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Da difícil vida de quem não gosta de futebol

Brasil, o país do futebol. Futebol, paixão nacional. Desde que nascemos escutamos essas frases, numa lavagem cerebral incansável e terrível. O futebol é uma febre, é nosso circo. Futebol controla as massas, fascina, apaixona. Há quem nunca disse “eu te amo” para os próprios pais, mas diz pro time do coração (aliás, o time é do coração, a família nunca sabe se também o é). Tem gente que vibra, se emociona, paga 20, 30 90 reais pra ver um jogo com 22 milionários chutando uma bola e se divertindo. Se o jogo vai mal, xingam, irritam-se, choram e brigam entre si.

Futebol é engraçado. Tudo é motivo de orgulho. Títulos centenários, gritos de torcida, mascotes intimidadores. Até as cores têm nomes pomposos: branco é alvi, preto é negro, azul é celeste, amarelo é áureo, vermelho é rubro, verde… glauco? Bem nem todas as core têm nome imponente, mas vale a intenção.

Futebol domina nossas vidas, faz parte do cotidiano. Futebol entra no nosso cérebro desde a hora que acordamos, até quando vamos dormir. Mas e quem não gosta de futebol? Tem lugar ao sol?

Esse é o meu dilema. Não gosto de futebol. Pronto, falei. Só que por mais simples que isso pareça, é complicada a vida dos não amantes desse esporte.

Acordo 7:20 de segunda a sábado. Nessa hora está dando jornal na tv, mas a probabilidade de pegar justamente o bloco com os gols da semana é altíssima. Ligo a tv e… Feitooo! Gols da rodada, cheio de comentários engraçados, comparações com animais engraçados, gols no ritmo das mais abomináveis músicas de neo-forró. Tranquilo. Nem queria ver jornal. Se não fosse futebol ia ser uma tragédia no trânsito, ou o “caos aéreo”, que aterroriza os brasileiros (alguém aí anda de avião?).

Tam alguém aí?!

Vou pro fórum trabalhar. Entro no elevador torcendo pra estar sozinho, mas não lá estão o segurança do saguão e o segurança do banco. Quando entro um já está fazendo chacota do time do outro.

– Bom dia. – entro e nem tiro os óculos escuros, torcendo que sejam os óculos da invisibilidade do filme O Paizão.

– Bom dia! Viu só meu timão ontem? Deu uma saranga naquele timeco. – diz um dos seguranças

– Timeco nada! Fomos campeões da América em 1930! – retruca o outro.

– Esse raio de elevador não vai mais rápido? – penso

– E tu Rafael? Pra que time torce?

– Eu? Ah, nem torço muito.

– Hahahaha! Já vi que é sofredor.

– Não! É sério! Não sou sofredor nenuhum!

– Então fala: pra que time torce? Todo mundo tem um time, oras! Só louco não tem time!

– Não sou louco! Eu torço sim! Torço pro… Pro… Vinte e Sete de Fevereiro…

– Vinte e Sete?! Que time é esse? De que divisão?

-Ah! Vai dizer que não conhece! Divisão? Bem… É da melhor divisão. É time de várzea. Não assisto a esse futebol burguês. Assisto futebol de várzea. O 27 é campeão da América Latina!

– Nossa! Deve ser bom esse 27. E passa onde esses jogos?

– Na tv… Naquele canal… Não lembro o nome… O 5, eu acho.

– Ah é, deve ser no 5. Acho que já vi um jogo desses.

Quarto andar. Me safei. Me safei da primeira hora da manhã, porque o dia nem começou. No gabinete os outros dois caras que trabalham comigo torcem pro mesmo time e ficam falando a manhã toda da estratégia, do técnico, das contratações, das lesões, de quem é canhoto, de quem está jogando na posição errada… Aliás, a única posição que conheço é em pé, dentro do campo. Quando eu jogava no colégio, a posição que a gente tinha que ficar era onde a bola estava. Era só correr atrás dela e chutar pro gol adversário. Parecia simples.

No colégio sempre tinha isso

Outro fato interessante é que todo brasileiro entende de estatística de futebol, mesmo que saia mal em matemática no colégio. No futebol é diferente, não parece matemática. É uma coisa que já nascemos sabendo. Vem grátis no nosso cérebro.

– Bah, nosso time tem 0,31% de chance de não ser rebaixado. É só todos os times empatarem nessa rodada e os 6 times da zona de rebaixamento perderem os próximos 4 jogos. – Diz um dos meus colegas num simples cálculo matemático.

Pra tentar interagir e não passar a manhã inteira mudo, lanço a piadinha:

– Tem a chance de os demais times desistirem do campeonato…

(Silêncio mortal)

– O time tá com 3 lesionados, 2 suspensos por cartão amarelo, trocou o técnico pela 5ª vez no mês, mas acho que a vinda do Wanderledson vai virar o jogo e trazer a gente pra cima da tabela.

