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Mortal Kombat – Dia de apresentação

Detesto essas apresentações. Amo meu pai, amo minha irmã, mas detesto essas apresentações. Eu sei de seu prazer por nos ver lutar. Já nos foi dito milhares de vezes que, quando ele volta de viagem, quer nos ver lutando, uma contra a outra, para acompanhar de perto nossa evolução nos treinos. Eu entendo tudo isso, mas detesto.

Não há como não amar isso. O período que antecede as lutas é como a corda de um instrumento, pronta para arrebentar. Precisamos saber dosar, afinar no ponto certo, para que ela não se torne fraca demais, nem arrebente. O Imperador nos olha, a corda se estende um pouco mais, gosto da sensação, tenho vontade de gritar.

Tenho vontade de gritar, de sair dessa batalha, mas não posso, é meu dever como princesa, devo seguir as ordens de meu pai. Ele está a alguns metros de nós, sentado em um trono. A qualquer hora ele dará a ordem que começará a luta. Ele é um bom pai, um líder nato. Há certos momentos nos quais me sinto sozinha, sei que não é meu pai quem deveria me consolar, ele cumpre perfeitamente o papel de um pai, deveria haver uma mãe naqueles momentos, mas não há.

Minha irmã está perdida em seus pensamentos, ela não percebe a grandiosidade de uma luta, ela só está aqui por obrigação, por isso irá perder. Eu sei disso, o Imperador sabe e até ela sabe, mas tenta convencer-se de que é capaz de me derrotar, hahaha, pobre Kitana. Ontem eu a escutei chorar em seu quarto, fui saber o que era. Tratava-se de alguma amiga de infância que havia sido rude com ela. A princesinha não pode receber algumas palavras de desprezo que já desaba toda. Fiquei lá, ao lado dela, com sua cabeça sobre meu ombro, confortando-lhe. Como ela é estúpida…

Noite passada, encontrei minha antiga amiga de infância, Jade. Antigamente, quando nós estávamos juntas, era como se o tempo deixasse de existir, eu não era mais princesa, não tinha mais uma identidade pela qual zelar, eu era apenas uma pessoa comum, conversando com a melhor amiga, mas Jade desapareceu durante dois anos, sem dar nenhuma explicação.

O Imperador ainda se dá ao trabalho de mandar vigiarem Kitana noite e dia, para que ela viva em uma Outworld bela, sem saber do real trabalho de seu pai. Todos de Outworld sabem o que podem e o que não podem falar quando a princesa está por perto, e aqueles que não cumprem isso, acabam mortos. A única pessoa que não foi preciso matar foi sua amiguinha de infância, que certo dia, ao certificar-se de que não havia ninguém por perto, disse para Kitana que ela não deveria guardar tanto ódio de sua mãe, pois era uma pessoa boa. Hahaha, o invisível também ouve, Jade. Seus conselhos lhe levaram a dois anos de tortura e feitiços.

Quando Jade voltou, não era mais a mesma. Seus olhos morreram, o sorriso que a tornava a mais bela das guerreiras foi trocado por uma boca seca e fria. Ela disse que nunca tínhamos sido amigas, que ela tinha sido apenas contratada pela minha mãe para me fornecer um crescimento normal, como uma criança normal, que eu nunca seria. Se não fosse Mileena ontem, me confortando, não sei se conseguiria lutar hoje.

Há certos reinos onde uma princesa deve ser contida, elegante, diplomata. Mas não em Outworld. Eu sou a verdadeira princesa, sou eu quem viaja junto ao Imperador em suas conquistas, sou eu a sua melhor assassina, a melhor lutadora, a melhor filha. Kitana não é uma lutadora ruim, pelo contrário, posso ver em seus olhos uma frieza crescendo, uma racionalidade ímpar, talvez ela se torne forte como eu algum dia, mas não hoje, com toda a certeza, não nessa luta.

Eu sinto pena de minha irmã, Mileena. O homem que me gerou, traiu sua mulher e relacionou-se com uma qualquer, sem sangue real. Meu pai resolveu adotá-la, mas ela teve uma infecção na boca quando era criança. Ela usa um véu todo o tempo para esconder seu rosto, eu nunca o vi. A infecção faz com que ela tenha alguns problemas na fala e, devido a isso, sou eu a escolhida para as reuniões estatais. Apenas um pequeno grupo, próximo ao meu pai, sabe que somos irmãs, para o resto do universo, Mileena não existe.

O Imperador muda de posição no trono, inclinando seu peito em nossa direção. Em qualquer momento ele dirá as palavras que darão início a luta. Em qualquer momento o êxtase marcial começará. E nesse momento, eu começo a sorrir.

Meu pai se movimenta, é chegada a hora. Começo a sentir medo, muito medo. Os treinos entre eu e minha irmã são muito bons, eu amo lutar, mas nas nossas lutas frente ao imperador… Minha irmã é muito séria, contida. Fala apenas o necessário e em poucas palavras sintetiza muita sabedoria, mas aqui ela transforma-se completamente. Eu até prevejo o seu primeiro movimento, ela saltará freneticamente em minha direção assim que a luta começar. Ela me espancará com um imenso prazer, como se a luta a fizesse entrar em êxtase. Eu fico com medo, mas não o demonstro.

