Início > Pessoal > Diálogos probabilisticamente possíveis – Maldito vizinho

Diálogos probabilisticamente possíveis – Maldito vizinho

Em uma noite tediosa, Dr. Manhattan olha pela janela de seu apartamento (que fica em Manhattan) e, num impetuoso acesso de indiferença, resolve desligar todas as luzes da rua à sua frente. Alguns segundos depois, ele ouve um grito vindo da rua:

 

– AAAAAHHHHHH! MINHA PERNA! Roubaram a minha perna! E ela ainda nem foi paga…

 

Assustado e repentinamente ciente das consequências de sua insensatez, ele faz a luz retornar – e evita usar a expressão “Faça-se a luz!”, não por humildade, mas sim, para evitar comparações. Porém, novamente assolado pela onipotência inerente à sua natureza, resolve fazer o planeta desaparecer. A se ver sozinho, vagando sem rumo em meio a uma miríade incontável de estrelas contidas em um universo teoricamente infindável, um único pensamento se forma sua mente:

 

– Acho que vou vomitar.

 

Para evitar um possível constrangimento, o Dr. resolve trazer o planeta de volta e retorna ao seu apartamento. Só por diversão, ele o faz desaparecer e voltar mais algumas vezes. Quando estava se preparando para fazer isso de novo, é surpreendido por fortes batidas na porta. Aborrecido, ele pergunta:

 

– Quem é?

 

Uma voz desdenhosa responde:

 

– Aaahhh… Mas não é você o sujeito que sabe o Futuro não, hein?

 

Irritado, o Dr. abre a porta. Parado no corredor está um homem baixinho, narigudo e de meia idade, segurando uma toalha em uma das mãos. O alterado vizinho pergunta:

 

– Foi você, não foi?

 

– Fui eu o quê, verme humano?

 

– Humano não, hein? Olha como fala! Foi você que fez esse negócio do planeta ficar indo e vindo, feito banda de heavy metal oitentista que já deu o que tinha que dar e ainda não se tocou disso, não foi?

 

– Você já criou metáforas melhores anteriormente. Bons tempos. E sim, fui eu que fiz o planeta desaparecer e voltar algumas vezes. Algum problema nisso?

 

– Ah, eu sabia. E eu sou famoso, viu? Não tenho mais de ser engraçado. É que no momento em que estava fazendo esse negócio do planeta ir e vir, ir e vir…

 

– Sim?

 

– EU ESTAVA FAZENDO A BARBA! E me cortei todo! Olha só!

 

– Poxa. Mas que coincidência infeliz, não é mesmo?

 

– Sim, porque… Espere um pouco. Não é você que vive dizendo que não existem coincidências e que sabe o futuro já que o passado, presente e futuro são uma coisa só? Então já sabia que eu ia fazer a barba naquele instante e fez o que fez de propósito?

 

– Acha mesmo que eu faria o planeta desaparecer apenas para prejudicá-lo? Seu ego é maior do que o…

 

– Seu, Dr.? Sua indiferença com a raça humana é uma…

 

– Tragédia maior do que os seus últimos filmes? Viu como é bom interromper as frases alheias? He, he.

 

– Meus filmes tratam da fragilidade inerente à condição humana e da eterna busca à resposta da maior pergunta já feita pela humanidade.

 

– Hmm… Seria ela “Porque o cantor brasileiro Roberto Carlos nunca tira foto de bermuda?”…

 

– Nada disso, seu metido. Eu me refiro a “Qual o sentido da vida?”.

 

– Ela termina.

 

– O quê?

 

– A resposta é essa. A vida termina. Aproveite enquanto pode.

 

– Mas é só isso? Simples assim?

 

– Pra vocês… SIM! He, he. Isso é melhor que videogame.

 

– Aaahhhh… Se divertindo à custa do sofrimento alheio? Onde é que já se viu…

 

– Sim. O mesmo que você com o pessoal que assiste seus filmes! Há! Poxa vida. Eu vou ter um troço.

 

– Se você não tem sensibilidade suficiente para apreciá-los, azar o seu, Dr. . Pelo menos eu não fico fazendo bilhões de pessoas desaparecerem só por capricho.