– O que esse Wanderledson é? Mágico?

-Tchê, tu és louco? Não, já sei, é sofredor!

-Não! Não sou louco! Nem sofredor! Eu torço pro 27… Ah, deixa pra lá.

Coloco meus óculos escuros e volto a trabalhar em silêncio.

Ao meio dia, já em casa, gosto de almoçar vendo o Jornal do Almoço. Só que aqui em Pelotas ele está dividido em 2 seções: a local, de Pelotas e a estadual, de Porto Alegre. A seção de Pelotas é dividida em 3 blocos. O primeiro todinho é sobre o futebol local! 3ª, 4ª, 5ª divisão. Quantas divisões existem? Tem time pra tanta divisão ou pegam até time de colégio de ensino médio? Não tem o que se falar de times de divisões tão baixas então os repórteres ficam inventando notícia, entrevistando até o cara que corta a grama e o que cuida das galinhas. Sim! No estádio aqui perto de casa eles criam galinhas no gramado! E não é o 27 de Fevereiro!

Depois da seção local, vem a estadual, que sempre fala um pouco dos times do estado e da rodada do brasileirão. Às 13, antes de sair, se não trocar de canal rápido, outra enxurrada de futebol no programa de esporte”s”. Não seio porque o plural, se só se fala de um esporte. Aí que é pra detonar com o palhaço. Uma lavada de pseudo reportagens cômicas, com tudo que é tipo de trocadilho, comparação esdrúxula e efeitos sonoros e musicais que se pode imaginar. Aqui é que o cérebro pede pinico. É muita informação inútil, pelo menos pra quem não gosta de futebol. Jogador que vai, jogador que fica, técnico que é substituído, “show” de gols e de jogadas… Enfim, tudo sobre esporte”s”.

Alias, até propaganda de jogo é engraçada. Qualquer dois times que vão jogar é anunciado como clássico. “Não percam hoje, depois da novela das 9, o clássico Itapioquinha da Serra contra São Wenseslau do Sul”! E aí, quando o jogo começa, não importa quantos torcedores estejam no estádio, vem sempre uma gravação de uma baita duma torcida fazendo festa bem na hora que a transmissão começa. Tô falando sério! A torcida é gravada! Quando o narrador está dando as boas vindas, tem uma torcida de fundo que sempre grita algo tipo Uh-Tererê! É… Gravação do tempo do Uh-Tererê! Prestem atenção que vocês verão que tenho razão.

Por falar em clássico, ainda tem a balela da rivalidade, como Brasil e Argentina. Desde quando? Desde que a tv assim o quis! Pra dar mais notícia, precisamos de um inimigo nº 1. Não precisa ter fundamento, basta declarar guerra. A Argentina virou a maior rival do Brasil baseado em nada. A partir daí criaram 2 ícones: Pelé e Maradona e passaram a discutir quem era o melhor. Tipo briga de jardim de infância “meu pai bate no teu”.

Sempre tem um mais artista que o outro

Então já desisti de ver tv no almoço. Ouço música (qualquer uma, menos do Skank).

Na volta ao trabalho nem tiro os óculos. Melhor não interagir. Não conheço a linguagem e tenho medo de falar algo que ofenda.

18:30 saio do trabalho e chego na faculdade. Corro pra sala, pois sempre chego atrasado, mas quando entro na sala, tem meia dúzia de colegas.

– O que houve? Cadê todo mundo? – pegunto.

– Hoje é quarta. – Alguém me responde como se fizesse todo sentido do mundo.

– Sim, mas…

– Brasileirão, cara! Onde tu vive? Na Lua?

– Bem que eu gostaria…

– Se não está nem aí pra rodada, garanto que teu time ta pra ser rebaixado, né, sofr…

– Olha só: quando eu tiver usando esses óculos, não fala comigo!

Fim da aula, volto pra casa as 23:00. Janto e já nem penso em Assistir notícia. Como é quarta, tem comentário sobre futebol em todos os blocos dos jornais, nos intervalos dos demais programas e aí vai madrugada a dentro, com programas com vários velhos gordos comentando o que poderia ser feito pra que os times cariocas vencessem.

É por isso que acho difícil a vida de quem não gosta de futebol. Não entendo a vibração, a emoção, a rivalidade e as brigas pra defender algo que nem sabe que a gente existe, que não faz nada por nós e ganha demais pra muito pouca coisa.

Dalhe 27!

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  1. 27/09/2011 às 19:17

    Bacana o texto. Me identifiquei em muitas das situações que mencionaste. Futebol é o segundo assunto mais comentado pelas pessoas, só perdendo para o tempo. Minha técnica é dissimular e falar o óbvio, que na maioria das vezes funciona.

    • 28/09/2011 às 09:01

      Valeu Francis. Minha frase mais usada é: “um 1 a zero já está ótimo”

      • Fábio Ochôa
        28/09/2011 às 17:38

        Minha vida inteira escapei ileso disto.
        A cara entrega “não gosto de futebol”.

