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Em Roma… (crônica II).

Em Roma… (crônica II).

Por Marco Antônio Collares

Na Trilha do Tempo

Menênio Agripa acordou em meio á montanha de restos de corpos destroçados na planície de Canae.
– Fora daqui, animal!! Bradou ao zéfiro, espantando um abutre que lhe bicava a têmpora.
Uma confusão de odores fétidos lhe sobrecarrega o pensamento, mas o som inaudível do nome daquele monstro cartaginês insistia em ecoar na cabeça.
 -Aníbal, seu verme!! Gritou.
Como era possível o massacre em Canae? Os romanos estavam em maioria sobre as tropas da Espanha e da África, lutando por sua pátria, “na defesa de nosso maiores”, como costumavam dizer. Como era possível que 80 mil legionários treinados e disciplinados tivessem sido massacrados perante a metade das tropas bárbaras?
– Aqueles malditos Númidas!! Bradou novamente, cheio de fúria e dor, devido ao talho na têmpora e ao ferimento na orelha. Que orelha?

– Onde está minha orelha? Deceparam minha orelha! Malditos Númidas! Maldito Aníbal!!
Novamente o som do nome do monstro proferido aos quatro ventos, enquanto Agripa se levantada e cambaleava em meio aos corpos, muitos dos quais seus amigos e aliados. Lá e acolá estavam os Cláudios e os Fábios, destroçados como queijo, para não dizer os imponentes Júlios, mais distantes, bem como um Caio Enobardo, um Emiliano Fúngio, um Luciano Póstumio, sem falar no Drúsio. Pobre Drúsio, tão jovem, espinhento, tagarela e valoroso, tão morto agora à beira do rio vermelho cor de sangue e barro.
Será que não tinha mais ninguém vivo para lutar e morrer a beira daquele Estige terreno?
– Ainda tem um romano com vida nessa maldita Itália, seus cornos!! Bradou novamente, enquanto seguia adiante, até encontrar uma trilha sinuosa de tijolos alaranjados, para não dizer, amarelo ouro resplandecente. O cheiro continuava insuportável, não somente de sangue misturado com as tripas dos varões romanos mutilados, mas também das fezes daquelas gentes todas com os buchos de fora.
Como Aníbal tinha vencido a batalha, munido somente da metade das forças romanas? Novamente a pergunta latejando na têmpora machucada.
Em meio ao calor da batalha, quando Menênio deu por si, os romanos já estavam cercados, em maior número sim, mas estranhamente cercados, aprisionados em sua própria cunha de ataque.
– Malditos Númidas!!
Uma última maledicência foi desferida, e Agripa entrou finalmente na trilha de ouro, em direção a sua querida Roma.
Roma? Sim. Todas as estradas levam a Roma. Onde ele ouvira essa expressão? Seria do ex-ditador, Fabius Máximus? Ah, se aqueles abutres tivessem seguido os conselhos do ditador… Agripa achava que tinha ouvido a expressão no Fórum. Sim, tudo sempre ocorria no Fórum, desde as festas, as procissões, os triunfos e até os assassinatos cotidianos das gentes metidas à bestas. Em Roma, bastava três clientes pobres para um sujeitinho qualquer se considerar melhor que os outros, nem precisava pertencer a nobilitas. Comprava-se dignitas nas esquinas, insulae e vielas sujas cheias de meretrizes tuberculosas.
Ah, querida Roma, tão bela e decadente, tão justa e insólita, tão grandiosa, lustrosa e ao mesmo tempo fétida e suarenta. Ainda assim era sua querida Roma, a mãe de todos os romanos, de toda uma civilização em meio ao caos dos bárbaros, desprovidos de lei ou justiça. Malditos cartagineses por destruir aquela civilização! Malditos Númidas de Aníbal!! O pai de Aníbal já havia perdido na Sicília e agora o filho queria a desforra, atrevendo-se a atacar a Itália, no coração do novo Império que se formara.
– Quem você pensa que é Aníbal? Acha que pode desbancar um Império com elefantes e Númidas?
Enquanto cambaleava pela rilha, Agripa vislumbrou uma miragem, ou talvez uma cidade estranhamente irreal, com seus prédios de mármore, madeira e esperanças perdidas. Roma? Talvez. Em chamas? Com toda a certeza dos deuses indigetes e da tríade capitolina.
– Por Júpiter! Espantou-se ante a visão avermelhada do fogo que consumia carne, vermes e vinho. Uma cidade em chamas do nada aparecera ao lado da trilha, enquanto dois homens conversavam do lado de fora, do alto de seus imponentes cavalos, um deles, romano, o outro, um grego.
Quem eram? Não importava. Um pretor ou um cônsul? Não lhe cabia responder. O romano, a olhos vistos, vergava sua armadura dourada com a imponência do próprio Apolo. Utilizando-se de um latim clássico e nobiliário, falou ao outro:
