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Uivo Sufocado

Fazia horas que estava para começar a trabalhar em um novo conto, talvez até uma pequena novela.

Ontem me empolguei um pouco e escrevi algumas páginas, a principio acho que algo entre um quarto e um terço do futuro volume total da obra.

Como não posso garantir quando vou conseguir escrever o resto resolvi já publicar essa primeira parte.

Ainda não bati o martelo em relação ao título, mas pretendo me resolver em breve.

Então sem mais delongas com vocês:

Uivo Sufocado

Quem eu sou?

Meu nome é Marcelo Ulv e sou, digamos assim, peculiar!

Entretanto até pouco tempo atrás era apenas mais um ninguém. Sempre fui muito retraído, além disso, as pessoas sempre tenderam a me ignorar, perdi a conta de quantas vezes esqueceram-se de contar comigo na escola, faculdade e trabalho, mesmo meus poucos amigos às vezes esqueciam-se de me convidar para as coisas.

Apesar do sobrenome norueguês, não era nenhum viking. De físico, estatura e aparência medianos, não me destacava por nada, nem positivamente nem negativamente. Os olhos e cabelo castanhos apenas contribuíam para meu o look indistinto.

Ainda que tivesse uma inteligência acima da média, ela nunca me serviu para muita coisa, pois me sentia sem jeito em demonstrá-la, principalmente por causa de minhas inseguranças, que aliás eram muitas.

Após me formar em História, um curso que gostei bastante, preferi um caminho mais seguro e me tornei funcionário público, um atendente do Tribunal Eleitoral.

Em relação aos meus hobbys e interesses, gostava de me classificar como um “geek ninja”, um nerd que ninguém sabe que é nerd. Um apreciador solitário de fantasia e ficção, tanto ocidental, como oriental.

Escondido no meu computador enquanto outros teriam pornografia, sempre tive livros de RPG, contos e novelas; animes e desenhos americanos dos anos 80; além de filmes como Rambo, Drácula, Robin Hood e Bladerunner.

Ok, eu admito. Também coleciono muita pornografia.

Raramente uma mulher parecia notar minha existência e acabei casando com a primeira que fez isso com um pouco de entusiasmo, minha querida Débora. Dediquei dez anos da minha vida a ela e acreditei que fosse recíproco, entretanto tendo sido sempre um pessimista não posso dizer que realmente fiquei supresso quando descobri que ela é uma cadela.

Sempre resisti à idéia de ter filhos e não me permitia perceber o porquê, hoje fica claro que era por medo deles herdarem minha incapacidade, apesar de Débora estar quase me convencendo a isso, felizmente não chegamos a tê-los.

Já com quarenta anos nas costas não acreditava mais que alguma coisa pudesse mudar, não era realmente infeliz, mas também não podia dizer o contrário, estava de certa forma em paz com minha sina, talvez por passar a maior parte dos meus ociosos dias de trabalho perdido em sonhos e na internet. Foi no primeiro outono após completar quatro décadas de vida que as coisas mudaram.

E tudo começou com mais um sonho.

O sonho

Foi um devaneio bastante peculiar, mesmo para os meus padrões e olha que isso quer dizer muito. O que minha vida tinha de maçante, meus sonhos tinham de mágicos e dinâmicos.

Esse foi diferente desde o inicio, pois foi um daqueles raros sonhos lúcidos, que algumas pessoas têm de vez em quando. Ainda na minha adolescência, depois do meu primeiro, pesquisei sobre o assunto e sempre tentei ter outros, fiz um diário de sonhos e muitas vezes mentalizava que ia tê-los antes de ir dormir.

Raramente essas coisas funcionavam, devo ter tido uma meia dúzia deles, mas quando acontecia era ótimo, ainda que infelizmente acabassem muito rápido.

Dessa vez assim que me dei conta que estava sonhando comecei a tirar o máximo proveito, encontrei e fiz sexo com as mulheres mais lindas que conhecia, visitei os mais belos locais turísticos do mundo e espanquei muita, mas MUITA gente, que me encheu a paciência durante a vida. E fui de um momento para outro voando!

Eventualmente percebi algo que parecia me escapar ao controle, por mais que mudasse de cena, logo sempre cai à noite e uma enorme lua cheia tomava o céu, apesar de ficar um pouco curioso não me importei muito, aquela lua me causava uma grande sensação de satisfação.

