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Uivo Sufocado

Autoria: Fábio Dias.
Revisão: Roberta Manaa.
Uma manhã comum
        “Dormi” quase cinco horas. Mesmo não precisando mais que uma ou duas horas de sono diárias. Vale a pena deixar meu corpo desacordado por algum tempo, para explorar as oportunidades únicas que a projeção astral oferece.
        Nesse período não registrei o som dos galos e outros animais do sítio ao começarem um novo dia. Ou o barulho dos carros passando na rodovia a poucos quilômetros de distância. Nem mesmo a respiração e os movimentos da bela japonesa nua adormecida ao meu lado.
        Porém, o som do portão da propriedade sendo aberto me trouxe imediatamente de volta ao mundo desperto. Sem me mover ou abrir os olhos inspirei profundamente. Relaxei ao confirmar que o visitante era conhecido.
        Levantei com cuidado para não perturbar a jovem adormecida. Tenho que admitir, Mônica tem um ótimo gosto para mulheres. Preciso lembrar-me de agradecê-la por dividir esse ultimo achado comigo.
        Vesti uma calça de abrigo e fui para a cozinha. Enquanto preparava o café da manhã Bruno chegou e por pura formalidade bateu antes de entrar.
        – Bom dia. – cumprimentei assim que ele abriu a porta.
        – Bom dia. Embora seja quase boa tarde. – riu ao apontar para o relógio marcando 11:47. – Como foi a noite? Minha irmã te deu trabalho?
        – Não, não. Ela saiu cedo, mas deixou alguém que cumpriu bem a função.
        – Posso? – perguntou apontando para o nariz.
        – Claro. – comecei a tomar o café.
        Bruno farejou o ar por alguns instantes. – Sei quem é. Ela é linda. Acho que o nome é Ayumi, certo?
        – Ela mesma.
        – Desculpa já ir falando em negócios, entretanto parece que temos um problema recorrente.
        – Nem esquenta. O que é? – questionei entre uma mordida e outra no sanduíche de frango.
        – Tem dois adolescentes, rebeldes sem causa, que andam dando bandeira na frente dos normais.
        – Os pais estão sabendo?
        – Sim. Foram eles que pediram para eu te falar. Os guris não dão atenção para o que eles dizem.
        – Típico. – rolei os olhos. Não importa o povo, “aborrescentes” são sempre iguais.
        – O que vai fazer?
        – Manda o Alex trazer eles aqui. Vou falar com os dois numa boa e explicar o perigo que correm fazendo isso.
        – Sério? – a dúvida era clara no rosto do Bruno.
        – Sério. Só que depois da conversa vou arrebentar eles na porrada como punição pelas merdas que já aprontaram.
        – Boa. – gargalhou.
        – Mais alguma coisa?
        – Sim. Notícia boa.
– Então desembucha logo. – terminei o café.
– O Conselho das Trevas local aceitou teu pedido para ingressar como nosso representante. Eles vão dar um baile de máscaras em uma das charqueadas na próxima lua cheia e estamos todos convidados. Suas cerimônias de posse vão ser lá.
– Cerimônias? – nesse momento percebi um odor estranho vindo da rua.
– Uma pública bem festiva e uma fechada, solene e misteriosa. Essa segunda o Gabriel nunca teve. Vais entrar mais fundo do que ele nesse negócio de sociedade secreta.
        – Beleza. Foi mais fácil do que esperava.
        – Nem preciso te lembrar que teu antecessor era um pé nas bolas. Eles estão mais do que felizes com a troca. Além disso, considerando tua estirpe, acho que preferem te manter bem ao alcance das vistas.
        – Faz sentido. – bebi um copo de suco de laranja de uma só vez. – Agora antes de qualquer outra coisa, tens alguma ideia do porque esse fedor a cadáveres está se aproximando da casa?
        – Aé! Já ia esquecendo. São zumbis. – falou como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. – Devem ter mandado eles de dia para tentar te surpreender.
        – Zumbis?
        – Sim. Uns oito.
        – Por que cargas d’água têm zumbis no meu jardim?
        – Algum feiticeiro deve ter invocado eles para te matar.
        – Sei. E o motivo seria?
        – Sem um líder forte nossa facção tem menos poder político e militar.
        – E acham que sou um líder forte por…?
– O Gabriel era, tu matou ele. Portanto…
Suspirei – Ok, ok. Alguma coisa que eu deva saber sobre zumbis?
– Tchê. Tem variações. Pelo que vi quando passei de carro por eles, são do tipo rápido e forte. Vão dar um pouco de trabalho.
– Cara! Que jeito de começar uma segunda-feira. – ri e fui para a rua lembrando como toda essa loucura começou…

Quem eu sou?
        Meu nome é Marcelo Ulv e sou, digamos assim, peculiar!
        Entretanto, até pouco tempo atrás, era apenas mais um ninguém. Sempre fui muito retraído. Além disso, as pessoas sempre tenderam a me ignorar. Perdi a conta de quantas vezes esqueceram-se de contar comigo na escola, faculdade e trabalho. Mesmo meus poucos amigos às vezes esqueciam-se de me convidar para as coisas.
        Apesar do sobrenome norueguês, não era nenhum viking. De físico, estatura e aparência medianos, não me destacava por nada, nem positiva nem negativamente. Os olhos e cabelo castanhos apenas contribuíam para meu o look indistinto.
Ainda que tivesse uma inteligência acima da média, ela nunca me serviu para muita coisa, pois me sentia sem jeito em demonstrá-la, principalmente por causa de minhas inseguranças, que aliás eram muitas. Após me formar em História, um curso que gostei bastante, preferi um caminho mais seguro e me tornei funcionário público, um atendente do Tribunal Eleitoral.
Em relação a meus hobbys e interesses, gostava de me classificar como um “geek ninja”, um nerd que ninguém sabe que é nerd. Um apreciador solitário de fantasia e ficção, tanto ocidental, como oriental.
Escondido no meu computador enquanto outros teriam pornografia, sempre tive livros de RPG, contos e novelas; animes e desenhos americanos dos anos 80; além de filmes como Rambo, Drácula, Robin Hood e Bladerunner.
Ok, eu admito: Também coleciono muita pornografia.
Raramente uma mulher parecia notar minha existência e acabei casando com a primeira que fez isso com um pouco de entusiasmo, minha querida Débora. Dediquei dez anos da minha vida a ela e acreditei que fosse recíproco. Entretanto, tendo sido sempre um pessimista, não posso dizer que realmente fiquei supresso quando descobri que ela era uma cadela.
Sempre resisti à ideia de ter filhos e não me permitia perceber o porquê. Hoje fica claro que era por medo deles herdarem minha incapacidade. Apesar de Débora estar quase me convencendo a isso, felizmente não chegamos a tê-los.
        Já com quarenta anos nas costas não acreditava mais que alguma coisa pudesse mudar, não era realmente infeliz, mas também não podia dizer o contrário, estava de certa forma em paz com minha sina, talvez por passar a maior parte dos meus ociosos dias de trabalho perdido em sonhos e na internet. Foi no primeiro outono após completar quatro décadas de vida que as coisas mudaram.
        E tudo começou com mais um sonho.

O devaneio
        Foi um sonho bastante peculiar, mesmo para os meus padrões e isso quer dizer muito. O que minha vida tinha de maçante, meus devaneios tinham de mágicos e dinâmicos.
Esse foi diferente desde o inicio, pois foi um daqueles raros sonhos lúcidos, que algumas pessoas têm de vez em quando. Ainda na minha adolescência, depois do meu primeiro, pesquisei sobre o assunto e sempre tentei ter outros, fiz um diário de sonhos e muitas vezes mentalizava que ia tê-los antes de ir dormir. Raramente essas coisas funcionavam, devo ter tido uma meia dúzia deles, mas quando acontecia era ótimo, ainda que infelizmente acabassem muito rápido.
Dessa vez assim que me dei conta que estava sonhando comecei a tirar o máximo proveito, encontrei e fiz sexo com as mulheres mais lindas que conhecia, visitei os mais belos locais turísticos do mundo e espanquei muita, mas MUITA gente, que me encheu a paciência durante a vida. E fui de um momento para outro voando!
        Eventualmente percebi algo que parecia me escapar ao controle. Por mais que mudasse de cena, logo caía a noite e uma enorme lua cheia tomava o céu. Apesar de ficar um pouco curioso não me importei muito visto que aquela lua me causava uma grande sensação de satisfação.
        No devaneio vi uma grande coruja me olhando fixamente, achei-a um animal magnífico e quando ela decolou resolvi segui-la. Em meio ao vôo achei que seria divertido tomar a forma de uma ave e me transformei também num estrigídeo. É difícil descrever a sensação, mas senti um formigamento nos ossos que se alteravam, à carne se ajustando a nova forma, penas surgindo pelos meus poros e os sentidos mudando.
Tudo isso foi de certa maneira familiar e me senti ótimo. Logo mudei para um falcão; em seguida mergulhei em um lago e me tornei um peixe; depois um sapo para sair da água; na margem assumi o aspecto de um jaguar e cacei pela floresta, descobrindo o sabor da carne de coelho.
Olhei para alto e lá estava a lua. Decidi mudar para lobo e uivar para ela, mas nada aconteceu, ainda era um jaguar, tentei outra vez e nada. Fiquei com medo de estar perdendo o controle do sonho, pensei em um leão e me tornei um, novamente mentalizei o lobo e nada.
Isso começou a me irritar. De novo e de novo tentei a metamorfose sem sucesso, aos poucos fui percebendo uma sensação nova, demorei a entender o que era, mas tinha memória de algo parecido.
Após mais algumas tentativas a sensação ficou forte o suficiente para eu reconhecer: era semelhante à de quando tive que usar uma liga de neoprene, depois de uma lesão no joelho. Era quase como se toda a minha pele fosse uma roupa de mergulho e, quando eu tentava virar lobo, ela ficava mais apertada.
Acho que não preciso dizer como isso me deixou ansioso. Pensei: – Que merda é essa? – e acordei.

As noites seguintes
Mantive a memória desse sonho bem clara na minha mente e na próxima noite assim que adormeci lá estava eu, em pé naquela mesma floresta, com aquela mesma lua sobre minha cabeça e novamente consciente.
Tentei a transformação novamente, podia assumir qualquer outra forma, mas a de lobo não era possível e agora a sensação de que minha epiderme era um tipo de roupa emborrachada era mais clara. A ansiedade voltou com muita força e experimentei puxar a pele das costas de minha mão esquerda com força.
Senti dor!
Pela primeira vez em um sonho senti dor.
Não a mesma que se sente quando se leva um beliscão, foi uma sensação semelhante à de se puxar uma bandagem que colou em um machucado.
Isso me deixou meio atônito por um momento, então a ansiedade atingiu um patamar que nunca experimentei em toda a minha vida e puxei mais e mais, a dor foi me deixando furioso, então senti um descolamento e acordei.
Aquela noite não consegui dormir mais.
Anoiteceu mais uma vez e novamente o devaneio me levou ao mesmo local, com a mesma lua. Imediatamente examinei minha mão esquerda. No meio das costas dela um ponto estava diferente, obviamente solto da carne, mas não estava dolorido.
Outra vez comecei a puxar até descolar um pouco de tecido e acordar.
Na noite seguinte a guerra continuou. Dessa vez estava completamente possesso de raiva e descolei pedaços de epiderme em várias partes do corpo, mas por mais que puxasse ela nunca rasgava. Em certo momento a frustração foi tanta que gritei tão alto e tão forte, que não reconheci minha voz e acordei.
Como nas noites anteriores não fui capaz de dormir mais, entretanto desta vez não consegui permanecer deitado, de tão aflito tive que levantar e ficar andando pela casa, porém só me acalmei quando fui para a sacada do apartamento e fiquei olhando a lua que estava a caminho da fase minguante.
Como estava sendo o padrão, o quinto sonho foi mais intenso que os anteriores e quando acordei nem mesmo a sacada foi capaz de me acalmar, tive que sair caminhando pela rua.
Não parece muito, mas até então sempre havia tido muito receio de andar a noite, só que naquele momento era um alívio.
Apesar das noites mal dormidas, meus dias ainda estavam praticamente normais, estava só um pouco irritado, Débora reparou meu humor e perguntou o que estava acontecendo, disse que não estava dormindo bem e ela respondeu que nunca me viu dormir mais imóvel, só reparou algum movimento quando eu levantei nas ultimas duas madrugadas.

