mas colorido?
    Também gosto do cinema atual, tem muita coisa boa e tem muita porcaria. Psicopata de machado também tem hoje – Jogos Mortais. Comédias picantes em universidade? American Pie! Dupla de policiais tem hoje, versão mais explosiva, destruidora e atualizada em Bad Boys. Exército de homem só besuntado: Triplo X e alguns filmes do Will (blerg) Smith. Futuro apocalíptico também tem em Eu sou a Lenda, só faltou os punks carnavalescos.

    Nostalgia, de minha parte, nunca houve, pois nostalgia é tristeza pela falta que faz algo que já passou. Não fico triste, fico até feliz de ter experimentado aquela época. Só quis defender quem não viu o filme anterior e foi enganado com esse atual.

    Chega de nostalgia!

  5. Fábio Ochôa
    13/01/2011 às 15:50

    Pois é, às vezes acho que até felizmente não tinha Internet.
    Só para pontuar, concordo com cada vírgula da resenha e acho o novo Fúria de Titãs um cocô fedorento.
    E para esclarecer, o comentário não foi uma crítica a ninguém específico, e sim uma ruminação quanto a uma tendência de pensamento meio que dominante.
    Aliás, o primeiro Fúria só está no cinema dos anos 80 por acidente cronológico, porque ele é em todos os sentidos (narrativos e gráficos) um filme dos anos 50-60, como Jasão e os Argonautas, Simbad, etc.
    Ele é totalmente anacrônico. E isso não é defeito.

    Mas muita coisa que eu revejo, existe uma lembrança de brilho, do que significou, mas isso não quer dizer que seja necessariamente bom.
    A época muda ou nossa visão das coisas muda? Os dois, óbvio. Poucas coisas são boas o suficiente, ou atemporais o suficiente para ser manter intactas, por isso elas são os “clássicos”.
    Me lembro que a10 anos eu dizia que todo filme tem que ser visto tendo em mente a época e o contexto em que foi feito, para ser apreciado. Eu usava isso para defender os filmes de 60, 50, para baixo, hoje o mesmo vale para os filmes da minha infância.
    Ficar velho é uma merda, né?

    Agora, para cada filme bom citado, dá para citar 30 terríveis (e até alguns dos citados revi com o tempo e sério, não são tão citáveis assim, a memória engana, muito). Comparando: os anos 70 revelaram Coppola, Scorcese, Friendkin, Stone, de Palma, Allen, Brooks e reafirmou a carreira de Fuller, Polanski, Kubrick, Forman, Ashby. Uma década. Não é pouco, certo?
    Os anos 80 revelaram Spielberg…. e…hum…. bem…hã… Spielberg. Ah, Alan Parker, John Carpenter com certeza e a lista começa a morrer.
    Talvez o Terry Gillian? Tim Burton?
    Ê, ressaca amarga.
    E não vou nem falar do apogeu do metal farofa.

    No fim das contas estamos falando da mesma coisa, a única diferença é minha insistência que os anos 80 foram bastante ruins, marcados por uma pobreza intelectual, ausência de magia (estou tirando Spielberg dessa, note bem) e porque não dizer, um imenso vazio moral.
    Ou seja, acho eles um cu. E daqueles cus desprezíveis. Fora esta diferença, estamos de acordo em tudo.

    Só um PS, música atual, Amy Winehouse e Yann Thiersan são alguma das melhores coisas que surgiram nos últimos 50 anos, existem baciadas de Lady Gagas, algumas coisas ficam, outras não, essa é a beleza da coisa.
    Chega de nostalgia.

  6. 19/01/2011 às 07:10

    Concordo contigo, Fábio. E concordo que estamos velhos (tu mais que eu, claro). Gosto por filme é muito subjetivo também. Às vezes a gente associa um filme a um momento e o filme acaba sendo inesquecível. O primeiro filme que vi no cinema foi ET. Eu me fissurei em abduções e extraterrestres. Já vi gente dzendo que o filme é horrível, fazer o quê?
    Uma coisa é certa: saudade, tudo bem, nostalgia, não.

  7. Fábio Ochôa
    20/01/2011 às 10:56

    E como eu tô ficando velho. Fico escutando Sinatra, Glenn Miller e Anita O´Day e começo a achar que os anos 60 foi o começo da morte do talento.
    O meu primeiro filme nos cinemas foi o King Kong 2 (com transplante de coração gigante), acho que só eu vi esse filme.

    Cada um tem o primeiro filme que merece.

  1. 04/03/2012 às 19:56

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