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A Linguagem Secreta do Cinema, de Jean Claude Carrière

O texto abaixo, era um trabalho para a faculdade de cinema. E entre outras coisas, é a prova cabal que quando gosto de algo não consigo escrever de maneira objetiva.

É a vida.

 

Uma coisa pode ser dita antes de qualquer outra: o livro A Linguagem Secreta do Cinema, de Jean Claude Carrière é uma análise saborosa do processo de realização de um filme.
A um só tempo romântico e objetivo, temperando cada momento de leitura com reflexões e memórias vívidas sobre o processo de fazer cinema, calcado principalmente em seus anos de parceria com Luis Buñuel, figura onipresente nas entrelinhas da obra, junto com outros nomes igualmente admiráveis como Milos Forman, Jacques Tati, Eric Rohmer, entre outros.
Crônica e reflexão, crítica e memória, carinho, magia e realismo se misturam nas aproximadamente 200 páginas do livro, sem afetação e academicismo, afinal, a visão de Carrière é de um participante desta indústria e de admirador, não o de simples teórico.
É a visão real e prática, ainda que carinhosa, falando do processo criativo e técnico chamado fazer filmes, uma visão realista do cotidiano dos homens cuja profissão é construir diariamente ilusões.
Fabricantes de uma realidade superior, mais simples e especial que a nossa.
O livro inteiro foi lido em 2 dias, e quem dera que todo texto acadêmico fosse assim.
Nossa vida seria bem mais fácil.
Carrière tece ao longo do livro um sem-número de reflexões, no andar do texto, citarei as que considero mais relevantes, seguido de algumas considerações pessoais construídas a partir delas (afinal, isto não é só resenha, é resenha crítica).

Um dos pontos centrais do livro, e um conceito que é essencial entender para acompanhar grande parte das conclusões de Carrière, é a idéia do cinema não como simples reprodução mecânica da realidade, mas sim como realidade própria, com suas próprias regras de comportamento, funcionamento, tempo e espaço, porém, ainda assim, simulando ser a nossa realidade.
Algo situado na fronteira entre a fantasia plena e a verdade (seja lá o que isso signifique), sem pender demais nem para um lado, nem para o outro, situado em um curioso ponto de Lagrange.

Fruto de suas inovações técnicas, o cinema trouxe coisas nunca vistas: mais do que apenas o trem em movimento, trouxe o olhar escuso impossível de perceber na escuridão do teatro, o silêncio pleno, impossível de ser apreendido na vida real, o sussurro percebido.
A tecnologia começava a captar a sutileza que nossos olhos e ouvidos jamais poderiam captar em qualquer outra arte.
Não deixa de ser curioso, tendo isto em mente, que o cinema só começaria a ser visto como arte válida no final da segunda década do século XX e adentrando a terceira, principalmente com os filmes de Lang e Murnau e o cinema russo de Eisenstein.
Carrière aponta para a montagem como o fator que determinou o surgimento do cinema enquanto linguagem, fazendo ele evoluir de trucagem tecnológica para arte narrativa.
Através da montagem, o cinema pôde finalmente deixar de ser um mero recorte da vida cotidiana, uma curiosidade científica na qual nem mesmos seus criadores confiavam na durabilidade, e pôde se tornar uma das ferramentas artísticas mais potentes do século XX, moldando e definindo o modo de experimentar o século.
Não é por acaso que ele próprio foi usado como um importante elemento de colonização, (provavelmente não tão ideológica quanto tão adoram afirmar o pessoal da esquerda, mas sim, segundo a minha visão e a de Carrière, colonização econômica, pura e simples), citando no livro, como exemplo, as sessões realizadas na África, como prova “incontestável” da cultura européia sobre aquela.
Afinal, homens que fazem as imagens se moverem não devem ser homens, mas sim deuses.
O que ninguém levou em consideração, é que aquelas imagens não falavam nada aos africanos, ao seu universo. Devido ao distanciamento cotidiano, nem mesmo a gramática visual de montagem eles sequer compreendiam.
Um erro básico de todo colonizador que deseja impor uma cultura sobre outra: o cinema é como toda arte, sua linguagem tem que ser aprendida para suas histórias poderem ser entendidas e apreciadas.

