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X-Men: algumas considerações sobre os mutantes da Marvel da época Claremont-Byrne…

É preciso de saída esclarecer que desde os meus sete ou oito anos de idade, acompanhei o título (ou títulos) dos mutantes da Marvel, parando de ler suas aventuras por volta do início dos anos 2000, por motivos que em nada se relacionam com qualquer posição saudosista do tipo, “antigamente, as histórias eram bem melhores do que as de hoje”.

Isso significa afirmar e obviamente reconhecer que estou bastante desatualizado sobre os X-Men nos quadrinhos, acompanhando-os somente no cinema ou releituras ocasionais de histórias antigas, clássicas ou até, alguns especiais.

Então porque este post?

Decidi escrever algumas considerações sobre os X-Mens por dois motivos:

Em primeiro lugar, porque dentre todos os títulos de HQs de Super-Heróis mensais, sejam da DC, Marvel ou outro universo, os X-Men foram por muito tempo meus personagens prediletos. Lembro, inclusive de erroneamente defender o grupo mutante por volta dos anos 90, em uma discussão com meu amigo Fábio Ôchoa, quando as histórias do grupo, escritas na época por Scott Lobdell não passavam de lamúrias novelescas aos estilo mexicano, daquelas monstruosidades que passam no SBT às 15 horas da tarde.

Em segundo lugar, porque a pouco tempo peguei emprestado três edições especiais publicadas pela Mythos Editora sobre os X-Men, contendo o arco de histórias da dupla Cris Claremont e John Byrne (início dos anos 80), considerada por muitos (também por mim), como uma das melhores fases do grupo mutante, o que  acaba sendo um parâmetro de comparação para tudo aquilo que foi produzido posteriormente sobre os mutantes, principalmente nos anos 90, quando eles se tornaram campeões em vendas da Marvel e assumiram meio que o papel de “carro chefe” da editora.

Capa da primeira Edição História dos X-Men, publicada em 2001 pela Mythos Editora.

Já esclareço aos novos fãs e aficionados, uma característica destas histórias de Claremont-Byrne. A simplicidade das aventuras, a ausência de qualquer pretensão épica em relação aos mutantes e a uma “pseudo grande guerra” contra os humanos, raramente mencionada neste momento. As histórias são fechadas, com a presença usual de algum supervilão clássico ou até mesmo criado na época (do porte de Mesmero, Fanático, Magneto, Arcade, Proteus), seguidas do velho tom maniqueísta das HQs de super heróis mensais, o que em nada desqualifica as mesmas.

Isso porque Claremont e Byrne colocam elementos importantes no grupo mutante, aquilo que se tornaria sua marca registrada, a saber, a interação muitas vezes conflituosa entre as personagens, o tom psicológico mais acentuado e as questões e divergências morais entre seus membros, normalmente mais velhos do que aqueles do grupo original.

Assim, os chamados novos X-Men, unidos pela dupla Claremont-Byrne contavam com personagens hoje clássicos, tais como Ciclope, Jean Grey (logo transformada em Fênix), Tempestade, Wolverine, Noturno, Colossus e Banshee. Era um grupo heterogêneo, com personagens de outros países e continentes (Wolverine do Canadá, Tempestade da África, Colossus da URSS e Noturno da Alemanha, Banshee da Irlanda), cada qual com uma cultura diferente (as vezes mencionada) e certamente, personalidades distintas.

Ao contrário do que ocorre hoje, com o conceito de “Wolverine e seus amiguinhos”, inclusive no cinema, não havia nenhum personagem protagonista, nenhuma importância dada a algum deles em detrimento dos demais. Idiotices como o triangulo amoroso Ciclope-Jean-Logan também não existiam, visto que para Jean, não havia dúvidas sobre seus sentimentos por Scott, no máximo algumas menções que aos poucos foram sendo inseridas, sobre algum tipo de atração física entre ela e Wolverine. Aliás, esse era literalmente o “chatinho” do grupo, meio “turrão”, “do contra”, mulherengo, sem frescuras do tipo “sou um animal ou um humano?”, as vezes até sendo bastante inconveniente e apanhando por pura idiotice (sim, Wolverine não era invencível, apenas “cantava de galo” para intimidar seus adversários, possuindo consciência de suas limitações).

