Início > Entretenimento > Cara de Estopa

Cara de Estopa

Dia 1.

As costas do homem ainda doíam, o que era incrível, considerando que já faziam seis meses que havia sido arremessado por uma janela e ficara prensado contra a grade de ferro. Doeu pra diabo, praguejou ante a lembrança, mas olhando em retrocesso e considerando que as mesmas grades o salvaram de uma queda de 15 metros, havia sido melhor assim.

Menos para o otário que morreu por causa disso, o arremessou sem pensar, otário, achou que isso ia dar conta, otário, não pensou que a resposta viria tão rápida.

Primeiro ele ficou prensado na grade, o otário ficou surpreso, o que ele esperava? Que ele se estatelasse no chão abaixo? Que tipo de homem joga um invasor contra uma janela com grades e espera que ele se estatele chão abaixo? Um otário!

Que tipo de homem não conhece a própria casa onde mora? Ele poderia tê-lo arrastado pela sala e jogado escadaria abaixo, era um lance grande, provavelmente ele quebraria o pescoço, ou chegaria lá embaixo tão escoriado e quebrado que estaria sem ação. É o que ele faria no lugar do otário.

Otário.

Depois um idiota desses acaba sendo morto e a culpa é do pobre do assassino.

Passou as mãos pelas costas, fez uma careta e se perguntou se um dia elas iam se endireitar de vez, um homem mais sensato consideraria isso um aviso do tempo, um sinal para parar.

O banco do carro, desgastado, duro e afundado não ajudava muito, também.

 

O homem cuidou a casa pelo retrovisor. Uma casinha simples de dois andares, típica daquele bairro afastado, bem cuidada, cinza, pequeno jardim na frente, nada demais.

Lembrou-se de novo da cara do otário, surpreso, embasbacado, ao ver ele prensado na janela, sem despencar lá embaixo.

Às vezes sem querer, quando menos esperava, se lembrava por alguns instantes das pessoas que matara. Isso estava ficando cada vez mais comum, nunca se lembrava das mortes em si, apenas de detalhes: uma expressão, o modo como um dedo gesticulava, uma mudança sutil na luz do ambiente.

Não se lembrava direito porque dera um urro na ocasião, se foi de dor, de surpresa por não ter caído ou de pura alegria animal ao ver a cara de parvo que o otário fez.

O fato é que bateu na grade, quicou de volta, agarrou um pedaço grande de vidro despedaçado da janela e em um golpe cego abriu uma avenida escarlate na cara do otário.

Ele deu dois passos para trás, esguichando sangue por tudo e ainda teve que dar mais quatro ou cinco golpes até acertar a garganta, o pulmão, sei lá, qualquer coisa que fizesse aquele homem gigantesco parar e desistir de ser homem, de cair no chão e enfim virar coisa, morta, fria, inanimada. Também, o otário não parava de mexer os braços às cegas e isso dificultou tudo.

Mas no fim ele caiu, fazendo um barulho de gargarejo. E o homem ficou apenas em pé, parado, esperando ele se esvair. Com a máscara que estava usando deve ter sido um belo efeito cênico se alguém tivesse testemunhado, pensou.

Seu trabalho era o inferno, mas tinha lá suas pequenas compensações, avaliou encarando as cicatrizes nas próprias mãos.

 

Finalmente, após quatro horas de espera, a porta da casa se abriu.

Uma senhora idosa colocava o lixo na rua. Como um ritual que já cumpria a anos, o homem enfiou a mão na pequena caixa negra de madeira ao seu lado e com cuidado, retirou uma ilustração tosca, feita a carvão ou giz negro, provavelmente.

O rosto na fotografia era levemente mais jovem – uma década talvez, quanto muito – mas inequivocadamente era ela. O endereço estava correto, provavelmente o nome também, a caixa nunca errava, essa era uma de suas particularidades.

E possivelmente o que a mulher havia feito trinta anos atrás, segundo a caixa, também era verdade. Claro que a esta altura do campeonato provavelmente fosse impossível verificar.

Qualquer um que poderia confirmar a história, já haveria desaparecido em covas anônimas, sepultados pelo ocaso da história.

Retirou o revólver do bolso e o colocou no porta-luvas, não gostava de armas de fogo, usava elas somente em casos de riscos extremos.

