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Mortal Kombat – Sobre o Magista

Um ser. O que é um ser vivo? O que de único nós temos que nos torna diferentes do não-animado? A própria palavra diz: Anima, a palavra latina para alma.

A alma é o que dá movimento ao inerte, é o que dá vida à morte. Os hebreus não faziam distinção entre a alma, o ser vivente, o sangue e a respiração. Tudo era uma coisa só chamada de Psykhé. Já os egípcios acreditavam que a alma era dividida em diversas partes. Era sobre isso que ele estudou durante sua vida inteira. Ele era um magista de alto nível, tinha acesso a conhecimentos herméticos sobre diversos ramos da magia cerimonial e tinha uma sede incontrolável de conhecimento.

No norte da áfrica, ele encontrou um grupo de estudos de alta magia e, após anos de participação em reuniões, foi finalmente aceito. Eles o levaram a uma pequena casa localizada no começo de uma montanha. A casa era extremamente simples e ele admirou-se de ela resistir inteira àqueles dias de tempestade. Levaram-no até um cômodo escuro, ele escutou o som de madeira movimentando-se, e, após isso, desceu algumas escadas. Ligaram a luz, ele estava em um templo egípcio.

Ele era um homem bom, estudou diversos livros desde tratados da filosofia da época até grimórios de Ars Goetia. Lá havia livros raros, inimagináveis, fora do conhecimento de quase qualquer magista. Alguns desses livros foram escritos pelo próprio Salomão e escaparam do conhecimento da igreja.

Eu me lembro exatamente do dia em que ele decidiu evocar um demônio, um deus de alguma civilização antiga que havia recebido esse título após a dominação cristã. O objetivo dele era achar um pantáculo de Salomão que era mencionado em um dos livros, mas que nunca havia sido encontrado. Ele utilizou o selo de Botis e chamou o respectivo espírito, o qual manifestou-se em um triângulo desenhado no chão em frente a ele, em sua forma característica, a de uma enorme víbora.

Ele utilizou sua baqueta e, no modo característico dos magistas antigos que ainda viam os espíritos como algo a se domar, lançou ordens com uma voz de comando, fazendo com que a víbora se inquietasse. Ordenou que a serpente tomasse uma forma humana, e assim ocorreu, mas sua forma era uma mistura de animal e homem, com uma enorme cauda, chifres e dentes afiados. Ele admirou-se com a forma que, talvez a outra pessoa, gerasse repulsa. Aquele era realmente um espírito de um deus, imponente e sábio, parecendo capaz de fazer tudo, de conseguir qualquer coisa que desejar. O demônio, percebendo a admiração dele, disse que poderia conceder-lhe, além do pantáculo, a capacidade de tornar-se muito mais forte, resgatando fluidos vitais que confundem-se entre o homem e o animal e manifestam-se no macrocosmo como a capacidade de o homem transitar entre sua forma animal e humana. O poder da animalidade.

“Nunca aceites de um demônio nada além do que o teu objetivo primeiro”. Frase ouvida milhares de vezes, mas mesmo assim torna-se frágil quando confrontada com a paixão, e era exatamente isso que o magista estava sentindo naquele momento, paixão por aquela forma de vida que mais parecia arte.

Se ele tivesse nascido nos tempos atuais, certamente teria sido um cientista, e um dos bons, mas naquele tempo a ciência ainda era a alta magia. Que pecado terem feito a distinção entre esses dois ramos do saber! A magia, agora, nesse lugar, tem um carácter de contos de fada, enquanto, na verdade, é o verdadeiro conhecimento sobre as leis naturais!

A paixão por aquela manifestação de si próprio era tanta que o fez abaixar a baqueta por alguns segundos, olhou para o demônio, lembrou-se de todo o seu treinamento como magista, lembrou-se que o conhecimento é algo proveniente de muito estudo e não de uma barganha, levantou novamente a baqueta, pronto para dar a ordem final de executar apenas o seu pedido inicial, mas foi interrompido por um estrondoso terremoto que sacudiu todo o templo e o jogou para fora do círculo mágico desenhado no chão que o protegia.

O espírito transformou-se novamente em uma víbora e arrastou-se até em cima do magista, que se encontrava deitado no chão. O demônio fez novamente a proposta, desta vez seduzindo o magista que, já sem o bastão, sob o enorme corpo de um demônio, cedeu à proposta e desmaiou.

Ao acordar, encontrou uma série de paredes destruídas que levavam a uma sala proibida ao grau dele na ordem. Ele seguiu como se uma fome incontrolável o tomasse por inteiro. Todo o seu corpo começou a atravessar aqueles corredores, lentamente, silenciosamente, atento a qualquer ruído externo. Ele esgueirava-se por entre ruínas e ninguém o percebia, como se ele fosse capaz de se camuflar naquele cenário. Ao chegar na última sala, encontrou um pequeno baú, lacrado com diversos cadeados.

Mais rápido do que o próprio pensamento, seu braço lançou-se em um bote brutal em direção ao baú, destruindo-o por inteiro. Ele procurava um pantáculo raro de Salomão, um amuleto poderosíssimo, carregado de uma infinita quantidade de energia e capaz de executar certas coisas, devido, além de outros fatores, a símbolos mágicos que são a representação do próprio universo.