Ponto de ruptura
Na sexta noite, pelo que pareceram horas, puxei com as duas mãos a pele do meu peito enquanto urrava de dor e frustração, então ouvi um forte som semelhante a tecido rasgando. Olhei para o peito e vi um rasgo de uns dez centímetros por onde saia um tufo de cabelos brancos, semelhante a pêlo de cachorro.
Acordei em pé ao lado da cama.
Sai de casa com a cabeça fervendo, era muito nerd para não saber o que estava acontecendo e muito cético para acreditar. O mais provável é que estivesse enlouquecendo.
Andei muito e me embrenhei em uma parte bem ruim da cidade, meus pensamentos estavam frenéticos e não prestava atenção ao meu redor.
O inevitável logo aconteceu e quatro marginais me abordaram.
– Passa o dinheiro e o celular, magrão. – disse um deles.
Só então me dei conta que estava cercado, olhei para o que tinha falado, era o mais alto, um alemão meio gordo, com os olhos injetados e cabelo sujo.
– Passa o dinheiro e o celular, magrão. – repetiu.
Minha resposta foi um grito e um soco que pegou em cheio no queixo dele, ouvi ossos quebrando, como em câmera lenta vi um dos dentes do desgraçado saltar longe.
– FILHO DA PUTA. – berrou o mulato que estava ao lado dele, antes de me dar um “mata cobra” no rosto.
Gritei outra vez, mais por raiva que por dor, com todos os abusos que sofri na vida correndo em frente aos meus olhos, o puxei pela camiseta, lhe acertei uma cabeçada no nariz e, antes que alguém me puxasse, ainda dei outra nos dentes do infeliz.
Os dois restantes que tinham cabelo escuro e pele clara, provavelmente irmãos a julgar pelas feições semelhantes, pularam para cima de mim. Um deles me puxou para longe do mulato, enquanto o outro tentou me esfaquear. Segurei o canivete pela lâmina e sangue escorreu pelos meus dedos. Ele me olhou nos olhos e seja o que for que viu, fez com que soltasse a faca e saísse correndo.
Então ouvi um estampido alto ao mesmo tempo em que senti um forte impacto no peito. Toda força me abandonou. Senti que me largaram. Cai para frente e bati o rosto com força no chão. Não ouvi mais nada, mas vi uma poça de sangue escorrendo debaixo de mim antes de desmaiar.
Acordei engasgando e tossindo, por instantes esqueci tudo, me concentrei apenas em conseguir voltar a respirar e colocar para fora o que estava fechando minha garganta. Depois de cinco arfadas vomitei, ouvi um tilintar no concreto da calçada, olhei e vi um pedaço deformado de metal em meio ao miojo que havia jantado algumas horas antes.
Lembrei tudo que tinha acontecido: o corte na mão não sangrava mais e, tateando meu peito, achei uma ferida feia, porém não fatal. Pequei o pedaço de chumbo do meio da massa e fui para casa. Tomei um banho, fotografei os machucados, deitei e dormi profundamente pela primeira vez em quase uma semana.

Após uma boa noite de sono
Quando acordei Débora já havia saído. Sentia-me muito bem, as feridas estavam menores. As fotografei outra vez.
Ao longo do dia no trabalho, mostrei o pedaço de metal para alguns colegas que entendem de armas que me disseram ser de um projétil de revolver .38. Para outros mostrei as fotos de supostos machucados antigos, a maioria chutou que havia umas duas ou três semanas entre um conjunto e outro. Pelo meio do expediente já estava quase convencido de que não estava pirando.
Percebi outros indícios de mudança após dar uma cochilada depois do almoço. Em uma das minhas companheiras de trabalho senti um odor de sangue pela altura do quadril quando ela passou caminhando ao lado de onde estava sentado. Outra com quem cruzei no corredor emanou um cheiro sutil, mas que me fez passar o resto da tarde lembrando e tendo ereções. Também percebi que dois colegas muito conservadores e um tanto homofóbicos passaram a hora do almoço afogando o ganso um do outro.
Apesar de ficar bastante animado com essas curiosidades, passei boa parte do tempo um tanto confuso e enjoado com esses novos odores. Minha audição também estava alterada. Em certos momentos ela ficou tão aguçada que parecia que meu crânio ia rachar ao meio pelo barulho do transito fora do prédio.
Por sorte nenhum incidente maior ocorreu ao longo do expediente.

A verdade sobre alguém próximo
        – Querida cheguei! – fazia anos que não usava essa frase clássica ao entrar em casa, mas hoje era um dia especial.
        – Oi amor. Que bom que está de bom humor outra vez – sorriu ao me dizer isso.
Avancei para beijá-la, essa noite queria fazê-la agradecer aos deuses por ter casado comigo. Mas ao aproximar meus lábios dos dela senti um cheiro, que antes seria imperceptível, vindo de sua boca. Os pelos da minha nuca se eriçaram, meu corpo ficou tenso, involuntariamente farejei os lábios entreabertos.
– O que foi? – Débora recuou um pouco com uma feição interrogativa no rosto.
Por alguns segundo fiquei ali, apenas olhando ela de cima a baixo e farejando o ar. Fui percebendo aos poucos odores que sentimos o tempo todo e nem nós damos conta, mas que agora eu reconhecia. Mesmo após o banho e sob o perfume do sabonete e do xampu, ainda estava lá claramente para meus novos sentidos: o cheiro de sexo e de outro homem no corpo dela.
– O que foi Marcelo? Você está bem? – a expressão de preocupação na face dela era genuína enquanto questionava meu comportamento bizarro.
– Quem é o cara? – acredito que pareci calmo ao falar e me afastei.
– Que cara?
– O cara com quem você transou essa tarde.
– Tá maluco? Não fala bobagem. – havia um tom de indignação na voz dela e balançou levemente a cabeça, em uma atitude de quem ouviu bobagem.
– Quem é o filho da puta que passou a tarde fudendo tua buceta e tua boca? – dessa vez falei baixo e sério, olhando ela firme nos olhos.
Em resposta ela gritou – DESGRAÇADO! FICOU LOUCO DE VEZ? É MELHOR ME PEDIR DESCULPAS RAPIDINHO ANTES QUE EU FIQUE REALMENTE BRAVA!
Nesse momento estávamos a uns três metros um do outro, com a mesa da cozinha entre nós. Quando ela terminou a frase avancei literalmente jogando a mesa para o lado e agarrei o pescoço dela com ambas as mãos. Voltei a mim antes de começar a apertar, mas meu corpo todo tremia, meu nariz quase tocava o dela e encarei-a nos olhos mais profundamente do que nunca.
Um forte odor brotou dela, medo, provavelmente mais medo do que jamais havia sentido na vida.
– Não mente para mim. – sussurrei.
– O nome dele é Gus-gus-tavo. – pela primeira vez a vi gaguejar, o receio se estampando no rosto enquanto falava. – Colega de trabalho.
– Há quanto tempo?
– Seis meses.
– Foi o primeiro?
Ela arregalou os olhos.
– Quantos nesses dez anos?
Ela tentou olhar para o lado, soltei um ruído semelhante a um rosnado.
Débora engoliu em seco e respondeu. – Seis.
Soltei seu pescoço, virei de costas e enquanto me afastava continuei – Por quê?
– Há? – foi tudo que disse enquanto tentava se recompor.
– Por que, você me traiu com seis homens ao longo do nosso casamento? Eu não sou um bom marido? Sou tão ruim assim de cama? Sempre achei que conseguia te satisfazer.
– Não é isso, de todos, só o segundo foi melhor de cama que você. – não precisei olhar para ela para saber que era sincero, agora conseguia identificar sutilizas no cheiro e na voz dela que me mostravam claramente a verdade.
– Então sou uma merda de marido.
– Não. Também não é isso.
Olhei para ela enquanto me apoiei no encosto de uma cadeira. – Então?
– Não sei, eles eram atraentes e deram em cima de mim.
– Bem mais atraentes que eu.
Débora não respondeu, mas os odores e a linguagem corporal confirmaram.
– Durante dez anos fui fiel. Existem muitas mulheres muito mais atraentes que você, mas eu fui sempre fiel. Se você queria liberdade podia ter me falado, sabes que não sou ciumento, toparia um casamento aberto.
Acho que orgulho dela finalmente conseguiu superar o medo porque a resposta foi: – Até parece que alguma delas ia olhar para ti.
Eu estava um pouco mais relaxado, entretanto ao ouvir isso fiquei tenso outra vez e esfacelei o encosto da cadeira com as mãos. O cheiro de medo vindo dela me atingiu outra vez, agora com um pouco de urina misturado.
Caminhei lentamente na sua direção, ela recuou até encostar-se na parede, mas não conseguiu falar nada. – A gente vai se divorciar. Vou te deixar o apartamento e o carro, mas você não vai pedir mais nada e nunca mais vai falar comigo. Ou eu juro que vais desejar ter morrido agora.
A única resposta de Débora foi arregalar ainda mais os olhos e engolir em seco.
Virei as costas novamente, coloquei numa mochila meus documentos, algumas mudas de roupas e meu notebook, sai pela porta e nunca mais voltei.