No devaneio vi uma grande coruja me olhando fixamente, achei-a um animal magnífico e quando ela decolou resolvi segui-la, em meio ao vôo achei que seria divertido tomar a forma de uma ave e me transformei também num estrigídeo, é difícil descrever a sensação, mas senti um formigamento nos ossos que se alteravam, a carne se ajustando a nova forma, penas surgindo pelos meus poros e os sentidos mudando.

Tudo isso foi de certa maneira familiar e me senti ótimo, logo mudei para um falcão; em seguida mergulhei em um lago e me tornei um peixe; depois um sapo para sair da água; na margem assumi o aspecto de um jaguar e cacei pela floresta, descobrindo o sabor da carne de coelho.

Olhei para alto e lá estava à lua, decidi mudar para lobo e uivar para ela, mas nada aconteceu, ainda era um jaguar, tentei outra vez e nada, fiquei com medo de estar perdendo o controle do sonho, pensei em um leão e me tornei um, novamente mentalizei o lobo e nada.

Isso começou a me irritar, de novo e de novo tentei a metamorfose sem sucesso, aos poucos fui percebendo uma sensação nova, demorei a entender o que era, mas tinha memória de algo parecido.

Após mais algumas tentativas a sensação ficou forte o suficiente para eu reconhecer, era semelhante a quando tive que usar uma liga de neoprene, após uma lesão no joelho. Era como se toda a minha pele fosse uma roupa de mergulho e quando eu tentava virar lobo ela ficava mais apertada.

Acho que não preciso dizer como isso me deixou ansioso, pensei: – Que merda é essa? – e acordei.

As noites seguintes

Mantive a memória desse sonho bem clara na minha mente e a noite assim que adormeci lá estava eu em pé, naquela mesma floresta, com aquela mesma lua sobre minha cabeça e novamente consciente.

Tentei a transformação novamente, podia assumir qualquer outra forma, mas a de lobo não era possível e agora a sensação de que minha epiderme era um tipo de roupa emborrachada era mais clara, a ansiedade voltou com muita força e experimentei puxar a pele das costas de minha mão esquerda com força.

Senti dor!

Pela primeira vez em um sonho senti dor.

Não

a mesma que se sente quando se leva um beliscão, foi uma sensação semelhante à de se puxar uma bandagem que colou em um machucado.

Isso me deixou meio atônito por um momento, então a ansiedade atingiu um patamar que nunca experimentei em toda a minha vida e puxei mais e mais, a dor foi me deixando furioso, então senti um descolamento e acordei.

Aquela noite não consegui dormir mais.

Anoiteceu mais uma vez e novamente o devaneio me levou ao mesmo local, com a mesma lua, imediatamente examinei minha mão esquerda, no meio das costas dela um ponto estava diferente, obviamente solto da carne, mas não estava dolorido.

Outra vez comecei a puxar até descolar um pouco de tecido e acordar.

Na noite seguinte a guerra continuou. Dessa vez estava completamente possesso de raiva e descolei pedaços de epiderme em várias partes do corpo, mas por mais que puxasse ela nunca rasgava. Em certo momento a frustração foi tanta que gritei tão alto e tão forte, que não reconheci minha voz e acordei.

Como nas noites anteriores não fui capaz de dormir mais, entretanto desta vez não consegui permanecer deitado, de tão aflito tive que levantar e ficar andando pela casa, porém só me acalmei quando fui para a sacada do apartamento e fiquei olhando a lua que estava a caminho da fase minguante.

Como estava sendo o padrão, o quinto sonho foi mais intenso que os anteriores e quando acordei nem mesmo a sacada foi capaz de me acalmar, tive que sair caminhando pela rua.

Não parece muito, mas até então sempre havia tido muito receio de andar a noite, só que naquele momento era um alívio.

Apesar das noites mal dormidas, meus dias ainda estavam praticamente normais, estava só um pouco irritado, Débora reparou meu humor e perguntou o que estava acontecendo, disse que não estava dormindo bem e ela respondeu que nuca me viu dormir mais imóvel, só reparou algum movimento quando eu levantei nas ultimas duas madrugadas.

Ponto de ruptura

Na sexta noite, pelo que pareceram horas, puxei com as duas mãos a pele do meu peito enquanto urrava de dor e frustração, então ouvi um forte som semelhante a tecido rasgando. Olhei para o peito e vi um rasgo de uns dez centímetros por onde saia um tufo de cabelos brancos, semelhante a pêlo de cachorro.