 

– Bilhões, é? Tanto assim? Caramba.

 

– Você… Trouxe todo mundo de volta de… De onde foi que você mandou todo mundo mesmo?

 

– E eu sei lá, oras? Eu só desejo algo e as coisa acontecem. Como é que eu vou saber pra onde todo mundo foi? E, pensando bem, tinha gente demais mesmo. Olha só o Canadá. Os caras são tão chatos que até o Hugo Chaves evita entrar lá. E o Paquistão…

 

– O que é que tem o Paquistão?

 

– Tem um cheiro estranho.

 

– Mas… Mas…

 

– Tá bom, tá bom. Se quiser, eu crio uma cópia minha e a mando se teleportar pelo mundo inteiro pra ver se todo mundo voltou são e salvo, está bem assim?

 

– Está. Acho que isso seria o que se pode chamar de uma verdadeira… He, he… Auto-ajuda.

 

– Definitivamente, você já criou piadas melhores. Agora vá indo antes que eu resolva trocar sua capacidade cognitiva com a de um fã do Eminen.

 

– He, he. Você é muito engraçado, Dr. . E. Não está rindo. Bem… Eu… Vou indo… Até qualquer hora.

 

– Sim. Pode ir. E cuidado com a escada.

 

– Escada? Que escada? Qual escada? De que prédio? Me responda, seu…

 

O Dr. Manhattan fecha a porta e comenta:

 

– Esse Woody Allen é um chato.

Anúncios
  1. 19/09/2011 às 11:34

    Jacques, isso me fez lembrar, só um pouco, do Fausto Wolff em seu livro “Olympia”, onde este simpático planetinha é fonte de dores de cabeça para “uma galera muito doida” ( referência à Sessão da Tarde, narrador) que rege os destinos do Universo, só para não prolongar a “resenha” rs

    Ah, esse pessoal que fica aí perguntando “Qual o sentido da vida” tá bom de assistir Monthy Python, né? Vai ver encontrarão mais respostas do que em uma película dirigida por Woody Allen.

    Mas tá muito bom o texto. Me diverti com as referências ao Canadá – revelou ao mundo Brian Adams e Justin Biba, pra você ver o que o país produz! – e ao Paquistão – os paquistaneses não gostariam dessas linhas e ficariam ofendidos. E quando paquistaneses ficam ofendidos, o que eles fazem? Lembram que o país também tem bomba atômica – mas isso é coisa que já se compra até em supermercado hoje, né?

    Abraço!

    PS: e é bom saber que alguém mais conhece o grande Ambrose Bierce! 🙂

  2. 19/09/2011 às 12:03

    Valeu, santista safado (não esqueci aquele 3 x 3, não!).
    Com todo o respeito ao Canadá,mas ô paisinho bem chato, hein?
    Caraca.
    O Dr Manhattan é um personagem muito engraçado, já que ele pode fazer o que quiser e dar a desculpa do “eu fiz porque tinha de fazer”.
    O lance da escada, mesmo, ele falou só pra tirar sarro do vizinho (se bem que o título do post vale para ambos).
    Meu texto preferido dele ainda é este .http://fantasticocenario.com.br/2010/07/15/programa-do-jon/
    Do Ambrose Bierce eu li (e indiquei aqui http://fantasticocenario.com.br/2010/02/08/o-dicionario-do-diabo/) só o ótimo Dicionário do Diabo, onde ele detona tudo e todos sem se importar muito.
    Acho que muito da tradição stadunidense do stand up (que hoje em dia é um porre inenarrável) veio dos escritos mordazes deste incrível autor.
    Ouvi falar que é dele também a primeira história de ficção científica onde o tema principal é um robô antropomórfico, mas ainda não li.
    E de Groenlândia pra Grooeland é um salto gigantescamente pequeno.
    Fui no site do teu amigo Thiago, ele escreve muito bem.
    Abração.

