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O Repouso do Guerreiro

As peças da arma estalavam sutilmente enquanto se encaixavam, cada pequeno clique era uma nota abafada pelo vento e percebida apenas pelas pontas dos dedos.
Os dedos, os mesmos dedos que já semi-congelados, enegrecidos por baixo das luvas, seguiam executando, automáticos a mesma ordem de movimentos, como se fosse o homem a máquina, e não a pistola em suas mãos.
Montar.
Desmontar.
Talvez para provar a si mesmo que ainda era capaz.
Montar.
Desmontar.
Que os anos de ócio e friagem ártica ainda não haviam lhe roubado –inclementes- a destreza.
A rama fez um claque, a culatra refletia o branco do chão glacial. E o vento continuava a tentar derrubar seu corpo, soprando pequenos flocos brancos em seu rosto, quase apagando a fogueira feita na rua.
Um pouco mais, entraria na velha cabana de madeira e beberia alguma coisa quente.
E em 3 segundos contados e 6 movimentos, a arma estava pronta mais uma vez.
Montar.
Desmontar.
Se seu rosto granítico fosse acostumado a portar expressões, o homem sorriria. Mas isto era pedir demais de Jimmy McConnaughety Cuttlas, o tira mais durão de Los Angeles, nos últimos três anos patrulhando solitário a imensidão do Ártico.
Desmontar.

Ironicamente, Jimmy era o pequeno perdedor na escola, algo que ninguém poderia imaginar e se alguém eventualmente pudesse, bem, com certeza não teria uma vida muito longa.
Às vezes, na solidão do Ártico, nas longas noites que duravam meses, Jimmy se permitia lembrar o dia em que tudo começou.
Como quando o gordo Tob quebrou seus óculos com uma bolada certeira durante uma partida de caçador. Isso, somado aos insultos diários e ao fato de ter todas as suas figurinhas dos Menudos queimadas pelos colegas de escola, despertou em Jimmy uma fúria uterina, já latente em seus genes.
Naquele dia, sobre as cinzas queimadas de seu álbum de figurinhas, enquanto os restos das fotos de Robbie Rosa e Ricky Martin flutuavam ao seu redor, Jimmy ergueu o punho aos céus e fez um juramento:
Que a partir daquele dia… Nenhum meliante, vândalo, achacador ou criminoso, escaparia impune enquanto ele vivesse. Nenhum.
Feito isso, destruiu seus bonecos, arrancou pôsteres de Star Trek e Caverna do Dragão de seu quarto e durante os próximos 18 anos, Jimmy encarou o mais árduo treinamento que um ser humano pôde suportar, sempre temperado por uma vontade férrea e um ódio frio a queimar como fogo brando em seu interior.
Aos 12 anos, era boina-verde, aos 14, serviu no exército israelense, aos 15, virou guerrilheiro palestino, aos 16, era o atacante absoluto do time da escola, famoso e imbatível por quebrar a defesa e os pescoços dos adversários aplicando golpes de krav maga neles.
Porém, na vida tudo tem um preço. Com tanta preparação física e o tempo e dedicação que isso exigia, suas notas despencaram vertiginosamente. Então, Jimmy surrou o diretor da escola com um taco de baseball e uma galinha morta garantindo assim um diploma aos 18 anos com honra ao mérito, sem repetir matéria alguma nunca mais.
Foi então que começou sua lendária carreira na polícia de Los Angeles.

Caminhou com dificuldade no nada branco, em direção à única cabina telefônica existente no local. A porta rangeu em protesto enquanto abria, derrubando montículos de neve em seus pés, retirou as luvas e discou com dificuldade utilizando os dedos dormentes. Enquanto a ligação se completava, montou e desmontou a arma mais três vezes nos nove segundos seguintes.
Uma voz se fez ouvir do outro lado da linha.
– Alaska Communications, boa tarde.
Fechou os olhos, apoiou-se contra o vidro e desejou com todas suas forças, que desta vez desse certo. Retirou do casaco e folheou seu caderninho de endereços, quantos casos ali presentes ele já não havia resolvido?
– Poderia por favor me ligar com Pablo Maroto? 5555.3458, Los Angeles, Califórnia?
– Um minuto, senhor.
A chamada demorou mais vinte segundos para se completar, nesse meio tempo, Jimmy aproveitou para ver sua respiração congelar contra o vidro da cabina e montar e desmontar sua arma mais sete vezes.
– Alô? – uma voz com forte sotaque portenho se fez ouvir do outro lado da péssima conexão. Fora, o vento zunia, ensurdecedor, para melhor ouvir, Cuttlas enfiou um dos dedos dentro do seu ouvido.
– Alô? Pablo?
– Si, quien habla?
– Un amigo Pablito. Escutcha, continuas traficando?
– E quíem puede querer saber?
– Un amigo, un amigo, Pablito, escuta, tengo uma dica quiente para ustéd, quentíssima, uma nueva rota totalmente segura. To-tal-mien-te.
O silêncio imperava do outro lado da linha. Jimmy podia ouvir a respiração. Ele iria topar, sabia que iria. Prosseguiu, como um vendedor de carros usados, como um agente imobiliário prestes a vender a casa dos seus sonhos.
– Alaska, Pablito mi querido, Alaska. Esta é la rueta ideal pára usted, meridíano 358, totalmente segura y… alô? Pablito?
Olhou o telefone incrédulo. Ele havia desligado.
Suspirou no ar gelado, devagar tornou a colocar o telefone no gancho e vestiu as luvas, saindo então a derrapar no chão branco. Falhou, é verdade, mas pelo menos ele tentara.
Sim senhor.
Os sinais não mentiam, iria ser mais um dia chato na interminável planície branca.