Acordei em pé ao lado da cama.

Sai de casa com a cabeça fervendo, era muito nerd para não saber o que estava acontecendo e muito cético para acreditar, o mais provável é que estava enlouquecendo.

Andei muito e me embrenhei em uma parte bem ruim da cidade, meus pensamentos estavam frenéticos e não prestava atenção ao meu redor.

O inevitável logo aconteceu e quatro marginais me abordaram.

– Passa o dinheiro e o celular magrão. – disse um deles.

Só então me dei conta que estava cercado, olhei para o que tinha falado, era o mais alto, um alemão meio gordo, com os olhos injetados e cabelo sujo.

– Passa o dinheiro e o celular magrão. – repetiu.

Minha resposta foi um grito e um soco que pegou em cheio no queixo dele, ouvi ossos quebrando, como em câmera lenta vi um dos dentes do desgraçado saltar longe.

– FILHO DA PUTA. – berrou o mulato que estava ao lado dele, antes de me dar um mata cobra no rosto.

Gritei outra vez, mais por raiva que por dor, com todos os abusos que sofri na vida correndo em frente aos meus olhos, o puxei pela camiseta e lhe acertei uma cabeçada no nariz, antes que alguém me puxa-se ainda dei outra nos dentes do infeliz.

Os dois restantes que tinham cabelo escuro e pele clara, provavelmente irmãos a julgar pelas feições semelhantes, pularam para cima de mim, um deles me puxou para longe do mulato, enquanto o outro tentou me esfaquear, segurei o canivete pela lâmina e sangue escorreu pelos meus dedos, ele me olhou nos olhos e seja o que for que viu, fez com que soltasse a faca e saísse correndo.

Então ouvi um estampido alto ao mesmo tempo em que senti um forte impacto no peito, toda força me abandonou, senti que me largaram, cai para frente e bati o rosto com força no chão, não ouvi mais nada, mas vi uma poça de sangue escorrendo debaixo de mim antes de desmaiar.

Acordei engasgando e tossindo, por instantes esqueci tudo, me concentrei apenas em conseguir voltar a respirar e colocar para fora o que estava fechando minha garganta, depois de cinco arfadas vomitei, ouvi um tilintar no concreto da calçada, olhei e vi um pedaço deformado de metal em meio ao miojo que havia jantado algumas horas antes.

Lembrei tudo que tinha acontecido, o corte na mão não sangrava mais e tateando meu peito achei uma ferida feia, porém não fatal, pequei o pedaço de chumbo do meio da massa e fui para casa. Tomei um banho, fotografei os machucados, deitei e dormi profundamente pela primeira vez em quase uma semana.

Após uma boa noite de sono

Quando acordei Débora já havia saído, sentia-me muito bem, as feridas estavam menores, as fotografei outra vez.

Ao longo do dia no trabalho, mostrei o pedaço de metal para alguns colegas que entendem de armas, me disseram que era de um projétil de revolver .38. Para outros mostrei as fotos de supostos machucados antigos, a maioria chutou que havia umas duas ou três semanas entre um conjunto e outro. Pelo meio do expediente já estava quase convencido de que não estava pirando.

Percebi outros indícios de mudança após dar uma cochilada depois do almoço, em uma das minhas companheiras de trabalho senti um odor de sangue pela altura do quadril quando ela passou caminhando ao lado de onde estava sentado. Outra com quem cruzei no corredor emanou um cheiro sutil, mas que me fez passar o resto da tarde lembrando e tendo ereções. Também percebi que dois colegas muito conservadores e um tanto homofóbicos passaram a hora do almoço afogando o ganso um do outro.

Apesar de ficar bastante animado com essas curiosidades, passei boa parte do tempo um tanto confuso e enjoado com esses novos odores. Minha audição também estava alterada, em certos momentos ela ficou tão aguçada que parecia que meu crânio ia rachar ao meio pelo barulho do transito fora do prédio.

Por sorte nenhum incidente maior ocorreu ao longo do expediente.

A verdade sobre alguém próximo

– Querida cheguei! – fazia anos que não usava essa frase ao entrar em casa, mas hoje era um dia especial.

– Oi amor. Que bom que está de bom humor outra vez – sorriu ao me dizer isso.

Avancei para beijá-la, essa noite queria fazê-la agradecer aos deuses por ter casado comigo. Mas ao aproximar meus lábios dos dela senti um cheiro, que antes seria imperceptível, vindo de sua boca, os pelos da minha nuca se eriçaram, meu corpo ficou tenso, involuntariamente farejei os lábios entreabertos.