Não parecia ser o caso.

Não devia tomar as pílulas, sabia disso, mas sentia também o temor se instalando, o suor nas costas, as mãos tremendo, rezou que não fosse outro ataque.

Respirou fundo, sentindo o coração acelerar. Entornou as pílulas nas mãos e as engoliu.

Suas costas continuavam latejando.

Olhou as caixas de presente na traseira do carro, rápido, apanhou uma e saiu do veículo.

Se aproximou em direção à senhora, em passos levemente mancos.

– Senhora Collares?

Ela se virou, surpresa.

– Oi. – ela cumprimentou seca. Observando-o do alto a baixo.

– Lojas C&A, senhora. – Esticou solícito a caixa- Parabéns pelo seu aniversário.

Ela o olhou de cima a baixo, os olhos se estreitando, tentando reconhecer.

– Não. – Disse por fim. – Deve ser um engano, não é meu aniversário.

Mas o homem já lhe virara as costas e saía andando.

Olhou para ela, com um sorriso sutil, ela ainda caminhou alguns passos até o carro, até ele bater a porta, ignorando-a.

Talvez ela tivesse sentido finalmente o peso da caixa, talvez já tivesse entendido que ela estava vazia, mas não importava.

Ela confirmou o nome. Reconhecimento feito. Era ela.

Ligou o carro e saiu dali, enquanto a velha senhora, silenciosa e hirsuta, como alguém que a vida se esquecera de existência, lentamente se voltou e tornou a entrar absolutamente anônima para dentro de sua casa, a meditar sobre mais um pequeno mistério do dia.

 

————————————————————————————–

 

Ás vezes ele ficava até 60 horas acordado, não gostava, mas era necessário. Eram as pílulas, sabia, elas o deixavam no pique ideal para o trabalho.

Modafinil, piracetam, donepezil, selegilina, pílulas para acelerar, pílulas para acalmar, pílulas para lembrar, pílulas para esquecer, para amortecer, para não sentir, para dormir, para acordar. Por um momento pareceu incrível que já houvesse desempenhado o trabalho sem elas. Quanto tempo estava nessa vida? Seis? Sete anos?

O que sabia é que já havia há muito ultrapassado a vida útil que calculara a si mesmo.

Maldito diabo de sorte.

Demorou um pouco a reconhecer o rosto no vidro sujo. Era o seu próprio.

Suas mãos estavam geladas na pequena bacia de água formada na pia, a torneira ainda aberta, a incomodar como um metrônomo, o ouvido.

Olhou em volta, com ar levemente abobalhado. Apagara de novo. Odiava quando isso acontecia.

Fechou a torneira, massageou as costas. Um banheiro pequeno e sujo, ruídos além da porta. Um bar, provavelmente.

Enfiou as mãos nos bolsos e tirou as pílulas, colocou duas embaixo da língua e sem dificuldade abriu a pequena tranqueta da porta esmazelada.

O bar era estreito, não mais que um corredor, olhou para a rua, devia ser o que? Umas seis de tarde já?

Para onde fora o resto do dia?

– Ô moço, seu pastel já ta pronto. – disse a mulher magra ao passar por ele e se dirigir ao balcão, apontando para o prato na mesa.

Acenou e sentou, havia um pastel e uma Polar aberta, pela metade, esfregou um pouco a cara, alguns velhos, alguns solitários, alguns universitários, no geral pouca gente, mas alta conversa.

Piscou, forçando os olhos. O Pássaro Azul, sim, era esse o bar.

Fechou as mãos, estavam mal secas, ou bastante suadas.

Encheu um copo de cerveja e virou com as duas pílulas. Danem-se o que dizem os médicos.

Recostou-se um pouco na parede, olhar vazio, e então viu o rapaz desviar os olhos dele.

Era novo, pinta de estudante, com outra mulher loira e bastante jovem. Não deveria ser um dos homens de máscara. Ou deveria? Era jovem para isso, mas isso não queria dizer nada. Ou queria?

E então o jovem olhou de novo, como que para conferir se fora descoberto ou não.

– Tá olhando o que? – rosnou, se surpreendeu com o timbre pastoso da própria voz. Algumas conversas pararam ao seu redor, o rapaz, visivelmente constrangido, virou um pouco de lado, virando mais um gole de sua cerveja.

Manteve o olhar duro.

– Babaca! – falou de novo, o tom de voz mais firme, a ameaça explícita. O rapaz apenas olhou novamente e pegou a mulher pelo braço, não queria confusão, obviamente. Fora pego, não, filho da puta? Foi mandando pra vigiar, não é? Porque não mandavam um homem de verdade e não um porrinha qualquer que não agüentava o tranco, não é? O rapaz puxou a carteira e com um sorriso irônico de quem não está muito incomodado com isso começou a pagar.

– Babaca! Putão de merda! Babaca! Sai fora daqui babaca! Vai! Vaza!

Começaram a se retirar, o rapaz e a mulher. Ele deixou uma última nota de 5 em cima do balcão, o sorriso irônico.

– Tá, tio, aqui, vai tomar tua cachaça e não incomoda.

O homem se levantou, derrubando ao chão o prato e a garrafa. Os punhos crispados.

– Te mandaram para vigiar, é? Te mandaram, babaca?

O garoto deu um passo para frente, deixando a mulher congelada ao fundo. Alguém tentou segurar o homem, que com um safanão desvencilhou-se da mão.

– Tá, meu, chega disso.

– Babaca!

– Deu tio, tô falando.

O homem avançou mais.

– Babaca! Babaca! Putão de merda! Cuzão de merda!

O garoto era grande e pela postura sabia brigar, foi colocar a mão no peito do homem para parar ou talvez intimidar. Era a melhor saída de não haver uma briga e ele ainda sair com a dignidade intacta.

Poderia ter dado certo se a mão chegasse a pelo menos encostar no peito, o que claramente não foi o caso.

Foi como um raio a abrir uma clareira no bar, um espaço vazio surpreendente em um ambiente tão exíguo.

Aparentemente o homem pegou o rapaz pelo pulso e deu um soco no pescoço ou no queixo dele, torcendo o braço e jogando o rapaz de cabeça no balcão.

Aparentemente. Tudo foi muito rápido.

O que tinham certeza é que em um momento o homem avançou para cima do jovem que se pôs pronto para pará-lo.

O que tinham certeza é que ouviram o estrondo da cabeça do rapaz contra o balcão.

O que tinham certeza é que o rapaz estava de joelhos, em menos de um segundo, cabeça pendendo, sem reação, com os joelhos dobrados ao chão, corpo suspenso pelo seu braço dobrado às costas, em uma chave que o homem aplicava nele, gritando com toda a força de seus pulmões:

– Babaca! Babaca! Cuzão!

Ninguém esboçou a menor reação, todos estupefatos pelo choque.

O homem respirou fundo e então soltou o braço do estudante, que desabou pesado ao chão, a cabeça sangrando.

A mulher que o acompanhava conteve um grito, gemendo baixinho, quase um cômico ganido.

– Um pastel e uma Polar. – resmungou, puxando uma nota de 10 da carteira e deixando sobre o balcão.

E devagar, andando pesado, saiu do bar, respirando fundo como se o corpo estivesse prestes a falhar, o suor empapando seu rosto. Ninguém fez nada para impedi-lo.

Enviou a mão no bolso da calça e abriu a carteira que retirou do estudante, antes de esmurrá-lo contra o balcão.

Duas notas de 50, duas de 5, carteira de motorista, identidade. Agora ele tinha um nome, examinou com atenção, depois procuraria o endereço na guia telefônica.

Tornou a guardar a carteira no outro bolso.

Estar sempre atento. Esse era seu lema.

Nada era por acaso.

Os cuzões nunca o pegariam.

 

Dia 2

 

Forçou a fechadura com facilidade. Bastou um clique e estava dentro, há tempos não pensava como isto havia ficado fácil, apesar da fadiga crescente.

Era um golpe de sorte a rua da velha estar deserta. Quase não acreditou quando viu ela retirar o carro da pequena garagem e sair. Normalmente as coisas não costumavam dar tão certo.

Abriu a porta e entrou rapidamente, tateou e encontrou o botão da luz.

A sala era pequena e rigidamente organizada. Ela cheirava a solidão.

No pátio o cão não parava de latir.

Caminhou com cuidado, examinando os quadros na parede. Casamento. Filhos. Envelhecer. Filhos adultos.Sozinha. Uma topografia de uma vida.

Virou-se para a janela, os latidos continuavam.

Encontrou o molho de chaves na cozinha.

A barra de ferro deslizou para sua mão.

Teve que testar quatro chaves até achar a certa. Abriu a porta, caminhou em direção ao cão amarrado em uma corrente, a barra subiu e desceu apenas uma vez, um ganido e o cão tremia ao chão.

Voltou para dentro e fechou a porta com cuidado, ouvindo os gemidos baixos que ecoavam do pátio. Pela janela ele parecia estar dormindo, o peito subindo e descendo devagar. Bom, não gostava de matar cachorros.

Metódico, abriu o armário da sala, se deteve momentaneamente e viu o pequeno busto de um Cristo olhando para ele.

Virou o busto contra a parede e seguiu a sua busca.

Mais fotos, antigos documentos médicos, talvez isso confirmasse o que a caixa dizia, talvez, talvez.

Não que fosse fazer muita diferença no fim das contas. Ele sabia como essas coisas costumavam acabar.

Estava sufocando dentro daquela sala, e decidiu colocar a máscara.

O efeito foi tranqüilizador. Imediato.

Notou que estava demorando muito tempo sentado no sofá, olhando os álbuns de fotografias. Crianças, crescendo quadro a quadro, sentiu uma pontada dentro de si.

Recostou-se, respirou fundo, sentindo o ar entrar pelas brechas da máscara de estopa.

Olhou as doze caixas metodicamente reviradas pela sala.

“Que amadorismo”, pensou. E se pôs a colocar cada coisa em seu lugar.

Em todo caso, pegou uma das fotos e guardou com ele, uma foto de felicidade banal. De uma senhora que já foi mais nova, com duas meninas no colo em um parque esquecido no passado.

A máscara dificultava a respiração, ergueu um pouco ela, deixando o rosto livre, quando um barulho o deixou atento, parecia uma espécie de alarme.

Ficou com o corpo teso, relembrando possíveis rotas de fuga, o barulho vinha do andar de cima, aproximou-se de escada.

Viu o guia telefônico na pequena mesa perto da escada. O pegou, sabia que poderia ser útil, enrolou-o com força, enquanto observava a palidez do próprio punho.

Então reconheceu o barulho como um despertador, provavelmente mal-ajustado.

Caminhou pé por pé a escada, baixou a máscara cobrindo todo seu rosto e finalmente adentrou o quarto e o desligou.

 

O quarto era pequeno, com mais fotos a se espalhar pelas paredes, o guarda-roupa, uma cômoda e uma TV, tudo decorado com recato exemplar.

Suspirou e se pôs novamente a examinar cada recôndito.

O exame foi detalhado e ocupou mais 40 minutos, eventualmente, enfiava a mão por baixo da máscara para limpar o suor do rosto.

Achou no guarda-roupa algumas seringas e ampolas, em cima do maleiro haviam fotos e diplomas, Universidade Católica. Talvez, talvez… Mas não eram provas ainda que ela havia sido torturadora do DOPS.

Mas ela era médica na época. O diploma atestava isto.

Não era comum mulheres atuarem nessa área, lembrou-se.

Mas a caixa nunca estava enganada. Sabia disso.

Além do mais…

… Os documentos…

… Havia trabalhado na Católica na mesma época. No íntimo sentia que isto não era prova de nada, mas também sabia que era o mais perto que chegaria da verdade, sentou-se na cama, suspirou pesado.

Não adiantava.

Não adiantava.

Com ou sem provas sabia o que teria que fazer. Não importava que ela fosse mulher, não importava a idade dela.

Essa era sua única certeza na vida: nunca contrariaria a caixa.

Nunca.

Com cuidado, colocou novamente cada coisa em seu lugar, sentindo aquela sensação fria que antecipava cada assassinato, se espalhar dentro de si.

– É óbvio que não. – Falou com a voz pastosa, sem nem ao menos se dar conta do que pronunciara.

 

——————————————————————————–

 

 

Deu descarga devagar, sentado na privada, olhando a máscara apoiada na pia.

