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Pequeno Guiazinho de Quadrinhos Fantástico Cenário (parte 04)

16. Marvels

Em plenos anos 90, com a Image e seus heróis bombados, armados, mal-amados e furiosos batendo na porta, um roteirista e um pintor übernerds resolveram prestar uma homenagem aos primórdios do universo Marvel, época de histórias mais inocentes e desencanadas, onde o bem vence o mal e todo mundo vai tomar Toddynho no final.

O que poderia ser insuportavelmente anacrônico acabou se tornando uma das poucas obras-primas daquela época negra, graças a três coisas:

a) A idéia que amarra a história: todo o surgimento do universo Marvel mostrado através do ponto-de-vista das pessoas comuns, que convivem diariamente com deuses, monstros, ameaças e maravilhas, ao mesmo tempo em que vão ao serviço ou compram pão. Uma idéia simples, que como todas as idéias maravilhosas, ninguém nunca pensou nelas antes.

b) O talento da dupla envolvida. Kurt Busiek é um dos melhores escritores de sua geração, capaz de criar momentos de autêntica ternura e emoção e Alex Ross, com sua arte ultrarrealista, dispensa comentários, conferindo o tom ao mesmo tempo nostálgico e realista necessário à obra.

c) O principal: a paixão. Busiek e Ross são claramente apaixonados por aqueles personagens e universo, uma paixão que somente quem cresceu devorando gibis durante a infância é capaz de entender. E isso transparece claramente em cada palavra e quadro da história, conferindo a ela um brilho único.

Marvels com sua nostalgia envolvente marcou época, mas como sempre, o epílogo foi amargo: uma década depois, convencido por um bom cheque, Busiek cometeu uma continuação, Marvels- por Trás da Câmera que até hoje estou me esforçando para esquecer. E Alex Ross inventou que é roteirista e deixa cada vez mais os pincéis de lado.

O horror, o horror.

 

17. A Queda de Murdock

 

Um dos maiores clássicos dos anos 80.

Pode parecer incrível para o público de hoje, mas antigamente as histórias com reviravoltas chocantes tinham reviravoltas REALMENTE chocantes, e mais, elas eram bem escritas, sim, sério, e eram também dramáticas e relevantes. Mesmo.

Quer ouvir outra? Antigamente Frank Miller, é, aquele mesmo que comete atrocidades como Sin City e o filme do Spirit era um grande roteirista. Sério. Grande mesmo, quase genial, capaz de criar seqüências impactantes, fazer você se envolver com os personagens, ter uma narrativa ágil e impecável e de quebra, recuperar com todas as letras o prazer de acompanhar uma boa história.

Surreal não? Como as coisas mudam…

No começo da década de 80, Frank Miller fez história em sua primeira passagem como roteirista e desenhista pelo Demolidor, então, um personagem (adivinhe só) classe D e à beira do cancelamento. Com um trabalho que parecia uma seqüência direta do ponto onde Will Eisner parou com seu Spirit a fama do roteirista/desenhista foi elevada às alturas.

Em seguida, Miller migrou para a rival DC, onde fez Batman – o Cavaleiro das Trevas, sucesso absoluto de crítica e vendas e parecia que o céu era o limite para ele.

Após isso, e provavelmente pagando seu peso em ouro, a Marvel anunciou que Miller voltaria para uma breve passagem ao Demolidor, o título que o consagrara, desta vez auxiliado pela arte de David Mazzuchelli. Desnecessário dizer que este foi o acontecimento quadrinístico de 1987.

A Queda de Murdock começa quando uma antiga namorada do herói resolve vender sua identidade secreta em troca de um pouco de heroína, como desgraça pouca é bobagem, a informação vai parar nas mãos de seu arquiinimigo, que passa a se dedicar a destruir cada aspecto da vida do personagem, seus amigos, seus amores, seu trabalho, sua dignidade.

A trama, dramaticamente intensa, mostra em sete capítulos esta descida ao inferno e sua redenção – embora não da maneira que a gente espera, as coisas não acabam bem, em um passe de mágica- com conseqüências profundas na vida e no interior do personagem, em dos pontos mais altos da história das histórias em quadrinhos.

