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Mortal Kombat – Rito de Formação

Lobo da Noite

Sim, havia algo mais.

Eu sou o último de minha linhagem, o último de minha alcatéia, o último de minha tribo. Sou filho do maior Xamã que nossa tribo já teve, mas antes disso, sou filho de gaia, alma proveniente do Grande Espírito e amante dos conhecimentos ancestrais.

Antes de meu ritual de passagem e de conhecer o meu animal totem, eu fui ensinado sobre os segredos da feitiçaria xamânica, enquanto os homens da minha idade eram ensinados aos segredos da guerra. Eu era fascinado por o que eu via, não sabia dizer o nome ao certo, chamava de magia, de força ancestral, de bom espírito. Enquanto eu decorava nomes de plantas de poder e viajava por planos de existência onde o tempo e o espaço não existiam, os outros homens desvendavam estrategicamente a terra, invocavam a chama do grande espírito que há em cada alma e transformavam-se em híbridos de homem, animal e deus. Não era algo em seus olhos, era algo nos seus olhares. Uma simples mudança de olhar, na verdade, refletia um espírito de guerreiro.

Eu os segui diversas vezes, à procura de desvendar os segredos por trás da força ancestral que eles evocavam com conhecimentos tão superficiais de magia. E era lindo. Eu convivia com eles todos os dias, eram homens simples, honrados, com um respeito muito forte pela vida e pela comunidade, mas eram homens simples. Antes de sairem para caçar eles pintavam os seus corpos. Para eles era apenas um ritual, estampar em seus corpos a imagem do próprio Grande Espírito, mas eu sabia o significado daqueles desenhos. Eram linhas retas e curvas, pintadas de vermelho as quais percorriam por todos os seus corpos.  Elas guiavam o espírito ancestral adormecido para fora do corpo, fazendo com que os guerreiros fossem capazes de utilizar tal poder.

Após estarem todos pintados, começaram os tambores. Era uma canção inspiradora, ouvindo-a eu cerrei meu punho direito e apalpei com a mão esquerda o tronco de uma árvore. Eu me sentia forte, completo, como se eu estivesse adormecido durante muito tempo e agora estivesse pronto para me tornar um com a natureza, tanto externa quanto interna. Todos fecharam os olhos e sentiram o mesmo. Sempre que eu os seguia eu precisava ficar escondido, controlando o impulso brutal que me forçava a gritar. Eu não podia, eu era o xamã, não o guerreiro. Eles abriram os olhos, já não eram os mesmos olhos de outrora, eram olhos de puro espírito, de pura brutalidade.

Na última vez que os segui, o fiz no plano de existência etéreo mais próximo do material, de modo com que eu poderia ver o que se passava. Ouvi os tambores e vi que eles faziam com que outros pequenos tambores, localizados dentro do corpo de cada guerreiro, ressonassem. Isso estimulava a energia de cada um e ela circulava livremente pelo corpo. Quando seus olhos se abriram eu pude ver, atrás de cada guerreiro, milhares de almas de homens e de animais, de devas e de deuses, lutando junto com cada índio. Eles se levantavam e iam caçar. E faziam isso muito bem.

Todo animal, ao ver os olhos de um daqueles homens, ficava sem reação. Alguns, após o choque inicial, corriam para longe, apenas para serem alcançados alguns metros depois. Não havia animal que pudesse escapar. Era como se o corpo do guerreiro fosse feito com a alma de todos os seus ancestrais e com uma centelha de poder que transformava o seu corpo em uma aura de energia luminosa. Era a brutalidade humana, uma energia forte e devastadora muito diferente do que chamamos de raiva. Não era algo agressivo, era a vida na sua maior manifestação, era o ápice do homem, era a expressão da própria vida.

Fui acordado de minha viagem por meu pai, xamã da tribo. Eu estava no meio de meu ritual de formação, onde eu finalmente seria capaz de entender os mistérios que sondavam o limiar entre o mundo humano e o mundo espiritual. Não posso contar-te os processos xamânicos pelos quais passei, mas passei duas luas sem comer nem beber nada além de chá de algumas ervas específicas. Eu estava em uma região da mata onde nós da tribo não tínhamos permissão de entrar. Eu só poderia voltar após encontrar meu animal totem, meu espírito guardião.

Dormi em cima de uma árvore, mas comecei a me sentir fraco, tonto. Caí em um galho mais baixo e emiti certo som. Escutei passos quase inaudíveis se aproximando, vi olhos firmes me encarando, senti cheiro de morte.

Um lobo estava ali em baixo. Ele me perguntou o que eu iria fazer, o que eu iria escolher. Eu sabia que logo iria cair, que eu me tornaria terra em poucos segundos, mas me lembrei dos guerreiros da tribo.