Frisando sua visão da “realidade particular” do cinema, Carrière lista infinitos clichês cinematográficos, os quais nunca reparamos mas estão sempre presentes, os quais nunca ocorrem na vida real: o telefone que sempre, sempre, é atendido após dois toques, o homem que o atende e fica repetindo para o espectador o que está ouvindo do outro lado da linha, o homem que nunca confere o taxímetro e paga sempre sem receber troco, a porta de casa sempre destrancada, independente da vizinhança onde se more, fato de nunca ninguém ir ao banheiro, o sexo nunca mostrado, e quando mostrado, despido de uma certa brutalidade e hesitação natural, tudo isto que em momento algum estranhamos na tela, aceitando passivamente como uma realidade.
Talvez se fossem mostrados estes fatos banais do dia-a-dia, essas pequenas imperfeições cotidianas, o cinema se aproximaria demais de nós, perdendo aquela ilusão de realidade superior, essencial para preenchermos com nossas fantasias, o espaço certo para nos inserirmos no filme.
O cinema tem uma convenção própria, uma geografia própria e falsa e um senso de
tempo peculiar. Igualmente manufaturado, como tudo que a tela abrange.
Ele reescreve constantemente a sua própria e a nossa história, cria uma realidade muito mais crível a nós do que a mostrada nos livros escolares.
O exemplo de Carrière é oportuno: para mim Júlio César sempre teve o rosto de Marlon Brando, Robin Hood sempre vestiu as ridículas ceroulas verdes de Errol Flynn por mais que eu saiba que aquele traje é completamente incoerente com a época, não consigo em um primeiro momento imaginá-lo de outra forma e todos os cowboys do velho oeste sempre foram limpinhos como John Wayne.
O passado cheira bem, é higiênico, sempre, não existem sujeiras.
No fundo, o cinema, defende Carrière, é uma tentativa de ordenar a confusão de sentidos do mundo real, filtrá-los e mostrar apenas o que interessa, seria, por assim dizer, um mundo com sentido, uma parte da tendência humana de ordenar o mundo.
Um exemplo marcante é o do homem que enxerga sua mulher com o amante através da janela, reside aí de maneira explícita esta obsessão por ordem e lógica.
Como podemos, de maneira tão certa e baseados apenas em uma simples montagem, afirmar sem nenhuma informação prévia, que o homem observa sua mulher?
É nossa velha mania de ordenar, de criar conexões até onde elas não existem.
E em algum lugar não especificado dentro desta lógica, reside a magia do cinema.

O que determina o bom filme, ele deixa implícito em suas linhas, são os que operam nesta linha indistinguível, que possuem aquela qualidade, aquele algo mais não-definível que os deixa sobreviverem afetivamente na memória.
Se me perguntassem qual meu filme predileto, eu responderia As Sete Faces do Dr. Lao. Porque? Não sei, simplesmente, ele tem esta característica dúbia que o reforça em minha memória, que afetivamente me conquista até hoje. Mesmo sabendo que já vi infinitos filmes melhores em termos de roteiros, ou técnicos, ou até mesmo magia, este ainda é meu filme preferido.
O porquê é um mistério e se eu fosse racionalizar isto, escoaria toda a magia do filme, deixemos ele repousar nas brumas enevoadas então.
O cinema é o autêntico darwinismo artístico, onde a cada ano dezenas (ou centenas em caso de algum espectador muito assíduo) de obras competem para permanecer em nossa memória.
As mais incapacitadas, desaparecem rapidamente, prontamente extintas de nossas mentes. Os mais poderosos são os que conseguem se adaptar aos novos gostos, e os mais fortes, são aqueles que possuem este algo mais, que os fazem atravessar gerações (todos os cineastas que admiro tem isso, Spielberg, Hitchcock, Chaplin e Kubrick são bons exemplos de arte imune a tempo e gostos).

Outro ponto interessante levantado por Carrière, é a própria urgência em mudar, tão característica do cinema.
Ele nasceu com esse senso de urgência, tão típico do século XX, esta busca insaciável de superar a si mesmo constantemente, de sempre surpreender.
Seu ritmo se acelera vertiginosamente a cada década, chegando a rompantes ensurdecedores e estonteantes nesse novo milênio.
Na época que o livro foi escrito, esse processo ainda não havia chegado até os limites de hoje, com sua montagem-relâmpago, de piscou/perdeu.
Me lembro de um comentário de José Wilker durante o Oscar (cerca de 2004, por aí) quando Homem-aranha 2 foi indicado para efeitos visuais e trechos do filme passaram na TV.
Wilker comentou que não fazia mal-juízo deste tipo de cinema, mas simplesmente não conseguia assistir a este tipo de filme.
O porquê?
“são rápidos demais”, “não consigo absorver”, explicou ele.
Na época achei bem curioso o comentário, foi, acho, a primeira vez que constatei que existia um outro tipo de público, acostumado a um ritmo não tão intenso de cinema.
Me lembrei deste pequeno episódio ao ler no livro o trecho sobre a conversa entre Carrière e o velho montador que demonstrava a ele a diferença entre a montagem “sem pressa” de 1920 e a montagem “objetiva” de 1950.
A pressa em se contar uma história aumentou naquela diferença de 30 anos que ele demonstrara, e de lá para cá aumentou mais ainda. Não chega a ser um absurdo completo supor que no futuro filmes não passem de trailers (de fato, há determinados trailers que praticamente contam a história do filme inteiro).
Há duas décadas os filmes ganharam um grande inimigo: o controle remoto na televisão. Demorou demais para algo acontecer? Bem, vamos ver o que há no outro canal.
Hoje, embora por motivos óbvios o filme não aborde isto, a situação está um pouco pior com as infinitas opções de filmes para ver e programas para fazer (não estamos mais prisioneiros do vídeo e da TV, e antes disto, apenas do cinema, antigamente, especulo, que nos detíamos mais em cada filme porque era só o que havia para ver) com mais opções, mais pressa em apreciar cada espetáculo, descartá-lo e seguir para o próximo, afinal há um mundo inteiro lá fora, a fila é grande e as opções são infinitas.

