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Pequeno Guiazinho de Quadrinhos Fantástico Cenário (parte 05) – Especial Super-heróis

Eles usam roupas colantes, cuecas por cima das calças, capas, nomes chamativos, desafiam toda hora o bom-senso e o senso do ridículo e nos últimos anos se espalharam pelos quadrinhos como praga.

 

- Chamou?

 

 

Não, não são os lutadores de luta-livre, estes, pelo que me consta sempre ficaram bem longe dos quadrinhos. São os super-heróis mesmo.

Não me entendam mal: eu gosto de supers. Li eles durante minha vida toda, mas, ao mesmo tempo os considero um dos maiores males dos quadrinhos.

Não é saudável para nenhum mercado midiático passar décadas a fio apostando em um único gênero, é como se 98% dos filmes que recebem atenção da mídia fossem policiais, ou 98% das músicas de destaque fossem tango, sem espaço para nenhum outro gênero. Em termos de mercados, isso é subestimar o público e cortejar a extinção.

 

E quando 98% de um mercado é composto de um único gênero, não preciso dizer que 96% dele vai ser composto de obras completamente esquecíveis, sem nada a acrescentar.

E que irão eclipsar qualquer chance dos ótimos 2% restantes serem vistas como o que realmente são: obras de ótima qualidade e não apenas “mais um gibi de heróis”.

 

Os 5 exemplos abaixo, que dão prosseguimento a este guia, se situam dentro deste gênero ultrassaturado, um, uma reinvenção política do mesmo, outro, uma viagem retrô de coração aberto ao que ele tem de melhor, dois, uma investigação sobre a origem do gênero e o último, muito mais uma trama policial do que uma história tradicional de supers tradicional.

 

Todos, obras inspiradas que sopram um fôlego em um estilo moribundo pela mesmice.

A elas então… Para o alto e avante.

 

21. Ex Machina

 

 

É incrível como esta série lembra uma série de TV em sua estrutura. Aliás, uma boa série de TV.

Ex Machina equilibra tudo na ponta do nariz, e muito bem. Tem um X de drama político, um X de cotidiano surpreendente, um X de ficção, sem nunca abrir mão do realismo palpável.

Ah, sim, e consegue no meio de tudo isto ser uma grande inovação dentro da surradíssima temática dos super-heróis (embora super-heróis apenas por convenção de gênero, porque o pé-no-chão e os flertes com a ficção são o que dão a tônica aqui).

Bom, vamos ao resumo: Mitch Hundred é um engenheiro civil, quando um dia, nas melhores tradições de origens de heróis dos anos 50, um objeto semelhante a um meteorito explode em sua cara.

Após se recuperar no hospital, ele descobre que consegue “ouvir” as máquinas e comandá-las com a voz, incentivado por um amigo russo (no papel arquetípico de mentor do herói) e pelo segurança Bradbury (adorei essa homenagem) ele vira o Grande Máquina, o primeiro e único super-herói do mundo.

As sequências de ação do Grande Máquina possuem uma boa dose de erros e humor, mas ela não é o elemento principal da série nem mesmo seu tema.

O que acontece, é que Mitch consegue impedir que um dos aviões acertem o World Trade Center no 11 de setembro, com identidade pública e lançando-se na carreira política um ano depois, Mitch vira prefeito de Nova Iorque, e aí está o tema central: o dia a dia de um ex-super-herói administrando uma das maiores cidades do mundo.

Escrito por um dos maiores talentos da atualidade, Brian K.Vaughn (autor dos também seminais Y- O Último Homem, Leões de Bagdá e roteirista da série Lost) o autor consegue manter o brilhantismo sempre em alta, esquivando-se das armadilhas do roteiro, nunca ficando tedioso e pontuando muito bem os elementos fantástico ao longo da série, mantendo uma constante ilusão de realidade.

Ex Machina não é só uma das melhores séries de HQ da atualidade, é um dos melhores romances de ficção nunca escritos, um dos melhores seriados que você não tem em sua TVa cabo.

Ah, e a arte de Tony Harris é ótima, para variar.

E aí? Quando é que a HBO vai adaptar?

 

22. Superman All Star

 

 

Tenho que confessar uma coisa,  mas cada vez que tenho que postar algo sobre super-heróis sinto-me levemente constrangido.

Uma, por causa do clichê de leitor de quadrinhos, como o sujeito bitolado que está mais preocupado em quem ganha em uma luta entre Batman e Superman do que com qualquer outra coisa, e outra, porque a maioria das histórias são absurdamente ruins.

Muitos roteiristas – que provavelmente sentem o mesmo que eu – colocam camadas de realismo em suas histórias, como que para disfarçar a mídia, fingir que as histórias são mais relevantes do que realmente são… O que no fundo é uma bobagem. Super-heróis são fantasias infanto-juvenis. Ponto. Não a realidade. Ponto.

E sinceramente, nada contra isto.