O velho novo lar
        Quando deixei o apartamento que até então havia chamado de meu, já tinha destino definido: a velha casa dos meus pais.
        Minha mãe que se chamava Elisabete e foi professora de matemática quase a vida toda, chegou a ser considerada uma solteirona, mas aos trinta anos para alívio dos meus avôs maternos, finalmente se casou.
O homem de sorte foi Carlos, um pedreiro e padeiro de 53 anos, também conhecido como meu pai.
Aparentemente eu não estava muito disposto a vir ao mundo, eles tentaram ter filhos por cinco anos até que conseguiram me convencer a colaborar.
Nossa casa foi construída pelo meu velho ao longo dos dois primeiros anos deles juntos. Meu pai sempre morou em chalés, foi minha mãe que teve que fazer ele, um pedreiro, tomar vergonha na cara e construir uma residência de alvenaria.
É uma bela casa de dois quartos, bastante sólida e segura, cercada por um muro alto. Originalmente era circundada por campos, mas com o passar dos anos eles foram sendo loteados, dando origem a um bairro que atualmente pode ser considerado de classe média.
Após a morte dos meus genitores mantive a casa. Débora vivia me enchendo o saco para vendê-la ou pelo menos alugá-la, entretanto sempre enrolei e a mantive fechada, exceto pelas minhas visitas quinzenais para limpeza.
Talvez porque em algum nível quisesse a garantia de ter um refúgio seguro ao alcance, ou simplesmente por puro apego.
        Caminhei os 12 quilômetros até meu velho novo lar e passei o resto da noite limpando e organizando as coisas. Até então a casa era praticamente um depósito, guardando todos os bens que foram de meus pais e toda tralha que acumulei ao longo dos anos.
Só que naquela noite como estava particularmente desapegado, separei tudo que não era realmente importante, útil ou que me divertisse. O que não tinha um valor razoável foi fora e os catadores de lixo que passaram por lá no dia seguinte receberam um belo presente de natal adiantado. O resto, vendi para uma loja de móveis usados e para um ferro velho antes de ir para o trabalho.

Uma aventura sobre rodas
Na manhã seguinte, mesmo depois de apenas três horas de sono e da correria para negociar minhas velharias antes que me arrependesse, fui para o trabalho bastante animado e pedalando minha antiga bicicleta.
Foi muito agradável relembrar o quanto gostava de pedalar na juventude. Como a magrela estava em péssimo estado na hora do almoço, fui até uma loja de ciclismo. Tive que me apressar pois, por algum motivo misterioso, as melhores bicicletarias ficam longe do centro.
Depois de uma década economizando e praticamente só comprando coisas para o “lar”, meus instintos consumistas há muito suprimidos acabaram se rebelando. A velha guerreira ficou por lá mesmo e sai pedalando uma mountain bike importada tão cara quanto uma moto, além de levar dois uniformes de ciclista completos.
        Passei a tarde olhando vídeos de MTB na internet, depois do expediente passei em casa, troquei de roupa e saí rodando para a colônia.
Foram quase seis horas percorrendo estradas de chão e trilhas em morros ao redor da cidade, nem os cinco tombos que levei me desanimaram e a bicicleta provou ser capaz de aquentar o tranco. Entretanto devo admitir que fiquei bem chateado por ter arranhado a pintura.
Três deles foram leves, pequenos descuidos; os outros dois por outro lado acabaram sendo mais dramáticos, no primeiro despenquei uns dois metros barranco abaixo, por sorte a bike não me acompanhou, já no segundo fui projetado para frente e rolei ladeira a baixo depois de travar as rodas para evitar um buraco. Nessa brincadeira toda tive apenas ferimentos leves, algumas contusões e principalmente abrasões.
        A noite entrou e ainda pretendia pedalar mais, porém mudei meus planos quando ao passar na estrada em frente a um sítio, um pastor alemão veio correndo em minha direção. Latia muito e parecia determinado a atacar, fiquei com medo, pulei da bicicleta e coloquei-a entre mim e o animal.
O cachorro ficou latindo e me circulando, até que avançou e mordeu meu quadro de carbono. Puxei a bike com força, ele soltou e voltou a latir, quando vi os arranhões que ficaram na pintura a raiva superou o medo.
– CALA BOCA CACHORRO DESGRAÇADO! – gritei encarando ele.
Imediatamente o bicho ficou imóvel e me olhou nos olhos para, em seguida, literalmente enfiar o rabo entre as pernas e sair fugindo e ganindo.
        Por um segundo fiquei surpreso. Entretanto as memórias dos últimos dias me vieram à cabeça, olhei para a lua minguante no céu e voltei para a cidade pensando no pavor do pastor alemão.
Medo que o cão furioso sentiu de mim.
        E imaginar o que ele deve ter percebido no meu interior me assustou.

Preparativos para a lua cheia
        Existem muitas variações para o mito do lobisomem. Na maioria a chegada da lua cheia é um péssimo sinal.
        Depois da euforia inicial com as coisas que estavam me acontecendo, fiquei muito preocupado com o que estava por vir e comecei a tomar medidas para o caso do pior se concretizar.
        Primeiro, reuni todas as ferramentas que encontrei e, no sábado seguinte, fui às compras. Voltei para casa com seis pedaços de cinco metros cada, da corrente mais resistente que encontrei; dez cadeados bem reforçados, metade deles com combinação; um espelho para me ver mudando e para o caso de perder a consciência uma filmadora para documentar a ocasião.
        Sim, pensei muito nisso. Na verdade, durante dias inteiros os meus pensamentos se voltaram para o que iria acontecer na lua cheia que, embora pudesse ser muito bom, tinha mais chance de ser horrível.
        Continuei com os passeios pela colônia, entretanto com um objetivo definido: encontrar uma casa abandonada e isolada, mas com uma estrutura robusta. Acabei descobrindo a pouco mais de um quilômetro da rodovia um casarão abandonado em relativamente bom estado, com um porão bem reforçado, cujo cheiro me mostrou que havia sido usado como adega.
Ainda que não tão isolado quanto gostaria, pois mesmo não tendo vizinhos muito próximos, sua localização entre uma autoestrada e uma pedreira resultava em um bom movimento na rua que passava em frente à propriedade, ele foi o escolhido.
        Aos poucos, tomando o máximo cuidado para não ser visto entrando e saindo do meu covil, como passei a chamá-lo carinhosamente, levei todo o material que pude para lá e realizei uma pequena reforma. Fixando os grilhões o mais firmemente possível nos pilares e vigas do porão.
Reforcei tudo que deu a porta do cômodo e cavei um buraco bem fundo em um canto dentro do alcance de minhas amarras após abrir os cadeados com combinação, onde só passava meu braço bem apertado para guardar as chaves das trancas restantes.
Garanti iluminação com algumas luzes de emergência carregadas e montei a câmera de vídeo em um tripé ao lado do espelho, bem fora do alcance das correntes.
Conforme as semanas foram passando fui ficando mais nervoso com a situação. Entretanto, reparei que no geral meu humor melhorou, fiquei um pouco mais confiante e agitado, como mostram as palavras de um colega de escritório. – Que que te deu? Ficaste hiperativo do nada!
No dia fatídico sai mais cedo da repartição e pedalei para o covil levando em uma mochila velha um pedaço enorme de carne para, no caso de eu acabar virando um monstro homicida canibal, tentar apaziguar a fome da fera.
Quando cheguei disfarcei que batia umas fotos da paisagem até que uns moradores da região se afastassem. Então entrei no casarão e me tranquei na antiga adega.
Ainda cedo tirei toda a roupa, liguei as luzes e a filmadora, me acorrentei, depois de prender as trancas normais, guardei suas chaves no buraco da parede e então travei os cadeados de combinação.
Fixei uma corrente ao redor de cada tornozelo e pulso, mais uma na cintura e outra no pescoço. Nas duas primeiras usei cadeados normais e nas restantes as trancas de combinação, duas delas nos grilhões ao redor da garganta.
Tive o cuidado de deixar a corrente do pescoço um pouco folgada para não acabar me estrangulando caso mudasse muito de tamanho.
Com tudo no lugar, sentei no chão e esperei…