A narrativa enxuta, ágil e direta de Miller e a arte simplificada de Mazzuchelli são um capítulo à parte, uma aula de storytelling que todo aspirante a artista deveria passar os olhos antes de sair por aí criando qualquer coisa.

Para mim, dentro do subgênero dos quadrinhos de heróis, é, ao lado de Batman – Ano 1, da mesma dupla Miller/Mazzuchelli, o melhor momento do gênero e devido à sua abordagem humana, centrada na destruição psicológica de um homem bom e quer saber? Envelheceu muito melhor que o datado Cavaleiro das Trevas, frequentemente apontado como a obra-prima do gênero.

 

18. Elektra Assassina

 

Esse é um daqueles casos que é amar ou odiar, mas não tem como ser indiferente, o que já é por si só um grande mérito.

Novamente Frank Miller no roteiro, desta vez fazendo dupla com o impronunciável Bill Sienkiewicz na arte, trazendo a história de uma assassina profissional que descobre que o provável novo presidente americano é o Anticristo.

Novamente, a narrativa de Miller é um espetáculo, mais solta, criativa e experimental, provavelmente incentivada pela liberdade que ele tinha então, após uma longa seqüência de sucessos arrasadores de crítica e público na década de 80 (a história foi feita logo após A Queda de Murdock).

A arte complemente maluca e experimental de Sienkiewicz é outro elemento marcante, misturando aquerelas, fotomontagens, técnicas diferenciadas de pinturas, em uma variedade alucinante, que colabora muito para o clima de delírio da obra e é muito interessante constatar como o texto de Miller se adéqua à arte, mostrando como o artista – então no topo da indústria, com uma fama e credibilidade que nenhum artista antes dele conquistara – aceitava sair de sua zona de conforto e correr riscos e o grau de colaboração que ele mantinha com seus desenhistas, aceitando sugestões e adequando seu estilo a eles.

Elektra Assassina é uma experiência, de que tipo, você decide. Entre amar e odiar, desde cedo optei pela primeira opção.

 

19. Conan – O Bárbaro, de Kurt Busiek e Cary Nord

 

Na virada do século, após 30 anos de publicação, a Marvel Comics perdia os direitos do personagem Conan, então, em uma fase de imenso ostracismo.

Não demorou muito e em uma negociação não muito clara, os direitos autorais foram parar nas mãos da Dark Horse, que anunciou uma nova revista, preparando o Conan para um novo público que não conhecia a fase clássica do personagem nas mãos da dupla Thomas/Buscema.

O que, aliás, nunca deixa de dar medo.

Os roteiros iriam ficar nas mãos do ótimo Kurt Busiek, de Marvels, porém não foi o suficiente para levar fé, uma vez que o autor nunca realizara nenhum trabalho fora da área de super-heróis e arte ficaria nas mãos de Cary Nord, que anunciou em alto e bom tom que iria fugir do visual gigante musculoso estabelecido por John Buscema, buscando um visual mais próximo das capas de livros feitas por Frank Frazetta, ligeiramente mais esguio.

Xiiiiiiiiii…

A série estreou, durante um bom tempo não li por puro preconceito, mas quando caiu em minhas mãos um exemplar emprestado… Bem, nunca fale mal sem conhecer.

Embora não seja tão boa quanto à fase clássica, chega perto, aliás, beeem perto.

Busiek narra a juventude de Conan e como ele veio a se tornar o personagem que conhecemos, os enredos misturam adaptações diretas dos contos do seu criador, Robert Howard, com uma mitologia própria, estabelecida por Busiek e Nord, respeitando, renovando e incorporando os melhores aspectos e idéias da fase de Roy Thomas.

A principal diferença está no modo de narrar, bem mais direto, sem o calhamaço de texto que Roy Thomas colocava em cada página. É um Conan mais cinematográfico, rejuvenescido visualmente, colorido, com mais ação para uma platéia mais impaciente, porém, de maneira alguma com menos suspense e sem nunca relaxar na ótima caracterização dos personagens.

Um dos raros exemplos de “modernização” que funcionam para melhor, mudando a embalagem, mas preservando a essência.

 

20. The Arrival

Uma das graphics novels mais originais e universais dos últimos tempos, The Arrival conta uma história simples: uma família de imigrantes começando a vida do zero em um novo país.