– O que foi? – Débora recuou um pouco com uma feição interrogativa no rosto.

Por alguns segundo fiquei ali, apenas olhando ela de cima a baixo e farejando o ar. Fui percebendo aos poucos odores que sentimos o tempo todo e nem nós damos conta, mas que agora eu reconhecia. Mesmo após o banho e sob o perfume do sabonete e do xampu, ainda estava lá claramente para meus novos sentidos, o cheiro de sexo e de outro homem no corpo dela.

– O que foi Marcelo? Tu estás bem? – a expressão de preocupação na face dela era genuína enquanto questionava meu comportamento bizarro.

– Quem é o cara? – acredito que pareci calmo ao falar e me afastei.

– Que cara?

– O cara com quem você transou essa tarde.

– Tá maluco? Não fala bobagem. – havia um tom de indignação na voz dela e balançou levemente a cabeça, em uma atitude de quem ouviu bobagem.

– Quem é o filho da puta que passou à tarde fudendo tua buceta e tua boca. – dessa vez falei baixo e sério, olhando ela firme nos olhos.

Em resposta ela gritou – DESGRAÇADO! FICOU LOUCO DE VEZ? É MELHOR ME PEDIR DESCULPAS RAPIDINHO ANTES QUE EU FIQUE REALMENTE BRAVA!

Nesse momento estávamos a uns três metros um do outro, com a mesa da cozinha entre nós. Quando ela terminou a frase avancei literalmente jogando a mesa para o lado e agarrei o pescoço dela com as duas mãos, voltei a mim antes de começar a apertar, mas meu corpo todo tremia, meu nariz quase tocava o dela e encarei-a nos olhos mais profundamente do que nunca.

Um forte odor brotou dela, medo, provavelmente mais medo do que jamais havia sentido na vida.

– Não mente para mim. – sussurrei.

– O nome dele é Gus-gus-tavo. – pela primeira vez a vi gaguejar, o receio se estampando no rosto enquanto falava. – Colega de trabalho.

– Há quanto tempo?

– Seis meses.

– Foi o primeiro?

Ela arregalou os olhos.

– Quantos nesses dez anos?

Ela tentou olhar para o lado, soltei um ruído semelhante a um rosnado.

Débora engoliu em seco e respondeu. – Seis.

Soltei seu pescoço, virei de costas e enquanto me afastava continuei – Por quê?

– Há? – foi tudo que disse enquanto tentava se recompor.

– Por que, você me traiu com seis homens ao longo do nosso casamento? Eu não sou um bom marido? Sou tão ruim assim de cama? Sempre achei que conseguia ti satisfazer.

– Não é isso, de todos, só o segundo foi melhor de cama que tu. – não precisei olhar para ela para saber que era sincero, agora conseguia identificar sutilizas no cheiro e na voz dela que me mostravam claramente a verdade.

– Então sou uma merda de marido.

– Não. Também não é isso.

Olhei para ela enquanto me apoiei no encosto de uma cadeira. – Então?

– Não sei, eles eram atraentes e deram em cima de mim.

– Bem mais atraentes que eu.

Débora não respondeu, mas os odores e a linguagem corporal confirmaram.

– Durante dez anos fui fiel. Existem muitas mulheres muito mais atraentes que tu, mas eu fui sempre fiel. Se tu queria liberdade podia ter me falado, sabes que não sou ciumento, toparia um casamento aberto.

Acho que orgulho dela finalmente conseguiu superar o medo porque a resposta foi: – Até parece que alguma delas ia olhar para ti.

Eu estava um pouco mais relaxado, mas ao ouvir isso fiquei tenso outra vez e esfacelei o encosto da cadeira com as mãos. O odor de medo vindo dela me atingiu outra vez, agora com um pouco de urina misturado.

Caminhei lentamente na sua direção, ela recuou até encostar-se na parede, mas não conseguiu falar nada. – A gente vai se divorciar. Vou ti deixar o apartamento e o carro, mas você não vai pedir mais nada e nunca mais vai falar comigo. Ou eu juro que vais desejar ter morrido agora.

A única resposta de Débora foi arregalar ainda mais os olhos e engolir em seco.

Virei às costas novamente, coloquei numa mochila meus documentos, algumas mudas de roupas e meu notebook, sai pela porta e nunca mais voltei.

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