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Uivo Sufocado – Parte 05

Veja o começo: parte 01, parte 02, parte 03 e parte 04.

Festa

A manhã seguinte passei no centro fazendo algumas compras, particularmente um conjunto de talheres de prata e material de serralheiro. Já a tarde foi dedicada a uma pedalada de ida e volta até uma cidade próxima. Sendo que os sessenta quilômetros da ida tiveram predominância de subidas.

Resolvi passar a terceira noite de lua minguante comemorando. Passei as primeiras horas da noite na forma de lobo-humano, percorrendo o conjunto agrotécnico localizado próximo do meu bairro, evitando os vigias e espreitando os animais. Confesso que foi ótima a sensação de saber que eles estavam a minha mercê. Até mesmo pratiquei um pouco de pesca, ou melhor, “caça ecológica”, atacando alguns animais, mas sem feri-los realmente, apenas os capturando e soltando em seguida.

Terminada a brincadeira tomei uma bela ducha, coloquei roupas novas, tênis preto, jeans escuros e camiseta dry fit azul. Por volta da meia noite fui para o porto, o atual point da noite, graças principalmente a presença de centros universitários, contando uma variedade de bares, lancherias e casas noturnas.

Andando por ruas e locais cheios de indivíduos com as inibições diminuídas pelo álcool, pude reparar que meu humor parece ter algum tipo de eco nas pessoas. Nesse tipo de ambiente sempre há aqueles caras metidos a machões, com o peito estufado e atitude hostil. Sempre achei isso irritante e nenhum deles foi capaz de se manter próximo a mim por mais que alguns minutos. Era só eu parar em suas imediações que sua inquietação ia ficando evidente em instantes, até que eles se afastavam, evitando meu olhar. Se a linguagem corporal já não fosse obvia o suficiente o odor de medo era inconfundível.

Por outro lado quando ficava atraído por uma mulher e demonstrava meu interesse, a reação delas era bastante positiva, mesmo as que fingiam não perceber ou que estavam acompanhadas ficavam perceptivelmente excitadas. Já comentei como adorei o faro de lobisomem?

Como nem tudo são flores, em certos momentos o excesso de odores e sons me deixou atordoado. Felizmente rapidamente fui me adaptando e aprendendo a filtrar o excedente de informação. Quase como se ao invés de estar aprendendo a controlar essas capacidades do nada, estivesse apenas relembrando elas.

Nessa noite beijei mais mulheres que no resto da minha vida, mas foi realmente difícil escolher uma para transar. É um pouco complicado em uma festa achar uma mulher atraente, sóbria, que não feda a cigarro e nem esteja doente. Entretanto, feita a escolha, eu já estava tão excitado que levá-la para casa não era uma opção e acabamos ocupando o banheiro da boate por um bom tempo. Para desespero de um monte de bêbados de bexiga cheia.

Foi uma boa noite. Pena que não continuou assim.

Caçado

Às quatro horas da madrugada decidi voltar para casa. Não que estivesse com sono ou cansado, apenas nunca fui realmente de passar as noites em boates e me entediei. Decidi ir caminhando para aproveitar o ar da madrugada e quem sabe encontrar uma bela jovem, pela estrada a fora, levando doces para a vovozinha…

Não demorou muito para perceber estar sendo seguido. O fato dos meus perseguidores estarem tomando cuidado para não ficarem a favor do vento, me indicou que a coisa provavelmente era séria.

Fiz várias voltas pelo centro, caminhando lentamente para me certificar que a sensação de estar sendo observado não era apenas uma impressão. No processo de concentrar meus sentidos ao máximo para confirmar minhas suspeitas, comecei a notar presenças não relacionadas à situação, primeiro como sombras e vultos, depois imagens difusas. Minhas suspeitas sobre esses outros se confirmou quando reconheci uma celebridade local a muito falecido.

Apesar do momento poltergeist ter me distraído um tanto, voltei a me focar nos meus stalkers. Em certa hora tive uma idéia bem simples. Fiz a volta na quadra e comecei e a voltar por onde vim, logo pequei o cheiro das minhas sombras. Eram dois homens adultos, mas com um pequeno toque característico nos seus odores, um toque que existe no meu, sem a menor dúvida eram lobisomens.

Então segui para a praça localizada ao lado do camelódromo municipal. Um local com bastante vegetação e pouca luz. Fui até o chafariz em seu centro.

– Sei que estão ai. Apareçam. – falei tentando parecer calmo e esperei.