 

Em um sentido estritamente literal, Arrival não tem uma história propriamente dita, mas é muito mais um apanhado de sensações e situações, sobre o que é não ter nada e ser um estranho em terra estranha e isso que acaba garantindo a sua universalidade.

 

No traço de Shaun Tan (também autor do roteiro) tudo é alienígena, e embora familiar, ao mesmo tempo tudo causa estranhamento.

 

Mais do que um álbum, The Arrival é uma experiência. Das mais interessantes e uma das obras mais originais e instigantes dos últimos.

Ah, e o traço de Shaun Tan é inacreditável de tão fantástico.

Mas óbvio que o Domênico vai discordar.

Obrigatório na estante.

 

Parte 1 do Guia:

http://fantasticocenario.com.br/2011/07/21/pequeno-guiazinho-de-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-01/

Parte 2 do Guia:

http://fantasticocenario.com.br/2011/07/26/pequeno-guiazinho-de-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-02/

Parte 3 do Guia:

http://fantasticocenario.com.br/2011/08/02/pequeno-guiazinho-de-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-03/

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  1. 03/08/2011 às 17:04

    Marvels é uma hq simplesmente espetacular.
    Busiek consegue escrever hqs convincentes e relevantes, capazes de emocionar o leitor.
    A Queda de Murdock é um clássico absoluto das hqs de super heróis.
    Realmente é uma pena o Frank Miller ter baixado tanto de nível…
    Elektra Assassina e The Arrival eu ainda não li, mas se tu tá indicando…

    • 03/08/2011 às 20:26

      Eu tenho Marvels e Elektra Assassina. Marvels foi a hq que me fez voltar a ler Marvel depois de uma fase negra (pra mim) ns quadrinhos. Não havia nada que eu me interessasse mais. Marvels guardo com muito carinho.
      Teu guia tá ótimo!

      • Fábio Ochôa
        05/08/2011 às 12:05

        Valeu tchê. Estou disposto a quando chegar no 50º título, compilar em PDF para download.

    • Fábio Ochôa
      04/08/2011 às 09:32

      Busiek é um dos (únicos) bons escritores que surgiram nos anos 90.
      Ele tem uma mini do Superman que é tremendamente bonita, Identidade Secreta, sobre um sujeito chamado Clark Kent, que vive em nosso “mundo real” e aos 18 anos começa a manifestar os mesmos poderes do Superman.
      Ele tenta ajudar o mundo, mas… Em um mundo tão complexo quanto o nosso, o que fazer? Por onde começar?

      Arrowsmith dele também é ótimo, sobre uma Primeira Guerra Mundial com feitiçaria, gostaria de ver mais coisas dele fora do universo dos supers, ver até onde ele é capaz de ir.

  2. 03/08/2011 às 20:05

    O Fábio tem uma ótima teoria sobre Miller.
    Tal como Elvis na virada dos 60 para o 70, Paul MacCartney e outros tantos, ele foi abduzido por alienígenas, que deixaram algo no lugar. Esta é a única explicação para um bom escritor dos anos 80 ter criado coisas do tipo Batman Vs Spawn, “O Cavaleiro das Trevas II (com transa aérea de Superman e Mulher Maravilha a lá Penthouse Comix) e 300 (uma ode à idiotice coletiva daquilo que alguns ufanistas sem noção histórica chamam de civilização ocidental).
    Elektra Assassina é bem legal e The Arrival, tô conhecendo agora.
    Agora Marvels, bem, dispensa comentários: pura nostalgia, belos cenários, homenagens aos melhores momentos do universo da casa das idéias regadas a bons diálogos, desenhos fenomenais e sutilezas do cotidiano de gente comum convivendo com as maravilhas, tudo isso amarrado em um ótimo roteiro.
    O Conan do Busiek eu não li também.Se é tão bom assim (acredito no gosto do Fábio) e se a gurizada mais jovem gosta também, bem que podiam se basear nas histórias deste para o próximo filme (como afirma o velho clichê, “a esperança é a última que morre”).

    • Fábio Ochôa
      05/08/2011 às 09:40

      Olha que eu tenho a teoria de que neste novo Conan eles se basearam no “As Aventuras de Hércules”.

  1. 09/05/2012 às 21:08

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