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Pequeno Guiazinho de Quadrinhos Fantástico Cenário – parte 07

31. Preacher

 

 

 

Preacher é uma daquelas coisas que faz pensar como o preconceito com quadrinhos é uma bosta.

Se fosse feito em qualquer outra mídia, cinema, TV, o que fosse, a série de Garth Ennis e Steve Dillon seria um divisor de águas, porém, foi parar no velho gueto dos quadrinhos, pouco lido, pouco divulgado e adquirindo uma fama cult com o passar do tempo.

A vantagem de trabalhar em uma mídia pequena é poder experimentar sem censura e (já que a obra fala dele) Deus sabe como a dupla de irlandeses usou e abusou deste direito na série.

Ela é um dos casos raros de obra que envelhece bem, arrisco dizer que é até melhor de ler hoje em dia do que quando foi publicado.

Preacher narra a saga de Jesse Custer um pastor em busca de Deus, e quando  digo em busca de Deus, digo literalmente, uma vez que ele descobriu que este abandonou o paraíso, deixando a criação ao léu e decidiu vagar pela Terra sem se preocupar com mais nada.

Ao todo nas 66 edições Custer cruza seu caminho com vampiros, psicopatas, santos, assassinos e tudo que a imaginação escatológica de Ennis consegue imaginar, com momentos de terror arrepiantes, momentos de humor espetacularmente incorretos, momentos ternos e de drama honesto.

A grosso modo – e à sua maneira ímpar e grosseira – Preacher é uma saga épica de amizade, honra e responsabilidade, é um épico torto de John Ford, desde, claro, que Ford tocasse em assuntos religiosos e tivesse uma imaginação tão sacana quanto Ennis.

Imagine um seriado que fosse dirigido ao mesmo tempo por John Ford, Sérgio Leone, Sam Peckinpah e Quentin Tarantino para ter uma idéia, aí vai chegar bem perto do que é a série.

Ao contrário do superestimado Sandman, que já está em sua décima-nona reedição, esta sim merecia um relançamento decente.

Eu compraria e acho que não seria o único.

 

32. Supremo

 

 

Provando que não existe personagem ruim, apenas personagem mal-escrito, em 1997 Alan Moore surpreendeu muita gente escrevendo um personagem que não passava de uma cópia mal-feita (e aliás, muito mal-feita) do Superman, criada pelo, ahan, “gênio” de Rob Liefeld.

Se você não conhece Liefeld, acredite, acho que isso aqui diz tudo sobre ele: http://grotesqueanatomy.blogspot.com/2004/05/now-thats-grotesque-anatomy.html

Supremo do Alan Moore é uma homenagem metalingüística às próprias histórias de quadrinhos e sua evolução, refletindo sobre o gênero nos anos 50 até os 90, sem nunca abdicar da diversão, assumindo claramente que o personagem é um plágio do Superman e fazendo, por tabela, as melhores histórias que Superman nunca teve.

Pausa para recuperar o fôlego após este parágrafo.

A lamentar apenas a série de desenhistas majoritariamente péssimos que série teve, enfim, anos 90, vocês sabem.

Não se pode ter tudo.

 

33. Maus

 

 

Uma das HQs mais fortes e pungentes já feitas, Maus – a História de um Sobrevivente, conta a trajetória da família do autor, Art Spielgelman, descendente de judeus alemães, sendo um forte relato em primeira pessoa da ascensão do nazismo.

A metáfora utilizada na história é ótima, com ratos como judeus e gatos como os nazistas, além de um registro histórico, o roteiro amplia seu foco, mostrando a complicada relação de Art com seu pai, um sobrevivente mesquinho e repleto de manias insuportáveis.

A sinceridade de Spielgelman incomoda, e bastante, inclusive na figura e no modo – não isento de ressentimento- como ele retrata o próprio pai.

Incomoda também por que em muitos aspectos é impossível não se ver nele ou em seu pai.

Tudo isto temperado por momentos de horror brutal, narrado de maneira direta, sem sentimentalismos de qualquer espécie.

Fez escola, Daniel Clowes e suas crônicas diárias, Joe Sacco e seus diários de guerra, ambos devem muito à sinceridade brutal de Spielgeman que -embora seja injusto este tipo de comparação- nunca fez, antes ou depois, nada que chegasse perto em qualidade desta obra emblemática.

 

34. A Morte de Groo

 

Vamos admitir os fatos,  o mexicano Sérgio Aragonês é um dos gênios subestimados do mundo.

E deste os tempos da MAD ele faz parte da infância da gente.

E Groo- o Errante é provavelmente sua obra-prima, uma sátira de Conan, repleto de piadas engraçadíssimas e confusões tresloucadas

A graphic novel A Morte de Groo é o melhor cartão de entrada no universo do bárbaro desmiolado e louco por queijo derretido, entre por sua conta e risco, vai ser difícil largar.

A série piora bastante com o tempo, devido ao excesso de repetição nas piadas e o desgaste que isso provoca, mas quer saber? No fundo é sempre ótimo de ler.

 

35. Promethea

 

 

 

Na sua linha ABC, Alan Moore, notório praticante de magia na vida real, resolveu criar Promethea, a heroína que é uma história viva.

 

Embora comece como uma HQ de super-heróis tradicional, não demora muito para descambar para um quê de pesquisa esotérica, se tornando uma obra que unifica todos os segmentos e simbolismos da magia, cabala, mitos antigos, religiões pagãs, cristãs, pia da cozinha e o diabo à quatro, ressaltando os pontos de origem, ramificação e unificação de todos os mitos e religiões e provando por A mais B que no fim das contas todas são uma coisa só.