Comecei a batucar em meu peito as canções de guerra que inspiravam os índios guerreiros. Meu corpo todo vibrava como um tambor gigante, o lobo sorriu, teria diversão.

Fechei os olhos, tentei buscar o grande espírito que havia dentro de mim. Há uma centelha do Grande Espírito em cada ser vivo, ela é o que nos dá vida, é ela que mantém nossa alma e nosso corpo unidos e é ela que nos transforma em deuses. Eu precisava me tornar um deus, me tornar um guerreiro-xamã com todo o poder que me cercava. Apalpei os troncos grossos da árvore  e busquei sua energia. Comecei a escutar alguns sons, eram os tambores que havia dentro das árvores. Eles tocavam uma forte melodia de guerra, diferente de todas as outras que eu já tinha escutado. Era um rítmo ancestral, que até nossa tribo perdeu com o passar dos anos, é o coração de Gaia que bate incessantemente, é o batimento do próprio Grande Espírito. A escuridão que eu enxergava com os olhos fechados, de repente, transformou-se em um verde completo, uma cor além da cor, que me transmitia uma força além da força. Ali já não importava vitória, derrota, vida ou morte. Eu era o reflexo da própria força primeira que criou o mundo. Abri os olhos, o verde desapareceu, mas todas as cores tinham mudado. O vermelho das árvores brilhava de uma forma diferente, até o nada que existia entre as coisas, que permitia a passagem dos espíritos do vento, até o nada brilhava de uma maneira diferente. Comecei a sentir um entusiasmo incontrolável, ininteligível. Saltei, encarando o lobo, saltei com convicção. No ar eu perdi a noção de tempo, tudo tornou-se absoluto, o tempo seguiu na mesma velocidade, mas a sensação perdeu-se, eu não poderia dizer se minha queda demorou segundos ou semanas. Chegando próximo ao lobo eu perdi a noção de espaço, tudo o que brilhava era energia, as árvores, a terra, o vento, o vazio, eu e o lobo. Todos nós éramos a mesma coisa e não havia limites, não havia diferença, não havia um ou outro. O lobo pulou em minha direção e transformou-se em uma esfera de energia poderosa, a mesma energia que havia em mim, e em tudo.

Meus olhos se encheram de verde, senti brilhar em mim as marcas que pintávamos nos guerreiros, a energia circulava, uma energia forte e, agora, controlável. Era uma energia infinitamente poderosa, era a energia primeira, a energia que formou o universo, que transformou o nada em morte e a morte em vida. Eu tinha me transformado no meu próprio animal totem, eu já não era um, era dois. Eu já não era eu, eu era nós.

Nós sentimos uma necessidade absurda de voltar à tribo. Corremos, muito mais rápido do que um homem, muito mais rápido do que um lobo. Nós corremos como um trovão.

Ao chegarmos à tribo vimos fogo, sangue e morte. Todos os índios da tribo haviam sido assassinados cruelmente enquanto nós estávamos fora, mas seus espíritos não estavam mais ali, exceto o meu pai.

Ele nos falou da batalha, que todos os guerreiros foram assassinados facilmente por um exército de homens muito fortes que também haviam encontrado sua animalidade. Vida e morte realmente não eram importantes, mas havia um feiticeiro que transformava a alma dos homens em alimento. Ele tinha feito isso com toda a tribo, mas meu pai fugiu para planos onde a magia do feiticeiro era incapaz de alcançar. O feiticeiro não respeitava as leis de Gaia e estava aprisionando almas dentro de seu próprio corpo, devido a incapacidade de chegar à sua própria brutalidade.

Decidimos viajar, atravessar desertos e encontrar espíritos capazes de nos ajudar nessa busca por esse feiticeiro, precisamos encontrá-lo e libertar todas as almas. Precisamos vencer Shang Tsung.

-Lobo da noite-

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Categorias:Artes, Pessoal Tags:, ,
  1. 12/06/2012 às 09:33

    Primeiramente, bem-vindo, Thiago!
    Excelente conto! Muito bem escrito. Parabéns!

  2. 12/06/2012 às 12:01

    Reblogged this on paintboxtalks.

  3. Jason
    15/06/2012 às 08:23

    Esa e´ a historia oficial?

    • 16/06/2012 às 01:13

      Não, não. É uma fanfic baseada no original do MK; minha visão de Mortal Kombat e como eu amarraria algumas pontas soltas. Essa aí foi a primeira que eu escrevi, na próxima segunda eu posto outra.

  4. Felipe Bandeira
    15/06/2012 às 13:17

    Bá! Se deu, muito bom!

  1. 17/07/2012 às 08:24

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