Como que prenunciando o problema, Carrière alerta que o problema deste bombardeio caótico e rápido de imagens a que estamos cada vez mais nos acostumando como linguagem, é o pouco tempo que ele deixa para o subtexto, para as coisas não-ditas no filme, tão essenciais para serem apreendidas quanto o que é dito nele.
Sem ela o cinema vira uma montanha-russa, realmente emocionante mas no fim das contas, uma experiência superficial, indo pouco além da casca, perdendo por completo seu maior trunfo: a força da participação afetiva do espectador.
Sem ela, o cinema vira pouco mais que uma desculpa para a pura técnica, a história, um mero suporte lógico para a montagem e efeitos.

No livro, a questão da linguagem também passa por outra questão: o desgaste narrativo da mídia, com mais de 100 anos de história (e histórias) o cinema tem uma mania obsessiva em superar a si mesmo através da tecnologia, esquecendo-se um pouco do seu interior, do que está sendo contado.
Este trecho me remete a comentários de Peter Greenaway, onde ele afirmava que o cinema preocupa-se muito com como estava narrando e pouco com o que estava narrando. No fim das contas, seguia Greenaway, a despeito de todas as inovações técnicas, ainda assistimos filmes da mesma maneira de 100 anos atrás, na escuridão, passivos observando uma luz.
E hoje a mesma tecnologia tão condenada por ele, permite que o cinema acene com outras possibilidades completamente inexploradas.
A se pensar.
Muito se fala sobre a permanência do cinema, Carrière dedica algumas linhas a afirmar ora sua efemeridade (pautada sempre pelo sucesso ou fracasso comercial), quanto por sua durabilidade material se comparada com outras artes.
Uma constatação pessoal: tenho sérias dúvidas quanto à esta suposta “permanência histórica” das obras cinematográficas, se pegarmos um exemplar de Dom Quixote que tenha sido editado há 200 anos atrás, e o papel estiver em condições decentes e nosso domínio de espanhol for razoável, Dom Quixote estará garantido para nós enquanto leitores
Mas e quanto ao cinema? Supondo que encontremos um DVD, ou VHS, ou Blu-ray de Dom Quixote daqui há 200 anos, existirão aparelhos capazes de reproduzir DVD daqui a 200 anos? Capazes de rodar VHS, Blu-ray, o que for? Aliás, existirão TVs ou projetores daqui há 200 anos?
São confiáveis obras que se condicionam apenas na tecnologia vigente (sendo que esta mesma muda toda hora) para sua posteridade?
Duvido muito. Talvez no fim das contas, o cinema venha a ser uma arte datada e perecível como afirmou Carrière, embora não pelos mesmos motivos apontados por ele.

Carrière toca na mesma tecla, ainda que por outros argumentos. Dedicando um texto inteiro a acusar o cinema de ter perdido muito de seu poder de invenção, acomodado na trucagem simples e no ofício de repetir o que já foi estabelecido.

Outro ponto interessante levantado por Carrière é a maestria dos grandes mestres, entre eles o tão citado Buñuel em abrir mão do experimentalismo e deixar uma linguagem oculta, simplificada, o que talvez seja a grande chave por trás de megassucessos do cinema atual como Dois Filhos de Francisco e Menino da Fronteira.
Bem, e o que é a maior bilheteria mundial, Titanic, além de uma história simples, contada de maneira igualmente simples e descomplicada, palatável á qualquer tipo de público.

Outro ponto que concordo plenamente com Carrière: para escrever sobre cinema, você tem que passar por ele. Saber como é feito um filme.
É tremendamente maçante ler sobre cinema através de filósofos de que não fazem a menor idéia de como funciona uma moviola, ou quais os mecanismos reais de elaboração de um roteiro.
É o tipo de coisa que soa a uma arrogância e um pouco-caso intelectual imenso.