Para distrair um pouco, passou a meia hora seguinte atirando em garrafas de cerveja congeladas. Às vezes, para dar um pouco mais de graça, costumava desenhar pequenos rostos sorridentes nos cascos, às vezes costumava até mesmo a dar nomes a elas.
Passou a abandonar esta prática quando percebeu que a cada três garrafas, uma acabava sendo batizada de Tob.

O tempo não respeitava as leis da física no Ártico.
Lá todos os dias passavam inexoravelmente devagar.

Sua única e eventual companhia era Nanook, um baixinho e insondável esquimó que morava em uma tenda feita de madeira, pele de urso e gelo, situada a uns 500 passos da rude cabana de Cuttlas.
Lembrou-se do fracasso em ensinar Nanook a jogar baseball, aparentemente o esquimó, cumprindo seu fadário de esquimó, só se interessava em pescar peixes e conversar com as focas.
Sobre o que eles falavam, ou se as focas sequer entendiam Nanook, Cuttlas nunca soube. Mas podia jurar que eles riam dele quando ele passava.
Malditos esquimós, malditas focas.
Em Los Angeles as coisas eram bem diferentes.
Lá ninguém ria dele.

Ao longe, Nanook avançava pela neve indiferente, mancando levemente e carregando dois peixes dentro de seu balde congelado. Pelo visto, havia sido boa a pescaria.
Nanook, com seu barco forrado de pele de foca e suas centenas de palavras para a cor branca.
Cuttlas guardou a arma no coldre, e apontou o facho de sua lanterna para o rosto do pequeno homem. Ele apenas acenou em resposta, simpático, cerrando os olhos puxados.
– Alto! – berrou Cuttlas se aproximando. – Averiguação padrão!
De lanterna em punho, pediu para examinar as botas dele, afinal, nunca se sabe. Ele poderia esconder crack ali dentro, alguma faca ou até mesmo uma evidência de algum crime brutal. Nanook, solícito como quem nasceu para isto, depositou o balde no chão, descalçou as botas e as passou para Jimmy, que as averiguou com o cuidado exemplar de sempre.
Era um pequeno ritual, um hábito entre ambos.
Não encontrou nada comprometedor ali.
– Tudo certo, pode passar.
Nanook sorriu seu sorriso desdentado, calçou as botas, apanhou seu balde de peixes e seguiu.
Jimmy ficou o observando até ele entrar na sua tenda.
Alisava a culatra do revólver sem perceber. As mãos agindo por automatismo.
Relembrou mentalmente: deveria redobrar seus esforços em aprender a língua de Nanook, poderia ser útil caso fosse necessário interrogá-lo, tanto como acusado ou como testemunha.
Suspirou e perdeu 30 minutos olhando para o mar congelado. O dia que era como todos os dias custava a passar.
Em Los Angeles as coisas eram bem diferentes.

Em Los Angeles Jimmy Cuttlas desbaratava quadrilhas, desmontava células terroristas e desmembrava eventuais psicopatas em menos de 24 horas, em Los Angeles, nenhum dia era como o outro para o melhor policial da cidade.
Em Los Angeles Jimmy saia constantemente com estrelas de cinema e todos os filmes de ação, desde Bradock- Super Comando, passando por Comando Para Matar, Inferno Vermelho e Máquina Mortífera eram biografias suas disfarçadas.
Até Mad Max também foi inspirado em um trecho de sua vida, quando Cuttlas ainda era policial rodoviário, mas Jimmy não gostou do resultado original e exigiu que os produtores modificassem o resultado final. Coisa que eles acataram sem discutir.
O que estaria fazendo Nanook a estas horas?
Comendo seus malditos peixes crus, Cuttlas apostaria sua bola esquerda congelada como era isso.
Peixes crus.
Como Cuttlas os detestava.
Tanto como os garotos da escola.
E o maldito gordo Tob.
Por algum motivo qualquer, sempre se lembrava dele, quando estava fuzilando meliantes com sua Desert Eagle, houvera muitos colegas pentelhos, mas o rosto que surgia sempre era do gordo Tob.
Ele soube depois que o ele se casara e tinha uma oficina mecânica decadente no sul da Califórnia.
Sempre pensou em conhecer o sul da Califórnia e lhe fazer uma visita, para conversarem, beberem algumas cervejas e relembrarem os velhos tempos.
E depois, quem sabe, fazer alguns joguinhos instrutivos, utilizando uma Baretta, uma barra de ferro e uns alicates.
Mas o maldito serviço nunca deixou tempo para ele tirar férias.
Era difícil ser o melhor tira da Califórnia.