– Hora, hora, hora. Que esperto o intruso. – disse ironicamente uma voz alguns metros atrás de mim. Meus pelos se arrepiaram enquanto eu girei sobre meus calcanhares na direção do som. Vi um homem moreno e mal encarado, com o rosto liso e cabelo raspado. Vestia jeans e camiseta preta. Fedia a suor.

– Se fosse esperto mesmo não tinha invadido o território dos Garras Sangrentas. – dessa em a voz veio de uns dez metros a minha direita. Voltei um pouco o rosto para ver o segundo licantropo, tomando cuidado para não perder o primeiro de vista. Esse era loiro e barbudo, também tinha a cabeça rapada. Além do odor a suor, ainda cheirava a maconha.

– Não invadi território nenhum. Sempre vivi aqui na cidade. – foi minha resposta.

– Sério? – questionou o alemão.

– Sim.

– Então é um retardado! – exclamou ironicamente o moreno. Imediatamente começando a gargalhar e sendo acompanhado pelo outro.

– Que beleza. Um ômega novo pra a alcatéia. Já tava enjoado de chutar sempre o rabo do Pedro. – seguiu o moreno.

– Quando tu virou?

– Faz pouco mais de uma semana.

O loiro estampou um sorriso malicioso no rosto

– Hehehehe. Jorge o que tu acha? Certo que ninguém sabe que esse troxa existe.

– Pior. – falou o moreno enquanto também começou a sorrir. – Ninguém vai notar a falta. Cardoso o que acha da gente se divertir?

– Beleza. O retardado! Vamo ti dar cinco minutos de vantagem. Corre! – concluiu o alemão Cardoso.

Ambos assumiram imediatamente o aspecto do homem-lobo.

Caçador

Sendo conhecido por ser bem mandado. Eu corri.

Mas não estava fugindo. Agora que tinha visto a fuça deles, registrado o cheiro e odiado os dois com todas as minhas forças, eu queria sangue. Entretanto não era burro de atacar os dois ali mesmo, feito um desvairado.

Corri pelas ruas onde havia mais movimento. Voltando para o porto, onde meu rastro estava por toda parte. Assim que cheguei lá comecei a fazer muitas curvas e voltas tentando ficar contra o vento e cruzar minhas trilhas anteriores de vez em quando.

Claro que eles não me deram cinco minutos e claro que não os despistei por mais que alguns segundos. Porém esses momentos de vantagem me permitiram avaliar a situação e fazer planos. Péssimos planos, mas melhor isso que nada.

Reparei que eles se dividiram e ficaram revezando quem vinha mais próximo a presa. Também conhecida como eu!

Saindo da área mais badalada do porto transformei minhas mãos em garras e fui perdendo terreno para meu perseguidor mais próximo. No caso o barbudo filho da puta.

Esperei até o instante em que ele saltou para me atacar. Para rodopiar sobre o pé esquerdo, enquanto me agachava e girava o braço direito de cima para baixo. Com as garras em riste, abri cinco valetas do peito até as jóias da família dele. O Cardoso passou gritando sobre mim e caiu de cara no chão.

Ambos levantamos rapidamente. Aproveitei que o alemão estava um pouco atordoado para lhe acertar no rosto com sangue e um naco da carne que arranquei dele. Depois de já ter sido atingido o idiota cruzou os braços na frente do rosto para se proteger. Aproveitei para avançar dois passos, assumindo a forma de lobo-humano e com um movimento reto por entre seus cotovelos, enterrei minha mão esquerda no seu pescoço. O desgraçado só teve tempo de arregalar os olhos e segurar meu antebraço com as duas mãos, antes que eu usasse a mão direita para agarrar o topo de sua cabeça e com um puxão só arrancá-la fora.

Eliminado o primeiro problema comecei a cuidadosamente olhar ao redor e farejar o ar para detectar o segundo. Não foi difícil avistar o Jorge, em pé sobre uma casa a três quadras de distância. Rapidamente a expressão de espanto em sua face deu lugar a ódio, ele pulou para o chão, mas ao invés de vir em minha direção, correu no sentido contrário. Tomado pela adrenalina assumi uma forma mais discreta e tentei segui-lo, porém rapidamente perdi o rastro.

 Entra o alfa

Mais tarde fiquei sabendo que Jorge foi até seu carro e disparou. Dirigindo diretamente para o sítio que serve de sede para os Garras Sangrentas.