Lua cheia
        Era meio do outono e por volta das seis horas o sol se pôs. Mesmo trancando no subterrâneo percebi claramente o momento: de um instante para o outro fiquei mais desperto e energizado, como se tivesse despertado após uma boa noite de sono.
        Conforme o tempo foi passando apesar de muito assustado com o que estava para ocorrer, fui ficando mais eufórico, cheguei a me ver assobiando e rindo sozinho em alguns momentos.
        Era uma noite um pouco fria em um porão úmido. Entretanto senti muito calor e provavelmente ardia em febre. Pouco depois das dez da noite houve uma alteração na minha condição: parei de sentir qualquer perturbação com a temperatura, fiquei extremamente calmo e minha vida inteira foi passando pela minha mente, como as águas de um riacho tranquilo.
        No dia seguinte quando examinei a gravação não me surpreendi ao constatar que esse estado zen se estendeu até a meia-noite.
        Quando as proverbiais doze badaladas soaram uma dor maior do que jamais imaginei me atingiu, primeiro foi como se minha pele entrasse em chamas e quase imediatamente esse fogo tomasse cada músculo, cada osso, cada tecido do meu corpo.
        Enquanto me debatia como se estivesse tendo um ataque epilético, gritei tanto que rasguei os cantos da boca e perdi a voz. Agonizei mudo por alguns instantes e comecei a sangrar pelo nariz, olhos, ouvidos e outros orifícios. Comecei a engasgar com o sangue até que uma onda de vomito que levou boa parte do que comi no dia para fora, desobstruiu a passagem de ar.
        Respirei fundo meia dúzia de vezes até sentir a carne das pontas dos meus dedos rasgando, olhei horrorizado para as mãos só para ver os ossos alongados de meus dedos começarem a ser recobertos por carne. Entretanto cerrei os olhos quando a mesma sensação de carne se rompendo envolveu meus rosto.
Em toda parte os ossos estavam se alterando dolorosamente, como se estivessem sendo quebrados em inúmeros pedaços. Em algumas áreas do corpo eles se expandiram rasgando músculos e órgãos adjacentes, para logo em seguida esses tecidos se ajustarem às novas configurações do meu corpo. Acredito que em condições normais ninguém conseguiria se manter consciente sentindo tanta agonia.
Forcei-me a olhar para o espelho e assisti enquanto minha mandíbula terminava de se estender para fora da face. A carne se movia também, ainda que de forma mais lenta, foi se expandindo e regenerando para cobrir o que agora só podia ser chamado de focinho. O nariz se integrou à expansão do maxilar e sua ponta ficou preta como nos canídeos.
Os ossos dos meus pés foram os que mais se alongaram, praticamente dobrando de tamanho e também tendo sua forma alterada e quando, foram recobertos por pele, já eram patas. Inclusive perdi os mindinhos no processo.
Pelo meio da metamorfose, além de toda a dor, fui tomado por um formigamento semelhante àquele que às vezes o crescimento da barba provoca, só que espalhada por toda a epiderme, enquanto ela foi sendo recoberta por pêlos brancos, densos e macios.
Levantei do chão e, enquanto a agonia aliviava, vi no espelho um ser coberto por uma abundante pelagem alva; vinte e cinco centímetros mais alto que eu; uns cinquenta quilos de músculos mais pesado; com patas de canídeo; braços longo terminados em grandes mãos, contendo dedos com garras afiadas; e cabeça lupina, portando um longo focinho preenchido por presas afiadas.
Ainda vislumbrei meus olhos castanhos se tornarem azuis e minhas orelhas terminarem de se alongar. Mas antes da dor sumir por completo, tomou nova força conforme veio outra onda de mudanças.
Enquanto deixei essa forma hibrida e assumi as vestes de um lobo das neves, as alterações e a agonia dessa vez foram menos agressivas. Mal esse estágio terminou e retornei à forma de lobo-humano, para meu alívio com quase nenhum desconforto, pois agora os diversos tecidos do meu corpo pareceram mudar em sincronia.
Durante todo o procedimento mantive algum grau de raciocínio e, com o fim da transformação, pude pensar claramente. De todas as minhas amarras apenas a corrente do pescoço se manteve do lugar. As outras simplesmente escorregaram fora durante minhas mudanças.
        Segurei um dos cadeados e puxei testando sua resistência, o arranquei fora com pouco esforço, em seguida fiz o mesmo com o outro. Segui então examinando minha nova aparência no espelho e me apalpando, mas logo deixei isso de lado, ansiava ver a lua e correr pela noite.
– Vou ter que fazer um churrasco para não desperdiçar. – me escutei dizendo com uma voz profunda, rouca e poderosa, ao olhar para o corte de carne que havia trazido da cidade. No momento ele não me serviria de nada, precisava encontrar uma pressa viva.
As trancas da porta também não representaram um empecilho e logo subi até o terraço do cassarão.
        Ao ver a lua cheia alta no céu um uivo brotou de minha garganta, primeiro tímido e entrecortado, como se estivesse sufocado em meu peito há muito tempo. Mas conforme ele foi se tornando mais continuo e alto, fui tomado por uma satisfação incrível.
        Nunca havia visto a lua tão claramente e por vários momentos ela englobou todo o meu campo de visão. Fiquei encantado com sua infinidade de detalhes, cuja grande maioria até então jamais havia percebido.
Entrei em uma espécie de transe e, nesse estado alterado de consciência imagens tomaram minha mente.
Caminhei entre homens das cavernas, quando um tigre dentes de sabres nos atacou, alguns morreram até que me transformei e pulei sobre a fera.
Em seguida sacerdotes gregos realizavam uma cerimônia em homenagem à lua, sendo que eu era um deles. Todos viramos lobos e partimos para a caçada sagrada.
Depois fazia parte de um grupo de bárbaros germânicos que encarava uma centúria romana, assumimos a forma de homens-lobo e avançamos para a batalha. No lado deles alguns tinham presas e olhos vermelhos que brilhavam na escuridão da noite.
Logo após fui um lobo correndo pelas montanhas do Japão em meio a raposas de várias caldas.
        No próximo momento avistei uma aldeia de indígenas norte-americanos, comecei a me aproximei dela sobre quatro patas, troquei para duas e em seguida para dois pés.
        Entre cavaleiros ingleses cheguei a um círculo de pedras, onde palavras ancestrais foram proferidas, fazendo com que o centro do círculo se iluminasse e nobres de rosto belo e orelhas pontudas vieram dessa luz. Por causa das notícias que receberam se juntaram aos cavaleiros e um castelo foi destruído naquela noite, atacado por um pelotão de lobisomens trajando armaduras e um exército formado por criaturas vindas dos sonhos e pesadelos.
        Minha ultima visão foi claramente durante a segunda guerra mundial: em meio a nazistas estraçalhados, mortos-vivos e metamorfos travavam sua própria guerra, sendo que cada lado continha membros de ambos os povos. Para proteger um velho amigo, fui morto por seu rival deformado.
        Voltei ao tempo presente sem entender o que aconteceu, mas não importava naquele momento, tinha necessidades mais urgentes. Saltei facilmente os oito metros que me separavam do chão e corri para as árvores.
        Apenas nesse momento reparei como meus sentidos se desenvolveram e enxergava perfeita e claramente no meio ao mato fechado mesmo em plena madrugada.
Com um mínimo de atenção podia ouvir os animais e insetos próximos. Por alguns instantes fechei os olhos, me concentrei apenas em escutar e até mesmo o cair das folhas no solo chegou aos meus ouvidos.
Entretanto, foram os odores que mais me impressionaram. Já estava começando a me acostumar a sentir muitos cheiros fora do alcance dos outros humanos, mas nunca em tão grande variedade e distância. Senti entre muitos outros: o aroma de queijo e rapadurinhas de amendoim impregnados no local à beira da BR onde durante o dia fica uma banca que os vende, cerveja velha no chão de um boteco há dois quilômetros, ovelhas a três, rosas a quatro e até mesmo o de pessoas dormindo a quase cinco. Sem falar de um leve fedor de decomposição vindo dos dois cemitérios próximos.
        O cheiro de gado a quatro quilômetros de distância me atraiu diretamente para um sítio próximo e corri pelo meio da mata, não levando mais que cinco minutos para chegar. Escalei rápida e facilmente uma grande figueira e de sua copa observei os animais por alguns minutos, avistei uma vaca mais afastada das outras, desci da árvore e me aproximei do meu alvo lenta e furtivamente, tomando o cuidado de ir contra o vento.
Depois de me posicionar o mais próximo possível e de saborear um pouco a antecipação da matança, saltei sete metros dos arbustos onde me escondia até o lado do bovino e, antes que o animal percebesse o que ocorreu, lhe puxei por um dos chifres. Enquanto ela caia mordi ferozmente sua garganta e enterrei minha mão livre em seu tórax até alcançar o coração e arrancá-lo para fora! Quando a vaca atingiu o chão já estava morta.
O sabor metálico do sangue preencheu minha boca e não pude conter um arrepio de satisfação, abocanhei um naco do lombo dela e comi com mais gosto do que se, após uma semana passando fome, tivessem me servido uma bela e bem temperada picanha assada.
Meia dúzia de vira-latas aproximaram-se latindo. Fiquei em pé e os encarei com o peito estufado e o pelo eriçado. Frente ao meu rosnado ficaram quietos e baixaram as orelhas, em seguida foram se aproximando devagar e rastejando, depois de comer mais um pouco dividi minha caça com eles.
Quando fiquei satisfeito assumi a forma de lobo e voltei calmamente para o covil. Uma vez lá dentro, me coloquei em frente ao espelho, retornando aos poucos a uma ensangüentada forma humana.
Olhando com calma percebi quatro estágios em minha metamorfose, começando pelo estado quadrúpede em que estava no momento; de lupino passei para o aspecto do lobo-humano, o hibrido que primeiro me tornei nessa noite; em seguida veio a aparência quase humana do lobisomem clássico do cinema, o homem-lobo; por fim reassumi o manto da humanidade e tive uma surpresa.
Já sabia muito bem que nunca mais seria o mesmo, entretanto não havia imaginado que mesmo minha forma original seria alterada.
Sorri.

Novo eu
        Devo confessar que mesmo nunca tendo sido vaidoso, minha nova aparência me agradou bastante. Ganhei quase cinco centímetros de altura, atingindo um metro e oitenta e um; o peso não se alterou, continuei com meus oitenta e quatro quilos, mas o percentual de gordura diminuiu muito, se antes estava um pouco “fofinho”, agora era musculoso e “riscado”; cicatrizes e rugas sumiram; o nariz que trazia a marca de uma fratura na infância ficou alinhado; obturações deram lugar a dentes perfeitos; o cabelo castanho, já levemente grisalho tornou-se loiro gelo; por fim os olhos deixaram o antigo castanho e assumiram permanentemente o azul.
Se até então estava em bom estado para um homem de quarenta anos, agora parecia ter por volta de vinte e cinco. E a julgar pelo desaparecimento dos pelos nas costas, narinas e ouvidos, não foi apenas uma mudança estética, houve realmente rejuvenescimento.
        Na manhã seguinte fui até o trabalho trajando roupas folgadas e com uma postura encolhida, evitando ao máximo meus conhecidos para não ter que explicar as mudanças. Encaminhei meu pedido de exoneração aos recursos humanos e fui embora imediatamente.
        Não esquentei muito a cabeça com as consequências do desemprego. Agora solteiro minhas economias podiam me manter por pouco mais de um ano sem trabalho. E com minhas novas condições físicas, imaginei que se fosse preciso. Participações em competições esportivas certamente me renderiam algumas premiações em dinheiro. Além disso, tinha uma boa ideia de como me garantir por alguns anos, com uma única noite de “trabalho”.

Novos limites
        Passei os próximos sete dias na colônia, testando minhas novas capacidades e praticando as transformações. Com um pouco de experimentação tornei-me muito hábil e rápido nisso. Logo descobri inclusive como mudar apenas partes isoladas do corpo, sendo o exemplo obvio tornar unhas em garras.
        Embora tenha sido bastante doloroso, testei o máximo que pude as famosas capacidades regenerativas dos licantropos. Alegremente constatando ser capaz de curar ferimentos com grande velocidade.
Sobre os efeitos da prata, cheguei à conclusão que, enquanto ela permanece em contato com uma ferida impede sua regeneração. O acônito, outra fraqueza clássica dos lobisomens mostrou-se um risco real, tendo os mesmos efeitos em mim que nas outras pessoas, embora necessitando de doses no mínimo três vezes mais fortes. Até poderia ter experimentado concentrações maiores, mas preferi não abusar.
Uma surpresa inesperada foi o efeito do centeio. Rapidamente percebi ter adquirido um estomago de avestruz, podendo comer grandes quantidades de bobagens sem nenhum efeito nocivo, não importando a quantidade de açucares ou gorduras contidas nelas, sem falar da carne de caça crua… Então imaginem meu choque ao descobrir que uma reles fatia de pão com centeio me fez perder boa parte do dia no banheiro!
        Esse evento infeliz me fez pesquisar mais a fundo sobre lobisomens. Constatei que centeio é realmente citado como nocivo a licantropos em algumas fontes. Outra vulnerabilidade indicada foi uma árvore, a tramazeira. Deu trabalho, principalmente por causa do sinal inconstante da internet do meu celular no interior, mas consegui comprar por sedex uma muda sua. Voltei para casa para receber a encomenda e constatei que sua madeira tem efeito parecido com a prata, ainda que em menor intensidade.

