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As incríveis aventuras de Conde Agripino

Incrivelmente espetacular, o inverossímil aconteceu neste Fantástico Cenário da terrinha “brasilis”, muito aquém de qualquer conto fantástico de John Mandeville referente ao “País da Cocanha”, na esteira do trecho da música de Chico Buarque de Holanda, “Não existe pecado, do lado de baixo do Equador”.

Fontes históricas recém descobertas atestam a existência do suposto Conde Drácula Brasileiro, alguém aparentemente real e que, longe de ser o ancestral histórico de Bento Carneiro, o “Vampiro Brasileiro” de Chico Anysio, teria sido um Contratador, ou seja, um rico fidalgo e agente tributário da coroa portuguesa nas Minas Gerais do século XVIII, auge da exploração aurífera brasileira, mais especificamente, na capitania de Vila Rica de Ouro Preto

Seria nosso vampiro brasileiro um reflexo tupiniquim do excepcional Drácula de Bela Lugosi?

A primeira menção de nosso personagem está na correspondência de certo José Joaquim Carneiro de Melo Viana, rico mineiro da região, dono de seis datas, duas lavras e, segundo a Ata de Entrada da Alfândega do RJ de 1766, proprietário nominal de 68 escravos bantos, advindos da Feitoria de São Jorge da Mina, na Guiné portuguesa.

Na carta em questão, enviada ao irmão Francisco, na época sediado na vila de São Paulo de Piratininga, encontra-se uma breve descrição física do “Conde Misterioso”, como ele mesmo denominou. Vejamos o excerto:

” Caro Francisco,

Não é por excesso de tempo que lhe envio notícias destas terras milagrosas cheias de fartura de ouro de aluvião.

Não devo esquecer, outrossim de mencionar sobre um indivíduo muito estranho e bizonho que por aqui costuma perambular pelas noites quentes e suarentas, cercado por um cortejo de negras da guiné, todas forras e escandalosamente vestidas como senhoras brancas da fidalguia lusitana, à semelhança da negra Chica da Silva, sem falar da corja de vagabundos mulambos, cachaceiros e até alguns frades beneditinos devassos que lhe rodeiam incessantemente pelos guetos e vielas da capitania em que ora resido.

Trata-se de um certo Conde Misterioso, também chamado pela boca do populacho de Conde Agripino, tipinho muito franzino e esguio, nariz e queixo longilíneos e testa proeminente, tão lisa e branca como o restante da careca exposta, quase que aparentando um ovo solitário dentro do ninho.

Os dentinhos pontiagudos e bifurcados lhe saem da boca fina ironicamente sorridente, como os de um pequeno roedor encolhido no porão úmido dos casarões altos e bruxuleantes de Lisboa, fora os olhos negros esbugalhados como que órbitas desnudas aparecendo afora dos buracos profundos da cabeça.

Não é somente por tal aspecto grotesco que esse fanfarrão da nobreza local me chama a atenção, mas principalmente por seus trejeitos espalhafatosos, usualmente vestindo-se como um rei europeu decadente, vergando calças justas sobrepostas por um casaco azul escuro encardido de veludo e um colete carpete carmim bordado de sete lótus douradas, tudo isso sob uma longa capa negra sujismunda de lama nas extremidades, que lhe escondem braços incrivelmente longos e esqueléticos, tais como os cadavéricos dedos das mãos a segurar, ao que me parece, um cetro dourado cheio de pequenos diamantes cristalinos”.

A carta segue tratando dos excessos e das excentricidades do Conde, as risadas altas e estridentes pelas tavernas locais e as bebedeiras constantes dos integrantes de seu estranho cortejo a vagar pelas ruas de Vila Rica, terminando com uma descrição pormenorizada das dificuldades encontradas na região. Pela descrição inicial, Agripino se pareceria com aquela típica imagem do vampiro Nosferatu, do filme mudo de F.W. Murnau, de 1922, porém com um toque tipicamente brasileiro.

Seria essa a figura que vagava pelas ruas de Vila Rica em 1766, cercado de mulheres, vagabundos, bêbados e frades beneditino devassos?

Nas páginas do diário de certo Hortêncio Alencar Sobral, comerciante e tropeiro de Sorocaba, aparece uma nova referência da personagem.