Mas de vez em quando, surge um autor que abraça o gênero de peito aberto, sem disfarçar sua paixão quase infantil pelo material e consegue por alguns momentos nos dar um rápido vislumbre, mesmo enquanto adultos, de tudo aquilo que sentíamos quando éramos crianças e aquelas 24 páginas coloridas eram simplesmente o mundo para nós.

E a sensação não tem preço, só quem cresceu lendo isto sabe como é.

É o caso de All Star Superman, a épica história escrita por Grant Morrisson, onde Superman devastado por um câncer tem que deixar um mundo preparado para sua partida.

Épica, divertida, terna, humana. Apesar do tema pesado, em momento algum a história flerta com a melancolia, retratando um homem bom preparando seus dias finais, com uma leveza invulgar e um senso de fantástico há muito tempo ausente dos quadrinhos.

A cada uma das 12 edições da história, existe um momento que você pára e pensa “que idéia espetacular”, uma das minhas preferidas, é quando ele cria um mundo em miniatura, para saber como seria a vida se ele nunca tivesse vindo para a Terra… E acaba criando o nosso mundo.

Fantástico, em todos os sentidos que a palavra abrange.

 

 

23. As Aventuras da Liga Extraordinária

 

 

E Alan Moore faz de novo.

Em plenos anos 2000, Moore resolveu desencanar. Deixou as obras densas e complexas de lado e resolveu fazer quadrinhos divertidos para sua própria diversão.

Em um certo sentido, é isso que a Liga Extraordinária é: uma imensa brincadeira intelectual do barbudo inglês.

Partindo do pressuposto de que todos os livros do século XIX aconteceram em um mesmo universo, tal e qual é comum nos universos DC e Marvel, mostra as aventuras dos superagentes da rainha em pleno século XIX: o aventureiro Alan Quarteiman (de As Minas do Rei Salomão), Capitão Nemo (de 20.000 Léguas Submarinas), Mina Murray (de Drácula), Howley Griffith (de O Homem Invisível) e Mr. Hide (de O Médico e o Monstro).

A história chama atenção por duas coisas. Primeiro, pela absurda erudição de Moore, onde cada página está repleta, mas repleta MESMO de referência à centenas de livros do século retrasado. E lendo, você tem plena certeza que Moore SABE do que está falando.

E outra, é o tremendo botão “foda-se” que ele mantém ao longo de toda mini-série, ao contrário de outros autores, como Neil Gaiman, que provavelmente seriam ultra-reverentes ao material clássico, Moore não se preocupa nem um pouco em ser grosseiro, politicamente incorreto ao extremo e o tempo todo manter uma tremenda aura de dessacralização cultural na história.

Não é para todos. Mas recomendo.

 

24. Tom Strong

 

 

Nesta mesma leva, Moore lançou em seguida TomStrong, como parte de um projeto que pretendia revisitar as raízes dos quadrinhos, anteriores ao surgimento dos super-heróis.

Tom Strong bebe de diversas fontes, talvez, a principal (ou a mais facilmente reconhecível) seja o pulp Doc Savage, com pitadas de Edgar Rice Burroughs aqui, outro tanto de H.G. Wells ali e mais um pouco de Superman e Shazan da era de ouro aqui e a acolá, tudo permeado por uma sensibilidade narrativa moderna em histórias ágeis, dinâmicas e simples, mas sem nunca deixar de lado a inteligência.

Fica a lição: simples é uma coisa, simplório é outra coisa bem diferente.

Tom Strong, fruto de um experimento do pai em busca do “homem perfeito”, foi criado entre os selvagens da ilha de Attabar Teru, após adulto, junto com a família Strong (sua esposa, sua filha Tesla Strong, o serviçal mecânico Pneuman e o Gorila inteligente Salomão, tem como ser mais clássico e retrô que isso?), na melhor tradição dos antigos pulps, quadrinhos e desenhos animados, é o defensor da ultra retrô Milleniun City, saindo de sua Torre Strong para enfrentar as ameaças que surgem, como a Gangue do Hélio, o Homem-modular, Astecas dimensionais, membros do 4º Reich, os Habitantes da Terra Obscura, sua contraparte, Tom Strange, os resquícios de seu falecido arquiinimigo o professor Paul Saveen e tudo que a imaginação maluca de Alan Moore pode conceber no espaço de um mês.

Saboroso de ler, sem grandes complexidades, coeso, bem-amarrado e para quem entende de cultura pop, ciências e histórias curiosas dos séculos XIX e XX cheio de referências para pescar aqui e ali.

Tudo isso com uma arte igualmente deliciosa de Chris Sprouse e nenhuma pretensão de ser mais do que é.

Poderiam existir mais quadrinhos assim.

 

25.  Amor & Guerra

 

 

A última dica do dia, e a mais recomendada.

Desta vez, a dupla de Elektra Assassina volta a unir forçasem uma Graphic Novel irretocável.

