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Pequeno Guiazinho de Quadrinhos Fantástico Cenário (Parte 15)

71. Coringa

 

 

Com o já clássico 100 Balas, Brian Azzarello ressuscitou o gênero policial para os quadrinhos e o atualizou para o novo milênio, com Coringa, o autor transportou esta mesma atmosfera de violência e sordidez humana para o universo de Batman.

Provavelmente você deve estar pensando neste momento que Frank Miller fez a mesma coisa em Ano 1, e 20 anos antes de Azzarello, mas mesmo a obra de Miller foi mais contida do que a espiral de terror e violência sem concessões que é promovida aqui, de uma maneira muito inesperada para um personagens que no fim das contas, ainda vende lancheirinhas por aí.

 

Provavelmente a história não teria o mesmo impacto se não contasse com a arte detalhada e realista de Lee Bermejo, que faz sua Gotham parecer uma Chicago dos anos 70, em um estilo que influenciou o (até então em produção) filme Batman – O Cavaleiro das Trevas, de Chris Nolan (e não o contrário, como muitos acham).

 

Contada no nível das ruas, a história mostra a ascensão e queda de um marginal de rua, que em um golpe de sorte (ou azar, dependendo do ponto de vista) se torna capanga do homicida Coringa.

Até então nada de mais, porém, ao contrário da maioria das histórias, existe uma violência truculenta, com uma intensidade real que gera momentos de arrepiar a alma, pegando de surpresa o espectador.

Nada mais diferente do que o Coringa de Jack Nicholson, neste mundo cinza e sem cores onde é possível sentir o cheiro de esgoto das ruas.

Uma história de terror psicológico? Um mergulho nas entranhas policiais? Uma distorcida história de super-heróis pelo ponto de vista do vilão?

O fato é que nunca o palhaço do crime foi tão assustador, em nenhuma encarnação.

E para os mais desavisados, após ver o vilão deitado sobre uma cama onde um casal de velhos acabou de ser esfaqueados até a morte em mais uma explosão de violência aleatória do vilão – apenas por terem tido o azar de morarem no lugar errado na hora errada-, fica a lição: o crime decididamente não compensa.

 

72. Moby Dick

 

 

O clássico de Herman Melville é considerado por legiões de críticos como o maior romance americano já escrito. Bom, se seu porte literário não confirma isso, pelo menos seu colossal volume de páginas, sim.

Com tal fama, não é de se admirar que ele saltasse (ou seria mais adequado nadasse?) para outras mídias, tal como o clássico filme de John Huston, de 1952, com Gregory Peck e roteiro de Ray Bradbury e, claro, embora um tanto quanto tardiamente, os quadrinhos.

Sobre o que exatamente trata Moby Dick, é assunto para inúmeros debates, e aparentemente ninguém chegou a um consenso definitivo ainda (e provavelmente nem mesmo o falecido Melville), vamos nos ater ao que temos certeza: o tema central de Moby Dick, ou ao menos um deles, é a obsessão. Particularmente a obsessão do capitão Ahab pela baleia branca que arrancou sua perna.

 

Esse é o ponto que eu confesso um tremendo desgosto com adaptações de obras literárias em quadrinhos. Quase todos pecam por sua reverência excessiva, sendo geralmente maçantes e sem vitalidade, quando não pretensamente pedagógicas.

Pois bem, Moby Dick é a mastodônica exceção.

 

Capitaneada por Bill Sienckiewicz, a HQ exala vitalidade, com o autor utilizando todo seu arsenal de técnicas para alimentar os aspectos alegóricos da história (que aliás não são poucos) fazendo uma obra repleta de metáforas visuais e imagens marcantes.

Passando pelas formas carimbadas de baleia espalhadas pelas páginas, para indicar a banalidade do ato de matar realizadas por aqueles homens, até a figura progressivamente distorcida de Ahab, mostrando sua crescente deformação psicológica impulsionada por seu ódio cego a Moby Dick, até as sombras de sua cabine, como demônios a alimentar sua obsessão, assim como as palavras do livro, cada quadro não se encerra em si mesmo, permitindo múltiplas interpretações.

 

Uma obra ímpar em combinar palavras e imagens, uma graphic novel digna do nome, uma obra-prima a ser descoberta.

E um grande clássico americano, claro.

 

73. Dylan Dog

 

 

O grande clássico do horror italiano.

Dentro das ilhas habitadas pelo horror, o italiano é um dos mais particulares, bastante operístico, onde a cenografia e o efeito tem muito mais proeminência sobre a lógica e o sentido.

 

Dylan Dog não foge à regra. O gibi foi um dos maiores sucessos editoriais na Itália dos anos 80, misturando humor, terror, pitadas de erotismo, gore e doses eventuais de onírico e surrealismo. Deixou uma aura cult no Brasil, após passagens relativamente efêmeras pela Mythos, Record e Conrad.

