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Pobre Jonas, Sequer Imaginava Que Seu Irmão Já Estava Lá

O pequeno conto abaixo, foi outro trabalho feito para a faculdade. Nele, tínhamos que desenvolver um conto de uma página onde tinha que constar a frase “Pobre Jonas, sequer imaginava que seu irmão já estava lá”.

Sinto falta deste tipo de trabalho, sinceramente.

 

 

– Você sumiu com Jonas. Eu sei disso. – afirmou de novo o menino, na esperança que o simples ato de afirmar transformasse esta acusação na mais sólida e monolítica verdade.

O Jonas que ele se referia, era o de brinquedo, não o de verdade, de qualquer maneira, T. Cobbles Hawk negou com toda a veemência que seus membros de plástico eram capazes.

– Eu não mentiria para você garoto. – disse ele com sua voz anasalada de boneco. Quanto a isso, o menino repetiu para si mesmo que era a mais completa mentira.

– Eu sou seu único amigo no mundo.- completou e quanto a isso, o menino já não estava tão certo que era mentira – e amigos não mentem para amigos.

Ficaram quietos por alguns instantes, o boneco pediu outro cigarro.

Pela janela suja, o menino olhava o lá fora, onde os homens de branco explicavam a situação para Jonas, o de verdade, não o de brinquedo.

– Eles já levaram ela? – perguntou Hawk.

– Não.

Os homens de branco estavam arrastando a mulher branca, vestindo algo branco que imobilizava seus braços, colocando-a dentro do carro branco.

– Faz tanto tempo que o Duga não aparece. – disse o menino, olhando para o boneco sentado na sua frente, deixando a janela e o lá fora se entenderem entre si, ignorados – parece que ele não volta mais das férias.

– Duga não vai voltar nunca mais guri. Os pais dele não querem que ele ande com gente do seu tipo.

– Que tipo?

O boneco não falou a palavra proibida, deixou ela subentendida no ar.

Na rua, os homens de branco passavam uma folha igualmente branca para o Jonas de verdade.

O menino não gostava do branco.

Brancas eram as roupas dos homens que buscavam seu pai, dos que levavam sua mãe. Brancas eram as paredes da casa velha onde morava, onde ele enxergava montes, dragões e duendes e até o espaço sideral.

Hoje, não havia pai, hoje não havia mãe, havia apenas seu irmão lá fora, o boneco, e as paredes completamente brancas como os homens lá fora.

– Onde está o Jonas? O que você fez com ele?

– Lá fora guri, assinando papéis pros homens que cuidam de gente que… saiu dos trilhos. Tuuu-tuuuu. –imitou um trem com sua voz e seus bracinhos de boneco.

– Não é desse Jonas que tô falando, cê ta desviando o assunto, quero saber onde está o Jonas.

– Você não tem mesmo outro cigarro roubado?

– Onde está o Jonas?

– Sua mãe não vai mais precisar deles.

Os olhos do menino se estreitaram, não ia chorar na frente do boneco. Não iria dar este gosto para ele.

– Não sei guri, mas te aposto que seja lá o que aconteceu com ele, ele mereceu.

– Onde ele tá?

– Ele era um traidor.

– Era nada. Ele era meu amigo.

– Não. Eu sou seu amigo guri. Quando se divide uma caixa de brinquedos com outro homem, você aprende a conhecê-lo. Se digo que ele era um traidor, é porque ele era um traidor. Além do mais…

Esperou.

– …acidentes acontecem.

Os dedos do garoto se apertaram contra suas bermudas.

Ele nem sequer notou.

– Talvez ele tenha cruzado o caminho de algum cão zangado. Ou o compactador de lixo da pia tenha encontrado ele. De qualquer maneira, foi melhor assim guri. Ele era ruim, ele te dava idéias que você não deveria escutar.

O menino olhava de novo pela janela. A voz do boneco seguia, monocórdia e inflexível.

– Ele não era que nem eu guri. A vida nunca vai ser feliz e eu minto pra você sobre isso? Não! Sabe o que você devia fazer, guri?

O menino não respondeu, seguia olhando pela janela.

A última porta era batida, o carro branco acendia suas luzes.

– Você devia aproveitar e fugir agora, enquanto ninguém espera isso. Senão, eles vão te pegar um dia, a-há, vããão. As grades vão se fechar e aí vai ser tarde demais. Eles já pegaram seu pai, eles já pegaram sua mãe e adivinha quem vai ser o próximo?

Seu irmão ficou parado até o carro sumir na esquina. E então, começou a entrar.

– O Jonas?

O boneco riu. Devagar.

– Não, não, Jonas escapou. Jonas não tem problemas Mas você é, você sabe disso, não é?

– É o que?

– Maluco. Ruim da cabeça. Louco.

Deixou finalmente ali, o peso da palavra proibida, flutuar no ar.

– Lucas?

O menino se virou. Jonas, o de carne e osso, não o de plástico, estava apoiado na porta, era seu irmão sete anos mais velho a carregar o peso do mundo nas costas.

– Ouvi vozes, você está bem?

Pensou em dizer que Hawk estava falando bobagens de novo. Que sentia coisas demais dentro de si, que ele fazia se sentir com medo de algo tão forte não conseguia nem botar em palavras.

Nada disse.

No fim das contas, Jonas iria dizer que um boneco era apenas um boneco.

– Tô. – respondeu com um sorriso um tanto amargo.

Jonas suspirou fundo, afagou a cabeça do menino e saiu do quarto não antes de por segundos, examinar aqueles olhos grandes de menino, como a tentar identificar alguma coisa, algo oculto ganhando espaço, um pântano que gradualmente sugava, até a pessoa que outrora fomos desaparecer como se nunca tivesse existido.

A zona de loucura que sua família habitava.

Pobre Jonas, sequer imaginava que seu irmão já estava lá.

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Categorias:Entretenimento
  1. 07/02/2012 às 23:01

    Gostei, um tanto depressivo demais para o meu gosto, mas é bom.

  2. 08/02/2012 às 07:27

    Eu curti. Parabéns!

  3. Fábio Ochôa
    08/02/2012 às 10:44

    É um exercício bem legal. Quando o Jacques e o Marco voltarem para o blog, até dá para arriscar.

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