Trata-se de um excerto datado de 1769, mencionando uma recepção bizarra ocorrida no Sobrado da Matriz, casarão outrora pertencente ao famoso bandeirante, Raposo Tavares, mas que na época da mencionada recepção, segundo consta nas Cartas de Sesmarias Municipais de Vila Rica, datadas de 1795, pertenceria a certo Agripino Oliveira Maia, Conde Agripino e Alcaide Mor de Jabaquara do Norte.

Vejamos.

“Dia 25 de Março de 1769,

Posso, por assim dizer, que nunca tinha visto uma festança daquelas, cheia de guloseimas, bebidas de toda a leva, mulheres da vida, semelhantes a jovens tropéis regadas a lantejoulas e anedotas de gente de toda a estirpe, da mais alta nobreza municipal até os mais infames bandoleiros, das nobres famílias dos “homens bons” até os mais corruptos degredados da capital.

No centro da orgia dos embriagados, encontrava-se o anfitrião, Conde Agripino, cercado por duas negras “bugias”, risonhas e seminuas, com os peitos “chochos” à mostra, sentadas a tiracolo nas pernas finas do mesmo, por sua vez jogado sobre um grande trono de madeira do mais puro cedro europeu, como se fosse o rei daquela pequena corte mundana.

Mal acreditei quando o Conde levantou-se do trono e como um bufão da própria corte, começou a rodopiar e a gritar palavrões de toda a espécie, sendo igualmente rodeado por várias raparigas de todas as “raças” e classes de gentes, enquanto alguns escravos faziam uma dança estranha ao som de uma espécie de instrumento semelhante a um arco tosco improvisado.

Espero esquecer de tais fatos macabros rapidamente, tal como nosso querida majestade, D. José I, quando esqueceu-se de governar seu próprio Império, deixando todas as contas e decisões da metrópole nas mãos do Marquês de Pombal”.

Ouro Preto nos dias de hoje, antiga Vila Rica, é a imagem de seu passado histórico de sucesso, quando o ciclo do ouro fez de Minas Gerais um dos principais pólos culturais brasileiros. Conde Agripino teria vivido e dado muitas recepções bizarras no município.

Mais importante do que qualquer contextualização histórica é a percepção de que, três anos depois da primeira menção da existência do Conde, na época histórica em que o Marquês de Pombal “governava” Portugal como Ministro dos Negócios Estrangeiros do rei, o Conde Agripino ainda era comentado entre os moradores de Vila Rica, normalmente tido como um sujeito excêntrico, festeiro e boêmio, um homem da noite e das festas de cordéis.

A fonte a seguir chama mais a atenção ainda, representando uma espécie de diálogo registrado travado entre o Conde e o próprio autor do texto, certo Marciano Pereira das Neves, irmão mais novo do Capitão Mor de Vila Rica, Adroaldo Pereira das Neves. Vejamos o excerto encontrado no Arquivo Histórico Nacional do RJ, provavelmente um trecho escrito de um excerto ainda maior:

“(…) no meio da festança no Casarão do Conde Misterioso, me vi cercado por lindas criaturas do gênero feminino, fossem elas brancas, mestiças, negras ou “bugras”, todas nuas em pelo a me lamber e girar. Estando já bastante embriagado, logo cambaleei para uma das janelas do casarão e, ao abri-la, coloquei para fora de súbito todas as iguarias exóticas que havia ingerido na ocasião. Quando dei-me por conta, alguém cutucou-me o ombro emitindo um som de estalo com os lábios:

– Toc Toc.

– O que?

Respondi logo ao virar-me.

– Toc Toc.

Lá estava o Conde, os olhos esbugalhados, fitando meu pescoço, como se este fosse um gordo naco de carne de carneiro virgem.

– Desculpe-me conde, não entendi.

– Toc Toc.

 Novamente aquele som estranho saído da boca, ao mesmo tempo em que me cutucava o braço esquerdo.

– Quem é?

Resolvi entrar em sua estranha pirelha.

– É o Conde Agripino, meu jovem.

Ele respondeu sorrindo, um olhar sardônico, com um toque de ironia macabra, quase que me consumindo, meio que lambendo os lábios finos nos longos dentes pontiagudos de rato maltês.

– O que o senhor quer meu nobre conde?

Respondi subitamente tentando me afastar, ao mesmo tempo em que procurava disfarçar o mal estar que sentia, nem tanto pelo vinho doce do Porto que havia consumido por horas afins, mas pelos gestos, olhares e principalmente, pelo sorriso malicioso do exótico anfitrião.

