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As Crônicas de BenGarak: A ascensão do Guerreiro

As crônicas dos recitadores renkarianos

relatam as aventuras e duelos de Vandreas BenGarak, 

que de simples filho de ferreiro da Comuna de Melkart, na Clareira Cinzenta,

tornou-se o mais reconhecido guerreiro dos domínios senhoriais do Continente Central,

até sua contenda contra Lorde Manshoon, o Cavaleiro Negro de Aturan,

entrando para o rol das lendas e mitos do velho mundo conhecido.

As Crônicas de BenGarak

A Ascensão do Guerreiro

 

            Vandreas BenGarak não acreditava na visão encantadora a sua frente, meio que turva e desconexa, uma ilusão de mente embriagada e sem discernimento. Enquanto observava a nudez sinuosa de Selina de Veracruz da Costa Escarpada, deitada sobre o volumoso palheiro do velho moinho, imaginava de relance as cenas proibidas da noite chuvosa, quando os dois jovens se abraçaram num resfolegar de corpos, que nem mesmo a lua cheia ousou espiar, escondida atrás das nuvens de outono.

            Em meio aos devaneios de luxúria, outros pensamentos vieram à tona, aquela rememorização constante que o intelecto se recusava a analisar, quando Melkart, sua terra natal fora invadida e destruída por bandoleiros toscamente armados de lanças grosseiras, a procura do velho guerreiro da espada de ébano que por lá se abrigara.

            Tais pensamentos lhe fugiram por instantes, em meio ao som da cantoria dos bem-te-vis, canarinhos e pombas-rolas da aurora e diante do acordar irrequieto de Selina a espreguiçar-se e bocejar. Sentando-se lentamente no palheiro, a jovem olhou de soslaio para Garak com aquela típica frieza das semanas anteriores, quando ambos se conheceram e iniciaram a jornada rumo ao desconhecido.

– O que foi? Nunca vistes mulher assim? Perguntou-lhe abruptamente.

– Ainda não. Mas me contentaria em te ver desse jeito mais e mais vezes.

            Foi à afirmação afiada que Garak encontrou ante a expressão fria e arredia de Selina, enquanto ele mesmo esboçava um leve sorriso nos lábios, um tanto maroto e envergonhado. BenGarak era um típico jovem do noroeste continentino, com a pele clara e os cabelos castanhos escuros, comumente desgrenhados e escorrendo pelos ombros. Era esguio, mas levemente musculoso, muito em razão do trabalho pesado na ferragem do pai, Valinor. Vestia comumente uma túnica azul clara com gola larga, calças e botas de couro pretas, sendo encimado por uma capa acinzentada até os tornozelos, bastante esfarrapada e enlameada. Não tinha qualquer armadura, o que era incomum para alguém que se dizia um guerreiro legítimo dos domínios senhoriais, possuindo, porém a espada de lâmina de ébano e punho de duas mãos, legada por um guerreiro semimorto.

            Normalmente Garak levava a arma embainhada, noutras vezes, principalmente quando se encontrava em repouso, encostava a arma nos ombros, segurando-a com uma das mãos pelo punho, meio que imaginando duelos e lutas futuras que nunca havia participado até então. Isso porque ele não era um “guerreiro de sangue”. Tinha saído da pequena comuna onde crescera somente após sua destruição pelo fogo, não conhecendo os dissabores da morte de qualquer inimigo sob suas próprias mãos.

            Não, Garak era apenas um jovem pretensioso, como somente os jovens sabiam ser em um mundo destituído de mobilidade social, em que o nascer camponês ou artesão, significava morrer camponês ou artesão. Como pregavam os sacerdotes renkarianos do Deus Primordial:

– “Existem aqueles engendrados para lutar e proteger os fracos, os guerreiros, chamados de bellatores na linguagem antiga. Existem ainda aqueles afeitos a rezar e a curar, os sacerdotes ou oratores. Sobrando por fim aqueles que trabalham a terra e as artes, de modo a produzir alimento, ferramentas ou máquinas, os camponeses ou artesãos, também denominados de laboratores”.

            Assim sendo, nada ou nenhuma força humana, divina ou sobrenatural poderia mudar os desígnios do “deus supremo” do Continente. Todavia, o filho de um ferreiro assassinado pretendia, projetando sua ascensão ao status de guerreiro de modo a tornar-se superior ao que fora decidido para ele no nascimento, pelas armas e pelas vitórias; tudo aquilo que os costumes e as tradições dos sacerdotes proibiam.

