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Da fantástica aventura de mudar de residência

Acabo de mudar de apartamento essa semana – ou ainda estou mudando? – e percebi que, diferente dos filmes, mudar de casa é uma aventura fantástica. Nos filmes as pessoas saem com meia dúzia de caixinhas leves de papelão, fechadas com fita adesiva, escrito nas laterais “Coisas do Mike” ou “Coisas da Sue”. O resto a transportadora embrulha, encaixota, desmonta, carrega e organiza.

Na vida real, se a gente não está em cima, metade dos pertences quebram, não são meia dúzia, mas 60 caixas de papelão, não há tempo para escrever de quem são as porcarias que estão dentro das caixas e elas nunca ficam leves.

Mas o pior de tudo é se estabelecer no novo lar. Tem que transferir telefone, internet, TV por assinatura, ligar a luz, a água, fazer aterramento, cópias das chaves… Enfim, uma infinidade de coisas que os filmes não mostram. Nessa aventura sempre tem o lado tragi-cômico. Sim, cômico pra quem lê agora, trágico pra quem está “tentando resolver” essas pequenas pendências com as chamadas “pessoas responsáveis”.

Antes de me mudar, fui conversar com o administrador do prédio para me inteirar do regimento interno do condomínio

– Bom, as regras aqui são claras (no melhor estilo Arnaldo): pode tudo, menos o que não é permitido pelo regimento.

– Ufa, que alívio. Posso ler o regimento?

– Bem, na verdade ele não está escrito. São só algumas coisinhas que a gente procura respeitar pra que todo mundo se sinta bem aqui. Não pode barulho depois das 23 horas, é proibido estacionar carro de amigo ou parente na garagem e não é permitido cachorro nem criança pequena que chora.

– Como é que é?

– É que a garagem é pequena…

– Não, não… Proibido cachorro e criança? Não pode proibir criança nem cachorro!

– Pode sim, tanto é que a gente proíbe.

– Mas e os latidos que estamos ouvindo agora?

– Bem, são do cacohrro da Dona Maria. Ela já morava aqui quando resolvemos proibir e não teve quem convencesse ela de soltá-lo na rua… Uma parada essa Dona Maria. Acredita que um dia…

– Um minuto, senhor. Onde estão escritas essas regras?

– Não estão escritas. São só regras.

– Se não estão escritas não são regras.

– São sim. Tá na lei! Lei dos condomínios.

– Meu senhor, acabo de me formar em Direito. Não tem isso na lei dos condomínios. Pelo contrário: é proibido proibir criança ou cachorro. Isso sim está na lei!

– Bem o senhor é que sabe. Depois vai ouvir as reclamações dos outros moradores.

Todo mundo apela para alguma regra, lei, norma, pacto, tratado, convenção, estatuto, declaração, protocolo, regimento, raio-que-o-parta, para justificar o injustificável. É como dizer “uma vez eu li” ou “todo mundo sabe”. Minha conversa com o “responsável” do condomínio foi infrutífera, mas me mudei mesmo assim.

Também diferente dos filmes, a nova residência não está prontinha pra gente deitar a cabeça tranquila no travesseiro. Sem pre tem uma coisinha, por mínima que seja pra se resolver. Nos mudamos e percebi que o interfone do nosso apartamento não estava funcionando. Então liguei para a “responsável” na imobiliária e combinei de esperar um técnico para que “desse uma olhadinha” nele na mesma tarde. A tarde se passou e liguei para a “responsável” na manhã seguinte. O mesmo foi combinado e nada do técnico aparecer. A mesma coisa ficou acertado no terceiro dia, quando liguei indignado para a “responsável”.

– Senhora, é o terceiro dia que fico plantado aqui em casa esperando o técnico e ele não aparece para arrumar meu interfone! Isso é um absurdo! Que falta de consideração! Tenho mais o quê fazer!

– Calma, senhor, deve ter havido algum problema. Vou falar com ele e já volto a falar com o senhor.

– Senhor, conversei com o técnico e ele disse que esteve aí nos três dias e não encontrou ninguém em casa! Nós também temos mais o quê fazer além de marcar visita e não sermos atendidos.

– Impossível! Não saí nem para ir na padaria! Ele não teve aqui coisa nenhuma!

– Esteve sim! Ele disse que apitou por mais de 15 minutos em cada um dos três dias e ninguém atendeu. Conferi o endereço e ele confere com o seu. Não é erro nosso, é do senhor!

– A senhora está dizendo que ele “apitou” no interfone estragado e ninguém atendeu? Será que é porque ele está estragado? Esse “técnico” sabe o que veio fazer?

– Er… Bem… Desculpe, senhor. O senhor tem razão. Vou mandá-lo aí agora mesmo. Isso não vai mais se repetir.

Essas falhas acontecem nas melhores famílias – mentira, não acontecem nada. Mas os “responsáveis” estão em todos os setores que se precisa em uma mudança. Pra e ter uma ideia, o cara que contratei para fazer a mudança dos móveis chegou no meu antigo apartamento com uma mini-van e sem ajudante nenhum. Disse que ele só “fazia o transporte”, mas carregar ou descarregar, não era serviço dele. Resultado: dispensei. Contratei um serviço de mudança e não um motorista.

Algo semelhante aconteceu com a “responsável” pelas chaves do meu apartamento novo. A imobiliária não tinha a chave da caixa do correio, então liguei para lá para que providenciassem uma nova. A atendente disse que iria chamar um chaveiro para trocar o miolo ou fazer uma chave nova para o miolo lá existente. Aguardei ansioso pelo telefonema de retorno, pois achei que tudo seria resolvido de forma bem simples.

– Bom dia, senhor, estou ligando para avisar que nosso chaveiro já fez a troca da chave de sua caixa de correspondência.

– Ótimo, vou aí pegar a chave então.

– Não precisa, senhor tomei a liberdade de enviá-la junto com a cópia do contrato hoje cedo por Sedex10. Ainda hoje o senhor estará recebendo.

– Ah! Legal! A chave da minha caixa de correio fi enviada por Sedex10?!

– Sim senhor. Antes das 10 horas o senhor receberá a chave nova.

– Boa… Mas como tiro a chave da caixa do correio? A senhora manda por Sedex o chaveiro? Ou mande seu cérebro, já que não está usando!

– Meu Deus! Não tinha pensado nisso! Vou falar com o “responsável” pelas correspondências e já lhe dou retorno.

– Faz assim: fala com o “responsável” pelos “responsáveis” e deixa que eu chamo um chaveiro e troco essa fechadura.

Dedicado a todos os "responsáveis"

Leiam também Da difícil arte de saber informática e Da difícil vida de quem não gosta de futebol.

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  1. Carolina Bandeira
    24/03/2012 às 20:50

    Bah!!! Isso é uma novela! Já passei por isso, mas com certeza mais coisas virão, aguarde!
    Bjs e boa sorte!

    • 25/03/2012 às 15:47

      Valeu, Cacá pelo mau presságio… Vou aguardar, quem sabe não sai uma continuação.

  2. Fábio
    24/03/2012 às 21:56

    O.o Holy Shit!

    • 25/03/2012 às 15:47

      Holy Shit foi a expressão mais usada essa semana por mim.

  3. Jacques
    25/03/2012 às 11:04

    Onde foi que esse administrador daí fez estágio, Rafael, num filme do Adam Sandler?

    • 25/03/2012 às 15:26

      Deve ter sido, Jax. E por odiar o Adam Sandler, perdi a cabeça com todos esses “responsáveis” pelos respectivos setores.

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