Ficou jogando cartas sozinho por mais um tempo, outro hábito que adquirira para espantar a modorra dos dias, enquanto lá fora seguia o inverno eterno. Eventualmente espiava pela janela Nanook cozinhar seus peixes.
Um pouco mais e ele iria pegar um fígado cru para comer, malditos esquimós com seus hábitos alienígenas. Maldita força policial invejosa.
Malditos coleguinhas de aula.
Acompanhando o repentino impulso, calçou suas botas, apanhou os dardos esparramados por sobre a mesa, bebeu rápido um último gole de café, abriu a porta e avançou escorregando pela neve gélida.
– Nanook.- gritou contra o vento.
Enfurnado em sua tenda, iluminado pela lamparina de óleo de foca e abaixo do crânio de um urso polar, a única peça de decoração ali, ele sorriu seu sorriso desdentado e alcançou o peixe que estava comendo para Cuttlas, que, por sua vez, o recusou.
O nativo deu de ombros, ajeitou o grosso casaco e seguiu comendo.
Cuttlas esperou até ele parar de mastigar, para ter de novo sua atenção. Gesticulou com os dardos.
– Nanook, quer fazer algo divertido? Atirar dardos em mim, como o pessoal da delegacia fazia? Algo para passar o tempo?
Dito isto, cravou o dardo na própria pele para efeito de demonstração, Cuttlas tinha uma resistência impressionante à dor, costumava servir de alvo para distrair os colegas.
Nanook sorriu de novo seu sorriso desdentado e esticou novamente o peixe para ele.
Novamente Cuttlas o recusou, suspirou e foi embora dali.
Nanook deu outra mordida.
O esquimó era outro inútil, Cuttlas voltou para seu casebre de madeira. Ficou contemplando a neve, frustrado. Havia tentado ensinar Nanook a atirar com sua pistola, mas nem isso ele se interessara em aprender.
Tinha esperanças que algum dia Nanook atirasse em alguém e isso lhe desse algum caso para resolver, mas óbvio, isto não ocorrera.
E os dias seguiram se passando em tédio gelado.
Esquimó burro.
Porque as coisas tinham que ocorrer assim?
O que fizera Cuttlas de errado além de fazer seu serviço bem demais?

“Bem Cuttlas, tendo em vista a sua excelente folha de serviços, em comemoração ao milésimo caso solucionado, andei conversando com os rapazes do departamento e resolvemos lhe promover. Uma… mudança de ares, um lugar onde um rapaz que nem você, que persegue uma criminalidade zero se sentirá em casa.”
“Parece ótimo senhor, o que o senhor quer dizer com… mudança de ares?”
“Você vai ser transferido para o Alaska, filho.”
O pessoal do departamento deu uma festa quando ele foi embora. Bando de cretinos. Bando de incompetentes.
Nenhum deles se comparava a Cuttlas. Nenhum.

Observou de novo Nanook pela janela, na esperança de que talvez desta vez ele tivesse fazendo algo errado, ocultando algum cadáver na neve, ou quiçá vendendo crack para algum pingüim.
Não estava, pacato, o esquimó comia despreocupadamente seu peixe.
Cuttlas apertou suas mãos até os nós dos dedos estalarem. Sem perceber, automático, montou e desmontou a arma mais uma vez.
Nanook deu outra mordida no peixe, sorrindo satisfeito consigo próprio.
Cuttlas gastou mais 15 minutos jogando dardos contra a parede e mais 48 lendo pela 47ª vez a única edição da revista Life que trouxera para o Ártico.
Olhava pela janela de novo. O esquimó acenou para ele.
Cuttlas piscou, focando melhor a visão.
E não é que em alguns momentos Nanook até lhe lembrava muito o gordo Tob?

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Categorias:Entretenimento
  1. 08/09/2011 às 22:11

    Cara, muito bom.
    O grande e lendário policial anos oitenta solitário no Ártico, tendo que conviver com Nanook, um esquimó.
    O final então é ainda maio.
    “E não é que em alguns momentos Nanook até lhe lembrava muito o gordo Tob?”
    Pobre Nanook.
    hahahahah
    .Muito dez.

  2. Jacques
    09/09/2011 às 11:23

    Muito bom, Ochôa.
    Me lembrou uma crônica do Veríssimo chamada “O Diário Sentimental de Rambo”, só que muito melhor.
    Numa sociedade onde ou você é o cara que tem um carro e uma casa gigante, ou você é taxado de “loser”, não é toa que malucos destes apareçam volta e meia na vida real..

  3. Fábio
    19/09/2011 às 22:14

    Muito bom mesmo, bem divertido o polícial sequelado.

  4. Duda Ribeiro
    06/02/2012 às 23:08

    bem bolado, fábio!
    dalhe

  5. Fábio Ochôa
    07/02/2012 às 09:09

    Valeu Duda! Obrigado pela visita 🙂

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