            Ao abandonar sua vila incendiada, ele herdara a espada de lâmina negra, além de uma vontade de ferro de transformar tais desígnios. Esse desejo lhe transparecia a manifestação da velha teimosia do pai, que desde muito havia rompido com as determinações dos homens e deuses, não aceitando a proteção de nenhum guerreiro ou senhor em sua comuna, mantendo-a, portanto no anonimato, enquanto ele mesmo era escolhido pelo povo como magistrado. Novamente, a voz suave e decidida de Selina cortou os pensamentos distantes de Garak:

– Acho melhor comermos e seguirmos viagem. Enquanto me banho, poderias assar alguma coisa no fogo… Uma lebre ou peixe fresco.

– Parece que já tens tudo pensado.

            Uma nova resposta afiada e irônica de Garak, levando Selina a virar-se rapidamente e sair do moinho, sem antes não deixar de olhar para ele em tom desafiador. Incrivelmente geniosa, ela tinha certo “veneno” mesclado a doçura nos trejeitos e palavras que transpareciam puro encanto, além da típica beleza das mulheres da Costa Escarpada, com seus cabelos negros volumosos, pele alva como a neve e olhos graúdos esverdeados como esmeraldas cristalinas polidas ao vento, logicamente que penetrantes e ao mesmo tempo meios.

            Enquanto o jovem vestia sua calça e túnica, mais relances e imagens inebriantes da noite anterior irromperam em sua mente, como sinapses nervosas insolentes, junto de outra rememorização do passado recente, quando Garak e Selina encontram-se abruptamente na estrada, ele montado no velho Barão, seu magro e arredio tordilho, ela correndo em meio a uma trilha sinuosa da Floresta dos Carvalhos.

            Interessante notar que em nenhum momento ambos falaram sobre fatos importantes do passado, quaisquer possíveis segredos de suas respectivas infâncias, no máximo trocando palavras secas e lacônicas sobre o cotidiano de suas vidas pregressas; ela sobre seu pai e irmãos marinheiros, ele sobre Melkart, antes da comuna arder nas chamas da destruição. Garak saiu do moinho, dirigindo-se ao Barão, amarrado a um pequeno tronco esbranquiçado da floresta.

            Podia ouvir todos os pequenos sons da floresta, os insetos gosmentos perambulando em trilhas ordenadas nos galhos alvos e trepadeiras ardilosas, os pássaros matutinos em sua cantoria desconexa em meio à sua constante fabricação de ninhos toscos nas copas das grandes árvores anciãs, sem falar nos pequenos mamíferos assustados em sua dança eterna pela sobrevivência contra répteis perigosos e peçonhentos, incluindo até mesmo o ruído sutil de um apressado e orgulhoso esquilo saltitante sobre um galho de cedro escarpado, com sua noz a tiracolo.

               Tratava-se de uma floresta pouco cerrada, com muitas trilhas e espaços abertos na vegetação, de modo a garantir uma viagem tranqüila e livre de possíveis emboscadas, o que não era incomum por aquelas paragens. Selina estranhava o trajeto escolhido e sempre se manifestava quanto a isso, perguntando constantemente os motivos de o jovem “guerreiro” evitar as estradas, normalmente mais largas e seguras, devido à presença de mercadores escoltados por bravos cavaleiros armadurados de sua “estirpe”. Mas essa era uma resposta que Garak recusava-se a conceder, visto que ele temia exatamente o encontro com outros guerreiros, pelo menos por enquanto.

            Tarde demais! Os animais calaram-se abruptamente, enquanto o tempo descansou para tomar fôlego. Cortando o silenciar dos habitantes da mata, uma voz ecoou abruptamente, vinda de trás:

– Pelo visto, você viaja sozinho, a exceção da bela jovem a banhar-se no rio. Seria ela um belo despojo para impedir uma contenda entre nós, não é mesmo?

            Ao virar-se, Garak viu diante de si um homem alto e de feições finas, cabelos negros, também pelos ombros, com um sorriso sarcástico. Ele vestia um corselete de couro negro sobre uma túnica vermelha cor de vinho, encimado igualmente por uma capa escarlate deveras espalhafatosa, amarrada ao corpo pela bainha da espada, presa nas costas. Era uma espada de lâmina muito larga e quase da altura do homem, que devia chegar a 1 metro e 80 cm.

            Garak não tinha dúvida de que aquela arma pouco discreta não era pesada para o homem em meio à batalha, assim como não tinha dúvidas de que se tratava de um guerreiro genuíno e não de um mero bandoleiro das estradas mundo afora. O brasão no ombro direito, de um grifo cinzento em pleno vôo, junto das jóias finas em volta do pescoço, punhos e dedos das mãos denunciavam uma herança nobiliária e um passado de lutas e pilhagens legítimas. Todas logicamente em duelos formalizados pela tradição. Pois esta era uma característica do mundo dos guerreiros continentinos, o motivo pelo qual Garak evitara perambular nas estradas. Guerreiros seguiam um antigo código de conduta, conhecido apenas por Prescrições dos Costumes Ancestrais, ou na língua antiga, mos maiorum, onde estavam previstos os complexos rituais de vassalagem pelos quais deveriam passar, além da forma de conduta a ser seguida nas atividades sociais, militares e diplomáticas, sem falar nas prescrições tradicionais referentes aos duelos de armas brancas.

            Todo o guerreiro que se prestasse tinha uma técnica em armas brancas que aprendera do pai ou patriarca da família, técnica essa guardada e executada por gerações e gerações de antepassados. Assim sendo, um encontro entre guerreiros normalmente levava a duas ações específicas: ou a um pacto de vassalagem entre homens de armas superiores e inferiores ou a um duelo mortal de honra e vergonha entre iguais, duelo esse responsável pela tomada dos espólios do vencido, melhor dizendo, daquele que perdia a vida.

            Tratava-se, portanto de um mundo de duelos e pilhagens, que assegurava o status superior entre alguns homens aptos e habilidosos, os indivíduos pertencentes às poucas famílias nobiliárias conhecidas, cada qual com seus domínios e riquezas, impedindo-se assim que outros segmentos sociais adentrassem na condição superior, tal como intencionava Garak. Este último, percebendo a impossibilidade de evitar o conflito iminente, decidiu ganhar tempo:

– Queres a posse da moça para me deixar seguir adiante? Perguntou o jovem, evidentemente tenso.

– Se você for realmente um guerreiro e não somente um tolo armado… É exatamente isto o que não deveria fazer, em nome de sua dignidade e honra, porém, se for apenas um jovem impetuoso e pretensioso… Seria uma boa forma de sair com vida das cercanias deste moinho.

            Garak vislumbrou novamente o sorriso sardônico no rosto do homem, a manifestação consciente do tom arrogante típico da “classe” a qual ele mesmo dizia pertencer. Lembrou-se das palavras do próprio pai, ao dizer comumente que “aquela raça não prestava, não passando de nobres vadios com mania de grandeza e sanguinolência gratuita”. Garak não gostou daquele tom, a forma arrogante como pronunciou a frase ou mesmo seu conteúdo, principalmente pelo fato de que retirar-se dali com vida significava deixar Selina com ele, para ser usada e abusada em sua luxúria, posteriormente morta como um brinquedo quebrado.

            Chegara o momento de se testar, de saber até que ponto um jovem que só havia “atacado” ramos e galhos de árvores ou pequenos predadores da floresta poderia sobreviver em uma luta de verdade. O medo era latente e insuportável, mas Garak procurou vencer tais sentimentos, puxando a espada e dizendo:

– Bem, parece que aqui não há nenhum jovem tolo, cão vadio.

            O tom ameaçador de seus lábios não significavam somente uma idéia altruísta de salvar a jovem das garras do outro, expressando, outrossim, a ânsia de ser o melhor no duelo de espadas. No fundo da alma, Garak desejava aquele momento, talvez por um estranho vício pela adrenalina que a possibilidade de uma luta ocasionaria em seu ser. Na prática, gostava da idéia de tornar-se um homem superior pelo uso das amas, representando uma liberdade e um poder que há muito lhe parecia caro e precioso, desde a época de trabalhos exaustivos na oficina do pai.

            Não que ele se vislumbrasse como um senhor autoritário, cheio de desejos e vontades desmedidas, um homem sanguinolento a procura de duelos de espadas gratuitos. Ainda assim, mesmos sentindo temor e dúvida diante da morte quase certa, mesmo sem saber qual reação teria ante o encontro com aquela velha senhora que chegava para todos os seres viventes, ele ansiava pela dança macabra de aço contra carne esmigalhada, pelo respeito, reconhecimento e status que poderia obter após a morte de muitos guerreiros perante sua espada.

