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O Homem e o Mundo Natural, de Keith Thomas

Este lúcido e conciso livro da Editora Companhia das Letras nos mostra como se deu a mudança de atitude do ser humano perante a Natureza na Inglaterra dos anos 1500 a 1800, o que, em parte, refletiu o que se passou ao redor do mundo.

Keith Thomas relata, com imparcialidade e sabedoria, como ocorreu a mudança de visão do ser humano em relação ao mundo “natural” através dos séculos, pois, desde antes de Platão e Aristóteles, por alguma razão ininteligível, o ser humano procurou projetar nos animais as suas próprias imperfeições, para então usar isso como motivo para fazer com eles o que bem entendesse.

Além do uso de animais para subsistência, o antropocentrismo religioso – a crença de que o Homem é superior aos demais seres por apenas ele possuir uma alma – as superstições – mantidas até hoje – e questões estéticas resultaram no sistemático e incompreensível extermínio de inúmeras espécies.

Só para citar alguns exemplos, na Idade Média, trabalhadores das lavouras matavam as minhocas porque achavam que elas devoravam as raízes das plantas, gaios e pica-paus eram caçados e exterminados sem nenhum motivo e sapos eram mortos já que se acreditava que possuíam uma pedra preciosa incrustada na cabeça.

Práticas antigas completamente absurdas e descabidas, como o açulamento, que era o hábito de se atiçar cães em porcos e touros amarrados – pois se acreditava que isso melhorava a qualidade da carne ao fazer-se o sangue do animal circular mais depressa – também eram mantidas por superstição e ignorância.

Em alguns casos, até dava para entender, como no caso das gralhas, que eram perseguidas por serem consideradas “aves de mau agouro” pelo fato de sua predileção por cores brilhantes as levarem a juntar objetos para seus ninhos, o que incluía cigarros acesos e pedaços de madeira em brasa, o que porventura ocasionava incêndios.

O que ocorria é que, por causa de um ou outro acidente, perseguia-se uma espécie inteira.

Foi mais ou menos o que ocorreu nos primórdios da História Natural, que teve seu início por razões relativamente equivocadas, já que a Natureza era considerada o “Jardim de Deus” e o ser humano, por respeito a Ele, tinha a obrigação de conhecê-la.

Acontece que, naquela época, quando ainda não se tinha ideia de que a ação humana podia levar espécies à extinção, caçavam-se animais a torto e a direito apenas para se expor suas carcaças inúteis em museus.

O livro relata também a mudança na visão que o ser humano tinha das florestas; em um século, ela era considerada refúgio de feras selvagens e aves ladras de sementes, esconderijo de ladrões, morada de espíritos maus e servia apenas como fonte de madeira e de caça, e em outro período a floresta e o campo serviam como local de fuga das superpoluídas cidades, quando as fábricas surgidas no período da Revolução Industrial trataram de cobri-las de fuligem.

Ainda hoje, termos preconceituosos e despropositados como “erva daninha” são utilizados em nosso dia a dia, e quando se quer dizer que certa pessoa é incapaz de dialogar coerentemente, diz-se que ela é uma “besta”, como se os animais fossem desprovidos de inteligência.

E, nestes tempos em que muito se fala e pouco se faz em matéria de preservação ambiental, muitas pessoas ainda seguem a crença de que a Natureza existe para nos servir.

Quem pensa dessa forma esquece que, para a Natureza, o ser humano é irrelevante.

Lição esta que Keith Thomas aprendeu há muito tempo.

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  1. Fábio Ochôa
    09/11/2011 às 16:48

    Muito bom, Jacques, sabe se a edição é nova?

    • Jacques
      09/11/2011 às 17:27

      Essa edição que eu tenho é mais antiga e eu a adquiri na Monte Cristo, Ochôa, mas pouco tempo atrás este livro foi republicado na ótima coleção de bolso da Companhia das Letras.
      Vale muito a pena.

  2. Marco
    09/11/2011 às 19:49

    Ótimo post.
    Inteligente e preciso na explicação do livro. Me deu vontade de ler.

  3. 11/11/2011 às 19:11

    Realmente, muito bom o post. Também fiquei com vontade de ler.
    Há muito tempo, buscou-se explicações pra fenômenos incompreendidos. Antes de Laplace, principalmente, as explicações eram esdrúxulas, mas eram explicações. Ligar fatos, principalmente físicos ou químicos a elementos naturais, tornando-os “leis da natureza” sempre foi uma prática bastante usual. Gostei desse livro, Jax! Boa pedida!

  4. 19/11/2011 às 13:18

    De muita sensibilidade… Adorei! Procurarei por este livro!

  5. 01/04/2012 às 23:51

    Não sabia de tantas supertições. Pedras preciosas incrustadas nas cabeças dos sapos? Realmente não sabia.
    Apesar de o ser humano ser totalmente diferente hoje, a natureza é simplesmente devastada por fins lucrativos e maus hábitos. E ninguém lembra que ela veio antes de nós, e não precisou do ser humano. Mas nós precisamos dela!
    Abraços

    • Jacques
      02/04/2012 às 00:03

      Realmente, Douglas Mateus, estas que eu citei foram apenas algumas das superstições que devem estar em vigor inutilmente até hoje.
      O imediatismo irresponsável do ser humano é sua própria ruína, já que não consegue enxergar além do próprio umbigo.
      Valeu.

  6. 02/04/2012 às 00:42

    Livrasso citado na minha aula de sociologia. Agora mais relevante com sua indicação. Parabéns pela resenha bem feita. Em épocas de preservação acredito ser leitura obrigatória.

    abraço Jaques !

  7. 02/04/2012 às 18:29

    Jacques… meus comentários não estão indo! será que vai, dessa vez? Antes eu estava enviando com o link do meu blog. Bom, sobre o post, por incrível que pareça eu nunca ouvi falar desse livro. Curiosidades interessantes. bjks

    http://umaseoutrasjoicy.blogspot.com/

    • 02/04/2012 às 21:59

      Oi Joicy. Às vezes, fazendo vários comentários com algum link, o sistema acha que é spam. Pode ser isso. Se for, agora não vai mais acontecer com teus comentários. Abraço.

  8. 02/04/2012 às 22:54

    Jac,

    Excelente pedida! Não cheguei ao final, mas concordo com várias afirmações da minimização do homem.

    Beijos.

    Lu

    • Jacques
      02/04/2012 às 23:40

      Bem vinda, Luciana.
      Recomendo este excelente livros a todos que desejam saber mais acerca de nossa relação tão conturbada com o mundo que nos cerca.
      Acredito que considerarás esta uma leitura construtiva e revigorante.
      Abraço.

  9. vilma célia santana
    28/10/2013 às 12:58

    o livro é fantástico pena que só agora através de indicação do meu professor de sociologia pude saber dele e ter acesso ,muitas das vezes ficamos lendo e vendo besteiras seja em tvs internetes…. perdemos muito tempo e não aprendermos realmente algo útil o livro nos prende ,o difícil e para de ler.estou cursando geografia licenciatura mais dicas pode me enviar estou aberta a sugestões sorte para todos nós

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