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George Orwell, Bin Laden, Palocci e Argentina

Por Rafael

Reli, ontem, o livro A Revolução dos Bichos, escrita por George Orwell, em 1945 para escrever esse post.

O livro é uma enorme crítica ao comunismo russo e, de certa forma, a qualquer tipo de totalitarismo puro e cego. Na história, cheia de simbolismos, os animais de uma granja se revoltam contra seus “donos” – humanos –, liderados por um porco, de nome Major.

Neste novo “governo”, o do porco, criam-se leis, hino, tarefas, uma comunidade fechada, trabalhando em prol de seu progresso. Porém, com o tempo, o estatuto criado com a votação de todos os animais vai ficando esquecido. Aos poucos algumas das leis vão sendo apagadas ou mesmo substituídas.

Major é esperto e mantém a “população” sempre muito bem informada, com cálculos e estimativas de produção, projetos de desenvolvimento e de infraestrutura, planos de defesa… Os bichos tinham até um hino e um heroi da revolução e, no fim, um arqui-inimigo.

O interessante no livro é o método de controle que Major tem sobre os bichos. Todos confiam nele e em seus planos e expectativas de desenvolvimento. Seu discurso é, ao mesmo tempo, protetivo e encorajador.

Pois, ouvindo alguns colegas meus após a “explicação” de Palocci sobre sua bem-sucedida empresa de consultoria e fazendo ligação com a palhaçada da “morte” de Bin Laden, percebo como é fácil adestrar animais.

Bastou Palocci explicar evasivamente a sorte que teve em seu empreendimento pra muitos red shirts aceitarem pacificamente e acreditarem na possibilidade de tudo que foi dito ser verdadeiro.

O mesmo aconteceu com a mágica operação de localização e morte de Bin Laden com seu consequente e “tradicional” funeral marítimo. Tradição de um povo que vive no deserto! As fotos “oficiais” feitas no Photoshop, desvendadas pelo pobre e simples Tineye.com, juntamente com a rápida ocultação de qualquer possibilidade de vestígio só corroboram pro fato que, quando as pessoas ouvem o que querem, aceitam instantaneamente, não importa quão estapafúrdia é a questão.

As explicações de Palocci, assim como o enterro aquático de Bin Laden desafiam nossa inteligência tanto como acreditar que a Argentina é nossa arqui-inimiga. Já imaginaram de onde vem a rivalidade Brasil x Argentina no futebol? Não vejo outra fonte senão da divulgação massiva dessa ideia.

Major também elegeu um inimigo: Bola-de-neve. Era necessário, pois útil para manter o controle dos bichos. Ter um inimigo é essencial para um controle de massas. Bin Laden, a guerra ao terror, os níveis amarelo, laranja e vermelho de controle em aeroportos ajudam os EUA a manter a população no cabresto na base do medo.

O “país do futebol” não é belicoso, por isso, nosso arqui-inimigo é a rival Argentina. Uma rivalidade besta, que podia ser de qualquer outro país que tenha uma seleção de futebol, mas uma rivalidade necessária, pra nos prender a atenção em épocas de campeonatos e nos dar uma sensação de vencedores, quando 11 milionários chutam uma bola pra dentro da rede mais vezes que os milionários da Argentina. Um “inimigozinho”, de leve, que dá esperança e objetivo a um povo.

Aceitar as coisas é fácil, basta não pensar. A crítica é necessária e cada vez mais rara.

Companheiros, como dizia o “poeta”: ignorance is bliss. Com isso, só tenho a acrescentar: Quatro pernas bom, duas pernas melhor!

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  1. Fábio
    20/06/2011 às 13:43

    É bem por ai, costumo bancar o advogado do diabo com certa frequência e algumas pessoas até ficam irritadas as vezes, mas é importante analizar todos os angulos possíveis sobre uma questão e não aceitar qualquer desculpa que nos dão.

    Mas admito que as vezes é mais para trollar mesmo.

  2. 20/06/2011 às 14:10

    Orwell escreveu este livro após se decepcionar como Partido Comunista de que fazia parte e ver que NADA mudava.
    O resultado foi uma grandiosa crítica ao autoritarismo e a todas as formas de controle de população, seja pela propaganda, ufanismo exacerbado ou crença.
    É realmente triste como, nestes tempos de internet, o posicionamento crítico (mas sem se criticar TUDO) de verdade ande tão em baixa.
    Como dizem, pensar dá trabalho.
    E as lorotas e desculpas esfarrapadas de políticos continuarão a fazer parte de nosso dia a dia, já que a maioria da população está mais preocupada com novela, futebol e o reality show retardado da vez.