– Estás vendo Políbio? Cartago, em chamas. Só temo que um dia seja a vez de Roma. Queiram os deuses que eu, Cipião Emiliano, morra antes de minha Roma arder nas chamas de sua própria destruição, tal como os púnicos, outrora invencíveis estão vendo agora sua querida Cartago.
As figuras ficaram ocas e opacas, perdendo-se na névoa da fumaça que subia aos céus, como a silhueta de uma prostituta cor de ébano lustroso em meio às lupercais do porto de Ostia.
Cartago destruída? Foi isso que Agripa ouviu? Como isso ocorreu? Quando? Será que enquanto os romanos eram destroçados em Canae, outra força atacava Cartago? Seria toda aquela mortandade cômica uma espécie de ardil macabro desenvolvido pelos sábios do senado?
Não, isso não podia ocorrer… Todas as forças estavam em Canae. A perda de sangue… Pensou. Sim, a perda de sangue e o calor estavam fazendo Agripa ter miragens. Talvez estivesse moribundo agora, em meio aos corpos dos demais, arrastando-se pelo chão enlameado como um porco e seu ventre aberto, imaginando-se em uma trilha de ouro e sonhos de grandeza, em direção aos Campos Elíseos.
Logo, uma nova miragem. Tratava-se de um homenzinho baixo, virulento e todo queimado, com bolhas vermelhas e pústulas abertas. Ele lhe apareceu como um fantasma lírico e apontou o dedo em direção a Cartago, em chamas. Com os olhos esbugalhados de dor e cólera, gritou-lhe:
– Vistes bem romano? Esse é o legado de sua civilização. Morte e destruição!! Essa é a herança de seu Império ardiloso!! Pax Romana… Os mortos estão sempre em paz, não é mesmo?
– Cala a boca, corno maldito!! Foram vocês que invadiram a Itália. Foi Aníbal quem trouxe a destruição para os campos da Campânia e da Sicília!!
Novamente bradou Agripa, febril, investindo contra o homem com seu gládio em punho, enfiando-lhe no ventre. A morte espreitou a planície novamente.
– Do que… Você está a falar? Falou-lhe o moribundo, caindo em seus braços.
– Cipião, o Africano venceu Aníbal, há mais de 50 anos atrás… Em Zama. Na batalha de Zama…
Agripa estacou na trilha e as imagens sumiram como que fugidias; a manifestação de uma mente destituída de razão. Foi quando ele percebeu que avançar na trilha significava avançar no tempo, um tempo que mostrava a glória do Império Romano, invencível e eterno, como deveria ser.
Afinal, não era Roma conhecida como a Cidade Eterna? Quem Aníbal pensava que era ao tentar romper com o destino manifesto de Próculo, aquele estimado cidadão que ouvira do próprio Rômulo em pessoa a declaração deste destino, logo quando o rei elevou-se a divindade?
Agripa estacou na estrada e gargalhou alto, gritando novas palavras aos ventos:
– Não há como nos vencer Aníbal! O destino romano é triunfar!! Por mais que venhamos a perder batalhas, nós sempre venceremos a guerra, ao final!!
Com as últimas forças sobre humanas que lhe restavam, Agripa levantou-se em meio à trilha e começou a correr, sempre em frente. Queria vislumbrar a vitória final de Roma sobre o mundo conhecido, o apogeu do Império Universal, um imperium sine fine.
Ele sabia agora que Aníbal seria derrotado por certo Cipião, o Africano, sabia também que Cartago cairia perante as forças romanas, sendo engolida pela língua de fogo de sua própria hybris.
Sim, mas ele queria vislumbrar mais, queria conhecer a força daquele Império, sentir cada momento inebriante da vitória. Observar a conquista da Grécia, da Hispânia, da Macedônia, do Egito e do Oriente Antigo, quem sabe da Britânia, tão longe e inóspita.
De súbito, ele estacou. Lembrou das palavras do romano, em cima do cavalo, diante de Cartago. Estás vendo Políbio? Cartago, em chamas. Só temo que um dia seja a vez de Roma. Queira os deuses que eu, Cipião Emiliano morra antes de minha Roma arder nas chamas de sua própria destruição, tal como os púnicos, outrora invencíveis estão vendo agora sua Cartago.
Palavras sábias ou apenas temores infundados?
E se o destino e a fortuna caminhavam sempre para um mesmo fim?
E se o destino de todas as cidades e Impérios fosse suas destruições, tal como outrora, o Império do grandioso Alexandre?
Menênio Agripa parou e fechou os olhos. Negou-se a caminhar novamente, decidindo voltar ao presente, onde o espírito romano estava alquebrado em meio à planície de Canae, ainda que provisoriamente. Ele decidiu que viveria o presente, sabendo que após aquele momento de derrota, Roma triunfaria.
O futuro distante? Bem, Agripa se negava a conhecer. Assim, não veria a queda do Império Romano perante os povos germanos do norte, no distante século V d.C.
A Trilha do Tempo desapareceu e Menênio Agripa permaneceu em meio aos corpos da derrota romana de Canae.
Ah, mas pensando bem… Que bela derrota fora aquela!!
Fim de mais um Capítulo.

