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Uma sombra passou por aqui – Ray Bradbury

Por Rafael

Acabo de ler um livro que me foi emprestado pelo Jacques, cujo autor foi indicado pelo Ochôa: Uma sombra passou por aqui (the illustrated man, no original), de Ray Bradbury. O livro foi escrito em 1951 e a edição que tenho em mãos é de 1976, da Edibolso.

A história é de um homem, que tem o corpo completamente coberto de tatuagens, feitas por uma pessoa que se acredita ter vinda do futuro, pois as tatuagens, ao serem encaradas por algum tempo, começam a revelar cenas que estão por vir.

Essa história de fundo é pretexto legal para a apresentação de 18 contos, relativos às tatuagens, com um final um tanto cômico e inesperado.

Todos os contos são fantásticos, ambientados em cenas que hoje chamamos de “retro futuristas”, cheias de foguetes, tecnologias, viagens interplanetárias, com visões peculiares de cada planeta, pré viagem à lua.

Na minha opinião, o melhor conto é “A Grande Chuva”, onde um grupo de “soldados espaciais” procuram uma base, o Domo Solar, no planeta Vênus. O interessante é a descrição da superfície de Vênus: alagadiça, com um continente único, vegetação peculiar, onde eternamente chove de forma torrencial. Há, ainda, uma raça alienígena, aquática, que atormenta a vida dos soldados.

O conto é curto e tenso, cheio de dilemas sociais e procedurais, como o dilema do loop infinito, que aplicamos quase que diariamente, mesmo sem saber, especialmente quando o computador trava e pensamos: “reinicio o computador ou espero que ele destrave? Se reiniciar agora nunca saberei se no segundo seguinte ele teria voltado sozinho”.

Ray Bradbury é incrível. Percebe-se uma forte ligação e uma forte crítica à igreja e à religiosidade. Ele se divide entre a ciência que os anos 50 prometiam e a religião tal como Yuri Gagarin e sua célebre frase “olhei para todos os lados e não vi Deus”. Em um trecho do livro tem o seguinte diálogo, que resume todo pensamento de cada conto no livro:

-Por que fazemos isso, Martim? Quero dizer, estas viagens pelo espaço. Sempre viajando. Sempre procurando. Sempre tensos, nenhum repouso.

-Talvez estejamos procurando paz e calma. Certamente não há muito disso na Terra – Respondeu Martim.

– Não, não há – o capitão ficou pensativo, contida agora a irritação. – Não, desde Darwin, hem? Não, desde que foi tudo por água abaixo, tudo aquilo em que acreditávamos, hem? O poder divino e tudo aquilo. Então é por isso que você pensa que viajamos entre as estrelas, hem, Martim? Procurando as nossas almas perdidas, será isso? Tentando escapar do nosso perverso planeta em busca de outro melhor?

– Talvez, senhor. Certamente procuramos alguma coisa.

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  1. Fábio Ochôa
    09/02/2011 às 18:09

    É meu autor favorito. Existem melhores, mas é meu favorito.
    Extremamente poético se ser afrescalhado, um dos poucos casos que conheço de imaginação genuína, que a cada conto realmente surpreende.
    E um autor pulp, que escrevia obras-primas de baciada que eram lidas a 50 centavos em coletâneas vagabundas.

    A Canção do Corpo Elétrico é uma doisa coisas mais genuinamente belas que já li (de arrancar lágrimas mesmo), Alan Moore, Neil Gaiman, Stephen King, Rod Serling, muita gente bebe até hoje da fonte de Bradbury.

    Nos anos 80 ele deu origem à série de TV Teatro de Ray Bradbury, um tanto tosquinha, mas vale muito a pena ver, nem que seja só para ver seus contos adaptados.

  2. 11/02/2011 às 17:10

    Realmente, o Bradbury conseguia criar cenários e situações bizarras e convincentes, narradas de forma realista e poética.
    O típico “um em um milhão”.

  3. Davi Matias
    14/02/2011 às 17:57

    Ray Bradbury não é um virtuose estilístico e narrativo, mas é mesmo engraçado como seus textos são fascinantes. Fiquei curioso para dar uma sacada nesse que descrevestes.

    Bom texto!

  4. Osmar
    18/05/2011 às 14:27

    Amigo, li este livro a vários anos atrás, gostei tanto que copie no caderno( só tinha maquina de escrever), gostaria de baixa-lo na internet, você sabe onde posso baixa-lo?

    Grato

    • 18/05/2011 às 19:16

      Desculpe, não sei mesmo. Mas tenta em um sebo. Não deve ser difícil de encontrar. Abraço!

  5. Fábio Ochôa
    19/05/2011 às 11:19

    Comprei há pouco tempo este livro na livraria Monte Cristo (8 reais), geralmente os livros do Bradbury são bem baratos.
    No sebo Icária (http://sebo-icaria.br.telelistas.net/vct/livrarias-livros-usados/pelotas/145616600.htm) tem o F de Foguete, do mesmo autor, a apenas 10 reais, vale a pena comprar.

    Abraços

  6. 20/02/2012 às 21:38

    Olá Rafael.
    Vênus alagadiça e com alguma vegetação me remete ao conto do Lovecraft, “Entre as paredes de Eryx”. Vale conferir.

    • 22/02/2012 às 09:34

      Não tinha feito essa ligação, mas até que lembra sim, Luciano. Quando li Entre as paredes de Eryx me passou uma ideia mais sobrenatural do que um ambente selvagem como descrito por Bradbury. Mas é uma boa ligação sim. Valeu a dica

  1. 07/06/2012 às 09:35

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