Aliás escrever para o cinema, no livro é um capítulo à parte.
A verdadeira escrita cinematográfica, é um ato de humildade, uma crisálida, como sugerida no livro, de onde brotará o filme.
O roteiro para poder virar filme, inevitavelmente sucumbirá no processo.

E neste processo é essencial, o respeito ao espectador, para que sua voz seja ouvida. É necessário o espaço para ele inserir seus sonhos, o cinema nunca pode contemplar o próprio umbigo. Sempre tem que respeitar este acordo tácito.

Escrever não é um ato de liberdade. É um ato de extrema disciplina.
Quase uma servidão voluntária. Um prazeroso exercício de frustração.

Sugere acertadamente, a imersão na vida real antes de escrever, a importância da pesquisa e da preparação, antes do primeiro ato criativo.

Aliás, outra palavra chave do livro, sem a criatividade, o cinema vira apenas repetição técnica, um moto-contínuo morto e inútil em sua principal função: criar emoções autênticas em um mundo embotado.
O que fazemos no fim das contas é isto.
Não vendemos imagens.
Vendemos experiências e emoções.

É o perigo da perícia, segundo o livro, dela sufocar a imaginação ou anestesiar sua força em prol do já comprovado, testado, do mais seguro.
Sei também que filmes são produtos comerciais, o equilíbrio é delicado, mas desta mesma força emotiva o cinema necessita para poder se reinventar e consequentemente vender ingressos, vender novas emoções.

No fim das contas, nosso próprio repertório de histórias humanas é ao mesmo tempo limitado e infinito.
É uma constante busca por novos meios de dizer velhas coisas.

O roteirista se enquadra, conforme bem coloca o livro, dentro de uma longa tradição de contadores de histórias. Preenche uma necessidade humana por histórias.
Elas são portanto, um papel vital para nossa definição.
Um elo vital da corrente.

Um exemplo tocante do livro, é o do cinema-humano. Exemplifica bem esta obsessão que temos com histórias, do homem na Hungria que assistia filmes proibidos no exterior e era convidado para jantares, onde contava em detalhes, sem perder uma linha, todo o filme que assistira. Puro Ray Bradbury.
E os convidados, de olhos fechados ouvindo as palavras do homem, que tipo de filme assistiam?

No fim das contas, como todo obra, cada filme é uma experiência individual em direção a nós mesmos, às coisas que nos interessam e definem enquanto pessoas.

A história que você ouve não é a mesma que a pessoa conta.

Ainda segue sendo uma revelação, profunda e particular.

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Categorias:Entretenimento
  1. 06/02/2012 às 18:12

    Acho que o cinema tem um poder fantástico de convencer as pessoas. Os filmes não mostram a realidade, mas uma alternativa fantástica e, por incrível que pareça, ela nos parece mais crível que a verdade.

    O cinema define regras e estipula o certo e o errado. Intrinsecamente, em todo filme há uma mensagem íntima e idealista do diretor ou roteirista.

    Uma vez ouvi essa frase: a história é escrita por quem vence as batalhas. Logo, elas são descritas na maneira que lhes convém. Porém, com o advento do cinema, a história passou a ser escrita por quem detém essa espécie de poder.

    Não é a toa que achamos o exército dos EUA o melhor do mundo, principalmente depois da enxurrada de filmes de guerra, mostrando batalhas no Vietnã. Mesmo tendo levado uma saranga naquela guerra, para o mundo, os EUA saíram por cima. O mesmo achamos da polícia de lá. Eles têm recursos, carros, armas, equipamentos, um apoio científico incrível… Enfim, propaganda – a legítima, política – que é vendida para o resto do mundo como quem diz “essa é a história, assim que as coisas são”.

    Ainda assim acho importante essa fuga da realidade. Se não há fria, como vou gritar “que baita fria!” e reclamar com meu pai? Se não há uma cena onde o destino junta aquele casal, como vou ver minha mãe dizer “tudo estava escrito desde o começo”? As pessoas gostam, mesmo que de forma exagerada, de fugir do cotidiano.

    O cinema nos dá mais que imagens, como disseste, nos dá emoção. Alguns dos melhores momentos que vivi com amigos ou minha família estão ligados aos filmes e às sensações e aos comentários que deles decorrem.

    Brilhante texto!

  2. Fábio Ochôa
    07/02/2012 às 08:38

    Valeu Rafael, como disse, era um trabalho de faculdade, daí a extensão dele.
    Aliás, esse é um dos assuntos que mais me fascina, a mecânica interna das obras, como elas acontecem, como acontece a participação do espectador. É um campo bastante estudado, mas infelizmente com quilômetros de bobagens escritas.

  1. 07/06/2012 às 09:36
  2. 17/07/2012 às 08:23

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