Em uma luta entre ele e James Hudson (Arma Alfa ou Guardião da Tropa Alfa), nosso amigo Logan literalmente leva uma “sova” e antes de desmaiar com um golpe do outro, afirma, “Xará, cê esqueceu com quem tá falando! Por mais porrada que eu leve, tô sempre de pé”, enquanto isso, Logan pensava, “cara, aquele murro quase me arrancou a cabeça. Não vou ficar de pé no próximo”. Em outra história em que os X-Men enfrentam o Clube do Inferno (na famosa transformação da Fênix em Fênix Negra), nosso querido “Wolvie” simplesmente apanha até desmaiar para três soldados “capengas” do Círculo Interno do Clube do Inferno (munidos de tacos da baseball), para depois acordar e libertar a turma toda.

Em outras palavras, esse papo de fã anos 90 de um Wolverine invencível, não fazia parte do “metier” do personagem, nem dos X-Men. O legal do Logan não era o fato de ser o “cara invencível da porrada do grupo”, mas sim o ” sujeitinho balaca” questionador, munido de impulsividade e sanguinolência típica do anti-herói, que na época era novidade.

Isso me leva a oura personagem, tão descaracterizada ao longo do tempo, não somente pelos escritores e roteiristas, mas também pelos leitores: Ciclope. Esses dias eu li uma opinião do tipo, “Ciclope e Wolverine eram os pólos opostos dos X-Men, o primeiro, o escoteiro certinho do Professor X, o segundo, um profissional da porrada, livre, independente e com opiniões próprias”. Nada mais longe da verdade no que concerne a ambos os personagens, em minha opinião.

Ao contrário do que se difundo normalmente, Scott Summers era o adulto do grupo em todos os sentidos, o mais qualificado na porrada, profissional, entrando, inclusive em conflito com o Professor X quando esse queria tratar os integrantes dos X-Men como crianças de uma escolinha mutante.

Mais de uma vez, Scott “baixou a lenha” no próprio Wolvie, por suas atitudes impulsivas e amadoras em batalha, sendo inclusive reconhecido por Logan em alguns casos, apesar deste último constantemente mandar Scott “longe”. Na famosa história em que os X-Men enfrentam Proteus, poderoso mutante que muda a realidade (filho de Moira Mactaggert), o vilão coloca um medo intenso em vários X-Men, inclusive Logan. Ciclope decidiu então instigar o grupo por meio da boa e velha “porradinha matinal usual do café da manhã”, dando uma boas bordoadas em Tempestade, Colossus, Noturno e Logan, utilizando uns contra os outros em meio da batalha para que vencessem seus medos e pudessem livremente lutar contra Proteus.

Após a luta, Wolvie dizia para o líder, “Cara, nunca te considerei muito como líder ou como homem, mas me enganei”. “Obrigada Wolverine”, foi a resposta de Ciclope, seguida de “Bem, agora vamos voltar para o nosso problema, Proteus”. Ou seja, não havia escoteiro algum em Ciclope, nem qualquer ideia de pólo oposto entre ele e Logan, mas sim personagens com características próprias e diferenças na forma de agir, pensar, etc.

Segunda Edição do Especial dos X-Men, da Mythos Editora. Inclui a famosa Saga da Fênix.

A leveza da personalidade de Colossus, quase que o “guri do gancho de esquerda do grupo”, ainda que manifestando bastante saudade em relação a sua pátria contrastava com aquela visão usual de artista sofredor dos anos 1990. Seu pragmatismo complementava as atitudes espirituosas de Noturno, na maioria das vezes um sujeito brincalhão e divertido, quase que um elfo, como ele mesmo costumava dizer. Em suma, nada daquele crédulo chorão do segundo filme dos X-Men, ainda que em alguns momentos (somente em alguns momentos) se mostrasse taciturno, seja pelo seu passado de perseguições na Alemanha, seja por sua aparência demoníaca (um problema logo solucionado por uma namorada). O mesmo vale para Tempestade, que continha em sua personalidade um misto de inocência, sabedoria pragmática milenar e ânsia por novas descobertas, desenvolvendo ainda mais essa personalidade após tornar-se a líder do grupo com a saída de Ciclope, em razão da morte da Jean.