– Ora, quero ser convidado para entrar, me alimentar direitinho. Por acaso não terias em sua choupana uma pequena jovenzinha inocente, quem sabe uma tia gorda inútil faladeira ou até mesmo quem sabe alguma destas amas de leite com seios fartos e papo de onça?

Logo ao terminar a frase, eu e o conde caímos na gargalhada, logo sem antes fingir convidá-lo à minha casa imaginária. Certamente que eu não entendi sua pirraça, mas percebi que ele se deliciou com o medo gerado, levando-me a crer tratar-se exatamente disto.

Não demorou nem um quarto de hora, logo saí sorrateiramente da festa, ainda antes do alvorecer, chegando em casa e me debruçando na escrivaninha para escrever estas breves linhas sobre os fatos da noite.

Ora ora… Alguém bate na porta…”

Seria esse o olhar de Conde Agripino para suas vítimas?

Seria esse o olhar sardônico de Conde Agripino para suas vítimas?

O trecho termina subitamente, como se o autor tivesse finalizado o conto com uma frase de efeito, um tanto sem sentido à primeira vista, mas que diante de uma outra fonte cruzada, torna-se deveras interessante. Trata-se do relatório de seu próprio irmão, Adroaldo, como já mencionado anteriormente, Capitão Mor de Vila Rica. O trecho abaixo é revelador. Vejamos:

“Dia 14 de outubro, sexta feira,

O corpo da vítima encontrava-se largado e escorado em um biombo esmaltado em frente à uma escrivaninha cheia de rolos e códex semi-oxidados, alguns lambuzados com tinta preta do pincel caído ao redor.

Estranhamente, a vítima mostrava sinais de contentamento na face, apesar do corpo ter sido sugado de fora para dentro. Além disso, o corpo nu revelava oito incisões semelhantes a duas agulhas grossas, comumente utilizadas em sangrias, duas no braço esquerdo, outras três em volta do pescoço e músculos lombares e duas maiores na nádega direita.

A julgar pela posição acocorada da vítima, como um feto de bruços e com o queixo colocado sob a escrivaninha, provavelmente o atacante o abraçou por trás e finalizou o assassínio batendo sua cabeça na borda da referida mesa, enquanto lhe sugava o sorvo da vida pelos próprios ferimentos”.

Interessante notar a aparente frieza do irmão da vítima no texto. O mesmo Adroaldo relata em um boletim de ocorrência datado de 03 de março de 1792 que, em uma ronda casual pela periferia de Vila Rica, duas horas antes do turno matutino, ouvira um grito de mulher vindo da parte de cima de um pequeno sobrado de esquina, seguido de um estilhaçar de janelas e vidros quebrando, além de um tiro opaco de arcabuz. Vejamos o referido trecho do boletim:

“… me deparei com o inimaginável. A mulher, completamente nua à janela, gritava com sua voz rouca frases do porte, “não machuque meu ratinho querido, seu corno infeliz insolente”, enquanto o marido, com arma em punho tentava carregar o arcabuz de modo a desferir mais um tiro contra outro indivíduo, postado de pé, mais adiante, também completamente sem roupas e com os “documentos” a mostra, balançando-os de cima para baixo, gritando, rindo alto e maldizendo o atacante, ora com palavrões, ora com frases desconexas e sibilosas em uma língua esquisita, enquanto esvoaçava uma capa preta como se fosse um morcego ferido ao vento.

Ao observar mais de perto, considerei tratar-se de Conde Agripino, espargido na faces com aquele pó de mico utilizado pelos negros em seus rituais heréticos, o mesmo conde tão comentado por todos os malandros e vadios dessa capitania, movido a vinho, orgias e fidalguias, um dos cinco suspeitos da morte de meu irmão, há três anos atrás.

Infelizmente, o Visconde de Barbacena lhe serviu de álibi, impedindo sua prisão pela tentativa de assassinato da mulher mencionada acima, Dona Rosa de Castro, apesar da mesma não prestar queixas contra o suposto atacante, preferindo xingar e culpar o próprio marido pelo ocorrido, como se tivesse mais afeto pelo atacante do que por seu audacioso defensor.

Além do que, pela distância em que me encontrava do suspeito, pela escuridão da noite alva naqueles breves momentos antes do alvorecer e, principalmente, pelo fato do suspeito ter urinado em minha direção no meio da referida perseguição (diga-se de passagem, um líquido viscoso esverdeado, meio ácido), ficou impossível uma melhor identificação do mesmo.”

