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Os Frutos Dourados do Sol

Ray Bradbury é meu escritor favorito. É isso.

Mário Quintana o considerava um dos grandes poetas da literatura, chegando de realizar um de seus poemas para ele. Não é pouco. E é merecido.

Bradbury se especializou em um tipo raro de conto, onde o fantástico permeia o cotidiano, onde cada descrição tem uma beleza própria, como uma versão sutilmente melhor de nosso mundo. Tudo que conhecemos está ali, mas os detalhes são um pouco mais brilhantes.

Não sei se ele é um autor pra todos, afinal, nos últimos 40 anos alguns valores como imaginação, beleza e talento saíram de moda neste nosso mundinho um tanto quanto cínico e pós-moderno, mas poder achar um livro desconhecido de Bradbury em algum sebo, sempre é um prazer raro.

Uma promessa de algumas horas em um mundo cheio de fascínio.

O livro da vez foi “Os Frutos Dourados do Sol” onde um dos melhores contos trata de três velhas a bordar, enquanto esperam a inevitável aniquilação nuclear.

Espetacular:

“…A estas palavras, em silêncio, as três se entregaram ao trabalho. Os dedos voavam. Os rostos se debruçavam sobre o movimento dos dedos, que executavam desenhos frenéticos. Lilases e gramados e árvores e casas e rios no pano bordado. Elas não diziam nada, mas podia-se ouvir sua respiração no ar quieto da varanda.

Passaram-se trinta segundos.

Finalmente, a segunda mulher suspirou e começou a relaxar.

— Acho que, afinal de contas, vou mesmo debulhar as ervilhas para o jantar — disse. — Eu…

Mas não teve nem mesmo tempo de levantar a cabeça. Em algum lugar, no limite de seu campo de visão, ela viu o mundo iluminar-se e começar a pegar fogo. Manteve a cabeça abaixada, porque sabia o que era. Não olhou para cima, nem ela nem as outras, e até o último instante seus dedos voavam; não olharam para ver o que estava aconte­cendo com o campo, a cidade, a casa, ou até mesmo com a varanda. Mantinham os olhos presos aos desenhos que suas mãos não paravam de bordar.

A segunda mulher viu desaparecer uma flor bordada. Tentou bordá-la novamente, mas ela se desfez, e logo em seguida desapareceu a estrada, e depois o gramado. Viu o fogo, quase em câmara lenta, envolver a casa bordada, destelhá-la, arrancar as folhas bordadas da pequena árvore verde da curva do caminho, e viu o próprio sol desintegrar-se no desenho. O fogo alcançou então a ponta da agulha, enquanto esta ainda refulgia em movimento; ela viu o fogo percorrer seus dedos, seus braços e seu corpo, desenrolando o novelo de seu ser com tamanho cuidado que ela podia vê-lo, em toda a sua beleza diabólica, descascar a estrutura do material atingido. Ela nunca chegou a saber o que o fogo fez com as outras mulheres, com os móveis ou com o olmo do jardim. Porque neste momento, neste exato momen­to, ele puxou o fio do alvo bordado de sua carne, a linha rosada de suas faces, e finalmente alcançou seu coração, uma suave rosa vermelha costurada com fogo, e queimou as fres­cas pétalas bordadas, uma a uma, delicadamente…”

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Categorias:Entretenimento
  1. 10/12/2011 às 14:33

    Pois é.
    Bradbury é meu escritor favorito.
    Ele nos leva ao imaginário fantástico em meio ao mundano, fazendo-nos observar o que é comum a todos nós, nossa capacidade de sentir, vivenciar, sonhar e destruir. Suas criaturas são fantásticas e ao mesmo tempo comuns porque no fundo são apenas homens e mulheres como qualquer um em meio a eventos extraordinários, ou não. Somente em Bradbury encontramos essa fórmula ambivalente colocada no post, em um texto despretensioso, fácil de entender, mas complexo em suas interpretações mais profundas. Nada é o que parece, mas ao mesmo tempo, o dito está explicito, nos dizendo como somos no dia a dia, demarcando nossos defeitos e qualidades, quase que como um espelho cheio de luzes, sombras e flashs desconexos, em que nossas falhas e virtudes estão expostas e desnudas. Seus contos podem ocorrer em Marte ou em outra realidade paralela, mas sempre tratam de nós mesmos, seres humanos.

    PS: Não sabia sobre as opiniões de Mário Quintana a respeito de Bradbury.

  2. Fábio Ochôa
    12/12/2011 às 08:46

    Tem, tem, abaixo segue o poema que o Quintana fez para ele:

    “Eu queria escrever uns versos para Ray Bradbury,
    o primeiro que, depois da infância, conseguiu encantar-me com suas histórias mágicas
    como no tempo em que acreditávamos no Menino Jesus
    que vinha deixar presentes de Natal em nossos sapatos empoeirados de meninos
    e nada tinha a ver com a impenetrável Santíssima Trindade.

    Era no tempo das verdadeiras princesas,
    nossas belíssimas primeiras namoradas
    – não essas que saem periodicamente nos jornais.

    Era no tempo dos reis verdadeiramente heráldicos como os das cartas de jogar
    e do bravo São Jorge, com seu cavalo branco, sua lança e seu dragão.
    Era no tempo em que o cavaleiro Dom Quixote realmente lutava com gigantes,
    os quais se disfarçavam em moinhos de ventos.
    Todo este encantamento de uma idade perdida
    Ray Bradbury o transportou para a Idade Estelar
    e os nossos antigos balõezinhos de cor
    agora são mundos girando no ar.

    Depois de tantos anos de cínico materialismo
    Ray Bradbury é nossa segunda vovozinha velha
    que nos vai desfiando suas histórias à beira do abismo
    – e nos enche de susto, esperança e amor.”

  3. 12/12/2011 às 22:17

    Puxa.
    Muito legal.
    Obviamente que sintetizou nosso querido escritor e sua obra de forma muito mais completa do que minhas perdidas na tela.

  4. Fábio Ochôa
    13/12/2011 às 08:50

    Pois é.
    Em alguns momentos os trabalhos da fase final do Will Eisner tem também uma semelhança com o clima do Bury, particularmente em O Edifício.

  1. 07/06/2012 às 09:36

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