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O Bem Amado, a Revolução Francesa e a Idade Média

Por Rafael

Não é um livro do C. S. Lewis. É apenas um paralelo que resoli fazer quando assisti, anteontem, ao primeiro episódio de O Bem Amado.

Entrementemente os  inflamativos e maquiavelentos discursos de Odorico Paraguassú, surge um homem que se aproveita de uma situação para galgar sua busca: a profeitura de Sucupira. Odorico se vale da morte do antigo prefeito e surge como salvador, como um divisor de águas, que tirará das trevas a cidadezinha, construindo-lhe um cemitério para que aqueles acometidos por defuntisse compulsória possam descansar em paz.

Na história de Dias Gomes, ele faz o mesmo que fizeram durante a Revolução Francesa, qual seja, aproveitar uma situação para apresentar um cenário fictamente decrépito e uma solução utópica quase que desnecessária.

Aprendemos na escola que Idade Média é época de ignorância, brutalidade, subdesenvolvimento generalizado, embora seja a única época de subdesenvolvimento em que se construíram catedrais. Escondemos esse período entre os Tempos Clássicos e o Renascimento. Porém, o que caracteriza o Renascimento é, na verdade, o redescobrimento da Antiguidade. Lourenço de Medicis celebrava com um banquete, todos os anos, o aniversário de Platão; Dante tomou Virgílio como guia no Inferno; Erasmo tratava Cícero como um santo.

A arquitetura, pintura e escultura voltaram-se, no fim da “Idade Média” para a Antiguidade, tomando seus modelos como regras de exatidão e certesa. A tomada dos preceitos antigos se dedicava, também, é destruição dos testemunhos góticos  (Rabelais, por exemplo, empregava o termo com significado de bárbaro). O arco otomano, que se atribui aos árabes, existia há mais de cem anos na Espanha “visigótica”.

Nos tempos feudais, as mais incríveis invenções deram seus primeiros passos. Durante essa difamada época, não se procurava copiar os modelos clássicos, mas experimentar. O poeta, na Idade Média, era chamado “trovador” (o que encontra, encontrador, inventor). Inventar é pôr em jogo toda criação artística ou poética, imaginação e busca.

Na própria Idade Média viu-se o livro tomar a forma com que se apresenta hoje, o codex, que daí em diante substitui o volume, o rolo antigo. A imprensa não podia prestar os serviços que prestou se não fosse a invenção do livro.

No século XIX, ressaltou-se que quem dava origem à arte era o rico, o burguês, por sua generosidade, a exemplo, mobilha estilo Luiz Filipe. Nessa época, os que viviam um verdadeiro fervor artístico viam-se recusados por uma sociedade voltada aos padrões e métricas da era clássica. Dá o fenômeno que marca o fim do século XIX e início do século XX: miséria, loucura, suicídios, a contar Soutine, Guaguim, Modigliani, Van Gogh etc.

Foi durante os “tempos obscuros” que se criou a escala musical. Foi nessa época que surgiu a “música de câmara”, uma música muito mais ambiental do que um espetáculo propriamente dito.

A minha área é o Direito, e eu não podia deixar de falar nele. Quando o poder centralizado ao extremo do Império Romano desmoronou no século V, poderes locais se manifestaram em meio à desordem. Chefes de bando procuraram para si e para seu grupo a segurança que o Estado não garantia. Assim, um senhor, senior, antigo, garante a defesa de um grupo em troca de parte da colheita de um campo “arrendado”. Essa chamada justiça feudal baseia a relação do homem com a terra, o field, feodum. As grandes invasões, muitas vezes, não foram de forma violenta, à exemplo dos borgundos, que se instalaram como trabalhadores agrícolas.

Frequentemente buscava-se o senhor (senior) local para decidir questões controversas segundo o costume local. Daí o julgo de acordo “com sua própria lei”. A sociedade feudal tem tendências comunitárias. O castelo feudal (órgão de defesa) é asilo de toda população rural em caso de ataque, é centro cultural, rico em tradições originais, livre da influência antiga. Mosteiros são lugares de prece e centros de estudo. O rei feudal não mudava as leis gerais, consuetudinárias, mas a “evolução”, prncipalmente no século XV, criou a figura do monarca, o que governa só (monos), que possui plenos poderes sobre a administração, o exército, a finança e a consciência das pessoas. Porém, os costumes locais continuaram para o essencial, necessitando da “Revolução Burguesa”, para tomar o poder.