Conde Agripino teria assim escapado da suspeita de tentativa de assassinato. Dois anos depois do ocorrido, o marido de Dona Rosa, o atacante do Conde naquela noite, teria sofrido um estranho acidente, afogando-se em uma foça de dejetos humanos, de um metro e meio de profundidade.

Mais dois anos se passaram e o mesmo Adroaldo teria conduzido o depoimento de um jovenzinho de 12 anos de idade que teria visto o assassino da própria mãe, Inácia de Albuquerque, uma mestiça forra de Vila Rica, suposta mulher da vida e amante do já mencionado Visconde de Barbacena.

Dissera o jovenzinho de nome Leonardo, que o assassino estava na cama da mãe, completamente nu e com o rosto no meio das coxas da vítima, no instante do assassinato, como que lhe sugando o ventre. Ao levantar a cabeça em direção do menino que entrara no quarto subitamente,  o assassino teria dito “Sai daqui fedelho mimado, isso não é cousa pra gentinha da tua idade”.

Junto do relatório acerca do depoimento, encontrava-se um bilhete, com os dizeres “mulher negra esquálida, como se o próprio sangue tivesse sido sugado de fora para dentro, tal como meu irmão”, além de um suposto retrato falado do assassino, efetuado a partir do relato do menino, que antes de ser levado pela avó materna para São José Del Rey, teria dito, “o sugador de coxa da mami era aquele homi careca da mansão grande, com oreias di murcego, o tal condi”.

Retrato falado do suposto assassino da mestiça Inácia de Albuquerque. Seria esse o Conde Agripino na visão inocente de uma criança de 12 anos de idade?

Para finalizar, dois relatos impressionantes.

O primeiro de um tal de José Manuel Barata, primeiro secretário da Intendência das Minas Gerais. Trata-se de uma correspondência para o Governador Geral, também chamado na época de Vice Rei, sediado no RJ.

Na carta em questão, está o relato sobre os nomes dos Contratadores em débito para com a coroa na capitania das MG, incluindo na lista o nome de certo Conde Agripino, devedor de mais de 500 mil réis. No texto em questão, é mencionado um encontro do Conde com o primeiro secretário, sugerindo a tentativa de solução do referido débito por meios bastantes insólitos e esclarecedores. Vejamos novamente:

De certa forma foi impressionante o que vi e ouvi naquela tarde de outono. O Conde Agripino, mal chegou na audiência marcada, sentou-se em minha frente e começou a repetir certas palavras com a voz sibilante e com gestos espalhafatosos, como um demente:

– “Eu não devo naaaada, vossa mercê irás esqueceeeeer do assuuuuuunto e acreditar que eu não devo nadaaaaaaaaaaa”.

Inicialmente considerei tratar-se de algum mal entendido, tetando explicar ao Conde o teor de sua dívida e as ordens que pessoalmente recebera da Intendência das Minas, ou seja, ordens de cobrar os Contratadores da região em atraso. Ele por sua vez, continuava a repetir: 

– “Olheeeeee nos meus olhoooooos e digaaaaaaa em voooz altaaaaaa, o Conde não deve nadaaaaaa, eu irei esqueceeeeeer do assunto e acreditar que o Condeeeee não deve nadaeeeeee”.

Novamente tentei argumentar, explicar por sua vez que não estava entendendo suas palavras e gestos, que aquilo era uma brincadeira de mal agouro com uma autoridade. Mais uma vez ele falou, de forma mais possante, aumentando o tom da voz, aproximando seus olhos esbugalhados junto dos meus e dizendo em tom demoníaco:

– “Olhe aqui cãooooo imundo sarnentoooooo, o Conde ordenaaaaaa, irás esqueceeeeeeeer da dívidaaaaaaaa, irás acreditar que o Conde não deve nadaaaaaa, irás diminuir nesse mundão aforaaaa e desapareceeeeeeer daquiiiii filho de um jegueeeee e de uma égua brazinaaaaaaaaaa”.

Diante desse tom ameaçador e insano, chamei alguns Dragões da Coroa e coloquei o Conde para fora da sala de audiência. Porém, ainda que carregado pelos dois homens pelos braços, o Conde seguiu rosnando e dizendo de forma ameaçadora:

– “Nojento sarnentooooo filho de uma onça pintadaaa, irás esqueceeeeer da dívida, irás esquecer do Condeeeeeeee, assim ordenaaaaaa Agripinooo”.