Outra questão importante nas tramas dizem respeito as questões morais. Além da Saga da Fênix, em que tais questões foram tratadas ao limite, menciono um diálogo entre Logan e Noturno, logo após os dois enfrentarem o Wendigo, monstro descontrolado que havia cometido vários “assassinatos” no Canadá.

Para encurtar o papo, Kurt se apiedou de Georges Baptiste, o homem que se transformava no monstro, por ele não ter controle sobre seus atos, questionando Logan, já que ele também era um assassino, com a diferença de que matava pelo governo, porque gostava ou mesmo em autodefesa. Neste questionamento, Kurt argumentava, “Eu te entendo Logan. O que você diz sobre matar em autodefesa pode fazer sentido e até ser justificável, mas isso torna a coisa justa?”.

Sem entrar no mérito da discussão moral aqui relatada, essas questões apareciam em meio as tramas, mas em nenhum momento se tornavam o centro delas, sendo apenas um pano de fundo para histórias simples e até mesmo, descontraídas.

Termino com duas considerações importantes.

A primeira diz respeito ao fato de que apesar do tom intenso e conflituoso entre as personagens, da existência de uma explicação usual na terceira pessoa de como os mesmos estavam se sentindo em determinados momentos, os X-Men não haviam se tornado ainda, uma paródia novelesca centrada no sentimentalismo barato. Este caráter novelesco apareceu principalmente nos anos 1990, com as tramas de Lobdel. Aquelas frases do tipo; “Scott sofre por não receber o amor de Jean” (sim, ela voltou) ou “Professor Xavier sofre porque seu sonho acabou” não faziam parte das tramas do grupo na época Byrne-Claremont, pelo menos não no início.

Posso fazer uma comparação com as novelas da Rede Globo de hoje e aquelas dos anos oitenta, principalmente as novelas do excelente Dias Gomes. Antes, as mesmas continham uma trama por trás dos romances, um roteiro bem definido a ser resolvido, enquanto hoje se resumem aos romances impossíveis e incompreendidos ao estilo “Romeu e Julieta” entre as personagens do núcleo pobre e rico, etc. Ou seja, hoje, elas  não possuem nenhum pano de fundo.

A segunda consideração diz respeito a famosa história, “Dias de um Futuro Passado” (nome original, “Days of Future Past”). A trama se passa em um futuro alternativo em que uma velha Kitty Pride vai ao passado para impedir o assassinato do senador Kelly, em um evento que teria dado início a um programa de perseguições e extermínio aos mutantes. Dito isto, é preciso esclarecer que a história é fechada, e em minha opinião, muito bem resolvida pelos mutantes, que ao final impedem aquele provável futuro de ocorrer, após um luta muito bacana contra a Irmandade de Mutantes. Este futuro é apenas uma possibilidade e não um destino marcado para os X-Men. Essa última visão, infelizmente começa a entrar nas tramas subsequentes do grupo, aparecendo entre os fãs aquela ideia escatológica sobre os X-Men, que inadvertidamente levou os demais roteiristas a demarcarem a “usual choradeira coletiva dos integrantes do grupo”. Me parece que isso é um erro que descaracteriza totalmente os X-Men e deixa uma mensagem negativa aos fãs, influenciando, inclusive as tramas dos mutantes em outras mídias, incluindo no cinema.

Mas isso é assunto par outro post.

Termino aqui deixando claro que estas são apenas considerações e interpretações sobre os mutantes da Marvel da época Claremont-Byrne e nada mais. Em nenhum momento defendo ser esta a leitura final ou a melhor opinião já escrita ou difundida sobre os X-Men.

Última edição da Coleção da Mythos Editora sobre os X-Men. Destaque para a trama, "Dias de um Futuro Passado".

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  1. Jacques
    16/10/2011 às 18:09

    Ótima análise, Marco.
    A primeira ilustração é de Arthur Adams e foi capa do Heróis da TV 100.
    Essa fase ficou conhecida como clássica porque tirou os X-Men do fundo do poço onde eles estavam, ao inserir uma galera de personagens novos e carismáticos.
    O ruim é que foi aí que se originou o conceito de “gueto mutante” da Marvel, que separou-os do resto do Universo Marvel, elitizando-os.
    O divertido aqui é que Wolverine era tosquérrimo, uma espécie de Brucutu com garras que parecia não ter muito a a oferecer.
    Hoje em dia, assim como o Batman no UDC, ele é overutilizado, o que tira toda a graça do personagem.