  2. Jacques
    27/09/2011 às 20:42

    No Brasil, futebol funciona como uma lavagem cerebral consentida e aprovada pelo Inmetro.
    Tanta coisa pra se preocupar e o pessoal fica perdendo o sono e a tranquilidade porque um bando de analfas que vai ter sorte se souber assinar o próprio nome fez ou deixou de fazer um ou mais gols.
    Futebol existe para que o Zé Ruela possa se achar o maioral e dono do mundo, pelo menos por alguns minutos diários.

    • 28/09/2011 às 09:03

      Política do pão e circo de toda eternidade. Enquanto tiver algo que distraia, nada nos afeta.

  3. 28/09/2011 às 09:51

    Eu não assisto TV – exceto madrugadões, onde geralmente pego uns filmes velhos e umas séries ruins, mas tá valendo! – e estudo no IAD, onde o povo simplesmente não tem capacidade física sequer pra jogar xadrez, que dirá pra futebol, então todos detestam esportes (e matemática… Enfim!). E eu trabalho em casa.

    Sim, eu sou abençoado! No país do futebol, eu simplesmente não tomo conhecimento do esporte!

    Claro, isso me aliena de muitas outras coisas, como política, por exemplo (o que não deixa de ser outra benção!), já que não vejo notícias nem na internet.

    E como meu círculo de amizades é composto basicamente por RPGistas, ex-nerds e CDFs, nem nos churrascos – que é solo fértil pro assunto – eu escuto muitos comentários sobre o esporte.

    • 28/09/2011 às 10:51

      Concordo contigo, Domênico. TV vicia. Eu toda hora assisto. Só que não se absorve nada de útil, nem mesmo em noticiário. É tudo tendencioso. Mas tenho uma aversão especial por futebol. Deve ser porque eu era sempre o goleiro, de tão ruim que eu era no colégio… hehehe.

  4. Fábio
    28/09/2011 às 23:50

    Meu caso é meio complicado, sou da área da atividade física, então não tem como fugir do assunto.

    Então nem tento disfarçar, digo logo que não gosto de futebol e ignoro a cara de descrença, seguida de desconfiança e pena que essa resposta causa nas pessoas.

  5. 29/09/2011 às 07:48

    Eu gosto de futebol e acho uma perda de tempo, porque cansei de agir como um idiota torcendo pelo meu time, que se ganha ou perde não muda nada na minha vida. Não vejo problema em comentar de vez em quando com gente que gosta (sim, a maioria dos comentários são senso comum, do tipo, “se ganha, empata ou perde”), mas acho que é um esporte realmente utilizado para desviar a população em geral de assuntos mais importantes que dizem respeito a nação e as suas vidas. No Brasil existe uma mística difundida pela imprensa e outros setores da sociedade, de que estamos no país do futebol, de que “todo” o brasileiro gosta e se identifica com o futebol (também com o carnaval), o que não é tanto assim. Existem amplos setores da classe média e até do povo mais pobre que não gosta e não liga para o futebol, mas é simplesmente ignorado. Legal o post.

  6. 29/09/2011 às 12:27

    Lembro que deixei de gostar de futebol ali pelos idos do fim da década de 80. Tenho um primo que joga (ou jogava) muita bola, grande amigo, brother. Mas o cara se transformava quando jogava futebol, ninguém aguentava…
    Então, teve aquela tradicional pelada e eu estava ali, piá ainda, ficamos em times diferentes, aquela rivalidade da infância.
    Meu time teve um contra-ataque (ainda existe isso?) e acabei fazendo um gol no time do meu primo. Nunca levei futebol muito a sério e devo ter feito alguma brincadeira a respeito e o negócio descambou para violência… Amizade desfeita, saldo muito negativo para uma pelada…
    É um exemplo microcosmo, mas essa paixão nacional, brigas entre torcedores, rivalidades, acho que acabaram fazendo com que eu me desgostasse do “espetáculo”.
    Hoje não sou imparcial e nem disfarço, se há futebol sou contra, digo que torço para Argentina, que o Maradona é melhor que o Pelé e azar…

  7. Cristiano Vicente da Rosa
    06/08/2013 às 17:52

    Nossa! É exatamente isso!

    Futebol uma vez em quatro anos dá pra aguentar na boa..

    Mas tá demais, é 24 horas direto.. o jornal do almoço por exemplo (novamente) é antes de um programa de esporte, e os mesmos caras que apresentam este programa aparecem no jornal pra falar a mesma prr. denovo…além disso, as rádios também estão impossíveis, todas aderiram, todas!

    Dá-lhe 27! hehe, fazer o que.. dose!

  8. Allef Raphael
    05/08/2014 às 13:04

    Resumindo: você não “odeia” futebol; só é traumatizado por causa dele.

  1. 11/03/2012 às 20:06
  2. 25/03/2012 às 15:46

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