Posso sentir o cheiro de medo que vem de minha irmã, isso me excita. É o odor da batalha que começa a circular pelo ambiente. Seus músculos estão rígidos, seus olhos assustados. Ela vai perder. Eu olho para o meu pai sedenta por diversão. Vejo em seu rosto um pequeno sorriso, “Que a batalha comece”, eu escuto.

Mileena salta sobre mim, como eu imaginava. Seu punho vem em minha direção como uma flecha, eu a defendo. Ela gira seu corpo e acerta minha têmpora. Na queda sinto suas duas mãos segurarem minha nuca e puxarem a minha cabeça em direção ao seu joelho, posiciono meus braços na frente, evitando o choque.

Salto, punho, punho. Como minha irmã é fraca. Ela pensa demais, avalia demais. Puxo sua cabeça. Que vontade de destruir todos os seus dentes, um a um. Já perguntei isso ao Imperador, ele disse que ainda não era a hora. Joelhada, ela defende. Ele diz que Kitana ainda será útil. Joelhada, joelhada. Ela não pode defender-se eternamente. Hahaha. Seus braços devem estar destruídos. Meu joelho atravessa sua defesa e acerta seu olho direito.

Meus braços não aguentam, a defesa se abre, mas quando o joelho me acerta já não está muito forte. Antes que a sua perna volte eu a seguro. Empurro Mileena e, antes de ela cair no chão, acerto dois socos em seu rosto. Ela me chuta com o pé que está livre e nos afastamos. Ela se levanta. É minha vez de atacar.

Kitana corre em minha direção, como um peixe que nada em direção à mão do urso. Começamos a trocar socos a uma curta distância. Eu amo esses momentos. Seu punho desliza suavemente sobre meu supercílio. Recebo um beijo de seu punho em meus dentes. Acerto dois socos firmes em sua face. Ela tenta defender e nossos braços se interlaçam e meus punhos acariciam seu rosto mais, mais e mais. Até que ela tomba no chão.

Após uma troca de socos, sou derrubada. Me levanto rapidamente, vejo o rosto de Mileena sangrando, tento imaginar como deve estar o meu. Ela se aproxima, acerto um chute em seu queixo de baixo para cima. Ela sobresalta para trás, e me olha, imagino estar sorrindo. Ela está louca.

Me sinto como um homem que, ao tentar beijar sua amada, leva uma tapa em sua face. Ela me acerta o queixo com seu pé nu.  Sinto sua pele deslizar sobre meu queixo até a minha boca, por cima do véu. Aproveito esse momento para lambê-lo, sem que Kitana perceba. Salto para trás e sorrio. Foi um beijo inesperado.

Mileena salta, gira, e acerta um chute com o calcanhar em meu plexo solar. Eu seguro seu pé, recebo outro golpe no rosto, mas me mantenho firme segurando seu pé. As vezes mais próximas de uma vitória que já estive foi quando pude me aproveitar de um momento como esse. Não há como vencê-la pelo cansaço ou dor, quanto mais destruído estiver seu corpo, mais ela se excita. Eu tenho que acertar uma torção e vencer essa luta para provar ao meu pai que eu não sirvo apenas para reuniões, que eu também sou uma boa lutadora.

Acerto o sua barriga com o calcanhar, mas ela pega minha perna. Começo a socá-la enquanto ela tenta, inutilmente, alguma torção estúpida. Giro o meu corpo, salto e acerto com meu outro pé em seu rosto, fazendo um grande estalo ecoar por todo o salão. Ela solta o meu pé e me dá espaço para um belo gancho em seu rosto. Que gancho lindo! Um turbilhão de socos firmes começam a moldar o rosto de Kitana. Aquilo estava finalmente me excitando. Uma brutalidade imensa começa a tomar conta do meu corpo, como um dragão adormecido no quadril que sobe pela minha espinha me fazendo gritar de prazer!

Em vão, todos os meus esforços são sempre em vão. Às vezes eu me pergunto se é Mileena que deixa ser acertada pelos meus golpes, pois ela gosta disso. Os olhares entre ela e meu pai me fazem sentir como se eu estivesse fora de algum assunto importante, fazem me sentir uma amante. Levo um chute no rosto que me força a olhar para baixo e soltar seu pé. Não é apenas a minha cabeça que se abaixa, mas meu espírito também, completamente humilhado diante do Imperador. Fico muito envergonhada nessas batalhas em frente ao meu pai. Não vejo o que foi, mas sinto um forte golpe me fazendo erguer meu corpo mais uma vez, dizendo a mim que o meu oponente ainda não se cansou de brincar com o corpo morto. É exatamente assim que me sinto nessas lutas. Um corpo morto. Um corpo morto sendo estuprado.