    • 21/09/2011 às 22:12

      Jacques, andei procurando pelo “Dicionário do Diabo” em alguns sebos e não encontrei na ocasião. Mas em breve teremos mais uma Bienal do Livro aqui em Salvador e tenho esperança que o encontrarei – foi em uma bienal por aqui que encontrei “Visões da Noite”, uma coletânea de contos de Ambrose Bierce que muitos confundem com Pierce, o pai da semiótica – de forma surreal: no último dia, na “baciada” de uma editora/sebo pela bagatela de R$ 5,00! Pense num sujeito que achou um tesouro…

      Acho que parte destes stand ups que você citou vem também de Mark Twain, outro que sabia ser muito, mas muito sarcástico. E o pai desse povo todo, ao meu ver, é Samuel Johnson, um inglês famoso por sua ironia e sarcasmo devastador. Depois procure as máximas do Dr.Johnson – creio que a mais famosa é “patriotismo é o último refúgio dos canalhas”.

      Esse conto do Bierce que você se referiu pode ser encontrado facilmente no pocket book da L&PM “Histórias de Robôs volume 1” – é exatamente o primeiro conto. Não me lembro se neste livro tem algo do Karel Chapek, o primeiro a utilizar a palavra “robot”, mas vale muito a pena conhecer a obra deste escritor tcheco. Recomendo bastante!

      O Thiago escreve tão bem que um de seus contos já foi publicado em uma coletânea que premiava os melhores contos em um concurso literário no Rio de Janeiro. Eu encho a paciência dele para publicar um livro, mas ele desconversa rsrs

      Grande abraço!

      PS: Com Lourival Jr. no comando do Inter-RS, dê graças a Deus pelo 3 x 3 rsrs Se com um time com Neymar, Ganso (inteiro), Robinho, Arouca e André ele quase perdeu um título ganho, preparem-se…rs

      • Jacques
        21/09/2011 às 22:25

        Valeu pelas dicas, Jaime.
        Me lembrou que achei num sebo daqui O Nome da Rosa, capa dura da Editora Record, pelos emblemáticos 5 pilas.
        Eu já vi essa coletânea de histórias de robôs (e “robot” quer dizer “trabalhador” em húngaro, eu acho) nas livrarias, mas nunca a adquiri.
        O Tio Lourival ainda vai dar dor de cabeça em muita gente por aqui.
        Pode apostar o todos os títulos do Santos na Libertadores nisso…
        Abraço.

  3. Fábio
    19/09/2011 às 22:05

    hehehehehehhehe

    Divertido, mas ele devia ter sacaneado mais o Woody Allen.

    • Jacques
      19/09/2011 às 22:18

      Continuação, hein?
      Então vamos ver no que vai dar.
      Valeu.

  4. 19/09/2011 às 22:17

    Cara, muito bom.
    Ego maior do que do Woody Allen não tem em nosso mundinho real.
    Eu até gosto dos filmes mais antigos dele.
    Lembro de um (não sei o nome) em que ele fala com o Humphrey Bogart em sua imaginação, do tipo, como se o cara fosse seu conselheiro amoroso e tal.
    Agora, o teu diálogo do Dr Manhattan com ele é ainda melhor.
    Parabéns.

    • Jacques
      19/09/2011 às 22:23

      Pois é, Marco, eu não assisti a todos os filmes dele, mas os livros que eu li (Cuca Fundida e Sem Plumas, da L&Pm Pocket) dele são hilários, escritos na década de 60, antes de ele ser O Woody Allen.
      E a disputa de egos entre os dois é acirrada, se bem que o Dr. tem a desculpa da “visão quadridimensional” para fazer o que lhe der na telha.
      Inclusive sacanear os vizinhos.
      Até mais, Marco.

  5. Fábio Ochôa
    22/09/2011 às 17:13

    Muito bom. Jacques, tu tem uma obsessão pelo Manhattan. Já reparou?

  6. 23/09/2011 às 00:02

    Nada disso, é que ele é deidisticamente engraçado, manés.

  7. Fábio Ochôa
    26/09/2011 às 09:27

    E eu achando que era algum desejo incontido de fazer parte do Blue Man Group.

    • Jacques
      26/09/2011 às 20:12

      Nem me fale, Ochôa, detesto aqueles caras; você fica esperando que eles falem algo e eles não falam NADA!
      É irritante…

  1. No trackbacks yet.

O que você achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: