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Para ser um Argonauta

Grécia, nos tempos da mitologia. Um homem se apresenta na fila de pretendentes a cargo da tripulação do Argos. O timoneiro da embarcação, Tífis, olha para ele e pergunta:

– Nome?

– Butes.

– Habilidade?

– Apicultor.

– Eu estou falando sério!

– Eu também! Acha que alguém mentiria sobre ser apicultor?

– Nada contra você ser apicultor, só que para fazer parte da tripulação do Argos e partir em busca do lendário Velocino de Ouro, é preciso bem mais do que saber evitar ser picado por abelhas, sabia?

– Ah, então o motivo da viagem é esse? Encontrar um Veloz Sino? Bem que me disseram que…

– É VELOCINO! Nada mais do que a pele do cabrito voador Crisómalo, dotada de poderes fantásticos!

– Sei. Acho mais fácil acreditar num Veloz Sino do que nisso aí…

– E eu acredito que é mais fácil uma quimera recitar poesia em público do que aceitarmos um domador de abelhas herege como tripulante. PRÓXIMO!

– Espere um pouco, pelo amor de Zeus, me dê uma chance. Olha só, caso tenhamos de passar pela ilha das sereias, poderemos usar a cera de minhas abelhas para taparmos os ouvidos. O que acha disso, ahn?

– Acho que sereias não existem. Isso é pura monstrologia, ora essa.

– Acho que você quis dizer mitologia. E porque não acredita em sereias, ahn?

– Porque elas nunca foram vistas antes, ora. PRÓXIMO!

– Espere aí, mas e o seu precioso Veloz… Ahn, Velocino? Por acaso já foi visto antes?

– Claro que não!

– Exatamente! O que prova que…

– Que ainda não foi encontrado e espera por nós em algum lugar longínquo! PRÓXIMO!

– Espere!  Eu posso realizar alguma outra tarefa qualquer. Sei lá, eu poderia lavar o convés ou algo assim. É que eu sempre quis conhecer novos mundos, novas civilizações. Audaciosamente indo onde nenhum Butes jamais…

– Acho que não vai dar mesmo, rapaz. Nós estamos com excesso de pessoal. Temos até um sobrinho do rei Pélias que tem a simples função de trocar a água da clepsidra.

– O relógio de água? E porque vocês precisam marcar o tempo?

– Para saber a hora de trocar a água da clepsidra. Sinto muito, mas você não poderá partir com o Argos em busca do inalcançável Velocino…

– Se é inalcançável o que você e os demais Argonautas estão fazendo aqui, então?

– Bem, nós… Nós… SENHOR ARGOS!

– Estou aqui do seu lado, Tífis. Não precisa gritar, homem. E eu ouvi a estranha conversa de vocês dois.

– Ainda bem, senhor. Vê se o senhor consegue entender o que esse sujeito quer, por favor. Ele está

começando a me dar dor de cabeça.

– Qual é o problema, rapaz? Nada a ver com um M.O.T.I.M., espero.

– M.O.T.I.M.? O que é isso?

– É a palavra formada pelas iniciais de Marujos Organizados Tramando Imprevisíveis Maldades, que, como fica muito grande, eu resolvi criar o termo M.O.T.I.M..

– Ah, entendi. E o senhor tem medo disso, não, senhor?

– Bem… Mais ou menos… É que já ouvi relatos perturbadores sobre o assunto. E a única coisa que eu temo realmente é que o Argos venha a cair pela Borda do Mundo…

– Isso se ela existir, não?

– TÁ VENDO? TÁ VENDO? Olha só o que ele faz! E na maior calma! Herege questionador de tudo… Esse sujeito traz maus agouros, senhor. Deveríamos levá-lo conosco só para o jogarmos no monstro Charibdys, só para ele aprender o…

– Isso SE este monstro existir, não? He, he.

– AAAAHHH! EU VOU…

– Calma, Tífis. Mas me diga, Butes, porque acha que a Borda do Mundo pode não existir?

– Porque o mundo não precisa necessariamente ser chato, senhor. Ele pode ser cúbico, como uma caixa, desta forma, nenhum navio despencaria dele, apenas sairia do campo de visão dos demais, mas continuaria a navegar tranquilamente, quer dizer, se os deuses assim permitirem.

– Hmm… Interessante essa sua forma de pensar, Butes.

– Obrigado senhor Argos. É que como apicultor, sempre me perguntei como as abelhas, que são aparentemente desprovidas de raciocínio, conseguem construir colméias tão complexas e fabricar mel sem ninguém para ensinar isso a elas. Daí eu comecei a questionar todo o resto.

– Entendo.

– Eu chamo isso de Questionologia, senhor. A arte de questionar o mundo e considerar todos os caminhos a serem percorridos em busca da Razão. Embora esteja começando a achar que Filosofia seja um termo mais adequado.

– Acho que vou levá-lo nesta viagem para que me ajude, literal e figurativamente, a mudar minha visão de mundo. Isso e me ajudar a impedir que os marinheiros joguem Orfeu ao mar devido à sua cantoria em horas inapropriadas e me avisar caso surja um M.O.T.I.M..

– Tudo bem , então. O problema vai ser se EU começar um, não? He, He.

– O QUÊ? Não brinque que isso é sério, sabia?

– Ás vezes, brincar com algo sério é a única coisa que podemos fazer a respeito dela, senhor.

– Verdade, Butes. Verdade.  Mas diga-me, porque você acredita em sereias, mas não acredita no Velocino, ahn?

– Medio tutissumis ibis, senhor.

– O quê?

– É latim, senhor, e significa “irás com mais segurança pelo meio ”. Quer dizer que tem horas em que devemos ouvir a razão e, em outras, o coração.

– Ah, isso. Concordo, mas não deixe os homens ouvirem você falando gíria perto deles, ou irão quere jogá-lo na Borda do Mundo.

– Isso SE ela existir, senhor.

– Sim, Butes, SE ela existir…

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  1. 24/04/2012 às 19:50

    Muito bom, Jax, O Claro! Lembra muito o serviço público brasileiro, com suas explicações redundantes e infundadas, além das tarefas absurdas e inúteis como a da clepsidra. Como dizia Carl Segan, o fato de não conseguir refutar tua teoria, não significa que ela é verdadeira, certo?

    • Jacques
      24/04/2012 às 20:07

      Pois é, Rafael, é a chamada “lógica ilógica”: se alguém não puder provar que algo não existe, então esse algo existe.
      Nada que um pouco de lógica de verdade para desembaraçar as coisas.
      E lugares que servem de cabide de emprego tem por tudo, se bobear, até na mitologia.

  2. Fábio Ochôa
    25/04/2012 às 11:17

    Muito bom. Aquele livro tem que sair!

  1. 17/07/2012 às 08:20

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