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Pequeno Guiazinho de Quadrinhos Fantástico Cenário – Parte 14

66. 1985

 

 

Os anos 80 foram bons para a Marvel, com uma explosão de criatividade e novos autores que fizeram a empresa reviver seus dias de glória, os já longínquos anos 60, quando a Casa das Idéias era comandada por Stan Lee, auxiliados por talentos do porte de um Jack Kirby, um John Buscema, um Gene Colan, Jim Steranko, John Romita e Steve Ditko, um time de dar inveja e uma das maiores concentrações de talento por metro quadrado já vista na face da Terra.

Olhando em retrospecto, parece incrível que uma quantidade tão grande de títulos marcantes estivesse concentrada em uma única editora no mesmo período de tempo e o mesmo aconteceu nos anos 80.

Duvida? Então sente o drama: foi a época em que John Byrne esteva à frente do Quarteto Fantástico e Tropa Alfa, do Homem-Aranha, Capitão América e Vingadores de Roger Stern, do Hulk de Peter David, do Thor de Walt Simonson, do Homem de Ferro de David Michelinie, dos X-men de Chris Claremont, do Demolidor de Frank Miller, entre alguns outros títulos que me escapam a memória agora.

Foi também a época do cinema-pipoca juvenil de Steven Spielberg e seus apadrinhados: Robert Zemecks, Joe Dante e dos filmes recheados de protagonistas juvenis envolvidos em incríveis aventuras, como Os Goonies, Os Heróis Não Têm Idade, Uma Noite de Aventuras, Deu a Louca nos Monstros e Viagem ao Mundo dos Sonhos.

O que nos leva a 1985, à mini-série, não ao ano.

 

Esta mini, publicada pela Marvel em 2008, consegue em sua despretensão ser uma das aventuras mais legais de uma década particularmente escassa de aventuras, uma homenagem sincera a uma época de quadrinhos marcantes, mas raramente relembrados como tal e ao mesmo tempo, consegue ser o melhor filme de aventuras juvenis que Spielberg, Zemecks e Dante perderam a oportunidade de fazer.

 

A série se passa em 1985 do nosso suposto mundo real, narrada pela ótica de Toby, um menino de 10 anos passando por uma fase difícil na vida, se adaptando o divórcio dos pais e cuja única fuga são os quadrinhos Marvel oferecidos pela comic shop local, em dias que passam lentos e modorrentos.

As coisas começam a mudar quando uma série de incidentes estranhos começam a acontecer em sua pequena cidade: um cadáver encontrado aqui, um desaparecimento ali, um homem voador visto eventualmente… E ele acha que viu de relance o Caveira Vermelha e o Topeira, antigos inimigos do Capitão América e do Quarteto Fantástico das páginas de suas revistas, em uma velha mansão recém-vendida.

Mas quem acreditaria em um garoto com a mente tão cheia de fantasias?

E se está acontecendo uma invasão de vilões de fantasia no mundo real, alguém tem que dar um jeito de trazer os heróis para cá também, antes que o pior aconteça, não é mesmo?

 

1985 não é uma série para todos os gostos, mas é uma série para quem viveu aqueles filmes e quadrinhos quando criança, escrita com detalhes sutis e sensíveis por Mark Millar, inclusive com as incoerências eventuais, tão caras a estes antigos filmes juvenis, é uma aventura à moda antiga, dos bons contra os maus em nosso complicado mundo real.

E não seria difícil imaginar Henry Thomas no papel principal.

 

Altamente recomendado para quem quer relembrar uma das melhores épocas dos quadrinhos, ou tornar a experimentar a fantasia de um tipo de cinema, que infelizmente não existe mais.

 

 

67. Snoopy

 

 

Ou Minduin, ou ainda, Peanuts.

Vamos aos fatos: o cão beagle branco seja uma figura universal e um dos maiores ícones pop do século XX, ainda assim, relativamente falando, é incrível como pouca gente conhece o amargor, derrotismo e lirismo das tiras de Charles Schultz.

 

Embora enquadrado como humor, não são tiras para rir.

Snoopy transcende as piadas de três quadros, situando-se em um limbo estranho: é uma tira dramática? Uma crônica melancólica sobre a infância? Um salpicado de momentos poéticos?

Ela toca cordas estranhas em nossa alma, é difícil dizer exatamente o que sentimos a lendo. O que sabemos é que a leitura atenta nos atinge em um determinado nível, de uma maneira que provavelmente nem mesmo o autor planejou.

 

Com suas crianças que não se comportam como crianças, Snoopy tem alguns dos melhores momentos dos quadrinhos, mesmo sem tiras novas há mais de 12 anos, ainda seguimos lendo e relendo, esperando que finalmente Charlie Brown consiga chutar a bola, que quem sabe o time ganhe algum jogo nesta temporada e que em um daqueles arroubos de poesia que só os quadrinhos são capazes, que o intrépido Barão Vermelho continue voando, desbravando os céus em cima de sua casa.

 

 

68. Lobo Solitário

 

 

A história parte de uma estrutura simples: no Japão feudal, um assassino injustiçado vaga com seu pequeno filho em busca de vingança.

Mas, repare que neste caso, simples não significa necessariamente simplório.

Lobo Solitário é o quadrinho que introduziu os mangás no ocidente. E se você não gosta deles, já sabem a quem culpar.

 

O traço a nanquim e pincel, simplesmente maravilhoso, fez a cabeça de muita gente, Frank Miller e seu Ronin que o digam, a narrativa sem pressa, o detalhismo preciso e a tremenda carga emocional que a história oculta em sua superfície… Um trabalho de mestre, parece lugar-comum dizer isto, mas me vem poucos exemplos tão verdadeiros quanto este.

 

Há cerca de 20 anos li algumas edições avulsas publicadas pela Cedibra. Logicamente nem imaginava o que era manga, para mim, era uma história em quadrinhos, ponto final.

Porém, o ritmo estranho, os subentedidos de cada quadro, os silêncios de cada estrada… Vamos dizer que não foi uma estréia lá muito auspiciosa para minha mente de 9 anos.

Custei a pegar o gosto pela coisa.

Até que um dia caiu os três primeiros volumes publicados pela Panini na minha mão. Ficaram parados na estante por quase seis meses, até um dia chuvoso me motivar a ler.

Aí não parei mais.

Tem coisas que não são para todas as idades. Mesmo.

 

69. Bouncer

 

 

As viagens propostas por Alejandro Jodorowski podem ser bem difíceis de digerir, mas uma vez que você tope o desafio, valem bastante a pena.

Cineasta bissexto, parceiro de Moebius, curandeiro, mágico, entre outras coisas, tudo que o chileno propõe é no mínimo curioso, que o diga quem viu seus filmes, como A Montanha Mágica, Santa Sangre e El Topo.

 

Poucos, como Lorenzo Matotti e Jan Svenmacker são tão bons em nos tirar da zona de conforto, as histórias de Jodorowski são fortes, nada é tabu para ele e frequentemente as viagens causam repulsa a uma primeira lida, pelo seu esquisitismo implícito, por seu radicalismo, mas uma segunda, terceira leitura, revela novas camadas sutis de emoções.

Custei a apreciá-lo, comecei com A Casta dos Metabarões, que ainda não deu as caras por aqui nesta lista, mas acho que foi a primeira coisa dele que eu verdadeiramente gostei de imediato.

 

Bem, Bouncer é um faroeste, ou melhor, assim como El Topo, a visão alegórica de um oeste selvagem desesperado, uma história forte e suja de um pistoleiro sem um braço e a caça por um rubi.

Diferente, forte, sangrento, é um quadrinho que me surpreende bastante a pouquíssima repercussão que teve. Convenhamos que a idéia de um pistoleiro do velho oeste que não tem um braço é no mínimo originalíssima.

Mas claro que a história é bem mais que isso.

 

Como um Tom Waits, um Jan Svenmacker dos quadrinhos, trabalhando com emoções e reações estranhas, a obra de Jodorowski é algo a ser descoberto e apreciado.

É arte com bolas.

E A maiúsculo.

 

70. Zenith

 

 

Zenith é uma das primeiras obras do escocês maluco Grant Morrisson e uma das minhas preferidas dele.

E também confirma uma coisa que todo mundo sabia: os bretões são craques em desconstruir heróis, eles meio que fizeram disto uma profissão, desde que o também inglês e também maluco Alan Moore estabeleceu o gênero em Miracleman e Watchmen.

Bem, depois destes dois pináculos dos quadrinhos, provavelmente a melhor história em desconstruir heróis é o Zenith de Morrisson, mesmo.

 

Se as duas obras citadas acima do barbudo inglês são odes pessimistas, de um nilismo atroz sobre a presença super-humana na Terra e a influência que elas teriam em nossa sociedade, cultura e política, com toques de poesia no primeiro caso e caminhões de desesperança no segundo, Morrisson nos brinda com outro ponto de vista, a diversão irresponsável de ter poderes e estar muito acima dos mortais.

 

Zenith, feito à imagem e semelhança do roteirista, é um astro do rock inglês, filho de super-heróis do extinto grupo Nuvem 9, e só quer saber de gravar discos, trepar, beber e se divertir, não necessariamente nesta ordem.

 

As coisas complicam quando uma ameaça nazista pandimensional (coisas de Morrisson, sabem como é…) resolvem atacar a Terra e ele é uma das poucas linhas de defesa entre aberrações Chutuluhnianas e a aniquilação total.

 

Excepcionalmente bem escrito, sem os exageros e devaneios lisérgicos típicos do autor, Zenith é uma grande história, épica, divertida, com bons momentos humanos, muita tensão e aventura.

 

Para quem quer entrar no mundo do autor escocês mais maluco da atualidade ou simplesmente se aventurar por opções diferentes dentro do gênero super-heróis ou ainda, simplesmente ler uma boa história, é mais do que recomendado.

 

Links para outras partes do Guia:

Parte 01:

http://fantasticocenario.com.br/2011/07/21/pequeno-guiazinho-de-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-01/

Parte 02:

http://fantasticocenario.com.br/2011/07/26/pequeno-guiazinho-de-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-02/

Parte 03:

http://fantasticocenario.com.br/2011/08/02/pequeno-guiazinho-de-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-03/

Parte 04:

http://fantasticocenario.com.br/2011/08/03/pequeno-guiazinho-de-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-04/

Parte 05:

http://fantasticocenario.com.br/2011/08/15/pequeno-guiazinho-de-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-05-especial-super-herois/

Parte 06:

http://fantasticocenario.com.br/2011/08/31/pequeno-guiazinho-de-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-06/

Parte 07:

http://fantasticocenario.com.br/2011/09/12/pequeno-guiazinho-de-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-07/

 

Parte 8

http://fantasticocenario.com.br/2011/10/27/pequeno-guiazinho-de-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-08/

Parte 9

http://fantasticocenario.com.br/2011/12/27/pequeno-guiazinho-dos-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-9/

Parte 10

http://fantasticocenario.com.br/2012/01/02/pequeno-guiazinho-dos-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-10/

Parte 11

 

http://fantasticocenario.com.br/2012/01/04/pequeno-guiazinho-dos-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-11/

Parte 12

http://fantasticocenario.com.br/2012/01/27/pequeno-guiazinho-de-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-12/

 

Parte 13

http://fantasticocenario.com.br/2012/02/17/pequeno-guiazinho-dos-quadrinhos-fantastico-cenario-parte-13/

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Categorias:Entretenimento
  1. Jacques
    09/05/2012 às 23:08

    Ainda bem que esta série voltou, Ochôa.
    Li 1985 e achei excelente as diferenças do nosso universo com o Universo Marvel (ficou meio O Último Grande Herói, do Governator Schwarza).
    Snoopy eu li muito pouco, lembro dos desenhos que passavam na Globo tempos atrás.
    É um humor reflexivo, meio Calvin e Haroldo, muito bom.
    Do Jodorowski eu só li a Casta dos Metabarões e Os Olhos do Gato e achei do caramba (e o certo é Jan Svanjmaker, que eu lembro de ter visto o Grant Morrison citar no especial da patrulha do Destino da editora Heavy Metal).
    Lobo Solitário eu li o 1 e o 2 e não vi a menor graça, quando a gente não gosta, não tem jeito.
    Como tu é desenhista, teus parâmetros são outros, totalmente alienígenas para mim.
    Zenith eu li um especial da Heavy Metal, eu acho; achei muito bom, preto e branco e um excelente roteiro.
    Era o Grant Morrison mostrando que tinha café no bule.
    Muito bom o post, Ochôa, espero que essa série continue nesse nível.

