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Transmetropolitan – O futuro distópico de Spider Jerusalém

Por Jacques

Warren Ellis é uma mistura da bizarrice genial de Garth Ennis com a hiperatividade divertida de Grant Morrison.

Pelo menos é essa a impressão que fica ao se ler Transmetropolitan, da Vertigo (remanescente do extinto selo Helix), que narra as insanas histórias de Spider Jerusalém, um jornalista disposto a passar por cima de tudo e todos na busca do que ele chama de “A Verdade”.

Que, no caso, é a verdade mesmo, e não uma versão dela.

Após passar cinco anos isolado em uma montanha (onde ele fica parecendo uma mistura do personagem de Tom Hanks em O Náufrago com o Urtigão) para fugir do assédio dos fãs, Spider é obrigado a voltar à Cidade (que nunca é identificada) para cumprir seu contrato e escrever dois livros.

Spider vive em um futuro caótico, em uma cidade sem nome que é uma Babilônia cultural cyberpunk onde se vende carne humana clonada, os pombos possuem quatro asas, alguns animais falam, pessoas são voluntariamente convertidas em nuvens de átomos (o chamado “Download”), cidadãos fundem seu próprio dna ao de animais ou ets na esperança de melhorar de vida, a tv libera esporadicamente o “estouro de incentivo maciço” (ou bomba consumidora, um flash de luz carregado de lixo comercial que é absorvido involuntariamente pelo cérebro de quem assiste), entre muitas outras aberrações comportamentais.

Humor certo, local errado

Mora com ele uma gata bicéfala geneticamente engendrada que fuma cigarros russos sem filtro e uma ou outra eventual assistente, que acaba desistindo por não aguentar as loucuras de Spider, como se entupir de drogas, assistir tv por horas a fio enquanto devora olhos de caribu e subir em cima de algum carro estacionado na rua para xingar os cidadãos.

Ele ainda tem de lidar com um processador de matéria viciado ilegal que gasta metade de sua capacidade criando drogas para consumo próprio (ele já tentou jogá-lo fora, mas acabou acordando um dia com uma cabeça de cavalo ao seu lado).

Curiosamente, o laptop utilizado por Spider possui um teclado que simula uma máquina de escrever antiga, o que pode ser uma homenagem ao mais antigo jornalista das hqs, Clark Kent, que  as utiliza porque seus poderes interferem nos computadores.

Ou pode ser apenas mais um exemplo de retro estética.

Incrivelmente, apesar de possuir a moral de um míssil balístico, Spider Jerusalém tem seus lampejos de bondade e decência, mas eles são tão raros quanto programa de tv decente nos domingos à tarde.

A impressão que dá é que Spider Jerusalém foi claramente baseado (física e intelectualmente) em Alan Moore, que, depois do estrondoso sucesso de Watchmen, passou a evitar a todo custo as convenções de hqs .

E também pelo fato de Moore enxergar e descrever as coisas como elas são; sem enfeitar ou maquiar a verdade.

Embora já tenha escrito títulos de super-heróis como Excalibur, Thor, DV 8, Universo Marvel Ultimate, Destino 2099, X-Men,  Homem de Ferro, criado o multifacetado Planetary e transformado o apagado Stormwatch no magnífico Authority, Ellis (ao lado de Darick Robertson) parece ter feito de Spider Jerusalém seu personagem mais genuíno e verdadeiro.

Transmetropolitan mostra a difícil tarefa de Spider Jerusalém de tentar mostrar a verdade para uma audiência alienada e medrosa, viciada em informação inútil e inconsciente da própria apatia.

É para pessoas assim que Spider Jerusalém escreve com a sutileza de um tiro na testa.

Que é o que todo jornalista deveria fazer.

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  1. 30/01/2011 às 15:00

    gosto muito do Ellis, especialmente por Frequência Global e Planetary( este último é um dos meus quadrinhos favoritos…), mas acho que é como você disse; Spider Jerusalém é o personagem que ele usou para dizer mais coisas.Aguardo a chance de completar minha coleção…
    um abraço.

    • 31/01/2011 às 13:21

      Ainda não li Frequência Global nem Planetary…
      Além de ser um ótimo personagem e jornalista, Spider Jerusalém (assim como o vampiro Cassidy) é involuntariamente engraçado, o que só o torna mais engraçado ainda.
      Ele faz de Transmetropolitan uma hq divertidamente obrigatória.
      Abraços.

  2. 01/02/2011 às 22:29

    Autority e planetary são duas grandes séries de quadrinhos, muito bem escritas e – no caso de planetary – tão cheias de referências que é preciso fazer um scanneamento de cada página pra encontrar alguma coisa “escondida”!

    Eu também gostei muito do trabalho do Ellis no Excalibur. Aquela coisa de viagem dimensional era simplesmente genial!

    Mas Spider Jerusalém é, definitivamente, o personagem mais interessante do Ellis. Talvez porque seja o “dono” de uma linha de HQs, e por isso, mas aprofundado, ou talvez porque o personagem faça uma crítica sincera à nossa sociedade atual.

    Apesar de achar que a HQ “perdeu o gás” lá pelas tantas. Spider ficou tão enrolado em sub-tramas e com personagens secundários – o que inclui todos os personagens que não ele próprio! – que me pareceu perder um pouco o rumo. Mas é uma excelente HQ, sem dúvidas!

  3. 08/02/2011 às 18:32

    Eu não li toda a hq, mas o que li é o bastante para eu elogiar Transmetropolitan pelo resto da vida.
    É Warren Ellis xingando quem merece ser xingado…

  1. 23/05/2011 às 09:10
  2. 11/01/2015 às 20:36

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