Sobre textos e contextos
Por Marco Antônio Collares
O conto se passa em dois momentos diferentes da história de Roma. Iniciando na Segunda Guerra Púnica (218 – 202 a.C), quando as forças de Aníbal invadiram a Itália, com forças vindas da Espanha e da Numídia, norte da África. Não devemos esquecer que a famosa batalha de Canas, mencionada no conto, foi real, por se tratar de uma aula de estratégia, na qual o cartaginês esmagou 80 mil romanos. Aníbal poderia ter invadido Roma logo após, mas negou-se a isso, preferindo percorrer a Itália de modo a enfraquecer ainda mais uma cidade vencida. A máxima de Asdrúbal (não o irmão de Aníbal, mas um general), de que “ele sabia vencer uma batalha, mas não a guerra” foi narrada por Políbio, que escreveu a história da guerra. Caminhando na trilha, o personagem do conto entra noutro tempo, na Terceira Guerra Púnica (149 – 146 a.C), quando as forças romanas de Cipião Emiliano destruíram e incendiaram a cidade inimiga. O diálogo entre Cipião e o já mencionado historiador grego, Políbio é narrado por Catão e Varrão (autores do século II e I a.C, respectivamente). Importante mencionar que o conto é cheio de referências da sociedade, da história e da mentalidade romana. São elas:
“Na defesa de nossos maiores” era uma referência comum, significando a defesa dos costumes ancestrais, o mos maiorum, ou mores, de onde advém a palavra moral.
O ditador Fábius Máximus realmente existiu. Sua tática era simples; evitar confrontos diretos com Aníbal para enfraquecê-lo, afinal ele estava na Itália, terra romana, cheia de aliados romanos.
Os númidas, constantemente mencionados no conto eram parte da cavalaria cartaginesa. Eram negros africanos da Numídia, ao lado da região da Tunísia atual, onde ficava Cartago. Eram excelentes lanceiros e foram essenciais na batalha de Canas, contendo a cavalaria romana nas pontas da formação de ataque, de modo ao sucesso do cerco empreendido por Aníbal.
nobilitas era a elite patrício-plebéia formada ao longo dos séculos V – III a.C, com o casamento misto entre patrícios e plebeus.
As insulae, mencionadas no texto eram pequenos apartamentos locados para os pobres de Roma, normalmente insalubres e feitos de madeira, pegando fogo constantemente. Uma verdadeira ratoeira humana na periferia romana, onde os pobres moravam e onde os ricos ganhavam dinheiro fácil com aluguéis baratos.
O termo Cidade Eterna fazia parte de uma tradição referendada por Políbio, assim como o termo Imperio sine fine. No primeiro caso, Políbio afirmava o sucesso da constituição mista romana, baseada na mistura da monarquia, aristocracia e democracia, com seus magistrados, senado e assembleias, o segundo referendava a idéia de expansão contínua do Império.
Por fim, Próculo e o destino manifesto aparecem na tradição escrita de Virgílio e Tito Lívio. Tratar-se-ia do último cidadão a vislumbrar o rei lendário, Rômulo, antes de ele ascender à divindade e se tornar o deus Quirino, ou Jano Quirino, o deus das portas e passagens. Quando Roma estava em guerra, as portas de seus templos estavam abertas, o que fortalecia a ideia de uma cidade belicosa e que estava destinada a conquistar outros povos, segundo a tradição oral e escrita imperial.
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