    • Fábio Ochôa
      10/05/2012 às 18:12

      Isso mesmo, do Svanjmaker tem uma série de filmes dele no Youtube, vale a pena ver.
      Porra, Jacques, Lobo Solitário é legal pra cacete, deixa de ser preconceituoso, porras!

      • 11/05/2012 às 14:56

        Vi alguns vídeos do Svanjmaker, Ochôa, muito bons mesmo.
        E não é preconceito, não, é gosto mesmo.
        Mesma coisa Scot Pilgrim, que tu acha genial e eu acho podre demais.

        • Fábio Ochôa
          11/05/2012 às 18:22

          Eu espero muito que tu esteja se referindo à revista e não ao filme Scott Pilgrim…

  2. Bento Santiago
    10/05/2012 às 17:33

    Quando vais fazer um post sobre a obra do grande desenhista Rob Liefeld?

    • Fábio Ochôa
      11/05/2012 às 16:30

      Quando um amigo nosso escrever sobre Cosplay. Juro que ia render.

  3. 11/05/2012 às 13:56

    Cara… Snoopy. Adorava Snoopy. Eu tinha uma camiseta do Snoopy quando pequeno e minha mão acendia uma caneca com álcool no banheiro pra aquecer, antes da gente tomar banho. Um dia, tirei a camiseta e deixei cair no álcool. Queimou a metade dela. Chorei muito hehehe.

    • Fábio Ochôa
      11/05/2012 às 18:03

      Pô, eu também tomava banho no inverno com caneca cheia de fogo.
      Infância, ô época precária.

  4. Marco Antônio
    11/05/2012 às 18:23

    Esse Bento Santiago só fala merda.

  5. 11/05/2012 às 18:28

    O filme, é óbvio, Ochôa, que eu não vi nem quero ver.
    Ah, sim a hq eu também não li nem quero ler.
    Ah, sim as canecas flamejantes… eu devo ter bloqueado junto com os episódios da série do Batman que… eu achei que tinha bloqueado.

    • Fábio Ochôa
      13/05/2012 às 17:56

      Jacques, Jacques, está perdendo um dos filmes mais inovadores e divertidos de todos os tempos… Cortesia de quem fez Todo Mundo Quase Morto e Chumbo Grosso…

      • 13/05/2012 às 19:28

        Inovador, Ochôa?
        Um retardado brigando com outros retardados para poder namorar uma retardada no estilo Street Fighter?
        OOOOOOOOOOOHHHHHHHHHHH ISSO NUNCA FOI FEITO ANTES!
        PORRA, Ochõa.
        Roteiro retardado lotado de referências nerds pra nerdaiada olhar e dizer “Eu sei que essa musiquinha é daquele jogo! Oh, como sou inteligente…”.
        O filme tem SUTILEZA ZERO (já que tem de explicar TUDO que o personagem faz) e isso é coisa pra RETARDADO.
        De nada adiantam efeitos especiais se NÃO TEM ROTEIRO?
        PORRA!

        • 14/05/2012 às 08:31

          Jax Super Sayajin vai chutar teu traseiro, Ochôa. Quero ver agora…

        • Fábio Ochôa
          14/05/2012 às 18:43

          Jacques: “…O filme, é óbvio, Ochôa, que eu não vi nem quero ver. Ah, sim a hq eu também não li nem quero ler.”
          Fim da discussão.

  6. 14/05/2012 às 12:22

    Pois é Rafael, eu vivo dizendo que os personagens de mangá não possuem sutileza e acaba agindo como um deles.
    Não sei se dá pra classificar isso como ironia ou hipocrisia de minha parte.
    E não iniciar aqui mais uma discussão inútil, já que minha opinião e a do Ochôa não irão mudar.
    Eu respeito a dele e acredito que el respeite a minha também.
    Mesmo porque, nenhum de nós dois tem alguma escolha.

    • 14/05/2012 às 13:39

      Hehehe calma Jax. Era brinquedo só. Eu também não gostei do filme. Mas sei que o Ochôa gostou. Um dia chuto o traseiro dele quando ele não estiver olhando. Voltando ao assunto, sutileza pra quê? Assim é bem mais legal hehehe.
      PS.: Ele não respeita a tua opinião… Se eu fosse tu… Pegava ele agora mesmo, viu?

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