            Ele era jovem, talvez apenas um tolo a procura de aventuras, não muito diferente do homem a sua frente em sua própria juventude, porém, ele sentia que sua vida começaria a partir daquele momento, uma vida que finalmente se tornaria plena, munida de sentido e altivez. O silêncio foi novamente quebrado pela voz rouca e cortante do guerreiro à sua frente:

– Palavras fortes e insolentes, rapaz. Mesmo assim, deixe que eu me apresente formalmente, como bem diz a tradição. Sou Alecssandro MacPherson, de Antares, na região de Acade, fronteira dos Domínios Senhoriais com as Estepes Orientais de Teirân. Sou filho de Silbervas MacPherson, senhor dos domínios senhoriais de Acade e já venci mais de 50 guerreiros em duelos legítimos, utilizando-me da técnica de golpes em ângulos fechados e troca de mãos rápidas, criada por meu ancestral, Antares MacPherson, que me foi transmitida após seu uso bem sucedido por sete gerações de minha linhagem.

            Tratava-se de uma apresentação formal, muito comum ao início de qualquer duelo entre nobres. Por alguns momentos Garak considerou a tolice e a completa imbecilidade latente daquelas palavras e da própria tradição, visto que aquilo não significaria nada diante de uma luta de vida e morte. Para ele, importava apenas sair vivo da contenda, independente das técnicas utilizadas ou do número de adversários existentes até então. De forma bastante lacônica e até pretensiosa, ele arrotou mais palavras ao vento, disfarçando o medo em seu tom ameaçador e, porque não dizer, deveras infantil:

– Bem, meu nome é Andreas BenGarak, não passo de um jovem guerreiro que utiliza-se de qualquer técnica para vencer e sobreviver, contra quem for, homem ou monstro, guerreiro ou bandoleiro, seja contra um MacPherson qualquer ou outro cão vadio que se intrometa pelo caminho.

            Novamente o silêncio, em parte cortado pela chegada abrupta de Selina, ainda seminua e molhada do banho junto ao riacho em volta, com o vestido colocado em frente ao corpo, de modo a esconder as vergonhas. Bastante trêmula e nervosa pela cena dos guerreiros postados frente a frente, ela escorregou em um galho de árvore rente ao chão, caindo aos pés de MacPherson. Este o olhou rapidamente, sem se virar completamente, enquanto esboçava novamente aquele sorriso de pirata, retirando ao mesmo tempo sua espada da bainha e girando sobre a própria cabeça, com ambas as mãos ao punho.

            O primeiro ataque foi rápido e cortante, quase que um bote de serpente peçonhenta, de cima para baixo, levando Garak a um bloqueio por puro reflexo. Ambos os combatentes fitaram-se por breves instantes, Macpherson empurrando a lâmina de Garak, esse último dando um passo para trás e preparando toda sua energia para uma nova defesa ante outro golpe, que veio rapidamente e sem recuo, desta vez da esquerda para a direita, após uma troca de mãos da parte do outro. Logo, uma nova defesa aparentemente impossível do jovem, seguida de um chute certeiro no ventre de Garak, que o jogou ao chão.

– Boas defesas, menino. Mas apenas mostrou-me que você não possui técnica alguma. Você luta pelo instinto, concentrando toda sua energia em bloquear meus ataques e nada mais. Não passa, portanto de um tolo com uma arma, uma bela espada, diga-se de passagem.

– Por que não te cala?

            Foram as palavras desafiadoras de Garak, levantando a espada de ébano em frente ao rosto, segurando-a com a mão esquerda e passando o dedo indicador da outra mão na lâmina da arma, levemente. MacPherson aproveitou o ensejo e avançou com um salto, girando a espada diagonalmente e passando da mão esquerda para a direita, para em seguida atacar o flanco de Garak, que novamente bloqueou o golpe.

            Mais algumas trocas de golpes foram desferidas pelos duelistas, MacPherson atacando em todas às vezes e Garak concentrando toda a sua energia em defender-se, meio desordenadamente e sem qualquer técnica sofisticada. Selina apenas observava estática, sem perceber que os ataques do guerreiro mais experiente eram quase despretensiosos e arrogantes, com uma mão somente a segurar o punho da arma longilínea, ora com a mão direita ora com a mão esquerda, em uma dança frenética de fintas e giros horizontais e verticais. O que diferia em muito dos bloqueios de Garak, cada vez mais nervosos e sôfregos.