    • 16/10/2011 às 18:57

      Isso mesmo.
      Esse gueto mutante da Marvel é um saco.
      E o super-Wolverine tem história enfrentando o Galactus. Pode isso?

  2. Fábio Ochôa
    17/10/2011 às 15:00

    Concordo com tudo, em gênero, número e grau.

    Está saindo encadernado agora pela Panini toda a fase do Grant Morrisson, estou comprando e lendo com calma, tá no quarto volume, acho, de seis ou sete no máximo.
    Fora a fase Claremont/Byrne, a dele é de longe a fase mais interessante, com muitas idéias boas e muitas idéias ruins, mas é legal até pela coragem de tirar os mutantes da pasmaceira de 20 anos e sacudir o universo deles com idéias novas e bem, radicais.
    O que é mais ou menos o que Claremont e Byrne fizeram quando pegaram o título, embora não fossem tão radicais quanto o escocês maluco.

    Uma coisa que eu estava conversando dia destes com o Oscar, é que tanto X-men quanto o Hulk, tem um grande problema em sua premissa: ela vai ter que acabar um dia. Ou um dia eles vão ser aceitos ou vão ser mortos, ponto.
    E como fazer isso sem acabar com o gibi?

    A fase Morrisson foi legal por isso também, por fechar uma porta pros mutantes e abrir outras, cheias de novas possibilidades. Fez barulho na época, mas como sempre, ele saiu do título e lentamente tudo voltou novamente a ser como era antes.

    • Jacques
      17/10/2011 às 15:31

      Corrigindo meu comentário anterior, quem criou os personagens novos foi o Dave Cockrum.
      Pois é Ochôa, eu li a fase do Joss Whedon, e a desculpa que ele deu para voltarem os uniformes ridículos (“Temos de nos parecer com super-heróis porque isso é algo que as pessoas entendem”) não convenceu MESMO.
      A fase do Morrison deu uma sacudida legal mesmo no Universo mutante, mas como tu falou, aos poucos as coisa voltaram ao que era antes.
      Fãs doentes que não aceitam mudanças e executivos que só querem saber de grana detonam com as hqs muito mais do que os uniformes ridículos.
      E atualmente temos o grupinho do Wolverine contra o grupinho do Ciclope.
      Ninguém merece.

      • Fábio Ochôa
        17/10/2011 às 16:11

        Pois é, o próprio Morrisson explicou os uniformes da seguinte maneira “super-heróis eram bem aceitos, então achei que com codinomes e roupas coloridas, vocês pudessem ser aceitos e se misturar na percepção do público”.

        Existiam também vilões fantasiados, mas o que vale é a intenção…

    • 17/10/2011 às 16:41

      Sabe que eu tenho curiosidade de ler a fase do Morrisson?
      Vou ver essa edição sim.

      • Fábio Ochôa
        18/10/2011 às 09:29

        Eu te empresto no próximo encontro, tenho comprado estes volumes.

  3. Fábio Ochôa
    17/10/2011 às 15:35

    Quanto ao Wolverine, é curioso como os personagens adquirem gradualmente uma outra percepção por parte do público, quase sempre bem diferente da original.
    Um exemplo legal é a visão popular do Capitão Nascimento e o que ele realmente é no filme.

    • 17/10/2011 às 16:47

      Pois é, Wolverine e Ciclope são dois casos dos X-Men, mas também temos tantos outros. O problema é que na maioria das vezes que observo as percepções do público em geral sobre um personagem (mas não todas as vezes, claro), esta visão é reducionista e até simplista sobre o mesmo. Sei que posso estar bancando o arrogante, mas isso é muito comum. Quantas vezes eu mesmo não acabei seguindo os estereótipos e a visão senso comum em algumas ocasiões e quando conheci melhor o personagem tal, acabei adquirindo uma outra visão.

  4. Fábio Ochôa
    18/10/2011 às 09:44

    É meio que a questão do mínimo denominador comum, quanto mais pessoas travam contato com algo, a tendência é sempre prevalecer um único aspecto dele no imaginário, ignorando todo o resto.

    • 18/10/2011 às 11:41

      É uma boa tese.
      Parece ser isso mesmo que acontece.

  1. 18/10/2011 às 14:04
  2. 16/10/2012 às 22:59

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