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Uivo Sufocado – Parte 04

Veja o começo: parte 01, parte 02 e parte 03.

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Novo eu

Devo confessar que mesmo nunca tendo sido vaidoso, minha nova aparência me agradou bastante. Ganhei quase cinco centímetros de altura, atingindo um metro e oitenta e um; o peso não se alterou, continuei com meus oitenta e quatro quilos, mas o percentual de gordura diminuiu muito, se antes estava “fofinho”, agora era musculoso e “riscado”; cicatrizes e rugas sumiram; o nariz que trazia a marca de uma fratura na infância ficou alinhado; obturações deram lugar a dentes perfeitos; o cabelo castanho, já levemente grisalho tornou-se loiro; por fim os olhos deixaram o antigo castanho e assumiram permanentemente o azul que veio com a transformação.

Se até então estava em bom estado para um homem de quarenta anos, agora parecia ter por volta de vinte e cinco. E a julgar pelo desaparecimento dos pelos nas costas, narinas e ouvidos, não foi apenas uma mudança estética, houve realmente rejuvenescimento.

Na manhã seguinte fui até o trabalho trajando roupas folgadas e com uma postura encolhida, evitando ao máximo meus conhecidos para não ter que explicar as mudanças. Encaminhei meu pedido de exoneração aos recursos humanos e fui embora imediatamente.

Não esquentei muito a cabeça com as consequências do desemprego. Agora solteiro minhas economias podiam me manter por pouco mais de um ano sem trabalho. E com minhas novas condições físicas, imaginei que se fosse preciso, participações em competições esportivas certamente me renderiam algumas premiações em dinheiro. Além disso, tinha uma boa idéia de como me garantir por alguns anos, com uma única noite de “trabalho”.

Novos limites

Passei os próximos sete dias na colônia, testando minhas novas capacidades e praticando as transformações, com um pouco de experimentação tornei-me muito hábil e rápido nisso. Logo descobri inclusive como mudar apenas partes isoladas do corpo, o exemplo obvio sendo tornar unhas em garras.

Embora tenha sido bastante doloroso, testei o máximo que pude as famosas capacidades regenerativas dos licantropos e alegremente constatei ser capaz de curar ferimentos com grande velocidade.

Sobre os efeitos da prata, cheguei à conclusão que enquanto ela permanece em contato com uma ferida impede sua regeneração. O acônito, outra fraqueza clássica dos lobisomens mostrou-se um risco real, tendo os mesmos efeitos em mim que nas outras pessoas, embora necessitando de doses no mínimo três vezes mais fortes, até poderia ter experimentado concentrações maiores, mas preferi não abusar.

Uma surpresa inesperada foi o efeito do centeio. Rapidamente percebi ter adquirido um estomago de avestruz, podendo comer grandes quantidades de bobagens sem nenhum efeito nocivo, não importando a quantidade de açucares ou gorduras contidas nelas, sem falar da carne de caça crua… Então imaginem meu choque ao descobrir que uma reles fatia de pão com centeio me fez perder boa parte do dia me desmanchando no banheiro!

Esse evento infeliz me fez pesquisar mais a fundo sobre lobisomens, constatei que centeio é realmente citado como nocivo a licantropos em algumas fontes. Outra vulnerabilidade indicada foi uma árvore, a tramazeira. Deu trabalho, principalmente por causa do sinal inconstante da internet do meu celular no interior, mas consegui comprar por sedex uma muda sua. Voltei para casa para receber a encomenda e constatei que sua madeira tem efeito parecido com a prata, ainda que em menor intensidade.

Pé-de-meia

Um dos bairros próximos ao meu possui a distinção de ser um dos poucos locais na cidade onde a polícia não pisa. Em parte porque são pagos para não entrar, mas principalmente por não conseguirem quando tentam.

Em minha segunda noite de lua minguante, após me certificar que conseguia alterar minha forma. Vestindo um abrigo de capuz velho e surrado, com a postura encolhida e bancando o bêbado, fui dar um passeio por essa vila. Evitei passar por outras pessoas o máximo possível para não chamar atenção indesejada. Até para não correr o risco de alguém avistar o velho facão que levei escondido numa velha mochila, junto com outra muda de roupa.

Até as três da madrugada usei meu faro e audição para mapear os pontos de drogas locais. Determinado qual era o maior, passei para a fase dois. Fiz a volta na quadra e pulei a grade da casa diretamente atrás dele. Chegando ao muro que dividia os dois terrenos mudei para a forma de homem-lobo, pequei o facão, larguei a mochila em um canto e saltei novamente, caindo no pátio dos fundos dos traficantes. Os cães de guarda, dois pitbulls, avançaram latindo, entretanto um rosnado meu garantiu que eles não se aproximassem.