– Até aqui eu apenas observei sua forma de lutar, jovem. Agora prepare-se…

            Mais dois ataques por parte de MacPherson, o primeiro, uma finta da direita para a esquerda de modo a despistar o jovem com outro bloqueio, o segundo, um golpe mais diagonal, raspando de baixo para cima o flanco direito de Garak, ocasionando pela primeira vez a perda de sangue, num jorro escarlate superficial. Selina chegou a sentir o suspiro da morte ao pescoço do amante, ela mesma dirigindo-se sofregamente em direção a uma pedra de diorito ovaloide próxima a um ramo de espinhos sorrateiros. Não fosse a ação da jovem em jogar a pedra na nuca de MacPherson, outro golpe preparado com esmero perfuraria o ventre de Garak, que já havia percebido a ineficiência de suas ações.

– Cadela, vadia… Gritou MacPherson frente à dor da pedrada, agachando-se e colocando a mão direita na nuca.

– Não te intromete Selina. A luta é minha!

            Bradou Garak, agradecido pelo ocorrido, mas ao mesmo tempo irado por sua incapacidade de vencer o outro e depender da menina para sobreviver. MacPherson levantou-se lentamente. Olhou para Selina de canto de olho, porém fixando-se prontamente em seu adversário. “Você pode esperar vadia, vou-lhe mostrar alguns modos após dilacerar a carne deste inepto pretensioso”, pensou.

            O tempo congelou novamente e mais alguns golpes foram desferidos na direção do tronco, braços e da própria cabeça de Garak, alguns habilmente bloqueados por ele, outros ultrapassando suas defesas, gerando novos cortes no corpo, braços, pescoço e ventre do jovem. Parecia um castigo pela ação de Selina, ainda que os ferimentos fossem superficiais e indolores pela ação da adrenalina. Garak nem pensava ou racionalizava, apenas concentrava-se, defendia os golpes que podia e esquivava-se por instinto dos demais, recuando a cada ataque desferido. Ele notara também que MacPherson estava se cansando e que chegaria o momento ao qual algum destes golpes seria mortal. Era chegado o momento do “tudo ou nada”. Garak respirou fundo e decidiu blefar, ganhar tempo novamente com palavras:

– Vou lhe mostrar minha técnica de ataque. Meu melhor golpe, chamado pelos meus ancestrais de… Hã… Golpe Total…

            Novamente uma frase infantil que surpreendeu MacPherson, não pelas palavras fúteis e tolas em si, mas pelo fato de o jovem intencionar um ataque frontal e temerário após ser literalmente retalhado por sua técnica superior. Não havia dúvida para o guerreiro de que o jovem era um tolo impetuoso e arrogante, provavelmente um camponês com manias de grandeza a morrer naquele lugar desolado por tentar se passar por alguém da estirpe superior. Mesmo assim, aquela tentativa desesperada impressionou MacPherson de tal forma que ele decidiu entrar na pilheria.

– Então mostre esse ataque, jovem. Dê o melhor de si!

            Foi à resposta de Macpherson, preparando-se pela primeira vez para defender e após contra-atacar, desta vez com um golpe mortal, de cima para baixo, de modo a partir cabeça do outro ao meio. Ele já havia literalmente trespassado muitos inimigos com sua longa espada, significando a certeza de vitória em seus próprios pensamentos. De certa forma, ele sentia uma displicência perigosa surgindo em meio ao duelo com o jovem. Mesmo correndo riscos desnecessários, MacPherson deixou-se levar pela luta e pela sua aparente superioridade.

            Garak deu um impulso rápido, segurando o punho da espada negra com as duas mãos firmes, enquanto Macpherson esperou até o último instante, para em seguida também impulsionar o corpo, de modo a um ataque avassalador. Novamente o tempo cansou-se de correr em sua eterna maratona linear, sendo ultrapassado pelo som de um grito abafado.

            A espada de ébano penetrou fundo no peito de MacPherson, saindo nas costas, perfurando pulmões e coração. Nem mais um som foi emitido em seguida, somente um breve estalar de lábios a demonstrar a chegada de velha senhora. O golpe de Garak fora desferido de forma pragmática, sem ângulo algum e reto, por isso mais rápido, enquanto o contra-ataque de MacPherson se prolongou na formação de um ângulo aberto, de tal modo, bastante lento se comparado ao ataque do outro. Além disso, a sorte auxiliou o guerreiro mais jovem, visto que no último instante, um pequeno tropeço desacelerou a investida em carga de MacPherson, selando seu destino.

