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Bone – Fantasia, humor e mistério para todas as idades

Walt Disney encontra Guillermo Del Toro.

Assim pode ser definida esta hq independente que foi lançada na anabolizadamente exagerada e parcialmente entorpecida mentalmente década de 90 e conseguiu resgatar uma forma mais singela de se contar uma boa história.

Bone, de Jeff Smith, é uma mistura de fantasia (nem tão) heróica, o nonsense de Lewis Carrol, a simplicidade ingênua de um conto de fadas, a abrangência emocional e sensorial de um filme de Hayao Miyazaki, humor de primeira qualidade e suspense sufocante de diretor estreante que não está nem aí para as convenções do cinema.

Nela é contada a nada convencional saga de três neotênicos primos de aspecto cartunesco, Fone Bone (a inocência do Chico Bento e a força de vontade de Bruce Wayne), Smiley Bone (o coração de Samwise Gamgee e processos cognitivos de uma geleira) e Phoney Bone (o sentimentalismo de Charles Montgomery Burns e tão desonesto que poderia desrespeitar até a lei da gravidade) que, após serem expulsos de sua terra natal devido às tramoias deste último, se vêem perdidos em uma floresta habitada por criaturas (ainda) mais estranhas do que eles.

Entre elas estão as Criaturas Ratazanas Burras, predadores que obedecem (por medo e conveniência) ao misterioso Encapuzado que, por sua vez, recebe ordens do maléfico Senhor dos Gafanhotos, que nunca aparece.

Estes excêntricos seres procuram (por razões desconhecidas) capturar Phoney que, junto com Smiley, encontra o bucólico vilarejo de Barrel Haven, onde (após descobrirem do pior jeito que seu dinheiro de Boneville não vale absolutamente nada) são obrigados a trabalhar na taverna do honesto Lucius Down; já Fone se torna amigo de Espinho, uma adolescente de opinião forte que foi criada pela Vovó Ben, uma gentil anciã criadora de vacas que poderia colocar Thor em órbita num só soco.

Assim como na admirável hq Fábulas e o universo antropozoomórfico de Walt Disney, este mundo é povoado por animais propriamente ditos (como as vacas da Vovó Ben) e animais humanizados, como o estóico Dragão Vermelho (que possui as patas dianteiras em forma de braço e protege Fone em tempo integral), Ted (um tagarela inseto cientificamente inclassificável), a gentil Senhora Gambá (e seus encapetados filhotes), entre muitos outros.

Estas criaturas fornecem a esta hq o curioso realismo fantástico que a tornou célebre.

A Grande Corrida de vacas

Embora Bone tenha um enredo aparentemente simples e estereotipado (os primos Bones repetem a clássica formação Bem (Fone), Mal (Phoney) e a Neutralidade (Smiley) e seus inimigos representam o eterno medo do desconhecido), de amizade, coragem e redenção, a sabedoria nos ensina que é a forma da história ser contada que faz toda a diferença.

É praticamente impossível não se identificar com as facetas humanas destes personagens, mesmo se tendo em mente que eles foram criados para serem o mais carismáticos possíveis.

As fábulas em que se davam aos animais características humanas eram utilizadas pelos escravos gregos que almejavam denunciar a conduta reprovável de seus senhores sem serem descobertos.

Com o tempo, esta forma de narrativa tornou-se uma maneira de se propagar sabedoria e bom senso às gerações vindouras.

E se, como neste caso, isso for feito de forma admiravelmente divertida, cativante e coesa, melhor.

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  1. Fábio Ochôa
    28/10/2011 às 15:00

    Bone é uma baita história e se arrastando há uma década para conclusão no Brasil.
    Vale muito a pena acompanhar.

    • Jacques
      28/10/2011 às 15:05

      Eu não sabia que essa hq também se arrastava para ser lançada toda por aqui, Ochôa.
      Pelo jeito o mercado nacional de quadrinhos ainda tem de comer muito feijão para ficar saudável.
      Que coisa.

  2. Fábio Ochôa
    28/10/2011 às 15:35

    Sim, sim, ela é publicada desde 1998 em álbuns por aqui.
    Ao todo vão ser 17 volumes, 23 anos de publicação e apenas 11 volumes lançados.
    Arrastaaaaaaaaaaaaaaando….

  3. 28/10/2011 às 16:15

    Cara que ótimo deve ser isso.
    Vou procurar também.
    Muito legal a análise. Deu vontade de ler.
    PS: Já to baixando Fábulas aqui, depois vem Bone.

  4. Fábio Ochôa
    28/10/2011 às 16:26

    Tu vai ver que o Bigby é a cara do Mário.
    Cara, já que falamos do Quarteto do Waid, naquela coleção Marvel de 2 reais, tem uma edição com uma história dessa fase em bancas.

    • 28/10/2011 às 16:47

      Eu vi uma com o Doutor Destino. É essa?

      • Jacques
        28/10/2011 às 17:10

        Pode ler que é garantido, Marco.
        E alguém sabe onde tem pra gravar toda a série?
        Eu só li até o Volume 7.
        E é verdade que essa saga vai virar animação?

  5. Fábio Ochôa
    28/10/2011 às 17:08

    Essa mesma.

  6. 28/10/2011 às 22:43

    lembro de ter ido atrás de Bone por causa de um texto que dizia que era mistura dos patos de Carl Barks com o senhor dos anéis.me interessei na hora, rs.
    essa é uma daquelas séries que inexplicavelmente ainda não foi concluida no Brasil… lembro de ter lido em algum lugar que alguma editora tinha planos de publicar a versão encadernada em cores, mas que conflitavam com a editora que publica atualmente a saga no Brasil. ficamos a ver navios…
    abraço!

    • Jacques
      02/11/2011 às 22:30

      Pois é, Vinícius, a forma da hq ser contada lembra bastante as melhores histórias de Carl Barks.
      A narrativa, a coesão textual e o humor que vai do genial ao infantil dão um toque muito singular a esta incrível obra.
      É esperar que sua conclusão por aqui aconteça, que os fãs merecem.
      Abraço, meu caro.

  7. 03/11/2011 às 10:05

    Uma vez alguém me disse lá na Liber Ludo: esse é o melhor quadrinho se alguém quiser introduzir sua namorada na leitura de HQs.Concordei. Muito bom mesmo.

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