A partir destes fatos, sugiro a prisão ou detenção imediata para loucos deste homem macabro, não somente pela referida insolvência para com nosso senhor Del’ Rey, mas também pelo desacato para com uma autoridade metropolitana.

Meu caro Vice Rei, peço então alguma solução para este indivíduo que por aqui é bastante conhecido por tais acessos levianos de loucuras e excentricidades, safando-se das guarras da lei e da justiça por ser da nobreza colonial e em razão de ter uma estranha intimidade com o Visconde de Barbacena.

Que estanho relacionamento teria o Conde Agripino com o Visconde de Barbacena, maior autoridade da região e Intendente das Minas Gerais?

Chama atenção, porém, após esse relato, a correspondência do mesmo secretário, Manuel Barata, dois meses depois, endereçada ao mesmo Vice Rei no RJ. De forma lacônica, a segunda carta traz os seguintes dizeres:

À Vossa Senhoria, Vice Rei do Brasil,

Informo prontamente que todas as dívidas do Conde Agripino Maia foram acertadas com a Intendência das Minas, não devendo esse nobre senhor nenhum vintém à coroa e a nossa querida majestade, estando, portanto em dia com suas taxas anuais de Contratador oficial da Coroa Imperial na Capitania de Vila Rica do Ouro Preto. Desconsiderar a carta anterior.

De certa forma, não sabemos o que transcorreu nesses dois meses, entre a primeira correspondência do secretário, acusando o Conde e a segunda, não somente inocentando das dívidas, mas desconsiderando à anterior. Somente a certeza de que o Conde Agripino fez valer sua vontade ao final do evento.

Minha hipótese é de que os poderes mentais de persuasão de nosso vampiro brasileiro funcionavam relativamente bem, tal como comprova o teor da segunda carta, porém com certo atraso. Como no Brasil estamos sempre “correndo” atrás do que acontece no resto do mundo, o mesmo valeria para os poderes mentais de dominação de nosso suposto vampiro mor brasileiro.

Os poderes mentais do Conde Agripino teriam-no livrado de suas dívidas, porém funcionando com dois meses de atraso.

Os poderes mentais do Conde Agripino teriam-no livrado de suas dívidas pregressas, porém funcionando com dois meses de atraso.

O último relato relaciona-se com a vinda da família real para o Brasil, em 1808.

Quando D. João, Príncipe Regente de Portugal aportou no RJ, após fugir das forças de Napoleão Bonaparte, trouxe consigo uns 12 mil nobres com ele, estabelecendo a corte do Império Português no Brasil, o que duraria até 1821.

O registro do escrivão pessoal da esposa de D. João, Carlota Joaquina, novamente nos coloca em contato indireto com o vampiro brasileiro. Vejamos:

“Impressionante a quantidade de colonos à espera de nosso rei no porto, todos amontoados e espremidos para ver os integrantes da mais alta nobreza lusitana, naquela tarde quente do verão dos trópicos. Quando me dei por mim, observei nosso estimado príncipe caminhando ao lado de um homem esguio e esquelético, abraçado ao pescoço de nosso querido regente, como que lhe falando ao pé do ouvido, assemelhando-se a um dos velhos amigos íntimos de vossa majestade.

O dito cujo estava vestido com um colete carmim desbotado, com setes lótus douradas nas extremidades, encimado por um casaco azul escuro de veludo e uma capa velha suja meio encardida.

Era um tipo estranho da nobreza local, uma cruza de eslavo advindo da Europa Oriental com essa gente crioula que habitava a colônia desde o achamento, cheio de pó no rosto magro e suado, lambendo os lábios finos e os dentes pontiagudos que lhe saiam como presas.

Sem dúvida não passava de um destes novos nobres coloniais, mas que rapidamente conquistou a simpatia de nosso regente, ainda que eu tenha percebido certo temor em seus olhos inocentes, enquanto vagava pela multidão de curiosos abraçado ao exótico homem mencionado acima, um certo Conde Agripino, pelo que me contaram depois”.

D. João teria se relacionado com Conde Agripino logo que chegou ao RJ, em 1808.

Os relatos demonstram que Conde Agripino não só tinha poderes sobre os outros seres viventes, ainda que com certo atraso, como também demonstram que o Conde conseguia se relacionar com pessoas influentes da Metrópole, incluindo o futuro rei de Portugal, Dom João VI, coroado no Brasil em 1818.