Pé-de-meia
        Um dos bairros próximos ao meu possui a distinção de ser um dos poucos locais na cidade onde a polícia não pisa. Em parte porque são pagos para não entrar, mas principalmente por não conseguirem quando tentam.
        Em minha segunda noite de lua minguante, após me certificar que conseguia alterar minha forma. Vestindo um abrigo de capuz velho e puído, com a postura encolhida e bancando o bêbado, fui dar um passeio por essa vila. Evitei passar por outras pessoas o máximo possível para não chamar atenção indesejada. Até para não correr o risco de alguém avistar o velho facão que levei escondido numa mochila surrada, junto com outra muda de roupa.
        Até as três da madrugada usei meu faro e audição para mapear os pontos de drogas locais. Determinado qual era o maior, passei para a fase dois. Fiz a volta na quadra e pulei a grade da casa diretamente atrás dele. Chegando ao muro que dividia os dois terrenos mudei para a forma de homem-lobo, pequei o facão, larguei a mochila em um canto e saltei novamente, caindo no pátio dos fundos dos traficantes. Os cães de guarda, dois pitbulls, avançaram latindo. Entretanto, um rosnado meu garantiu que eles não se aproximassem.
Rapidamente corri para a casa e pulei para o telhado. Não demorou para três homens jovens e mal cheirosos virem verificar o motivo dos latidos. Os animais estavam o mais longe possível de mim e os marginais foram até eles ver o que estava acontecendo. O da frente segurava um revolver .38.
Assim que o ultimo deu três passos fora da porta pulei atrás dele e, antes de tocar no chão, com um movimento rápido, arranquei sua cabeça. Os outros dois não tiveram tempo de se voltar antes que, dando um passo a frente e movendo a lâmina em um amplo arco, eu os decapitasse também.
Jorrou bastante sangue e mais tarde não pude deixar de reparar que isso não me incomodou como deveria. Na hora simplesmente me dirigi para dentro da casa, parei um momento na soleira para farejar e, apesar do fedor do local, pude perceber a presença de outros dois humanos lá. Estavam na sala vendo um filme de terror. Sorri pela ironia.
Avancei rapidamente pelo local, entrando no recinto onde meus alvos estavam sem nenhum cuidado com a discrição, o facão apoiado sobre o ombro. Um deles estava tão chapado que não fez nada além de me olhar com cara de bobo.
– PUTA MERDA! – gritou o outro. Levantou do sofá e pegou uma uzi de cima da mesa de centro. Antes de o infeliz apertar o gatilho pulei até ele e, com um golpe de cima para baixo, lhe arranquei a mão direita. – AAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!! – foi sua única resposta antes de ter o coração perfurado pela velha lâmina.
Dois tiros me atingiram nas costas. Doeu absurdamente, mas minha única reação foi olhar para o drogado com cara de poucos amigos e rosnar. O queixo dele caiu, assim como a pistola que estava segurando.
O ultimo traficante começou a chorar. – Não me mata. Não me mata. Não me mata, por favor, não me mata.
– Você já matou algum inocente que implorou pela vida? – perguntei para ele enquanto soltava o facão do corpo do colega.
– Não, não. Nunca matei ninguém. Por favor, não me mata. – mesmo em meio ao cheiro de seu medo pude perceber que mentia.
Arremessei minha arma. A lâmina entrou pela testa dele até o cabo. Aproximei-me, pisei no peito do cadáver e puxei o facão. Os projeteis que haviam me atingindo foram expelidos nesse meio tempo e os recolhi.
Rapidamente revistei a casa, encontrei quase cinquenta mil reais, sem falar de muitas drogas, armas e alguns químicos. Guardei apenas o dinheiro. O armamento destruí usando um martelo. Quanto ao resto, joguei na fossa do esgoto.
Apesar de todo o estrago tomei cuidado para não me sujar muito de sangue. Voltei para os fundos da propriedade e sai por onde entrei. Recuperei minha mochila na passada.
Antes de ir para minha casa cruzei uma área de campos próxima da vila barra pesada. Em uma fogueira que fiz dentro de um buraco, incinerei as roupas sujas e o facão. Depois de apagar o fogo cobri a vala com terra. Então tomei banho em um córrego, verifiquei que já não havia nenhuma cicatriz dos tiros e vesti a roupa limpa.
Depois de tudo isso voltei ao meu lar, doce lar. Fiz um belo lanche e dormi muito bem.

Festa
        A manhã seguinte passei no centro da cidade fazendo algumas compras, particularmente um conjunto de talheres de prata e material de serralheiro. Já a tarde foi dedicada a uma pedalada de ida e volta até uma cidade próxima, sendo que os sessenta quilômetros da ida tiveram predominância de subidas.
        Resolvi passar a terceira noite de lua minguante comemorando. Durante as primeiras horas fiquei na forma de lobo-humano, percorrendo o conjunto agrotécnico localizado próximo do meu bairro, evitando os vigias e espreitando os animais. Confesso que foi ótima a sensação de saber que ambos estavam a minha mercê. Até mesmo pratiquei um pouco de pesca, ou melhor, “caça ecológica”, atacando alguns animais, mas sem feri-los realmente – apenas os capturando e soltando em seguida.
        Terminada a brincadeira tomei uma bela ducha, coloquei roupas novas, tênis preto, jeans escuros e camiseta azul. Por volta da meia noite fui para o porto, o atual point da noite, graças, principalmente à presença de centros universitários, contando uma variedade de bares, lancherias e casas noturnas.
        Andando por ruas e locais cheios de indivíduos com as inibições diminuídas pelo álcool, pude reparar que meu humor parece ter algum tipo de eco nas pessoas. Nesse tipo de ambiente há frequentemente aqueles caras metidos a machões, com o peito estufado e atitude hostil. Sempre achei isso irritante e depois de minha mudança, nenhum deles foi capaz de se manter próximo a mim por mais que alguns minutos. Era só eu parar em suas imediações que sua inquietação ia ficando evidente em instantes, até que eles se afastavam, evitando meu olhar. Se a linguagem corporal já não fosse obvia o suficiente, o odor de medo era inconfundível.
        Por outro lado quando ficava atraído por uma mulher e demonstrava meu interesse, a reação delas era bastante positiva. Mesmo as que fingiam não perceber ou que estavam acompanhadas ficavam perceptivelmente excitadas.
Já comentei como adorei o faro de lobisomem?
        Como nem tudo são flores, em certos momentos o excesso de odores e sons me deixou atordoado. Felizmente me adaptei e aprendi a filtrar o excedente de informação com rapidez, quase como se, ao invés de aprender a controlar essas capacidades do nada, estivesse apenas as relembrando.
        Fiz duas vezes a brincadeira de assustar grupos de machões. Já estava satisfeito e não ia mais aprontar, quando vi o Leo.
Esse indivíduo é um encrenqueiro conhecido, um filhinho de papai anabolizado com trinta anos na cara, metido a skinhead, que treina artes marciais desde que entrou na adolescência. Ele é dessa onda de MMA e Jiu-jitsu. Nada contra, se o babaca não curtisse ficar arrumando confusão e espancando gente inocente. Um amigo meu, por ser negro, apanhou uma surra dele.
Escrevi um bilhete e mandei um garçom entregar: “Seu bunda mole, vem pra rua se você é macho”. Não deu outra: ele e toda turminha foram bufando para fora do bar.
Esperei no meio da rua, a alguns metros da entrada. Quando me viram mostrei o dedo do meio para os cinco. Correram na minha direção, todos com camiseta da academia de luta que frequentavam.
VO ACABA CONTIGO SEU MONTE DE BOSTA! – ele falou no singular, mas os cinco vieram para cima.
– Jura? Quero ver então.
Leo pulou e tentou me atingir com um chute reto no peito, usando a canhota. Simplesmente dei um passo para o lado esquerdo dele e avancei com um oi-tsuki, um soco direto. Mirei no nariz e Leo foi ao solo desmaiado.
Um segundo se aproximou e levou um kin-geri – falando em português claro, um chute no saco. Esse era o maior de todos, porém perdeu o fôlego e ajoelhou imediatamente com as mãos entre as pernas.
Um terceiro skinhead tentou me chutar pelas costas, usando a perna direita. Girei sobre meu pé esquerdo evitando o golpe no ultimo instante e aproveitando o impulso para acertar um mawashi-tsuki no rosto dele. O soco circular lhe atirou sentado e zonzo no asfalto.
Com três fora de combate em instantes, os outros dois concluíram (inteligentemente) que era uma boa ideia encerrar a noite por ali mesmo. Juntaram os companheiros caídos e foram embora.
Algumas pessoas que assistiram, principalmente aqueles que conheciam os imbecis aplaudiram. Mas outros estavam torcendo para o Leo. Para evitar mais confusão fui embora dali.
Não andei muito e entrei em uma casa noturna. Nessa noite beijei mais mulheres que no resto da minha vida até então, mas foi realmente difícil escolher uma para algo mais. É um pouco complicado achar em uma festa uma mulher atraente, desacompanhada, relativamente sóbria, que não feda a cigarro e nem esteja doente.
Interessei-me por uma morena de olhos azuis. Uma das mulheres mais bonitas que encontrei nessa noite. Era jovem e saudável. Sua pele clara e sem marcas. O cabelo longo, negro e liso. Baixa e magra, mas com bunda e seios fartos. Cheirava bem, o perfume em si não me atraiu tanto, mas o odor natural que emanava apesar das fragrâncias artificiais me inebriou. Em parte porque ela estava no cio.
Feita a escolha, era hora da caçada.
Fiquei a uns três metros dela e entrei no seu campo de visão. Em pouco tempo ela notou que eu a olhava. Não tentei ser sutil, depois de cruzar olhares com ela duas vezes, fiquei intercalando entre o rosto e o resto do corpo, a “comendo com os olhos”. Meu faro mostrou que ela se excitou.
Ficamos nisso por volta de uns cinco minutos. Então andei sorrindo até ela e a beijei, ignorando por completo suas três amigas. Novamente não dei a menor atenção à sutileza. Fui logo passando as mãos por sua pequena forma. Com essa rápida investigação encontrei os pontos certos no exterior de seu corpo e comecei a explorá-los sem piedade.
Já estava tão excitado que levá-la para casa não era uma opção. Entre beijos e carícias ardentes fui lhe conduzindo dançando até o banheiro. Esperei até o momento em que ele ficou vazio e sem fila, parei a dança e lhe levei para dentro.
A combinação de olfato, audição e tato apurados me permitiu saber quais eram exatamente todos os pontos erógenos dela, além de identificar que tipo de estimulo causava as maiores reações no seu corpo. Isso acabou com qualquer inibição que ela pudesse ter.
É aquela velha história das respostas do lobo mau: “para te ver melhor”, “para te ouvir melhor” e “para te comer melhor”.
Experimentamos todas as modalidades e posições sexuais que o espaço limitado permitiu. Naturalmente, como eu estava regendo a sinfonia, dediquei a maior parte da ação às minhas preferências.
Minha companheira chegou a perder a consciência em certo ponto. Esse foi o único momento em que ela não fez nenhum som.
Certamente não precisava me preocupar com doenças, mas ainda assim usei preservativo. Até por já ter percebido que ela estava no período fértil.
Acabamos ocupando o banheiro da boate por um bom tempo. Para desespero de um monte de bêbados de bexiga cheia. Quando saímos perguntei seu nome e telefone. Depois fui embora.
        Até ai foi uma boa noite. Pena que não continuou assim.