Acerto o último soco no rosto de Kitana e paro uns instantes para ver o resultado. Ela está realmente linda. Nessas horas me orgulho de ser igual a ela. O sangue desce pelo seu rosto em zigue-zague, contornando os inchaços e ematomas. Seu olho direito, que fechou-se durante os socos e não consegue mais se abrir, parece tentar me seduzir. Há uma maquiagem de sangue pelo seu rosto. Se o Imperador permitisse eu esfregaria o meu rosto no seu, para desfrutar de seu cheiro e cor. Kitana hesita um pouco, grita e salta em meus braços.

Chega de humilhação, chega de bancar a marionete de uma louca. Eu preciso provar ao meu pai que eu tenho sangue guerreiro, que eu sou capaz de honrar o meu reino e meu título de princesa. Eu vou enfiar meu punho no rosto de Mileena e deixar minha marca lá, mesmo que eu não vença, vou dar o soco mais forte que puder, para provar que eu também sou capaz disso, para provar que eu sou a filha do Imperador.

Ela salta, linda, em minha direção. Dá uma cotovelada no invisível preparando-se para o soco, assim como o elástico de um estilingue. Eu salto para trás e procuro seus olhos, lindos olhos de pavor e medo, mas com um pouco de uma excitante coragem. No ar, meus pés vão em direção a seu braço e, quando eles se encontram, transformam-se em cobras envolvendo a presa. Seu braço começa a alisar as minhas coxas, à procura de meu rosto, já muito distante, mas excitado. Os músculos rígidos de seu braço estavam quentes, ao menos mais quentes do que a pele das minhas pernas, criando um prazeroso contraste térmico. O seu braço vem se aproximando mais e mais, e minhas coxas vão percorrendo desde o antebraço até seu bíceps, fazendo com que eu desfrute cada centímetro de sua pele dura e calejada. Quando seu braço finalmente chega próximo à minha boca, eu o abraço. Um abraço apaixonado e firme, incapaz de soltar o corpo do amante até se satisfazer completamente. Eu giro, derrubo Kitana sobre o chão. Fico sentada em cima de seus peitos, com seu braço entre minha pernas. Giro mais uma vez, agora Kitana fica de costas e eu seguro seu braço. Ela geme um pouco. Começo a puxar seu braço lentamente. Seus gemidos ficam mais fortes, até tornarem-se gritos.

-Ahhh! – Acabo não resistindo a dor, ela está prestes a quebrar o meu braço, e pelo que eu conheço de Mileena, ela irá. Ela encara essas lutas como arte, como o momento maior de gozo físico e espiritual. Em nossas conversas, Mileena sempre mostra sua visão da luta. Para ela, é como a forma primeira de elevação espiritual. Na luta, dois corpos dançam em harmonia, conduzindo energias e as fazendo circular, como em um ritual. É na luta que entendemos o equilíbrio do universo, as facetas da morte, da perda e da destruição. Não há ganhar ou perder, tudo é uma coisa só. Não existe adversários, a única coisa que existe naquele momento é a experiência da luta, e os dois tornam-se um. Um Deus fragmentado que dança. Mileena fala muito de opostos, que dor e prazer são a mesma coisa e que não há um sem o outro. É dentro dessa analogia que ela diz que o ponto máximo de dor é equivalente a um orgasmo, o ponto máximo de prazer. Quando Mileena fala essas coisas fico admirada com tamanha beleza, mas quando estou lutando não consigo ver essas coisas, apenas brutalidade.

-Isso, minha irmã. Chegamos ao fim da luta, não há como escapar, só resta aproveitar o momento. – Puxo um pouco mais a perna.

-Aaahhhh! – Não posso mais aguentar, a dor começa a ficar aguda.

-Ah, isso, ahhh. – Sinto um prazer incontrolável diante do poder que estou em mãos. É eu quem controlo quando será o momento definitivo, quando os ossos de Kitana se partirão ao meio, trazendo dor e prazer. Puxo mais.

-Nããão… Ahhh! Eu preciso ganhar… Ahhhhh!

-Ah, ah… Isso. Está na hora. – Eu puxo um pouco mais o braço e começo a escutar pequenos estalos.

-Aaaaaaaaahhhh! Chega, Mileena!

-Ah, ah, está acabando Kitana… Vamos… Ah.. Grite, grite forte! Ahhh…

-Ah, Ah, Ah..

Eu relaxo um pouco, dando um pequeno alívio antes do ápice. Após um breve descanso, puxo com toda a minha força seu antebraço, destruindo os ossos do cotovelo. Começo a escutar lindos sons, um, dois, três pequenos estalos. Kitana grita, sua linda voz rouca fazendo vibrar caoticamente suas cordas vocais. Eu sinto essa vibração. Um estalo final e dois gritos uníssonos.

-Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhh!

-Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhh!

… Termino caída, agonizando e com um braço quebrado diante de meu pai, o Imperador. Eu vou encontrar uma maneira de me tornar melhor do que Mileena, eu preciso. Eu vou fazer com que meu pai sinta orgulho de mim e desprezo de Mileena. Somos duas irmãs que disputamos a identidade de princesa de Outworld, e eu serei a vencedora.

– Kitana e Mileena

 

 

 

 

 

 

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  1. 17/07/2012 às 08:23

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