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Sobre Welles e Winehouse

Como todo livro policial, começou com um assassinato.

A vítima, um dos maiores talentos surgidos nos últimos 20 anos.

A autora do crime, uma inglesa chamada Amy Winehouse.

 

E saber neste sábado que a vida dela se encerrava foi como arranhar um disco preferido.

Nestes últimos dois dias estava querendo postar algo sobre isto, mas também me esquivar dos clichês sobre o assunto. O post de Marco (http://fantasticocenario.com.br/2011/07/23/guerra-dos-mundos-entre-fatos-e-ficcao/) sobre o gigantesco Orson Welles acabou mostrando uma direção.

 

Talento verdadeiro é uma das coisas mais raras que existem, é impossível de adquirir, é aquilo que somente as condições apropriadas (tanto genéticas, quanto sociais e emocionais) permitem surgir.

O talento verdadeiro é facilmente reconhecível, nem todo mundo aprecia um Paul Klee, mas ninguém em sã consciência contesta um Sinatra.

Talento é algo raro e tanto em vida quanto na morte, Orson Welles e Amy Winehouse -cada um a sua maneira- foram exímios experts em desperdiçar os seus.

 

Conheci o trabalho de Amy zapeando acidentalmente a TV, durante a febre da canção “Rehab”. Achei espetacular. Honesto, vintage e sincero. Acabei ouvindo o Back to Black inteiro e era o único álbum 100% espetacular que eu ouvia desde… Bom, acho que desde o The Wall e ele é de 1979.

Baixei e escutei o predecessor “Frank”, que não é tão bom, mas mesmo quem escutar desatentamente há de concordar que Amy esbanjava talento verdadeiro e fiquei aguardando Amy se recuperar das suas constantes porralouquices e lançar de uma vez o terceiro álbum,  e eu realmente achava que ela iria, por incrível que pareça.

A sensação de ouvir Amy era a de recuperar algo intangível, a muito tempo perdido.

 

Já nosso amigo Orsie, lançou em 1941 Cidadão Kane, filme considerado o melhor filme de todos os tempos por 88% dos críticos de cinema, e o segundo melhor pelos 12% que querem mostrar que não são Maria-vai-com-as-outras.

Orson era multifuncional, um talento como diretor, ator, montador, produtor, radialista e mágico (!). Dividiu o cinema em antes e depois com a narrativa descontínua de Kane, ângulos que abandonavam a influência teatral que o cinema ostentava até então, se o infame e racista O Nascimento de uma Nação (1915) inventou a linguagem própria do cinema com cortes e closes, foi Welles e seu cidadão Kane inventou o cinema como o conhecemos hoje.

Após fazer isto com apenas 25 anos, só resta esperar o mundo aos seus pés certo? Sim, a menos que você seja arrogante -ou simplesmente estúpido, se preferirem- o suficiente para retratar em seu filme a história do homem que detinha a maior rede de rádios e jornais da América: William Randolph Hearst.

Cidadão Kane narra a ascensão (real) e queda (fictícia) do magnata da imprensa Charles Foster Kane, uma versão muito mal disfarçada de Hearst, que, implacável, promoveu uma perseguição a Welles e seu filme, chegando a oferecer recompensas pela destruição dos originais.

 

Randolph Hearst, o verdadeiro Charles Kane em sua Xanadu.


Com a campanha de Hearst, o filme tornou-se um retumbante fracasso, sendo praticamente esquecido pelos 20 anos seguintes e Orson, simplesmente entrou em 50 anos de apatia e indolência financeira.

Welles passou a realizar filmes em condição cada vez mais precárias com todas as portas fechadas para ele, vendendo projetos para os estúdios e no decorrer das filmagens simplesmente ia modificando-os na direção que sua vontade e seu nariz apontava e não raro, simplesmente abandonando-os pela metade ficando marcado como um gênio, sim, mas terrivelmente inconfiável.

Kane é um filme que considero difícil de ver hoje em dia e reconhecer como obra-prima (exceto se contextualizarmos entre tudo que veio antes e depois dele, tamanha a absorção que o cinema fez de sua linguagem. Nada nele parece “novo” ou “original” para nós, claro) mas os Welles que me impressionam são A Marca da Maldade (com um inacreditável Charlton Heston como mexicano!) e O Processo de Kafka, completamente expressionista estrelando um jovem Anthony Perkins após ser imortalizado como Norman Bates em Psicose.

Duas cenas de O Processo. Imagens que falam por mil palavras.

Me impressionam pela qualidade, pela marca de gênio e por saber que foram filmes feitos com todas as dificuldades técnicas, gerenciais e financeiras do mundo.

Naqueles paralelismos e metáforas involuntárias que a vida tem e sempre me impressionam pela ironia, o grande projeto de vida de Welles foi a adaptação de Don Quixote, realizadas praticamente sem dinheiro algum, só com base na força de vontade, com longos intervalos, de 1959 até 1972, até Welles desistir de vez do projeto.

Uma versão inacabada e incompleta, praticamente um copião, foi lançada em 1992.

 

A título de curiosidade, Welles recusou fazer a voz de Darth Vader em Star Wars (ele era a primeira opção) e amargo, deixou duas frases que sintetizam boa parte da sua vida:

“Comecei em cima e trabalhei duro até chegar embaixo.”

“Quando os deuses querem nos punir, eles atendem nossas orações.”

 

Voltando à Amy, é redundante rememorar aqui todo seus escândalos com drogas e a longa sequencia de shows desastrosos, no limite do cômico, que ela apresentou. A melhor voz da sua geração, relegada a apenas dois álbuns.

De resto, apenas o silêncio pesado do nunca mais. Pena.

Arte e talento são coisas raras, em um mundo tão opaco, são pequenos instantes de brilhantismo capturados, que nos ajudam a passar pela vida, são elos que atravessam gerações e nos fazem cortejar a eternidade.

Arruinar isto seja pela vida desastrosa, seja pela morte, é um crime moral contra toda humanidade.

 

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  1. 26/07/2011 às 17:44

    Ótimo post.
    De certa forma a morte de Amy foi um tragédia anunciada, mas é inegável a voz diferenciada.
    Infelizmente só acompanhei as notícias cômicas e os escândalos sobre ela, certamente que por uma grande e incômoda ignorância musical, mas pensando em sua morte prematura lembro de uma estória do Batman em uma realidade alternativa (acho que o nome era Terror Sagrado) onde o Superman tinha morrido antes muito tempo antes de aparecer para o mundo como herói, ficando somente seu corpo envolto em kriptonita, gerando uma espécie de “ei, tem algo errado no fato deste cara ter morrido tão cedo”. Talvez a analogia seja estúpida e certamente bastante nerd, mas a morte de Amy me remeteu a isso, tipo uma estrela que morre deixando apenas sua luz e infinitas possibilidades.

    • Fábio Ochôa
      27/07/2011 às 11:02

      Logo após a morte de Amy ser anunciada, vejo no Twitter “tragédia no Rio, nesta manhã Joelma do Calypso encontrada viva em seu apartamento”.
      Brasileiro é foda.

      • 27/07/2011 às 13:10

        hahahahahah. Ironias a parte, Joelma e que é foda…

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