Caçado
        Às quatro horas da madrugada decidi voltar para casa. Não que estivesse com sono ou cansado, apenas nunca fui realmente de passar as noites em festas e me entediei. Decidi ir caminhando para aproveitar o ar da madrugada e quem sabe encontrar uma bela jovem, pela estrada a fora, levando doces para a vovozinha…
        Não demorou muito para perceber que estava sendo seguido. O fato dos meus perseguidores estarem tomando cuidado para não ficarem a favor do vento me indicou que a coisa provavelmente era séria.
        Fiz várias voltas pelo centro, caminhando lentamente para me certificar que a sensação de estar sendo observado não era apenas uma impressão. No processo de concentrar meus sentidos ao máximo para confirmar minhas suspeitas, comecei a notar presenças não relacionadas à situação, primeiro como sombras e vultos, depois imagens difusas. Minhas suspeitas sobre isso se confirmaram quando reconheci uma celebridade local há muito falecida.
        Apesar de o momento poltergeist ter me distraído um tanto, voltei a me focar nos meus stalkers. Em certa hora tive uma ideia bem simples. Fiz a volta na quadra e comecei e a retornar por onde vim e logo pequei o cheiro das minhas sombras. Eram dois homens adultos, mas com um pequeno toque característico nos seus odores: um toque que existe no meu. Sem a menor dúvida eram lobisomens.
        Então segui para a praça localizada ao lado do camelódromo municipal. Um local com bastante vegetação e pouca luz. Fui até o chafariz em seu centro.
– Sei que estão ai. Apareçam. – falei tentando parecer calmo. E esperei.
        – Hora, hora, hora. Qui isperto o intruso. – disse ironicamente uma voz alguns metros atrás de mim. Meus pelos se arrepiaram enquanto girei sobre meus calcanhares na direção do som. Vi um homem moreno e mal encarado, com o rosto liso e cabelo raspado. Vestia jeans e camiseta preta. Fedia a suor.
        – Se fosse esperto mesmo não tinha invadido o território dos Garras Sangrentas. – dessa vez a voz veio de uns dez metros a minha direita. Voltei um pouco o rosto para ver o segundo licantropo, tomando cuidado para não perder o primeiro de vista. Esse era loiro e barbudo, também tinha a cabeça rapada. Além do odor a suor, cheirava a maconha.
        – Não invadi território nenhum. Sempre vivi aqui na cidade. – foi minha resposta.
        – Sério? – questionou o alemão.
– Sim.
Intão é um retardado! – exclamou ironicamente o moreno. Imediatamente começando a gargalhar e sendo acompanhado pelo outro. – Qui beleza. Um ômega novo pra alcatéia. Já tava injoado di chutar sempre o rabo do Bruno. – seguiu o moreno.
– Quando você virou?
– Faz pouco mais de uma semana.
O loiro estampou um sorriso malicioso no rosto
– Jorge o que você acha? Certo que ninguém sabe que esse troxa existe.
        – Pior. – falou o moreno enquanto também começou a sorrir. – Ninguém vai nota a falta. Cardoso o que acha di a gente si divertir?
        – Beleza. Ô retardado! Vamo te dar cinco minutos de vantagem. Corre! – concluiu o alemão Cardoso.
        Ambos assumiram imediatamente o aspecto do homem-lobo.

Caçador
        Sendo conhecido por ser bem mandado, corri.
Porém não estava fugindo. Agora que tinha visto a fuça deles, registrado o cheiro e odiado os dois com todas as minhas forças, eu queria sangue. Entretanto não era burro de atacar os dois ali mesmo, feito um desvairado.
        Corri pelas ruas onde havia mais movimento. Voltando para o porto, onde meu rastro estava por toda parte. Assim que cheguei lá comecei a fazer muitas curvas e voltas tentando ficar contra o vento e cruzar minhas trilhas anteriores de vez em quando.
        Claro que eles não me deram cinco minutos e claro que não os despistei por mais que alguns segundos. Porém esses momentos de vantagem me permitiram avaliar a situação e fazer planos. Péssimos planos, mas melhor isso que nada.
        Reparei que eles se dividiram e ficaram revezando quem vinha mais próximo a presa. Também conhecida como Marcelo!
        Saindo da área mais badalada do porto transformei minhas mãos em garras e fui perdendo terreno para meu perseguidor mais próximo. No caso o barbudo filho da puta.
        Esperei até o instante em que ele saltou para me atacar. Rodopiei sobre o pé esquerdo, enquanto me agachava e girava o braço direito de cima para baixo. Com as garras em riste, abri cinco valetas do peito até as jóias da família dele. O Cardoso passou gritando sobre mim e caiu de cara no chão.
        Ambos levantamos rapidamente. Aproveitei que o alemão estava um pouco atordoado para lhe acertar no rosto com sangue e um naco da carne que arranquei dele. Depois de já ter sido atingido o idiota cruzou os braços na frente da cara para se proteger. Aproveitei para avançar dois passos, assumindo a forma de lobo-humano e com um movimento reto por entre seus cotovelos, enterrei minha mão esquerda no seu pescoço. O desgraçado só teve tempo de arregalar os olhos e segurar meu antebraço com as duas mãos, antes que eu usasse a mão direita para agarrar o topo de sua cabeça e, com um puxão só, arrancá-la fora.
        Eliminado o primeiro problema comecei a cuidadosamente olhar ao redor e farejar o ar para detectar o segundo. Não foi difícil avistar o Jorge, em pé sobre uma casa a três quadras de distância. Rapidamente a expressão de espanto em sua face deu lugar a ódio, ele pulou para o chão, mas ao invés de vir em minha direção, correu no sentido contrário. Tomado pela adrenalina assumi uma forma mais discreta e tentei segui-lo, porém rapidamente perdi o rastro.

Entra o alfa
        Mais tarde fiquei sabendo que Jorge foi até seu carro e disparou. Dirigindo diretamente para o sítio que serve de sede para os Garras Sangrentas.
Estavam lá quando ele chegou Gabriel, o alfa, um ruivo alto e muito musculoso; Mônica, a fêmea alfa, uma bela loira de olhos verdes, estatura mediana e porte atlético; Eduardo e Alex, os dois betas da alcatéia, ambos negros, altos e fortes, o primeiro bastante gordo e outro em boa forma; e Bruno, o ômega, com cabelo claro e olhos esverdeados, mal chegando a um metro e sessenta de altura.
Esse último era considerado um inútil. Mas por ser tratado quase como um bobo da corte, sempre estava por perto da cúpula da alcatéia.
Ouvir sobre o encontro do lacaio comigo e a morte do Cardoso, deixou o alfa furioso. Ele encheu Jorge a socos por ser um incompetente que perdeu um companheiro para um retardatário, ou seja, para um licantropo que só teve sua primeira transformação mais velho, ao invés de quando era criança. Em geral eles são considerados perdedores durante toda vida.
– Sabe onde encontrar esse cara? – perguntou o líder.
Inda não, ma ouvi ele si apresentando pra uma vadia como Marcelo Ulv.
– “Ulv”? Se isso for sobrenome não devem ter muitos por ai. – comentou Eduardo.
– Bruno, me passa o telefone. – exigiu Gabriel. – Vamo logo seu lerdo. – como sempre o alfa não tinha paciência e também preferia gastar o telefone dos outros. Depois de digitar um número de cor. – Alô! Delegado?
– Eu mesmo. Como ta Gabriel? Tudo beleza? – respondeu a voz rouca de fumante no outro lado da linha.
– Tranquilo. Escuta, tens que puxar uma ficha pra mim.
– Certo, passa o nome.
– Marcelo Ulv.
– Ok. Só um pouquinho. – por alguns instantes só chegou pelo celular o som de teclas.
– Tem só um Marcelo Ulv na cidade. Ficha limpa. Casado. É esse?
– Deve ser.
– Qual o endereço? – questionou com um sorriso sádico.

Crueldade
Na noite seguinte, depois que os outros saíram, Gabriel ficou se agarrando com a Mônica na frente de Bruno. Isso era comum, porém o ômega não via nenhuma graça em assistir alguém passando a mão na sua irmã. Entretanto sair do recinto sem autorização não era uma opção e ele não tinha nenhum bom motivo para pedir licença.
O fato do ômega ser o lobisomem mais inteligente na região e ser irmão da fêmea alfa, não ajudava sua situação no bando. Na verdade alguns dos outros abusavam ainda mais dele por isso. Sendo ele o mais fraco fisicamente, vários membros mais inescrupulosos da alcatéia achavam ter o direito de maltratá-lo.
Quando o telefone tocou perto das vinte e três horas, Gabriel atendeu imediatamente.
– E ai Jorge?
Eli não ta aqui chefe. Parece qui elis tão separados. Ma nem si preocupa que a vaca já disse onde eli ta morando agora. Só liguei pra avisa isso e perguntar o que fazemo com essa inútil?
– Separados? É sério? Ele ainda gosta dela? – perguntou com uma expressão séria na face.
Péra qui eu já vejo aqui. – se seguiram sons de gemidos de dor abafados e murmúrios.
– É sério chefe, ma o cara inda gosta dela sim.
O rosto de Gabriel assumiu um aspecto maldoso.
– Separações dão muita incomodação. Vamos ajudar nosso companheiro lupino a resolver isso rápido. Matem ela de forma bem demorada e grotesca. – concluiu com um sorriso.
– Depois podem voltar para cá. Vou deixar esse lobo solitário vivo mais um pouco. Tragam o celular dela.
Desligou enquanto ria calmamente.
Levou mais uma hora até os capangas voltarem. Chegaram fedendo a sexo e morte. Bruno e Mônica ficaram enojados, entretanto nenhum deles era louco de recriminá-los enquanto eles tinham a benção do alfa.
Sentindo as emoções dos dois, Gabriel e seus lacaios apenas riram e se cumprimentaram animadamente.
– Trouxeram o telefone?
– Aqui. – Jorge alcançou rapidamente o aparelho para o líder.
Considerando o imprevisto da noite anterior, decidi ficar em casa até a poeira baixar, ou pelo menos até decidir o que fazer. Quando meu celular tocou e indicou que era a Débora achei que era um mau sinal, mas não fazia ideia do quanto.
– Fala. – atendi secamente.
– Que forma de atender sua querida esposa. – respondeu uma voz masculina desconhecida entre risos.
– Que merda é essa? – imagino que a irritação deve ter sido obvia no meu tom de voz.
– Aqui é o teu alfa. Mais respeito, por favor. – falou de forma irônica o estranho.
– Não tenho nenhum alfa.
– E nem é muito esperto pelo visto.
– O que está acontecendo? Onde está Débora?
– Os pedaços dela estão lá no apartamento de vocês.
– O QUE! – meus joelhos amoleceram e tive que me ajoelhar.
– Fiquei sabendo que vocês tavam se divorciando e resolvi ajudar. Nem precisa agradecer. A polícia vai dizer que foi algum pit bull furioso ou coisa parecida. Um infeliz acidente.
– Por quê? – a voz quase me faltou.
– Você matou um dos meus.
– Ele tentou me matar primeiro. – falei de forma um pouco mais firme, enquanto lagrimas me corriam nos olhos. Apesar de meus problemas com ela, Débora não merecia isso.
– Não interessa. Você não é da minha alcatéia, não me importa o que fazem contigo, mas ninguém mexe com os meus. – senti no timbre que ele falava sério.
– Mas agora estamos quites. Se você quiser pode entrar no bando.
– VOCÊS SÃO LOUCOS!
– Isso é um não? Se for tens só essa noite pra deixar minha cidade.
Por quase um minuto não consegui falar nada. Fiquei ali parado com o telefone na mão, podia ouvir a respiração do alfa do outro lado. Milhares de coisas passaram pela minha cabeça. Pensei nas escolhas que ele me deu. Mas quem eu queria enganar? Independente do que ele falou, eu só tinha uma opção.
– É claro que você sabe que isso significa guerra! – disse calmamente e desliguei.