Rapidamente corri para a casa e pulei para o telhado. Não demorou para três homens jovens e mal cheirosos virem verificar o motivo dos latidos. Como os animais estavam o mais longe de mim possível os marginais acabaram saindo para ir até eles ver o que estava acontecendo, o da frente segurando um revolver .38.

Assim que o ultimo deu três passos fora da porta pulei atrás dele, antes de tocar no chão com um movimento rápido arranquei a cabeça dele. Os outros dois não tiveram tempo nem de se voltar, antes que dando um passo a frente e movendo a lâmina em um amplo arco eu os decapitasse também.

Jorrou bastante sangue e mais tarde não pude deixar de reparar que isso não me incomodou como deveria. Na hora simplesmente me dirigi para dentro da casa, parei um momento na soleira para farejar, apesar do fedor do local pude perceber a presença de outros dois humanos lá. Estavam na sala vendo um filme de terror, sorri pela ironia.

Avancei rapidamente pelo local, entrando no recinto onde minhas pressas estavam sem nenhum cuidado com a discrição, o facão apoiado sobre o ombro. Um deles estava tão chapado que não fez nada além de me olhar com cara de bobo.

– PUTA MERDA! – gritou o outro. Levantou do sofá e pegou uma uzi de cima da mesa de centro. Antes do infeliz apertar o gatilho pulei até ele e com um golpe de cima para baixo, lhe arranquei a mão direita. – AAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!! – foi sua única resposta antes de ter o coração perfurado pela velha lâmina.

Dois tiros me atingiram nas costas. Doeu um absurdo, mas minha única reação foi olhar para o drogado com cara de poucos amigos e rosnar. O queixo dele caiu, assim como a pistola que estava segurando.

O ultimo traficante começou a chorar. – Não me mata. Não me mata. Não me mata, por favor, não me mata.

– Você já matou algum inocente que implorou pela vida? – perguntei para ele enquanto soltava o facão do corpo do colega.

– Não, não. Nunca matei ninguém. Por favor, não me mata. – mesmo em meio ao cheiro de seu medo pude perceber que mentia.

Arremessei minha arma. A lâmina entrou pela testa dele até o cabo. Aproximei-me, pisei no peito do cadáver e puxei o facão. Os projeteis que haviam me atingindo foram expelidos para fora nesse meio tempo e os recolhi.

Rapidamente revistei a casa, encontrei quase cinquenta mil reais. Sem falar de muitas drogas, armas e alguns químicos. Guardei apenas o dinheiro, o armamento destruí usando um martelo e o resto joguei na fossa do esgoto.

Apesar de todo o estrago tomei cuidado para não me sujar muito de sangue. Voltei para os fundos da propriedade e sai por onde entrei. Recuperando minha mochila na passada.

Antes de ir para minha casa cruzei uma área de campos próxima da vila barra pesada. Em uma fogueira que fiz dentro de um buraco, incinerei as roupas sujas e o facão. Depois de apagar o fogo cobri a vala com terra. Então tomei banho em um córrego, verifiquei que já não havia nenhuma cicatriz dos tiros e vesti a roupa limpa.

Depois de tudo isso voltei ao meu lar, doce lar. Fiz um belo lanche e dormi muito bem.

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  1. 16/11/2011 às 18:13

    Caramba, Fábio! Finalmente li os 4 capítulos da já então novela! Gostei muito das descrições de transformação. Muito boas. Tem futuro esse texto. Uma boa lapidada e a história fica muito boa. Percebi uma certa inspiração em ti mesmo?

    • Fábio
      16/11/2011 às 21:21

      A parte do ciclismo bastante.

      A parte do nerd um pouco, mas o detalhe do “ninja” veio de conhecidos que são “nerds no armário”.

      Na parte do casamento como ainda não tive nenhuma relação séria, me inspirei em casos que aconteceram com alguns conhecidos meus.

      • 17/11/2011 às 20:10

        Li agora o texto e acho que possui muitas boas idéias. Como disse o Rafael, uma boa lapidada vai tornando menos a narrativa menos truncada, mas isso é normal. Os meus também são truncados em várias partes e somente com a prática é que chegaremos no ponto certo.
        Parabéns pelo texto.

  2. Fábio
    17/11/2011 às 21:22

    Obrigado pela atenção e pelo comentário Marco.

    Sempre li muito e imaginei mais ainda, entretanto escrever ainda é novidade.

  1. 19/11/2011 às 08:51
  2. 21/11/2011 às 00:00

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