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Uivo Sufocado – Parte 3

Recomendo que antes leia a parte 1 e a parte 2.

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Lua cheia

Era meio do outono e por volta das seis horas o sol se pôs, mesmo trancando no subterrâneo percebi claramente o momento, de um instante para o outro fiquei mais desperto e energizado, como se tivesse despertado após uma boa noite de sono.

Conforme o tempo foi passando apesar de muito assustado com o que estava para ocorrer, fui ficando mais eufórico, cheguei a me ver assobiando e rindo sozinho em alguns momentos.

Era uma noite um pouco fria em um porão úmido, entretanto senti muito calor, provavelmente estava ardendo em febre, pouco depois das dez da noite houve uma alteração na minha condição, parei de sentir qualquer perturbação com a temperatura e fiquei extremamente calmo, minha vida inteira foi passando pela minha mente, como as águas de um riacho tranquilo.

No dia seguinte quando examinei a gravação não me surpreendi ao constatar que esse estado zen se estendeu até a meia-noite.

Quando as proverbiais doze badaladas soaram uma dor maior do que jamais imaginei me atingiu, primeiro foi como se minha pele entrasse em chamas e quase imediatamente esse fogo tomasse cada músculo, cada osso, cada tecido do meu corpo.

Enquanto me debatia como se estivesse tendo um ataque epilético, gritei tanto que rasguei os cantos da boca e perdi a voz. Agonizei mudo por alguns instantes e comecei a sangrar pelo nariz, boca, olhos e outros orifícios. Comecei a engasgar com o sangue até que uma onda de vomito que levou boa parte do que comi no dia para fora, desobstruiu a passagem de ar.

Respirei fundo meia dúzia de vezes até sentir a carne das pontas dos meus dedos rasgando, olhei horrorizado para as mãos só para ver os ossos alongados de meus dedos começarem a ser recobertos por carne, entretanto cerrei os olhos quando a mesma sensação de carne se rompendo envolveu meus rosto.

Em toda parte os ossos estavam se alterando dolorosamente, como se estivessem sendo quebrados em inúmeros pedaços, em algumas áreas do corpo eles se expandiram rasgando músculos e órgãos adjacentes, para logo em seguida esses tecidos se ajustarem as novas configurações do meu corpo. Acredito que em condições normais ninguém conseguiria se manter consciente sentindo tanta dor.

Forcei-me a olhar para o espelho e assisti enquanto minha mandíbula terminava de se estender para fora da face. A carne se movia também, ainda que de forma mais lenta, foi se expandindo e regenerando para cobrir o que agora só podia ser chamado de focinho. O nariz se integrou a expansão do maxilar e sua ponta ficou preta como nos canídeos.

Os ossos dos meus pés foram os que mais se alongaram, praticamente dobrando de tamanho e também tendo sua forma ajustada, quando foram recobertos por pele já eram patas, inclusive perdi o mindinho no processo.

Pelo meio da metamorfose, além de toda a dor, fui tomado por um formigamento semelhante àquele que às vezes o crescimento da barba provoca, só que espalhada por toda a epiderme, enquanto ela foi sendo recoberta por pêlos brancos, densos e macios.

Levantei do chão e enquanto a agonia aliviava, vi no espelho um ser coberto por uma abundante pelagem alva; quinze centímetros mais alto que eu; uns vinte quilos de músculos mais pesado; com patas de canídeo; braços longo terminados em grandes mãos, contendo dedos com garras afiadas; e cabeça lupina, portanto um longo focinho preenchido por presas afiadas.

Ainda vislumbrei meus olhos castanhos se tornarem azuis e minhas orelhas terminarem de se alongar. Mas antes da dor sumir por completo, tomou nova força conforme veio outra onda de mudanças.

Enquanto deixei essa forma hibrida e assumi as vestes de um lobo das neves, as alterações e a agonia dessa vez foram menos agressivas. Mal esse estágio terminou e retornei a forma de lobo-humano, para meu alívio com quase nenhum desconforto, pois agora os diversos tecidos do meu corpo pareceram mudar em sincronia.

Durante todo o procedimento mantive algum grau de raciocínio e com o fim da transformação pude pensar claramente, de todas as minhas amarras apenas a corrente do pescoço se manteve do lugar, as outras simplesmente escorregaram fora durante minhas mudanças.

Segurei um dos cadeados e puxei testando sua resistência, o arranquei fora com pouco esforço, em seguida fiz o mesmo com o outro. Segui então examinando minha nova aparência no espelho e me apalpando, mas logo deixei isso de lado, ansiava ver a lua e correr pela noite. As trancas da porta também não representaram um empecilho e logo subi até o terraço do cassarão.

Ao ver a lua cheia alta no céu um uivo brotou de minha garganta, primeiro tímido e entrecortado, como se estivesse sufocado em meu peito há muito tempo e conforme ele foi se tornando mais continuo e poderoso fui tomado por uma satisfação incrível.