Ponderações do mais fraco
– HAHAHHAHAHAHAHAHAHAH! Vamos nos divertir mais um pouco então. – Gabriel pareceu realmente feliz.
Mônica apenas suspirou sem nenhuma satisfação frente à perspectiva da matança. Já os outros ficaram visivelmente satisfeitos. Com exceção de Bruno que emanou medo.
A fêmea alfa percebeu esse fato e achou estranho. Apesar dos abusos que sofria, o irmão raramente ficava com receio de alguma coisa. Mais tarde depois do líder deixar o sítio para ir beber na cidade com o bando de capangas, Mônica foi conversar com Bruno.
– O que ouve? Porque tu ficou com medo aquela hora?
– Ele não é só um retardatário comum.
– Quem? O tal Marcelo?
– Sim.
– Do que você ta falando guri?
– Não prestasse atenção em nada? Desde quando um retardatário, ou melhor ainda, um lobisomem com menos de duas semanas como licantropo consegue transformar só uma parte do corpo? – pausou olhando a irmã nos olhos. – Ou se transformar tão rápido em uma lua minguante?
– Hum. Realmente. Agora que tu falou, isso não parece normal mesmo. Mas ainda assim ele não é nada além de um lobo solitário. O coitado já está morto. Não precisa ter medo dele.
“– É claro que você sabe que isso significa guerra!“
– É obvio que ele ficou furioso. Tinha que falar algo assim mesmo. – Mônica finalizou, já virando as costas. Certa que as preocupações do irmão eram infundadas.
– Só que ele não falou isso descontrolado… – ao perceber que o Bruno tinha um ponto ela parou e esperou ele continuar. – Deu para sentir no tom de voz anterior que ele estava furioso, mas ainda assim recuperou todo o controle. Em uma situação dessas é difícil para alguém do nosso povo conseguir se controlar assim. – caminhou para ficar de frente com ela.
– Verdade.
– Além disso, ele não fez simplesmente uma ameaça qualquer antes de desligar. “– É claro que você sabe que isso significa guerra!” É uma citação.
– Quem ele citou? – Mônica não escondeu a curiosidade, imaginando que grande guerreiro teria dito tais palavras.
– O Pernalonga. – Bruno novamente emanou medo.
– Como assim! O coelho? de brincadeira! – a surpresa da fêmea alfa foi grande.
Ela desatou a gargalhar. Porém a expressão séria do irmão lhe fez cortar o riso.
– Consegue imaginar que tipo de pessoa citaria um personagem de desenho animado em uma hora dessas? Em uma situação tão extrema como depois de velho, do nada, virar um lobisomem, descobrir estar sendo caçado por uma alcatéia de monstros e uma pessoa que você gosta ser estraçalhada?
– Não. – respondeu após um instante de ponderação. Agora Mônica também estava séria.
– Ou ele ficou completamente louco. Ou é um filho da puta casca grossa. De qualquer forma acho que a porra ficou séria! Espero que não sobre para nós.
– Será que o Gabriel corre risco? – indagou Mônica em um sussurro.
– Espero que sim. – o ômega afirmou com rancor.
Ambos trocaram olhares esperançosos.

Apoio inesperado
        Sem saber ao certo se o tal Gabriel iria respeitar o prazo de uma noite. Juntei algumas mudas de roupa e outros pertences, subi na bicicleta e me mandei para o covil da colônia a mais de sessenta quilômetros por hora.
        A forma que o alfa disse que não haveria problema com a polícia pela morte de Débora deixou claro que ele tinha influência. Talvez o suficiente para mandar rastrear meu celular. Por via das duvidas desliguei ele.
        Estava determinado a não deixar a morte de minha ex impune, porém não estava disposto a me sacrificar em uma batalha perdida. Não conseguia parar de pensar em como resolver isso até que, durante minha pedalada para a colônia, tive uma ideia ao lembrar que, além do acesso a internet ser fácil, eu ainda tinha um monte de dinheiro vivo e conhecia a localização de algumas casas abandonadas em locais isolados.
        No dia seguinte subi de ônibus até a cidade vizinha. Lá passei algumas horas em uma lan house, depois fiz compras em lojas de informática, de esoterismo, de material de construção, eletrônicas e ferragens. Quando voltei já me dirigi para uma das outras casas. Depois de algumas horas estava tudo pronto. Durante todo esse tempo bebi muita água e urinei por toda a área, bancando cachorro marcando território.
        Liguei meu telefone e disquei o número da Débora. Depois de alguma insistência alguém atendeu.
        – Alô? A esposinha não se encontra. Posso ajudar? – Gabriel atendeu rindo.
        – Filho duma puta desgraçado, vou te achar e fuder com sua vida. – OUVIU DESGRAÇADO? VOU ACABAR CONTIGO E ESSES PUTOS QUE TRABALHAM PARA VOCÊ!
        Terminada a sessão gritaria cortei a ligação. O alfa até ligou de volta duas vezes, mas depois parou. Fiquei contando que ele realmente tivesse como me rastrear. Passei várias horas correndo pela região, deixando meus cheiro e meus rastros por toda parte. Principalmente pela área que levava à casa e nela própria.
        No dia seguinte por volta do meio dia, chegou uma mensagem. Fui conferir e não era de nenhum numero conhecido: “o gabriel sabe onde voce ta. mandou sete pra t matar. devem chegar as 14h ai.”
        Não sabia naquele momento quem havia enviado, imaginei que esse aviso provavelmente era apenas uma forma de fazer pressão psicológica. De qualquer forma fui para o local que havia escolhido como ponto de observação, do outro lado de uma sanga nas imediações. Uma alcova entre grandes pedras, protegida do vento e da vista.

Esquadrão da morte
        Eram 14h17min quando eles chegaram. Vieram pela entrada da propriedade e apenas depois da porteira se espalharam para cercar a casa.
Vi sua chegada através de uma pequena câmera wireless colocada longe da entrada. Ela transmitia para um notebook ligado a um nobreake. A imagem era péssima, mas pude confirmar que eram sete, todos corpulentos e provavelmente mal encarados. Tão logo se aproximaram da casa, assumiram a forma de lobo-humano. Os imitei em meu refúgio.
Aproximaram-se com bastante cuidado e até onde minha precária filmadora permitiu observar, pareceram bastante coordenados. Observei três avançarem ao mesmo tempo. Câmeras dentro da construção me mostraram que entraram quase simultaneamente por portas e janelas. Dirigiram-se direto para o cômodo mais central, onde meu odor era mais forte.
Assim que colocaram os pés lá, pressionei o controle que detonou as cinco cargas explosivas que preparei em um quarto de hotel, antes de vir para cá, todas cuidadosamente embaladas para selar o cheiro. Além do material inflamável, usei como estilhaço muitos pregos e também pingentes de prata comprados nas lojas de esoterismo.
         Enquanto a explosão ainda soava corri a toda velocidade pela sanga rasa em direção à casa, empunhando uma gadanha novinha em folha. Os gritos que vinham de lá eram terríveis e normalmente me deixariam horrorizado. Entretanto, naquele momento apenas aguçaram ainda mais minha vontade de matar. Não sei se por um instinto de predador, ou se pelo desejo de vingança humano, mas apostaria no segundo.
Quando cheguei, dois dos meus algozes já estavam rolando pelo chão fora das ruínas em chamas. O primeiro não viu nada antes de ter a cabeça arrancada, o segundo tentou proteger o pescoço com as mãos sem nenhum sucesso.
        Ouvi que do outro lado da casa um terceiro conseguir sair. Corri para lá e o encontrei de costas. Um golpe transversal de baixo para cima entrou na sua axila direita e saiu pelo ombro esquerdo.
Um quarto agressor saltou de dentro do velho prédio para cima de mim. Continuei o giro da foice, percorrendo um círculo diagonal do alto para baixo e enterrei a arma no peito dele. Seguindo o movimento praticamente o preguei no chão. Não ofereceu nenhuma resistência quando usei minhas garras para separar sua cabeça do corpo.
Vi o quinto escapar pela lateral, através da parede enfraquecida. Era Jorge, estava cego e muito ferido. Livrei a gadanha de sua vítima anterior. Caminhei até ele e acabei com seu sofrimento com um golpe rápido.
Os outros dois morreram dentro da casa. Só por garantia os decapitei. Depois juntei todos os indícios que encontrei, incluindo os corpos. Os enterrei no fundo de um poço abandonado afastado dali.
        Terminada a função, mandei mensagem para o número que havia me contatado mais cedo: “o esquadrão da morte não vai voltar para casa”.
        Logo recebi uma resposta: “se vc desafiar o alfa pra uma luta direta e tiver testemunhas, mesmo por telefone, ele vai ter q aceitar”.