  3. Fábio Ochôa
    20/06/2011 às 15:29

    É conveniente eleger como inimigo (ou seja, alguém para ridicularizar, estereotipar e nunca se espelhar) um país extremamente politizado que sai para bater panela na rua cada vez que o governo pisa na bola.
    Quem quer ser argentino? O abre aspas, povo mais arrogante do mundo, fecha aspas.
    Os Estados Unidos tem uma abordagem bem semelhante quanto à França e ao Canadá, no entanto, comparando as políticas públicas dos três países, a coisa fica bem vergonhosa para o Tio Sam.

    Se o brasileiro se espelhasse um pouco mais nos hermanos, Brasília teria que ficar bem mais atenta…

    … e já que esse é um site nerd, por que não comentar: teríamos uns filmes e gibis bem melhores também.

  4. 20/06/2011 às 16:00

    Pessoal, muito legal o site de vocês, eu diria até extremamente inteligente!
    Estou aqui retribuindo o comentário do Jacques por lá, e tive uma surpresa positiva por aqui.
    Post muito bom este, estive recentemente na Argentina. Os caras dão de 10 a 0 em nós em termos de politização, provavelmente em função também da leitura. Eles leem e muito em relação ao Brasil. O país platino “briga” pelas coisas. O povo sai nas ruas. Atualmente, por exemplo, na Plaza de Mayo, tinha um protesto ainda do pessoal que lutou nas Malvinas e que não estão recebendo o apoio do governo.
    Muito bom pessoal. Trabalho inteligente é bom acompanhar.
    Abração!!!!

    Humoremconto
    http://anaceciliaromeu.blogspotcom

    • 24/06/2011 às 09:55

      Muito obrigado pelo elogio, Ana.
      Desculpe ter demorado tanto para responder, mas, aparentemente, o mostrador dos últimos comentários deu tilt.
      Sem dúvida, a diferença entre brasileiros e argentinos é enorme, lá, se sobe o preço da gasolina, o pessoal sai às ruas, aqui, as pessoas dão um chute no cachorro e seguem pagando.
      E os imbecis são eles…
      Apareça sempre que puder, comentários inteligentes serão sempre bem vindos.
      Até a próxima.

  5. 24/06/2011 às 12:24

    Olá!

    Obrigada por passar no Inutilidades Literárias! Será um prazer recebê-los novamente por lá.

    Excelente o texto! Essa semana, inclusive, me falaram sobre esse filme, o que me deixou ainda mais interessada em assistir. Bem, vocês fizeram relações com alguns acontecimentos recentes. Também tenho de citar um acontecimento desse tipo.

    Moro na cidade de Santa Cruz do Sul, RS. Terra daquele “que se lixa para a opinião pública” e a qual governou durante alguns mandatos. Hoje a esposa dele é prefeita daqui. O fato é que, em um dos mandatos dele, o prefeito instalou um painel em que estava estampada a prestação de contas da prefeitura… Obviamente, algo inútil para as pessoas que não entendem de assuntos financeiros (como eu). Agora me pergunto: a iniciativa teve realmente o objetivo de prestar satifisfações à população ou foi apenas para encobrir fatos, enrolar as pessoas, fazê-las crer em honestidade governamental?! Acho que já tenho uma resposta.

    Abraços e até mais!

  6. 30/06/2011 às 09:33

    Não consigo reler A Revolução dos Bichos. Fiquei com um gosto amargo quando o li ná época e a esperança que tinha em um sistema não capitalista acabava assim por ruir… Olhando hoje é facil fazer uma dissecação do Comunismo, mas era legal para um adolescente, no fim dos 80’s, criticar o sistema.
    Hoje penso que a obra de Orwell se aplicaria muito bem ao capitalismo, com toda sua máquina de sonhos e realidade massificada.
    É legal trazer o tema à discussão, prova de que o debate intelectual ainda tem espaço, mas eu o faço sem acreditar que algo possa ser mudado, que a mediocridade possa ser vencida ou, ao menos, diminuída. É apenas um hábito, resquícios do adolescente oitentista…

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