Nunca havia visto a lua tão claramente, por vários momentos ela englobou todo o meu campo de visão, fiquei encantado com sua infinidade de detalhes, cuja grande maioria até então jamais havia percebido.

Entrei em uma espécie de transe e nesse estado alterado de consciência imagens tomaram minha mente.

Caminhei entre homens das cavernas, quando um tigre dentes de sabres nos atacou, alguns morreram até que me transformei e pulei sobre a fera.

Em seguida sacerdotes gregos realizavam uma cerimônia em homenagem a lua, eu era um deles, todos viramos lobos e partimos para a caçada sagrada.

Então fazia parte de um grupo de bárbaros germânicos que encarava uma centúria romana, assumimos a forma de homens-lobo e avançamos para a batalha, do lado deles alguns tinham presas e olhos vermelhos que brilhavam na escuridão da noite.

Logo após fui um lobo correndo pelas montanhas do Japão em meio a raposas de várias caldas.

No próximo momento avistei uma aldeia de indígenas norte-americanos, comecei a me aproximei dela sobre quatro patas, troquei para duas e em seguida para dois pés.

Entre cavaleiros ingleses chequei a um círculo de pedras, palavras ancestrais foram proferidas, fazendo com que o centro do círculo se iluminasse, nobres de rosto belo e orelhas pontudas vieram dessa luz. Por causa das notícias que receberam se juntaram aos cavaleiros e um castelo foi destruído naquela noite, atacado por um pelotão de lobisomens trajando armaduras e um exército formado por criaturas vindas dos sonhos e pesadelos.

Minha ultima visão foi claramente durante a segunda guerra mundial, em meio a nazistas estraçalhados, mortos-vivos e metamorfos travavam sua própria guerra, para proteger um velho amigo fui morto por seu rival deformado.

Voltei ao tempo presente sem entender o que aconteceu, mas não importava naquele momento, tinha necessidades mais urgentes. Saltei facilmente os oito metros que me separavam do chão e corri para as árvores.

Apenas nesse momento reparei como meus sentidos se desenvolveram, enxergava perfeita e claramente no meio ao mato fechado mesmo em plena madrugada.

Com um mínimo de atenção podia ouvir os animais e insetos próximos, por alguns instantes fechei os olhos e me concentrei apenas em escutar, até mesmo o cair das folhas no solo chegou aos meus ouvidos.

Entretanto foram os odores que mais me impressionaram, já estava começando a me acostumar a sentir muitos cheiros fora do alcance dos outros humanos, mas nunca em tão grande variedade e alcance, senti entre muitos outros o odor de pessoas dormindo aproximadamente a dois quilômetros dali, ovelhas a três, rosas a quase cinco e até mesmo o de cerveja velha no chão de um boteco das imediações.

O cheiro de gado a quatro quilômetros de distância me atraiu diretamente para um sítio próximo, pelo meio da mata corri para lá e não devo ter levado mais que cinco minutos para chegar. Escalei rápida e facilmente uma grande figueira e de sua copa observei os animais por alguns minutos, avistei uma vaca mais afastada das outras, desci da árvore e me aproximei do meu alvo lenta e furtivamente, tomando o cuidado de ir contra o vento.

Depois de me posicionar o mais próximo possível e de saborear um pouco a antecipação da matança, saltei sete metros dos arbustos onde me escondia até o lado do bovino e antes que o animal percebesse o que ocorreu lhe puxei por um dos chifres, enquanto ela caia mordi ferozmente seu pescoço e enterrei minha mão livre em seu tórax até alcançar o coração e arrancá-lo para fora! Quando a vaca atingiu o chão já estava morta.

O sabor metálico do sangue preencheu minha boca e não pude conter um arrepio de satisfação, abocanhei um naco do lombo dela e comi com mais gosto do que se após uma semana passando fome tivessem me servido uma bela e bem temperada picanha assada.

Meia dúzia de vira-latas aproximaram-se latindo, fiquei em pé e os encarei com o peito estufado e o pelo eriçado. Frente ao meu rosnado ficaram quietos e baixaram as orelhas, em seguida foram se aproximando devagar e rastejando, depois de comer mais um pouco dividi minha caça com eles.

Quando fiquei satisfeito assumi a forma de lobo e voltei calmamente para o covil. Uma vez lá dentro, me coloquei em frente ao espelho, retornando aos poucos a uma ensangüentada forma humana.

Olhando com calma percebi quatro estágios em minha metamorfose, começando pelo estado quadrúpede em que estava no momento; de lupino passei para o aspecto do lobo-humano, o hibrido que primeiro me tornei nessa noite; em seguida veio à aparência quase humana do lobisomem clássico da Warner, o homem-lobo; por fim reassumi o manto da humanidade e tive uma surpresa.

Já sabia muito bem que nunca mais seria o mesmo, entretanto não havia imaginado que mesmo minha forma original seria alterada.

Sorri.

To be continued…

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