O desafio
        Não perdi tempo. Liguei novamente para o numero da minha falecida esposa infiel.
        – Alô. Que demora. O idiota conseguiu se esconder tão bem assim?
        – Não me escondi muito não. Mas seus valentões… já eram.
        – FILHO DE UMA PUTA!
        – Calma lá. Não precisa por a mãe no meio. Temos que resolver tudo de uma vez. – Gabriel calou a boca por um instante. Forcei minha audição ao máximo e percebi que haviam umas três ou quatro pessoas com ele.
        – Estou formalmente te desafiando para uma luta até a morte. – falei o mais claro e alto possível sem gritar. Garantindo que os outros ouvissem.
        A resposta foi imediata. – Eu aceito seu merda. Vou arrancar teu coração e mijar na sua cara! – admito que o tom dele foi tão sinistro que senti um calafrio.
        – Onde e quando?
        – Nos encontramos a meia-noite, na noite da lua nova. Na mata do ecocamping. – completou e desligou na minha cara.
        Os dois dias até a lua nova passei no covil. Sai de lá à tardinha, peguei um ônibus na rodovia. Chegando à cidade, passei algumas horas em uma cafeteria tradicional do centro. Distraí-me vendo através das grandes janelas, pessoas passarem pelo calçadão e ouvindo os velhos, que perfazem a maior parte da clientela, se gabando de terem comido as mulheres que avistavam. Não precisaria nem de minhas novas habilidades para saber que estavam mentindo.
        Perto das vinte e três horas fui para a parada do ônibus que passa em frente ao ecocamping. Peguei o das 23h10min, o ultimo antes das 6h da manhã.
        Chegando lá já percebi o quão grave era a situação: havia o cheiro inconfundível de lobisomem no ar. De muitos, na verdade. Não tive dificuldade para avançar pela mata fechada até chegar a uma clareira onde haviam acendido uma grande fogueira. Estavam reunidos ali pelo menos uma dúzia de licantropos, de ambos os sexos e idades variadas.
Não foi difícil identificar o alfa. Era o viking de jaqueta de couro me olhando com desprezo.
Os outros se distribuíam aos lados dele, sendo que diretamente a sua direita estava uma bela loira e à esquerda um alemãozinho mirrado. Eram Mônica e Bruno. Ela calmamente tamborilava com o indicador esquerdo em um celular no bolso da calça. Ao ver isso, a olhei nos olhos e ela sorriu discretamente.
        Eduardo e Alex se posicionaram em frente ao chefe rosnando para mim. Ambos na forma de homem-lobo.
        – Gabriel, alfa dos Garras Sangrentas. Eu reitero meu desafio. – fui direto aos negócios. Estava de saco cheio com essa bagunça toda.
        – Marcelo Ulv, aceito seu desafio. – proferindo essas palavras passou pelos dois capangas. Tirou a jaqueta de couro e os coturnos. Então em segundos assumiu a forma de lobo-humano. Tinha o pêlo castanho.
        Dei um passo à frente tomando o mesmo aspecto que ele. A rapidez com que mudei pareceu causar certo espanto entre os presentes. Mesmo o alfa ergueu uma sobrancelha.
        Rosnamos um para o outro e ele atacou. A velocidade e a violência me pegaram de surpresa. Cai para trás com o peso dele, enquanto o desgraçado mordia meu ombro direito e me retalhava com as garras.
        Rolamos pelo chão. Mordi e arranhei-o também, mas não tive nenhuma chance. Em briga de cachorro o desgraçado pareceu imbatível. Em certo momento ficou em pé, me erguendo com a mandíbula. Balançou a cabeça rasgando severamente meu ombro e me jogou a dois metros de distância. Como um pastor alemão faria com um cusco vira-lata. Ficou rindo enquanto eu me levantava com ondas de dor percorrendo todo meu corpo.
        Esse foi seu erro. Pela forma que me atacou ficou obvio que eu não tinha chance no jogo dele. Entretanto, se ele era ótimo lutando como um lupino, talvez não tivesse se preocupado em se aprimorar em brigar como humano.
        Encaramos-nos por alguns instantes, enquanto meus ferimentos regeneravam e ele ria debochadamente. Ambos com uma das pernas à frente e as garras ao lado, voltadas para o inimigo.
Gabriel avançou novamente e desta vez, busquei meus antigos golpes dos tempos de academia na juventude. Comecei aplicando um mae geri com a perna direita, um chute frontal que atingiu ele no peito e o fez recuar dois passos.
Desci a perna que chutou a frente, dei um passo com a esquerda e novamente golpeei com a direita. Dessa vez com um mawashi geri, um chute rotatório. Acertei o joelho dele com minha canela, usei tanta força que a senti rachar. O alfa caiu para o lado com a perna dobrada em um ângulo antinatural.
Isso não atrasou o infeliz. Ele saltou na minha direção. Cravou as garras nos meus ombros e avançou para morder minha garganta. Recebi o desgraçado com age hiji ate, uma cotovelada com o braço esquerdo, de baixo para cima em cheio no queixo. Com a pancada Gabriel afrouxou a pegada.
Segui para um kata guruma, segurando o seu pulso esquerdo, agachando para entrar embaixo da sua axila e ao mesmo tempo lhe puxando sobre meus ombros. Assim que seus pés deixaram o chão me ergui à altura máxima. Projetei o desgraçado de cabeça no chão. O som do crânio rachando e do pescoço quebrando foi delicioso.
Gabriel era um bastardo hardcore. Mesmo nessa situação ele conseguiu me chutar na cara e me fazer recuar.
Foi grotesco vê-lo levantar com o pescoço estalando e voltando para o lugar. Antes do estrago se concertar por completo usei um kizami-tsuki, um soco rápido com a mão que estava à frente, a esquerda. Seguido por um oi-tsuki, avancei com um soco direto no focinho do filho da puta, urrando de fúria e arrancando os dentes frontais do bastardo. Ataquei com tanta força que minhas garras cravaram na palma da mão.
        O alfa deu três passos para trás e acompanhei o movimento. Mudando de tática Gabriel tentou me acertar um “mata-cobra”, um soco giratório com o punho direito.
Evitei o golpe girando o braço direito em sentido horário, ao redor do seu, desviando seu impulso para o lado e para baixo. Tendo assim me colocado lateralmente ao meu oponente, segurei sua nuca com a mão esquerda, cravando profundamente as garras e aplicando minha própria força ao seu movimento. Para evitar cair de focinho no chão ele fez um grande esforço para se levantar e nesse momento, permiti sua tentativa. Com o braço em arco enterrei o bíceps na garganta do desgraçado, esmagando sua traquéia, enquanto rasgava sua nuca com a outra mão. Essa manobra toda se chama irimi nage.
        O alfa girou no ar, invertendo a posição dos pés com a da cabeça. Aterrissando de nuca no solo, quebrado o pescoço novamente e desmaiando.
Minha tentativa de dilacerar sua garganta foi impedida quando um tiro de escopeta me atingiu nas costas. A dor não deixou dúvidas sobre a presença de prata.
Muita prata!

Ancestral
        – EDUARDO! Tu não podes interferir no duelo. – exclamou Mônica, com expressão chocada.
        – Cala boca piranha. Não vou deixar o chefe na mão. – e disparou na minha nuca.
        – NÃO! – dessa vez foi Bruno quem se manifestou.
        – Bom saber com quem está a fidelidade de vocês. – resmungou o alfa voltando à consciência e falando com dificuldade.
        A indignação pela trapaça que estava surgindo entre os membros da alcatéia, foi imediatamente suprimida e a maioria teve que disfarçar a decepção. Enquanto isso eu estava ocupado morrendo por causa da perda de sangue e de massa encefálica.
        Depois fiquei sabendo que a menos que seja decapitado ou destruído de forma massiva, um lobisomem pode permanecer alguns minutos morto e ainda assim voltar à vida sem nenhuma seqüela se o fator que o matou for retirado da equação. Como meu coração, coluna e cérebro estavam crivados de estilhaços de prata ninguém sequer cogitou que eu tinha alguma chance.
        Nem eu mesmo!
Tive uma experiência fora do corpo. Literalmente flutuei e me vi estirado no chão dando meu ultimo suspiro. Portanto imaginem a surpresa que senti quando despenquei novamente para o cadáver, revisitando os flashbacks que tive em minha primeira transformação!
        Apesar da situação caótica, lembro claramente da cara de pavor de todos os presentes quando comecei a convulsionar e gritar como se estivesse fugindo do inferno. Senti os fragmentos de prata queimarem como ferro em brasa dentro do crânio e tórax, a sensação deles sendo expelidos para fora da minha carne foi uma mistura de agonia e alívio difícil de descrever.
        Quando Eduardo se recuperou e tentou apontar a escopeta na minha direção saltei até ele e atravessei seu peito com minha mão esquerda. Destroçando, coração, pulmão e espinha.
        Voltei-me na direção de Gabriel e lentamente caminhei até ele.
Senti minha forma se alterar, ganhando massa a cada passo. Quem já viu a foto de algum jogador da NBA ao lado de uma pessoa de estatura mediana tem noção da relação de altura entre um licantropo na forma de lobo-humano e alguém normal, apesar de parecermos mais baixos pela postura um pouco agachada que geralmente mantemos. Quando parei em frente ao antigo alfa, a diferença entre nós era equivalente.
Tenho que lhe dar crédito. Enquanto todos os outros presentes emanavam temor, dele vinha apenas ódio.
Gabriel atacou, tentou abocanhar minha garganta. Apesar de muito rápido, foi muito previsível. Golpeei com a mão direita de baixo para cima. As garras entraram embaixo de seu queixo e subiram para sair no topo de sua cabeça. Arrancando carne, nervos, ossos e massa cinzenta no processo. O corpo caiu por terra estendido.

Seguidores
        Alcatéia uivou em uníssono.
        Juntei-me a eles sem ao menos pensar. Pareceu a coisa mais natural do mundo.
Mantivemos a mesma nota por quase um minuto, para então cada um assumir um tom particular, criando uma grande e complexa dissonância. Senti que de certa forma comunguei com cada indivíduo do bando.
        Eles se organizaram em um semicírculo voltado na minha direção. Mônica bem ao centro, Alex ao lado dela para a minha direita e Bruno na ponta a minha esquerda.
        – Alguém pode me explicar que diabos aconteceu comigo? – a voz saiu extremamente gutural.
        Resolvi voltar à forma humana. No processo encolhi até lobo-humano normal, depois homem-lobo e por fim cheguei a meu aspecto mundano.
        – O senhor despertou como Alfa Ancestral. – a resposta veio do Bruno. Com exceção dos mais velhos todos olharam para ele com curiosidade.
        – Em primeiro lugar nada de me chamarem de senhor. Em segundo vais ter que explicar melhor.
        – Os lobisomens mais evoluídos espiritualmente atingem o status de Alfa Ancestral. Eles são imunes ao envelhecimento, possuem grande controle sobre as transformações e seis formas…
– Calma lá. Não acho que eu seja “mais evoluído”.
– Nessa vida talvez não. Mas e nas outras? – lembrando as cenas que pareciam de vidas passadas aceitei a possibilidade.
        – Seis formas você disse? O lobo-humano atroz e qual outra?
        – Temos palavras próprias para denominar nossos aspectos. Mas sim, essa forma “lobo-humano atroz” é uma. A outra é digamos assim um “lobo atroz”. – sinalizou com as mãos indicando o tamanho que esse aspecto teria. O dobro de um lupino normal.
        – Sei.
        – Além disso, vocês podem criar novos licantropos.
        – Como assim?
        – Normalmente só se torna um de nós nascendo assim, nossos genes passam na descendência. Entretanto, se quiser um Ancestral pode passar a licantropia para um humano normal.
        – Ok, ok. Depois você me diz mais sobre isso. Mas e agora como fica?
        – És o novo alfa dos Garras Sangrentas. Se continuar no posto tem a obrigação de proteger a alcatéia. Mas em compensação tem benefícios.
        – Fala mais.
        – Bom… – senti certo receio em todos enquanto ele pausou.
        – Bom… basicamente tens o direito de usar os bens de todos como bem entender e quem quiser desobedecer alguma ordem tua tem que te vencer em combate. – completou Mônica.
        – Esse imbecil abusava, não é? – apontei para o cadáver agora humano do líder anterior.
        – Bastante. Roubava no mínimo metade de tudo que ganhávamos. Além de humilhar todos. – seguiu Bruno.
        – Como seria o acerto correto? Se é que existe algum padrão.
        – O normal é receber 10% dos rendimentos mensais de cada um e respeitar todo mundo. Só exercer a liderança para fins cerimoniais e assuntos envolvendo a segurança do bando.
– Parece um bom acordo. Vamos fazer desse jeito então. Todos de acordo?
Mônica veio até mim e me deu um baita beijo. Depois ajoelhou na minha frente.
Os outros também ajoelharam e cada um dos presentes assinalou concordância. A maioria com discreto alívio, alguns com alegria declarada.
Elevei a voz:
– Ouçam todos. Minha primeira ordem é para darem sumiço em todas as evidencias que possam nos comprometer. Depois vou pensar em um novo nome para o grupo.
Imediatamente Alex e Mônica cataram os corpos de Gabriel e Eduardo, e os jogaram na fogueira. Outros juntaram mais lenha para alimentar o fogo e alguns foram reunindo todos os objetos ensanguentados para que fossem destruídos.
Chamei Bruno para um canto e perguntei sussurrando para apenas ele ouvir:
– Como fica a situação da fêmea alfa?
– Se ela quiser continuar no posto tem que transar contigo. Ela pode abrir mão do status à vontade, assim como tu pode não aceitar ela.
– Isso é tipo casamento? Não quero me meter em outro tão cedo.
– Não. Quer dizer, pode ser se os dois quiserem. Mas hoje em dia geralmente é mais uma amizade colorida mesmo.
        – Sabe que acho que vou gostar desse negócio de ser o alfa! – ri.
        – Tem seus altos e baixos. O mais urgente vai ser te apresentar para os outros.
        – Legal. Tem mais lobisomens na cidade?
        – Quem falou em lobisomens…?

Fim…
por enquanto…
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Categorias:Artes, Pessoal Tags:, ,
  1. gustavo
    06/04/2012 às 09:33

    Opa beleza, li seu conto, e estou aqui para pedir permissão para colocar seu personagem em uma campanha de rpg que estou narrando.

    • Fábio
      06/04/2012 às 09:44

      Oi, Gustavo.

      Pode usar o personagem na campanha de rpg.

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