Muitas lendas são contadas, como a das rãs, quando um senhor feudal teria obrigado os servos a ficarem acordados à noite batendo na água para manter as rãs quietas para que pudesse dormir. Isso é um tanto absrdo, garanto que bater na água não deveria calar rã e muito menos tornar a noite silenciosa. Temos como base que a escravidão na Antiguidade era um “direito natural”, mas indignamo-nos com a servidão medieval! Usa-se, inclusive, a palavra servo, servus, por escravo. Porém um é um homem, o outro é uma coisa. Recomendo o filme Amistad.

A substituição da escravidão pela servidão é o fato social que mais destaca o desaparecimento da influência do Direito romano, da mentalidade romana, nas sociedades a partir dos séculos V e VI. O servo medieval é uma pessoa tratada como tal, seu senhor não tem sobre ele o direito de vida e de morte, reconhecido como “natural” no Direito romano e o renascimento brusco da escravidão se deu os séculos XVI nas colônias americanas.

Há quem diga que a mulher era tratada como ser sem alma na Idade Média, mas basta um pouco de reflexão para refutar tal fato. Tomem a igreja (gótica) de Notre-Dame (Nossa Senhora, em francês). Iriam os religiosos da época dedicar tamanha belesa a um ser sem alma? Teria Cristo realizado inúmeros “milagres” por intermédio da Virgem Maria, sem alma? Assim, durante séculos se batizou, confessou e ministrou a Eucaristia a seres sem alma! É estranho que os primeiros mártires honrados como santos tenham sido mulheres (Santa Agnes, Santa Cecília, Santa Ágata…)

Com efeito, foi no século XVII, o século da razão (!) que aumentou o número de processos de feitiçaria. Foi sob a sombra da razão que Galileu foi acusado e preso por dizer que a terra era redonda, sendo que o fato já era conhecido há mais de 4 séculos. Nos tempos da razão, já se havia definido, na Idade Média, os hospitais como “hospedagem de Deus” ou “casa de Deus”, “Hôtel-Dieu”, em francês, e não as igrejas.

Vivemos e ainda vivemos uma época de filosofia de algibeira, de sistemas puramente abstratos e de teorias somente intelectuais, conceituais, cerebrais. Tal como Odorico Paraguassú, usamo-nos de chavões para passar um pseudo entendimento dos fatos. Os livros de história, filmes e seriados de canais de “história” citam nomes pomposos como “Idade das Trevas”, “barbárie” etc. para vender seu pseudo conhecimento ou informação. Tal como Ododrico Paraguassú, como escrevi nesse outro post, quem grita mais alto ganha atenção. Também discuti fatos com um “estudante” de teologia, que me citou como fontes de estudo History Channel.

Hoje em dia nos tempos de Internet e Wikipédias da vida ninguém diz que não sabe, todo mundo opina sem se importar com a fonte, vela uma visita ao YahooRespostas – tem gente que faz até consulta médica!

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  1. 20/01/2011 às 12:25

    Ótima comparação, excelente texto. Parabéns!

  2. 20/01/2011 às 17:21

    realmente, há muito o que se discutir…

    muito bom o texto!

  3. rosamin
    20/01/2011 às 18:16

    Gostei muito do seu texto. quanta informação! Preciso relê-lo com bastante calma para captar tudo.
    🙂

  4. Tommy Beresford
    21/01/2011 às 09:57

    Ótimo texto. Acho que o maior paralelo de Sucupira é com o próprio Brasil, não só o da época em que a obra foi escrita como ainda o de hoje.

    Um abração !
    Tommy
    http://cinemagia.wordpress.com

    (PS.: Dá uma conferido no título do post)

  5. vinicius z.
    25/02/2011 às 10:10

    Olá,

    Demorei pra ler e vir comentar aqui. Mas a surpresa foi ótima, é importante mesmo que se faça outras noções desses tempos, para largarmos de ver a história como uma linha reta no seu tempo com algumas ondulações indesejadas. Há muito o que se aproveitar dessa tal “Idade Média (o que tbm é termo preconceituoso), um exemplo claro é o do direito e a mudança deles em relação ao Estado Romano. Gosto de pensar em uma época de adaptações tremendas do ser humano e nas capacidades de organização. ótimo texto, até outra hora.

    abraço

  1. 17/07/2012 às 08:22

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