 

Dog, que dá nome à série, é um detetive londrino especializado em casos sobrenaturais, às vezes resolvendo-os, às vezes sendo um mero espectador.

Nem sempre os elementos funcionam bem no gibi e algumas edições são realmente bem ruins, mas alguns episódios como Johnny Freak e Depois da Meia-noite são verdadeiras obras-primas.

Para aumentar ainda mais o nonsense, o ajudante do detetive é ninguém menos que Groucho Marx, é, o próprio, diretamente dos filmes dos Marx Brothers dos anos 40.

Um dos gibis mais gostosos que já li, anos 80 até a alma, um cult que dá saudades.

 

74. Leões de Bagdá

 

 

Quadrinhos com analogias políticas são sinônimo de chatice interminável.

Há menos, claro, que você se chame Brian K. Vaughn, roteirista, de, entre outras pérolas, Y – O Último Homem, Ex Machina, e ex-roteirista da série Lost, entre outros.

 

Leões de Bagdá se passa na “libertação” (cof, cof) do Iraque e parte de um episódio verídico, a fuga de uma família de leões do zoológico de Saddam Hussein.

A partir da trajetória deles, Vaughn estabelece uma série de metáforas (até porque quando tem animais na jogada, e tema político, até seria de se esperar) sobre a condição humana.

 

Qual é exatamente a mensagem da história? Não sei e provavelmente não deve ser muito importante, mas de qualquer maneira, é um belo trabalho, se não pelo roteiro, pelo menos pelos desenhos.

 

75. Liberdade

 

 

 

Um dos últimos grandes clássicos de Frank Miller (ô, faz tempo) e como típico de então, mistura na mesma panela ação desenfreada, senso de humor e crítica social e política.

 

Liberdade trata da história de Martha Washington em uma América distópica futurista, acompanhando seu confinamento em um gueto negro, seu alistamento militar, seu período servindo na Amazônia e finalmente, seu envolvimento com a política.

Mas claro, é uma história de Frank Miller, então, dá-lhe doses generosas de ação surreal, doses generosas de críticas à política americana oitentista, sempre pontuados com momentos de drama e humor.

Ah, sim, e é também uma HQ histórica: um dos primeiros gibis mainstrean a ter uma protagonista feminina e negra.

Resumindo? Um gibi dos bons, daqueles que não se fazem mais.

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Categorias:Entretenimento
  1. 18/07/2012 às 14:48

    Ainda não li o Coringa do Azzarello (uma espécie de Frank Miller atual e decente), e pretendo ler; esta edição da série Classic Ilustrated eu tenho, e ela é realmente lindíssima (nunca li Moby Dick, e tenho que fazer isso logo de uma vez), abordando diversos temas, como a solidão humana e a obsessão que conduz à loucura.
    Dylan Dog eu li só a primeira edição da Mythos (aquela do bizarro caso do coitado que servia de repositório de órgãos para o irmão) e achei bem interessante; Leões de Bagdá eu achei bem legal, cheia de analogias políticas (pelo que entendi, os leões simbolizavam o povo e o urso, a classe rica).
    Liberdade eu nunca cheguei a ler, acho que sempre vale a pena ler estas hqs da fase antiga do Frank Miller, em que elas ainda te passavam alguma mensagem.
    Falando em hqs legais, acho que gostarás de ler Rose, de Jeff Smith e Charles Vess, que é um prelúdio de Bone.
    http://www.mediafire.com/?s45cj1nsw747fi5

    • Fábio Ochôa
      19/07/2012 às 10:16

      Li sim, aliás, Bone é muito bom, tu tem acompanhado?

      • 19/07/2012 às 13:32

        Li (e encontrei em português) até o Volume 7, Ochõa, em que eles encontram o filhote de Criatura Ratazana, o final da hq eu nunca li.

        • Fábio Ochôa
          20/07/2012 às 14:54

          Saiu até o 11. Acho que lá pelo número 17 encerraria a série.
          Mas pelo visto parou a publicação. Pena.

  2. 29/07/2012 às 20:57

    Coringa é bem legal! Sou fã do dylan dog, acompanhei durante toda a publicação da conrad e da mythos no Brasil. A história do homem que se torna invisível quando a única pessoa que lhe dava atenção morre é uma das minhas favoritas, além de “depois da meia noite”, com dylan passando por situações bizarras na madrugada londrina.
    abração!

    • Fábio Ochôa
      01/08/2012 às 18:33

      Essas edições do Dylan são muito boas! Acho muito legal também o “cata-referência” cinematográficas da série.
      Depois da Meia-noite lembra direto o Depois de Horas do Scorcese, né?

  3. 18/08/2013 às 22:43

    pois é, e acho que é justamente uma das hqs menos sobrenaturais do Dylan, exceto pelo absurdo das situações, esse sim sobrenatural!

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