Estavam lá quando ele chegou Gabriel, o alfa, um ruivo alto e muito musculoso; Monica, a fêmea alfa, uma bela loira de olhos verdes, estatura mediana e porte atlético; Eduardo e Alex, os dois betas da alcatéia, ambos negros, altos e fortes, o primeiro bastante gordo e outro em boa forma; e Bruno, o ômega, com cabelo claro e olhos esverdeados, mal chegando a um metro e sessenta de altura.

Esse último era considerado um inútil. Mas por ser tratado quase como um bobo da corte, sempre estava por perto da cúpula da alcatéia.

Ouviu sobre o encontro do lacaio comigo e a morte do Cardoso, deixou o alfa furioso. Ele encheu Jorge a socos por ser um incompetente que perdeu um companheiro para um retardatário. Ou seja, para um licantropo que só teve sua primeira transformação mais velho, ao invés de quando era um adolescente. Em geral eles são considerados perdedores durante toda vida.

– Sabe onde encontrar esse cara? – perguntou o líder.

– Ainda não, ma ouvi ele se apresentando pra uma vadia como Marcelo Ulv.

– “Ulv”? Se isso for sobrenome não devem ter muitos por ai.

– Bruno, me passa o telefone.

– Vamo logo seu lerdo. – como sempre o alfa não tinha paciência e preferia gastar o telefone dos outros. Depois de digitar um número de cor. – Alô! Delegado?

– Eu mesmo. Como ta Gabriel? Tudo beleza? – respondeu a voz rouca de fumante no outro lado da linha.

– Tranquilo. Escuta, tens que puxar uma ficha pra mim.

– Certo, passa o nome.

– Marcelo Ulv.

– Ok. Só um pouquinho. – por alguns instantes só chegou pelo celular o som de teclas.

– Tem só um Marcelo Ulv na cidade. Ficha limpa. Casado. É esse?

– Deve ser.

– Qual o endereço? – questionou com um sorriso sádico.

Crueldade

Na noite seguinte, depois que os outros saíram, Gabriel ficou se agarrando com a Monica na frente de Bruno. Isso era comum, porém o ômega não via nenhuma graça em assistir alguém passando a mão na sua irmã. Entretanto sair do recinto sem autorização não era uma opção e ele não tinha nenhum bom motivo para pedir licença.

O fato de Bruno ser o lobisomem mais inteligente na região e ser irmão da fêmea alfa, não ajudava sua situação no bando. Na verdade alguns dos outros abusavam ainda mais dele por isso. Sendo ele o mais fraco fisicamente, vários membros mais inescrupulosos da alcatéia achavam ter o direito de maltratá-lo.

Quando o telefone tocou perto das vinte e três horas, Gabriel atendeu imediatamente.

– E ai Jorge?

– Ele não ta aqui chefe. Parece que eles tão separados. Ma nem se preocupa que a vaca já disse onde ele ta morando agora. Só liguei pra avisar isso e perguntar o que fazemo com essa inútil?

– Separados? É sério? Ele ainda gosta dela? – perguntou com uma expressão séria na face.

– Péra que eu já vejo aqui. – se seguiram sons de gemidos de dor abafados e murmúrios.

– É sério chefe, ma o cara ainda gosta dela sim.

O rosto de Gabriel assumiu um aspecto maldoso.

– Separações dão muita incomodação. Vamos ajudar nosso companheiro lupino a resolver isso rápido.

– Matem ela de forma bem demorada e grotesca. – concluiu com um sorriso.

– Depois podem voltar para cá. Vou deixar esse lobo solitário vivo mais um pouco. Tragam o celular dela.

– hehehehehehhehehehehhe. – desligou enquanto ria calmamente.

Levou mais uma hora até os capangas voltarem. Chegaram fedendo a sexo e morte. Bruno e Monica ficaram enojados, entretanto nenhum deles era louco de recriminá-los enquanto eles tinham a benção do alfa.

Sentindo as emoções dos dois, Gabriel e seus lacaios apenas riram e se cumprimentaram animadamente.

– Trouxeram o telefone?

– Aqui. – Jorge alcançou rapidamente o aparelho para o líder.

Considerando o imprevisto da noite anterior, decidi ficar em casa até a poeira baixar, ou pelo menos até decidir o que fazer. Quando meu celular tocou e indicou que era a Débora achei que era um mau sinal, mas não fazia idéia do quanto.

– Fala. – atendi secamente.

– hehehe. Que forma de atender tua querida esposa. – respondeu uma voz masculina desconhecida.

– Que merda é essa? – imagino que irritação deve ter sido obvia no meu tom de voz.

– Aqui é o teu alfa. Mais respeito, por favor. – falou de forma séria o estranho.