O argumento preciso de Miller, se divide em quatro linhas narrativas paralelas, auxiliado pela arte exuberantemente expressionista de Sienkiewicz, compõem mais um dos grandes momentos dos quadrinhos dos anos 80 (e olha que foram vários).

Na prática, uma trama policial, envolvendo um médico renomado, um senhor do crime, uma autista, uma esposa cega, um herói urbano e um dos psicopatas mais memoráveis já vistos nos quadrinhos, Miller brinca o tempo todo com as expectativas do leitor, sempre fugindo do óbvio e compondo o que foi, talvez, sua última grande obra.

E por hoje é só, pessoal.

 

Para acessar os Guias antigos:

Parte 1-

http://fantasticocenario.com.br/2011/07/21/pequeno-guiazinho-de-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-01/

Parte 2-

http://fantasticocenario.com.br/2011/07/26/pequeno-guiazinho-de-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-02/

Parte 3-

http://fantasticocenario.com.br/2011/08/02/pequeno-guiazinho-de-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-03/

Parte 4-

http://fantasticocenario.com.br/2011/08/03/pequeno-guiazinho-de-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-04/

 

 

 

 

 

 

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  1. 15/08/2011 às 15:26

    Sem dúvida, Ochôa, a superficialidade é a regra quando se trata de hqs de super-heróis, por isso, se deve dar atenção apenas à pequena fração de obras deste gênero que vale a pena ser lida.
    Ex Machina é simplesmente genial e fascinante de se ler.
    Política e cenas de ação estiveram tão poucas vezes unidas de forma tão sublime.
    Minha expressão depois de ler All Star Superman foi a mesma do Duda ao ler a “página óctupla” do Supremos Volume 2: eu não acredito que estou lendo isso, cara…
    Genial é pouco para definir esta hq.
    Pena que Morrisson não escreva sempre assim…
    A Liga Extraordinária também é obrigatória, com Moore detonando os personagens clássicos da ficção e se divertindo com isso.
    Tom Srong eu li pouco, mas deu pra ver que é uma hq diferenciada e feita de forma primorosa.
    Amor e Guerra eu ainda não li, mas curto o trabalho do Sienkiewicz desde Os Novos Mutantes do Chris Claremont no gibi do Hulk.
    Valeu.

    • Fábio Ochôa
      16/08/2011 às 16:50

      Pois é, Jacques, o Morrisson tem muitos, mas muitos altos e baixos.
      Mas sabe que eu até simpatizo com o Batman polêmico dele?

      Tchê, Amor & Guerra tem na Monte Cristo, compra correndo que vale a pena.

  2. 16/08/2011 às 13:47

    boas sugestões de super-heróis! gosto muito do superman all-star, a melhor hq de supers que li em anos.
    sobre tom strong e a liga extraordinária, acho bacana ver como o moore desconsiderou toda aquela onda sombria e realista que ele ajudou a criar com os excelentes “watchmen” e a “piada mortal” para escrever histórias bem trabalhadas, mas com um tom totalmente oposto, voltadas a diversão.
    até!

    • Fábio Ochôa
      16/08/2011 às 16:52

      Pois é Vinicius, acho que deu pra notar que sou fã da obra do barbudo inglês, mas, gostos pessoais à parte, acho admirável mesmo a facilidade que ele tem de dar de ombros pro passado e tentar arenas novas.
      Pouca gente, mas muito poucas consegue isto.

  3. 20/08/2011 às 14:56

    Tom Strong é legal pacas.
    Eu e o Fábio Ôchoa já conversamos sobre como iria ser legal o Quarteto Fantástico escrito pelo Moore, no mesmo estilo de Strong.

    • Fábio Ochôa
      22/08/2011 às 17:15

      O Moore declarou uma vez, quando perguntado se nenhum personagem das “grandes” lhe interessaria, que adoraria escrever o Quarteto e claro, sua paixão de longa data, o icônico Superman.
      Mas em seguida emendou que só faria isso se elas topassem reverterem os diretos aos seus criadores.

      Ou seja…

  4. 20/08/2011 às 14:59

    Sobre Amor e Guerra, estranhamente eu tinha deletado da mente, talvez por causa das fases posteriores do Miller. Pior é que é muito bom mesmo. Puxasse do coeficiente nerd esse…

    • Fábio Ochôa
      22/08/2011 às 17:16

      Amor e Guerra é ótimo. Foi a primeira vez que vi o traço do Sienckwicz, que me influencia até hoje.
      Se prestar atenção, vai ver que os traços desordenados do Farrapo que afronta Nunes tem um pouco a ver com o psicopata Victor da obra.

  5. Marco Antônio
    12/01/2012 às 09:32

    o meu amigo Fábio escreveu esse texto obviamente antes de ler o último volume da liga, que teve de ler escondido pois ficou vexado :P. Aposto que o texto seria: Não é para todos. Nem para mim, haushuahsuashuash

  6. 12/01/2012 às 09:42

    Exatamente! Já passei adiante!

  1. 09/05/2012 às 21:08
  2. 07/06/2012 às 09:35

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