Ou pelo menos foi isso que entendi ao longo das 32 edições.

 

Às vezes cansativa de ler, é também um exercício de linguagem e uma corrida intelectual sem par, incluindo no pacote edições que podem ser desmembradas e lidas em qualquer ordem sem perder o significado e uma visão bem mais lúcida sobre o significado original da palavra apocalipse.

 

Os acadêmicos de plantão vão ter orgasmos lendo.

Eu suei.

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  1. Jacques
    12/09/2011 às 13:24

    Acho que preconceito é o melhor termo pra descrever o descaso com que tratam a hq Preacher no Brasil, Ochôa.
    É uma história de amizade, amor e superação regada com uma violência surreal.
    A cena em que Cassidy tenta se despedir dos amigos (com quem ele passou 20 anos bebendo) e não consegue é de dar um aperto no coração.
    E os especiais também são ótimos, Sangue e Whiskey deve ser a hq de vampiros mais engraçada que eu já li até hoje.
    Supremo é tudo aquilo que o Super-Homem poderia ser e não é (e nos desenhos, só se salva Rick Veitch, que ilustrou as histórias retrô).
    Maus eu ainda não li, mas sei que é uma hq excelente.
    A Morte de Groo eu comprei daquela forma bizarra que ás vezes ocorria na década de 90: o gibi ficava esquecido na banca, e, com uma megainflação, ele se desvalorizava absurdamente em questão de poucos meses e você acabava pagando o que hoje seriam alguns centavos por ele (Hellraiser eu também comprei dessa forma).
    Promethea eu li algumas poucas histórias, mas sei que é uma hq obrigatória.

  2. Fábio Ochôa
    12/09/2011 às 15:13

    Cara, sangue & whisky saiu em uma época que todo mundo jogava Vampiro a Máscara, o que deixou a história mais engraçada ainda e elegeu Garth Ennis de vez como um dos meus ídolos.
    No Supremo também tem as primeiras colaborações do Moore com o Chris Sprouse, o que deu um pouco de dignidade à série, mas foram poucas edições.

    Me lembro que comprei aquela mini horrorosa, Nick Fury vs Shield raso de barato nestes esquemas de superinflação. Acho que paguei o que seria tipo, uns 1,38 pela série inteira.
    Ah, good times.

  3. 12/09/2011 às 17:26

    A visão de um vampiro bêbado andando pelos EUA em uma caminhonete vermelha, dormindo sob um cobertor marrom velho desbotado é pra lá de divertida e legal, fugindo de todos os estereótipos chatos de vampiros afetados da máscara. Agora, quando Garth Ennis decidiu ridicularizar abertamente os rpgistas de plantão, temos um dos mais divertidos clássicos das hqs de todos os tempos.
    Sobre Supremos, é literalmente uma homenagem ao Super Homem como ele poderia ser, cheia de referências clássicas e meta linguagem. Particularmente eu ainda me surpreendo com a qualidade e a versalidade do Moore.
    Groo é divertido, Maus e Promethea são falhas nas leituras, mas a última eu já baixei, a espera de tempo para ler.

    PS: bons tempos de inflação? minhas lembranças são péssimas, se bem que não era eu quem pagava pelas revistas mesmos.

  4. Fábio Ochôa
    12/09/2011 às 18:06

    Hmmm, é, esquece os bons tempos.
    Bobagem dita sem pensar.

    Conde Eccarius, melhor personagem de todos os tempos.

  5. 12/09/2011 às 19:40

    sangue & whisky muito bom, blá, blá, blá…
    Concordo com tudo, não vou repetir o que todo mundo já disse!
    Preacher é uma das minhas HQs favoritas. E tá mesmo precisando de uma reedição…. Precisando MESMO!

    Supremo? Hum? Hein? Super-man?! Rob Liefield?!?! Ah, por favor! Isso não tem como prestar!

    Maus é um saaaaco. Mais uma visão dos judeus coitadinhos sendo trucidados pelos nazistas bicho-papão. TODAS as histórias que tem judeus falam sobre a mesma coisa! Porra, sério, vão falar em algo de bom, pelamordedeus!

    Groo. Hehe. He.

    Promethea fala sobre todas as coisas lindas e mágicas desse nosso mundão de feiticeiros, bruxos, magos e adoradores do demônio e ao mesmo tempo não fala de nada. É uma pitura abstrata numa galeria de arte clássica. E é chato.
    Não sei o que tu quis dizer com “acadêmicos de plantão”, mas acho que as pessoas que estudam ocultismo vão ter a mesma opinião que eu sobre Promethea: É um amontoado de bobagens mal costurado no meio de um roteiro induzido por ingestão massiça de drogas psicotrópicas.

    • 12/09/2011 às 22:44

      O que são acadêmicos de plantão?
      Médicos?
      Acadêmicos chapados com drogas psicotrópicas?

      O que tu quis dizer com isso não tem como prestar? Estás querendo dizer que Rob Liefield é ruim? (heheh).

    • Fábio Ochôa
      13/09/2011 às 10:16

      Domênico, Liefeld é bom até quando é ruim.
      O que quer dizer sempre.

      • 13/09/2011 às 11:53

        Ah tá.
        É que nem o Conan (palavras de Domênico. “É bom até quando é ruim”).
        hahahahaha

  6. 14/09/2011 às 14:24

    Opa! Conan É bom até quando é ruim! Não me venham com história!

  1. 12/09/2011 às 14:28
  2. 09/05/2012 às 21:08

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