            Selina e Garak se entreolharam, enquanto Macpherson caia ao chão, evidentemente moribundo. Garak havia vencido, afinal. No mesmo dia em que se tornara um homem pleno após a noite de luxúria junto a Selina, ele também se tornara um guerreiro genuíno ao vencer o primeiro inimigo. Seu ritual de passagem fora formalizado e mesmo contando com o acaso e com a sorte – e quem não contava? – sua vitória era inquestionável. Nos breves instantes em que ele retirou a espada do corpo do outro, pensou o quanto sua tática de apenas defender-se não fora bem sucedida, na medida em que cansou seu adversário para depois efetuar o ataque total, certeiro e sem floreios. Ele decidiu que treinaria tal técnica, constituindo-a como um autodidata. Sabia que pela tradição deveria pilhar as riquezas do outro, o que foi feito prontamente, enquanto Selina levantava-se do chão frio e úmido, ainda perplexa. As armas de MacPherson seriam igualmente enterradas juntas ao corpo, também um legado dos costumes ancestrais, segundo lhe dissera seu pai em ocasião remota. O tempo finalmente voltou a correr, recuperado o fôlego da batalha.

Epílogo:

             O velho Barão se afastou do moinho abandonado, levando seus dois jovens ocupantes de ocasião; Vandreas BenGarak e Selina de Veracruz da Costa Escarpada. Garak podia sentir o perfume natural da jovem, o que impulsionava seu corpo cada vez mais para perto do dela, de modo ao encontro do olfato com seus cabelos volumosos, cor de lótus. Uma sensação de satisfação quase arrebatara seus sentidos e talvez por isso a jovem puxou assunto, em um tom distinto daquele das últimas semanas, discretamente mais suave e menos desafiador.

– Lembro que nesta direção encontra-se a vila hanseática de Vostock, rica em manufaturas de linho e cerveja. Nós vamos naquela direção?

– Sim, mas vamos pela estrada. Chegou o momento de viajarmos pela estrada.

            O corcel se distanciou ainda mais do moinho e Selina finalmente percebeu que atrás de si havia um indivíduo da classe superior de guerreiros continentinos. Garak sentia a resignação da jovem, sentindo em seu ser que havia ascendido à uma condição superior. Estava agora ainda mais ansioso para descobrir o que o futuro lhe reservava, as aventuras e duelos que teria de enfrentar até o encontro final com a velha senhora.

Fim.

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  1. Fábio Ochôa
    27/10/2011 às 13:12

    Muito bom, muito bem observado no aspecto humano, o que no fim das contas sempre é o que faz a diferença.
    E aquela influenciazinha do Howard indisfarçável.
    Um dos poucos “ano 1” que realmente passam inexperiência.

    Existe algo pensado em sequência?

  2. 27/10/2011 às 14:46

    Existem idéias bem tradicionais de um daqueles contos contra o monstro da aldeia. Novamente a questão de tratar do clichê, mas apelando para o aspecto humano, os sentimentos, o medo, inserindo então personagens. O problema desse é que é uma história de apresentação, o que é sempre mais difícil.
    A influência e até “imitação” ao estilo Howard é proposital sim. Porém abordando a idade média. Diversão gratuita para mim, sem intenção de nenhum épico ou grande história.
    Valeu.

    • 04/11/2011 às 00:34

      Gostei do conto Marco.

      Espero que a continuação venha logo.

  3. 27/10/2011 às 15:36

    O caminho da inexperiência é muito bom para se trabalhar.
    É o que evita que ele se torne o bárbaro genérico.
    É legal também a idéia de um protagonista levemente covarde.

  4. Fernando
    29/10/2011 às 11:40

    Interessante o conto, principalmente as cenas de luta.
    Espero pela continuação.

  5. Giuliano
    29/10/2011 às 14:00

    Cara, muito loco. Contos de fantasia são legais e esse tá bem sacado, principalmente na parte das interações dos caras. E o cara é pegador, mas falho, sem frescuras, mas tbm não é um bárbaro quebra portas. parabens.

    • 29/10/2011 às 19:44

      Valeu. A ideia é essa mesma, tentar não tornar o cara um guerreiro genérico em um mundo de fantasia genérico. Aos poucos vou inserindo mais elementos e me divertindo escrevendo.

  6. Gisele
    30/10/2011 às 19:14

    Eu acho que poderia explorar mais o cenário, mas no geral eu gostei.

  1. 17/07/2012 às 08:23

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