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Idade Média: Nem tão honrada ou das Trevas assim…

Como historiador e professor de história costumo me deparar constantemente com aquela vontade muito chata de desconstruir idéias pré-concebidas sobre alguns temas e períodos da história, ainda mais quando alguns amigos cultuam tais idéias veiculadas em filmes, livros e outras mídias.

Certamente que a Idade Média é um destes assuntos falados, descritos e comentados entre jovens que comumente jogam RPGs, games de PC e videogame, ou mesmo que escutam bandas de Heavy Metal, assistem a filmes de fantasia e degustam enlouquecidamente obras da literatura universal sobre o tema, desde os romances históricos de Bernard Cornwell ou mesmo mais fantasiosos ao estilo da tão cultuada trilogia, “Os Senhor dos Anéis”, de J R.R. Tolkien.

Lembro de uma conversa informal sobre a Idade Média com amigos há alguns anos, quando manifestações saudosistas foram desferidas em torno da guerra honrada medieval, da “peleia” olho no olho entre cavaleiros habilidosos no campo de batalha, muito diferente da guerra moderna, em que “o apertar” de um simples botão colocaria fim a um combate sem nem sequer haver troca de golpes entre os adversários de uma contenda.

O problema destas posições é que indiretamente demarcam uma construção um tanto fantasiosa sobre a guerra na Idade Média, desconsiderando que as batalhas eram muitas vezes lentas e sem quaisquer técnicas sofisticadas de combate corpo a corpo, na maioria das vezes empreendidas por armamentos de cerco, sem contato direto entre os adversários, com uma minoria de nobres suseranos e vassalos vergando armaduras pesadas e enferrujadas a ordenar do alto de seus cavalos uma maioria de servos ou vilões esfomeados, munidos apenas de ferramentas simples ou armamentos encontrados pelos campos afora, sequer armadurados ou descansados.

Nas palavras da historiadora Fátima Regina Fernandes, “camponeses que nem sequer dispunham de armamento, condições ou preparo militar para quaisquer batalhas”, somente a vontade de agradar seus senhores ou mesmo à Igreja Romana, que quando não incentivava a Guerra Santa contra povos considerados infiéis, tentava ordenar os conflitos por meio de torneios de justa e espada, em uma espécie de código de diplomacia utilizado para conter o ímpeto guerreiro de uma elite estamental que vivia do saque ou dos rituais de vassalagem para a aquisição de novos feudos para governar.

 

Também não quero, com tais posições, defender as teses Iluministas de Voltaire e outros sobre uma Idade Média das Trevas, destituída de razão, embebida pela fé cega, pela intolerância e na mais absoluta ignorância. Os importantes trabalhos de Jacques Lê Goff, talvez o mais reconhecido medievalista vivo, ou mesmo as obras de Marc Bloch e seus “Reis Taumaturgos”, já demonstraram o quanto a visão negativa sobre o período feudal não possuem qualquer sustentação, visto que muitas tecnologias e conquistas foram desta época histórica.

Hoje sabemos que a vida cotidiana nas cidades medievais não era somente permeada por doenças, trabalhos forçados e procissões de fanáticos religiosos, sobrando espaço sim para a diversão em meio as famosas feiras e trocas comerciais do porte daquelas encontradas em Flandres ou na Rota da Champagne francesa, até mesmo com muitos prostíbulos sendo permitidos pelos padres e abades locais, desde que pagando seus respectivos dízimos à Igreja e, obviamente, atuando na mais absoluta discrição.

Mesmo assim, esta Idade Média européia estava muito distante dos mundos de fantasia medieval encontrados nas mesas de jogadores de RPG mundo afora, obviamente que sem quaisquer dragões ou mortos vivos, fora no imaginário popular europeu, mas também com muitos poucos Paladinos honrados (nome dado aos cavaleiros de Carlos Magno) a procura de princesas virgens para salvar, tal como demonstrado nos famosos “Contos de Cavalaria” shakespearianos.

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  1. Fábio Ochôa
    22/09/2011 às 18:00

    Ainda me lembro a minha posição nesta discussão: “quanto mais longe eu estiver da pessoa que eu quero matar, melhor. É só apertar um botão? Melhor ainda”.

    • 22/09/2011 às 21:32

      Pois é.
      Na guerra, o cara que aperta o botão e está bem protegido tá em melhor posição do que o sujeito na frente de um exército, em uma planície gelada, armadurado ou não. Minha posição é igual a tua, se bem que prefiro não passar por guerras.

  2. Fábio
    29/09/2011 às 00:07

    O pessoal tem uma visão muito romantizada dos samurais também, o povo cai na idéia que eles eram honrados ao extremo, mas eram só mais um bando de mercenários que trocavam de lado até durante as batalhas.

    • 29/09/2011 às 07:57

      Essa é outra questão relevante.
      Alguns historiadores chamam de classe de samurais ou estamentos, também um segmento social da elite japonesa que se consolidou no período tokugawa. Surge então a compilação de uma espécie de código de conduta que seria parte de uma longa tradição oral de honra e vergonha dos samurais, o bushido. Nele estaria um ideal de conduta semelhante aquele apresentado nos contos de cavalaria medievais da Europa (Canção de Rolando, por exemplo, do século XII). Sabemos hoje que entre o cavaleiro real do cotidiano e o idealizado e entre o samurai do bushido e o samurai real, existe uma grande diferença. O direito do samurai de vida e morte sobre os camponeses e outros segmentos sociais e a forma brutal como tratavam a população em geral mostra que o bushido é mais um código de etiqueta e de conduta entre eles, uma regra de controle vinculada a centralização do poder do xogun (como também a exigência de viagem a Edo com sua família e serviçais uma vez por ano).

  1. 17/07/2012 às 08:22

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