Início > Ciências > O Jeitinho Brasileiro – Parte 1 – Origens Culturais

O Jeitinho Brasileiro – Parte 1 – Origens Culturais

Abaporu – Tarsila do Amaral (1928)

O aviltante – embora às vezes visto com orgulho – jeitinho brasileiro é uma prática há muito – e muitissimamente – é aplicada em diversas situações do nosso dia a dia. Às vezes passa desapercebido em nossa costumeira vida. Às vezes costumeiramente usado nas mais diversas circunstâncias do cotidiano brasileiro. O jeitinho brasileiro, ora vilão, ora ilustre, é prática que remete à formação de nossa sociedade, à cultura miscigenada, à necessidade de improvisar um estilo de vida no hostil Novo Mundo.

O jeitinho brasileiro é usado para abrir portas e solucionar problemas com os meios que estiverem em nosso alcance, mas também é o meio pelo qual a corrupção e a obtenção de vantagens indecorosas abrem caminho nos costumes de nossa sociedade.

A formação da cultura brasileira se deu pela imposição do sistema de produção e dos hábitos dos colonos portugueses aos índios nativos e, depois aos negros escravos. Os portugueses, para aqui se estabelecerem, precisaram da ajuda dos índios para arranjar comida, entrar no mato à procura do ouro e defender-se de tribos hostis. Por sua vez, os índios, admirados ao estilo de vida e à tecnologia e conforto dos portugueses, aceitavam a troca de presentes como forma de selar acordos de paz e apoio.

Não só a hospitalidade portuguesa, o consentimento indígena visava aliança e troca de conhecimento. Segundo Darcy Ribeiro, uma prática indígena que facilitou esse entrosamento foi o cunhadismo, que consistia em incorporar estranhos à sua comunidade, cedendo uma moça índia a um branco colonizador, criando laços com esse novo componente.

Rencontre d’Indiens avec des Voyageurs Europeens – Rugendas (1825)

Apesar dos laços, inúmeras e infrutíferas foram as tentativas de escravidão do índio. Somado à isso, a atuação dos Jesuítas no Brasil, assim como a dos Dominicanos no Haiti, e o bem sucedido emprego da mão-de-obra negra nas ilhas do Atlântico, concorreram para apressar a vinda dos negros para o Novo Mundo.

Sem dúvida nossa identidade cultural está fortemente ligada à escravidão. Ainda segundo Darcy Ribeiro:

Nenhum povo que passa por isso como sua rotina de vida, através de séculos, sairia dela sem ficar marcado indelevelmente. Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual a mão possessa que os suplicou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal que também somos. Descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto da nossa fúria.

Não há, pois, como não sair marcado indelevelmente de um costume secular de aproveitamento, de obtenção de vantagens sobre outros indivíduos. A herança cultural adquirida ao longo da formação de nossa sociedade propiciou um pensamento prático de sobreposição de obstáculos, mesmo que para isso precisemos sobrepor outro indivíduo da sociedade. Seja marcando lugar em uma fila de supermercado, seja dando uma paradinha rápida em local proibido, nossa bagagem cultural nos tendencia a arranjar um jeitinho, uma vantagem a nosso favor. Mas com tudo isso, estaríamos nós brasileiros longe de um pensamento coletivo?

Continua na segunda parte.

FONTES:

  • DAMATTA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis. 6 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
  • RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. 3 ed. São Paulo: Schwarcz, 2010.
Anúncios
  1. 07/05/2012 às 23:47

    Muito bom texto. Eu creio que todos nós já tentamos ou mesmo utilizamos o “jeitinho” diante de burocracias absurdas que encontramos por aí sobretudo no setor público – e é interessante reparar como tais burocracias alimentam este ciclo do jeitinho, corrupção, “malandragem” e onde aparece a figura do despachante.

    O professor Roberto DaMatta tem um livrinho bem interessante ( “O que faz o brasil, Brasil”) e ele dedica um dos capítulos justamente para trazer à luz a discussão sobre este modelo de “navegação social”:

    “O ‘jeito’ é um modo e um estilo de realizar. Mas que modo é esse? (…) É, sobretudo, um modo simpático, desesperado ou humano de relacionar o impessoal com o pessoal; nos casos – ou no caso – de permitir juntar um problema pessoal ( falta de dinheiro, atraso, confusão legal, etc) com um problema impessoal. (…) nos países igualitários, não há muita discussão: ou se pode fazer ou não se pode. No Brasil, porém, entre o ‘pode’ e o ‘não pode’, encontramos um ‘jeito’. [diante de um impasse] ”

    E isso está tão arraigado em nossa cultura que até a carta do “descobrimento” traz em seu final um puxa-saquismo explícito e um pedido de um “jeitinho” em favor do genro.

    A coisa vem de longe, ô, pá! 😀

    Abs!

    Jaime Guimarães
    http://grooeland.blogspot.com

  2. 08/05/2012 às 08:40

    Exatamente, Jaime. O jeitinho também leva à burocracia e à facilitação desta para quem dele se utiliza.
    O livro “O que faz Brasil, Brasil” é ótimo e faz parte da segunda parte que estou escrevendo.
    O tema é rico e tem muitas nuances passíveis de um exame à parte.
    Valeu as dicas e o comentário, volte e confira as próximas partes do tema.
    Abraço!

  3. 08/05/2012 às 23:08

    Oi Rafael e Jac,

    O texto é muito bom! Penso que o jeitinho é cultural, mas já percebi em outras culturas essa condição as vezes camuflada. Todavia, brasileiro que é brasileiro tem patente no “‘jeitinho”‘

    Lu

    lucianasantarita.blogspot.com.br

    • 09/05/2012 às 08:21

      Obrigado, Luciana. Dar um jeitinho para sobrepor obstáculos não é exclusividade brasileira, mas em nossa cultura está enraizada até a alma.

  4. 23/03/2014 às 18:59

    Olá amigo. Legal seu texto. Acho que seria bom você deixar seu nome completo para ser inclusive citado em artigos científicos. Abraço.

  1. 17/05/2012 às 08:59
  2. 12/06/2012 às 09:48

O que você achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: