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Uivo Sufocado – Parte 2

Dando continuidade no meu conto iniciado aqui, vamos a mais um trecho da saga de Marcelo Ulv.

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O velho novo lar

Quando deixei o apartamento que até então havia chamado de meu já tinha destino definido, a velha casa dos meus pais.

Minha mãe que se chamava Elisabete e foi professora de matemática quase a vida toda, chegou a ser considerada uma solteirona, mas aos trinta anos para alívio dos meus avôs maternos ela finalmente se casou.

O homem de sorte foi Carlos, um pedreiro e padeiro de 53 anos, também conhecido como meu pai.

Aparentemente eu não estava muito disposto a vir ao mundo, eles tentaram ter filhos por cinco anos até que conseguiram me convencer a colaborar.

Nossa casa foi construída pelo meu velho, ao longo dos dois primeiros anos deles juntos. Meu pai sempre morou em chalés, foi minha mãe que teve que fazer ele, um pedreiro, tomar vergonha na cara e construir uma residência de alvenaria.

É uma bela casa de dois quartos, bastante sólida e segura, cercada por um muro alto, originalmente era circundada por campos, mas com o passar dos anos eles foram sendo loteados, dando origem a um bairro que atualmente pode ser considerado de classe média.

Após a morte dos meus genitores mantive a casa, Débora vivia me enchendo o saco para vendê-la ou pelo menos alugá-la, entretanto sempre enrolei e há mantive fechada, exceto pelas minhas visitas quinzenais para limpeza.

Talvez porque em algum nível quisesse a garantia de ter um refúgio seguro ao alcance, ou simplesmente por puro apego.

Caminhei os 12 quilometros até meu velho novo lar e passei o resto da noite limpando e organizando as coisas, até então a casa era praticamente um depósito, guardando todos os bens que foram de meus pais e toda tralha que acumulei ao longo dos anos.

Só que naquela noite como estava particularmente desapegado, separei tudo que não era realmente importante, útil ou que me divertisse. O que não tinha um valor razoável foi fora, os catadores de lixo que passaram por lá no dia seguinte receberam um belo presente de natal adiantado. O resto vendi para uma loja de móveis usados e para um ferro velho antes de ir para o trabalho.

Uma aventura sobre rodas

Na manhã seguinte mesmo depois de apenas três horas de sono e da correria para negociar minhas velharias antes que me arrependesse, fui para o trabalho bastante animado, pedalando minha antiga bicicleta.

Foi muito agradável e relembrei o quanto gostava de pedalar na juventude, como a magrela estava em péssimo estado na hora do almoço fui até uma loja de ciclismo, tive que me apreçar, pois por algum motivo misterioso as melhores bicicletarias ficam longe do centro.

Depois de uma década economizando e praticamente só comprando coisas para o “lar”, meus instintos consumistas a muito suprimidos acabaram se rebelando. A velha Caloi ficou por lá mesmo e sai pedalando uma mountain bike importada tão cara quanto uma moto, além de levar dois uniformes de ciclista completos.

Passei a tarde olhando vídeos de MTB no youtube, depois do expediente passei em casa, troquei de roupa e me larguei rodando para a colônia.

Foram quase seis horas percorrendo estradas de chão e trilhas em morros ao redor da cidade, nem os cinco tombos que levei me desanimaram e a bicicleta provou ser capaz de aquentar o tranco, entretanto devo admitir que fiquei bem chateado por ter arranhado a pintura.

Três deles foram leves, pequenos descuidos; os outros dois por outro lado acabaram sendo mais dramáticos, no primeiro despenquei uns dois metros barranco abaixo, por sorte a bike não me acompanhou, já no segundo fui projetado para frente e rolei ladeira a baixo depois de travar as rodas para evitar um buraco. Nessa brincadeira toda tive apenas ferimentos leves, algumas contusões e principalmente abrasões

A noite entrou e ainda pretendia pedalar mais, porém mudei meus planos quando ao passar na estrada em frente a um sítio, um pastor alemão veio correndo em minha direção, ele latia muito e parecia determinado a atacar, fiquei com medo, pulei da bicicleta e coloquei-a entre mim e o animal.