– Não tenho nenhum alfa.

– O que está acontecendo? Onde está Débora?

– Os pedaços dela estão lá no apartamento de vocês.

– O QUE! – meus joelhos amoleceram e tive que me ajoelhar.

– Fiquei sabendo que vocês tavam se divorciando e resolvi ajudar. Nem precisa agradecer. A polícia vai dizer que foi algum pit bull furioso ou coisa parecida. Um infeliz acidente.

– Por quê? – a voz quase me faltou.

– Tu matou um dos meus.

– Ele tentou me matar primeiro. – falei de forma um pouco mais firme, enquanto lagrimas me corriam nos olhos. Apesar de meus problemas com ela, Débora não merecia isso.

– Não interessa. Tu não é da minha alcatéia, não me importa o que fazem contigo, mas ninguém mexe com os meus. – senti no tom que ele falava sério.

– Mas agora estamos quites. Se tu quiser pode entrar no bando.

– VOCÊS SÃO LOUCOS!

– Isso é um não? Se for tens só essa noite pra deixar minha cidade.

Por quase um minuto não consegui falar nada. Fiquei ali parado com o telefone na mão, podia ouvir a respiração do alfa do outro lado. Milhares de coisas passaram pela minha cabeça. Pensei nas escolhas que ele me deu. Mas quem eu queria enganar? Independente do que ele falou, eu só tinha uma opção.

– Você sabe que isso significa guerra? – disse calmamente e desliguei.

Ponderações do mais fraco

– HAHAHHAHAHAHAHAHAHAH! Vamos nos divertir mais um pouco então. – Gabriel pareceu realmente feliz.

Monica apenas suspirou sem nenhuma satisfação frente à perspectiva da matança. Já os outros ficaram visivelmente satisfeitos. Com exceção de Bruno que emanou medo. A fêmea alfa percebeu esse fato e achou estranho. Apesar dos abusos que sofre, o irmão raramente fica com receio de alguma coisa. Mais tarde depois do líder deixar o sítio para ir beber na cidade com o bando de capangas, Monica foi conversar com Bruno.

– O que ouve? Porque ficou com medo aquela hora?

– Ele não é só um retardatário comum.

– Quem? O tal Marcelo?

– Sim.

– Do que tu ta falando guri?

– Não prestasse atenção em nada? Desde quando um retardatário, ou melhor ainda, um lobisomem com menos de duas semanas como licantropo consegue transformar só uma parte do corpo?

– Ou se transformar tão rápido em uma lua minguante?

– Hum. Realmente. Agora que tu falou isso não parece normal mesmo. Mas ainda assim ele não é nada além de um lobo solitário. O coitado já está morto. Não precisa ter medo dele.

“– Você sabe que isso significa guerra?“

– É claro que ele ficou furioso. Tinha que falar algo assim mesmo. – Monica finalizou, já virando as costas. Certa que as preocupações do irmão eram infundadas.

– Só que ele não falou isso descontrolado… – ao perceber que o Bruno estava certo ela parou e esperou ele continuar.

– Deu para sentir no tom de voz anterior que ele estava furioso, mas ainda assim ele recuperou todo o controle. Em uma situação dessas é difícil para alguém do nosso povo conseguir se controlar assim.

– Além disso, ele não fez simplesmente uma ameaça qualquer antes de desligar.

“– Você sabe que isso significa guerra?” É uma citação.

– Quem ele citou? – Monica não escondeu a curiosidade, imaginando que grande guerreiro teria dito tais palavras.

– O Pernalonga. – Bruno novamente emanou medo.

– Como assim! O coelho? Tá de brincadeira! – a surpresa da fêmea alfa foi grande.

Ela desatou a gargalhar. Porém a expressão séria do irmão lhe fez cortar o riso.

– Consegue imaginar que tipo de pessoa citaria um personagem de desenho animado em uma hora dessas? Em uma situação tão extrema como do nada virar um lobisomem depois de velho, descobrir estar sendo caçado por uma alcatéia e que uma pessoa que tu gosta foi estraçalhada?

– Não. – respondeu após um instante de ponderação. Agora Monica também estava séria.

– Ou ele ficou completamente louco. Ou é um filho da puta casca grossa. De qualquer forma acho que a porra ficou séria!

– Será que o Gabriel corre risco? – indagou Monica em um sussuro.

– Espero que sim. – o ômega afirmou com rancor.

Ambos trocaram olhares esperançosos.

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  1. 21/11/2011 às 00:00

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