Seus olhos rapidamente encontraram o objeto de desejo, mas ao retirá-lo do baú, encontrou um outro amuleto, com símbolos nunca antes vistos pelo magista e que, certamente, não representavam o universo, ao menos não aquele do qual tinha conhecimento. Junto com ele havia um pequeno papel de instruções, escrito em hebraico, que falava sobre a existência de outros universos. Aquele amuleto servia de passagem entre esse e um mundo fora do mundo, em hebraico מחוץ לעולם, mas prefiro utilizar o termo em inglês “Out World”.

Após ter guardado consigo o amuleto e o papel, magistas de alto grau apareceram na sala e ordenaram para que ele se ajoelhasse e ficasse de costas. Ele sabia de sua punição por ter entrado naquela sala; quando a Ordem soubesse de seu furto, seria certamente morto, ao contrário do que se pensa, ele sorriu. Algo tomou-lhe conta, uma felicidade animalesca, uma fome incontrolável que emanava de seus punhos. Ele viu as sombras dos homens se aproximarem para o segurar, ele levantou-se rapidamente com um giro no quadril que ampliou ainda mais a potência de seu soco circular, que acertou a clavícula de um dos magistas, dando-lhe o mesmo destino do baú. O que antes era uma sala secreta transformou-se em um necrotério, com dezenas de magistas mortos.

Era sabido que hora ou outra eles o achariam e o matariam, o poder deles era realmente muito grande, mas para onde fugir então? A resposta estava no pantáculo de Salomão.

O magista leu as instruções, desenhou milimetricamente o desenho do pantáculo na parede e seguiu todos os passos. A parede começou a distorcer-se em espiral e seu interior transformou-se em pura sombra. O magista atravessou o portal e chegou até o meu reino, Outworld.

Lá ele encontrou um mestre que o acolheu e, após saber que ele vinha da terra, o convidou a participar de um torneio. Se os lutadores da terra perdessem dez vezes consecutivas, seu universo seria tomado por Outworld. Precisava-se de lutadores fortes, e o magista, tendo exteriorizado sua animalidade, o era.

Ele foi treinado pelo mestre, lutou no torneio, mas foi derrotado. O Imperador de Outworld, ao ver sua capacidade extraordinária de luta, lhe propôs todo o conhecimento de magia de Outworld em troca de ajuda em alguns experimentos científicos.

O Imperador estava, naquela época, investindo em estudos de clonagem. O magista ajudou os magos de Outworld e juntos conseguiram adiantar muito os estudos.

O torneio é o único modo de um mundo se apossar de outro, o que era muito importante para o Imperador, mas o magista não poderia participar ao lado de Outworld, pois havia nascido na terra. Sendo assim, os magos retiraram pequenos fragmentos da alma do magista na tentativa de cloná-lo, criando assim, um guerreiro de Outworld.

Não podemos dizer que fui um sucesso, que a experiência saiu perfeitamente. A clonagem era uma ciência muito arriscada e estava fadada a muitos fatores misteriosos para os magos da época. O bebê nasceu, escondido do magista, que nada sabia, mas o bebê, em poucos meses, já estava com a idade de 12 anos. Fui criado pelo Imperador e treinei intensamente artes marciais. Ele, preocupado com o sucesso do plano, abriu mão de um segredo hermético para manter viva a sua criação. Para que o guerreiro não envelhecesse e falecesse antes do torneio, foi-lhe transmitido tal segredo. O segredo da imortalidade.

O Imperador ensinou a mim, Shang Tsung, mágicas capazes de absorver dois fragmentos da alma que os egípcios chamavam de Ka e Sheut. Assim, eu me mantinha sempre jovem, mas estava fadado a alimentar-me de almas pelo resto da eternidade. Separando o Ka e o Sheut, a alma do indivíduo fragmenta-se e torna-se incapaz de atingir a plenitude espiritual, o Akh.

Segui as ordens do Imperador e embosquei o magista. Ele era muito mais fraco marcialmente e sua animalidade não estava tão desenvolvida quanto a minha, mas ele ainda era capaz de alcançar um fluido espiritual que faz parte da matéria primeira do cosmos. Eu não tenho essa capacidade, sou uma cópia que nunca poderá chegar ao estado de Akh após a morte, mas isso pouco me importa, pois nunca morrerei.

Na emboscada, uma série de guerreiros lançaram diversas flechas no corpo do magista, impossibilitando qualquer diálogo prévio.

Eu me mostrei em frente a ele, encapuzado, o magista mostrou-se muito confuso, sem compreender que havia sido traído. Pouco antes de morrer ele me perguntou o motivo de tudo aquilo, “isso são as fatalidades da vida, meu caro”, foi tudo o que pude responder. Eu tirei o capuz, mostrei-lhe minha face, instantaneamente o magista percebeu a clonagem e disse: “Sua alma é minha…”, gargalhei alto e respondi “Não, meu caro, de agora em diante, a sua alma é minha”.

Fatalidades, nada além de fatalidades.

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  1. Klaudio
    22/06/2012 às 10:51

    Muito legal…. Fiquei fan!!!

  2. Jason
    02/07/2012 às 11:40

    Essa historia eu ja conhecia. É muito legal

  1. 17/07/2012 às 08:23

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