O cachorro ficou latindo e me circulando, até que avançou e chegou a morder meu quadro de carbono, puxei a bike com força, ele soltou e voltou a latir, quando vi os arranhões que ficaram na pintura a raiva superou o medo.

– CALA BOCA CACHORRO DESGRAÇADO! – gritei encarando ele.

Imediatamente o bicho ficou imóvel e me olhou nos olhos, para em seguida literalmente enfiar o rabo entre as pernas e sair fugindo e ganindo.

Por um segundo fiquei surpreso, entretanto as memórias dos últimos dias me vieram à cabeça, olhei para a lua minguante no céu e voltei para a cidade pensando no pavor do pastor alemão.

Medo que o cão furioso sentiu de mim.

E imaginar o que ele deve ter percebido no meu interior me assustou.

Preparativos para a lua cheia

Existem muitas variações para o mito do lobisomem, na maioria a chegada da lua cheia é um péssimo sinal.

Depois da euforia inicial com as coisas que estavam me acontecendo passar, fiquei muito preocupado com o que estava por vir e comecei a tomar medidas para o caso do pior se concretizar.

Primeiro reuni todas as ferramentas que encontrei e no sábado seguinte fui às compras, voltei para casa com seis pedaços de cinco metros cada, da corrente mais resistente que encontrei; dez cadeados bem reforçados, metade deles com combinação; um espelho para me ver mudando e para o caso de perder a consciência uma filmadora para documentar a ocasião.

Sim, pensei muito nisso, na verdade durante dias todos os meus pensamentos se voltaram para o que iria acontecer na lua cheia, que embora pudesse ser muito bom, tinha muito mais chance de ser horrível.

Continuei com os passeios pela colônia, entretanto com um objetivo definido, encontrar uma casa abandonada e isolada, mas com uma estrutura robusta. Acabei descobrindo há quatro quilômetros da rodovia um casarão abandonado em relativamente bom estado, com um porão bem reforçado, cujo cheiro me mostrou que havia sido usado como adega.

Ainda que não tão isolado quanto gostaria, pois mesmo não tendo vizinhos muito próximos, sua localização entre uma autoestrada e uma pedreira resultava em um bom movimento na rua que passa em frente à propriedade, ele foi o escolhido.

Aos poucos, tomando o máximo cuidado para não ser visto entrando e saindo do meu covil, como passei a chamá-lo carinhosamente, levei todo o material que pude para lá e realizei uma pequena reforma, fixando os grilhões o mais firmemente possível nos pilares e vigas do porão.

Reforcei tudo que deu a porta do cômodo e cavei um buraco bem fundo em um canto dentro do alcance de minhas amarras após abrir os cadeados com combinação, onde só passava meu braço bem apertado para guardar as chaves das trancas restantes.

Garanti iluminação com algumas luzes de emergência carregadas e montei a câmera de vídeo em um tripé ao lado do espelho, bem fora do alcance das correntes.

Conforme as semanas foram passando fui ficando mais nervoso com a situação, entretanto reparei que no geral meu humor melhorou, fiquei um pouco mais confiante e agitado, como mostram as palavras de um colega de escritório. – Que qui ti deu? Ficasse hiperativo do nada!

No dia fatídico sai mais cedo da repartição e pedalei para o covil levando em uma mochila velha um pedaço enorme de carne, para no caso de acabar virando um monstro homicida canibal, tentar dar uma apaziguada na fome da fera.

Depois de disfarçar que batia umas fotos da paisagem, para deixar uns moradores da região que estavam passando perto da entrada do terreno quando chequei se afastarem, entrei no casarão e me tranquei na antiga adega.

Ainda cedo tirei toda a roupa, liguei as luzes e a filmadora, e me acorrentei, depois de prender as trancas normais, guardei suas chaves no buraco da parede e então travei os cadeados de combinação.

Fixei uma corrente ao redor de cada tornozelo e pulso, mais uma na cintura e outra no pescoço, nas duas primeiras usei cadeados normais e nas restantes as trancas de combinação, duas delas nos grilhões ao redor da garganta.

Tive o cuidado de deixar a corrente do pescoço um pouco folgada para não acabar me estrangulando caso mudasse muito de tamanho.

Com tudo no lugar, sentei no chão e esperei…

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