Mais interessante ainda é notar que a descrição do Conde no último relato é quase idêntica ao do primeiro, em um arco cronológico de quase quarenta anos de diferença, significando quem sabe, um envelhecimento lento e tardio, quem sabe ainda, a famosa imortalidade comumente atribuída aos vampiros.

Fosse nosso “querido” Conde Agripino, o mais notório representante brasileiro do vampirismo das Américas ou apenas um louco farsante e exótico, suas aventuras inscritas nos relatos e fontes primárias da história colonial chamam nossa atenção, não somente por seu caráter enigmático, fantástico, bizarro e excêntrico, mas também pelos relatos pitorescos e ao mesmo tempo macabros sobre sua pessoa, relatos esses que de certa forma expressam aspectos pontuais da cultura histórica brasileira.

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  1. Fábio
    23/08/2011 às 20:46

    Muito legal o texto Marco, segue bem a linha brasileira de sobrenatural esquisito.

    • 24/08/2011 às 13:03

      Valeu.
      A ideia é bem esta.
      Na esteira do “Realismo Fantástico” de Dias Gomes e Zé do Caixão.
      Abraços.

  2. 23/08/2011 às 20:59

    Também achei muito bem feito o texto, Marco.
    Seu vampiro(?) ficou semelhante a um sujeito que fracassou em ser jedi.
    E as referências históricas ficaram ótimas.
    Valeu.

    • 24/08/2011 às 13:08

      Valeu.
      Será que no Brasil até nossos vampiros não dão certo?
      Não, acho que não devemos ser tão pessimistas, mas acho que a ironia com nós mesmos é parte de nossas qualidades, um certa autocrítica que muitas vezes é exagerada, outras nem tanto e que, muitas vezes não se transforma em atos concretos para melhorarmos.
      Sobre jedi que não deu certo, eu sempre achei o Vader um Jedi que não deu certo.
      Abraços.

      • 24/08/2011 às 14:50

        Sim, qualquer vampiro que desse certo não apareceria em documentos históricos, no Brasil ou em qualquer outro país… É por falta de documentação que comprove que eles existem que eles são, bem, mitos…

        Quanto ao Vader, eu não posso deixar de concordar com o Marco. Enquanto os Jedi precisam ser “zen” pra dar certo, o Vader não passava de um “Jedi playboy”. E como tal, perdeu!

  3. 23/08/2011 às 21:52

    Oi pessoal, tudo bem?
    Pois é, o texto do Marcos está muito bom. Um fato leva a outro… e o mistério fica no ar…
    Grande abraço!

  4. 24/08/2011 às 05:36

    “(…) também completamente sem roupas e com os “documentos” a mostra, balançando-os de cima para baixo, gritando, rindo alto e maldizendo o atacante, ora com palavrões, ora com frases desconexas e sibilosas em uma língua esquisita, enquanto esvoaçava uma capa preta como se fosse um morcego ferido ao vento.”

    Se estava completamente sem roupas, como é que esvoaava uma capa preta? Era um vampiro toureiro, acaso?

    “Além disso, o corpo nu revelava oito incisões semelhantes a duas agulhas grossas, comumente utilizadas em sangrias, duas no braço esquerdo, outras três em volta do pescoço e músculos lombares e duas maiores na nádega direita.”

    Oito incisões semelhantes à duas agulhas grossas, significa que eram oito ou desesseis incisões? E porque ele só descreve o local de sete incisões? Terá sido a oitava nos “documentos” do irmão, e o capitão quis salvaguardar a “honra” do morto?

    De qualquer forma, muito bom o texto. Muito bem escrito com trechos muito bem costurados entre sí.

    • 24/08/2011 às 12:48

      Tua teoria do irmão ter escondido o lugar da oitava incisão deve ser levada em conta. Se foi nos documentos então ele também salvou a honra de nosso vampiro.
      PS: será que lorde Agripino materializou a capa e a utilizou como um toureiro?

  5. 24/08/2011 às 08:16

    É,os documentos históricos são muito confusos.
    Eu só passei o que li.
    hehehhe

  6. Fábio Ochôa
    26/08/2011 às 17:54

    Texto ótimo, dá vontade de ver mais do Conde “toc toc” Agripino.
    Porque não usa ele na coletânea pulp?

    • 26/08/2011 às 18:11

      É uma ideia.
      O mais legal é que foi tudo de cabeça, meio que de uma vez só, sem muita revisão até (por isso certas incongruências notadas pelo Domênico).
      Ou seja, com o mínimo de trabalho, sem atrapalhar meus horários de aula, etc.
      Valeu.

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