Foi então que reparou que revistava, automático, a carteira que apanhara no bar.

Juliano Costa era o nome dele.

Não parecia um homem da caixa, mas vai saber…

Respirou fundo e se certificou de onde estava. Um banheiro, ótimo. Pela porta entreaberta constatou que ainda estava na casa da senhora.

Não sentia nada, sentia-se em um vácuo emocional, era como se seu corpo se apartasse das emoções, era como um automatismo, uma preparação que tornava mais fácil o que viria a seguir. O tempo passando, era tudo tão estranho.

Olhou de novo a pia. A máscara sabia que ele duvidava. Tinha certeza disto.

Levantou-se, sentindo uma leve vertigem, limpou-se. Averiguou se todos os dejetos já tinham sido extirpados, cheirou os sabonetes. Um por um.

E também os tubos de cremes.

Com um paninho limpou a borda do vaso.

Voltou, passou pela sala, a máscara guardada no bolso, o cão ainda respirando no pátio, desvirou o Jesus e saiu pela porta da frente, portando a guia telefônica, impune como uma visita.

 

————————————————————————————

 

A noite que antecedia o terceiro dia sempre era a pior.

Estava deitado no sofá puído da kitnete barato que alugava, a máscara sobre seu peito, o olhar preso ao teto.

As imagens, seguindo o ritual que sempre cumpriam, iam e vinham, já havia remoído isso tantas vezes que a ordem perdia o significado, ficando apenas a emoção bruta, um apanhado vago de dor e autocomiseração embalado pela própria respiração ofegante.

Todos na cidade sabiam da história do Cara de Estopa, a cidade sulista aproximava-se do seu ducentésimo aniversário e desde sua fundação já havia histórias sobre um vigilante encapuzado que chegava com a noite, punindo os culpados.

Não importava quanto tempo houvessem sido cometidos os pecados.

Morar na cidade de 400 mil habitantes, era saber que estaria automaticamente sobre seu jugo e proteção.

Era saber que um dia você também seria punido.

O Cara de Estopa sempre sabia. Ele conhecia o que se escondia no âmago dos homens.

Indiferente a todos estes pensamentos, a máscara se limitava a fitar com olhos vazios o rosto do homem.

 

E quando parava para pensar sobre isso, o homem constatava –como se fosse a coisa mais natural do mundo- que não sabia mais quem ele havia sido antes de ser o Cara de Estopa, quer dizer… Havia impressões, claro, mas… Nenhuma certeza.

Não sabia sequer o próprio nome. Não importa quantas coisas surgissem e desaparecessem na bruma da memória, nunca o nome.

Era como se ele fosse o Cara de Estopa. E isto bastasse.

Tudo era muito confuso.

Às vezes achava que havia sido publicitário, ou algo parecido, não tinha certeza. Tinha a família, a mulher, o filho e as duas filhas, uma era… Era… Carla! Isso era Carla, era a mais nova, isso, a que desenhava com giz de cera e que não tinha um dos dentes de leite na última vez que a viu.

Há longínquos nove anos atrás.

Ou não?

Por mais que se esforçasse, não conseguia se lembrar do nome dos outros filhos. E isso doía muito. Encolheu os joelhos, cobriu o rosto com os braços e virou-se, fitando por longos momentos a garrafa de aguardente em cima da mesa.

 

O menino tinha algum problema. Havia um menino, não havia? Era Beto? Roberto? Algo com R… E a doença… Era uma malformação congênita no coração!Sim! Isso! Ou algo assim, também não se lembrava direito… Ele entrava e saía do hospital, não se lembrava dos detalhes, se lembrava apenas da sensação esmagadora de impotência, das engrenagens de frustração, espera e esperança que acabavam com o homem a cada dia.

Foi em uma das cirurgias que o menino passou – não se lembrava de quantas já haviam sido – que falou com o velho. Disso pelo menos tinha certeza. Havia saído para fumar, para reduzir a espera infinita em seu coração.

Era um pequeno preto, velho, sentado no capô de um carro. Cabelos brancos, fumando.

Ele se lembra de seus olhos, muito, muito negros e as pupilas muito grandes.

Faziam seus olhos serem apenas um negrume absoluto.

– Noite. – disse.

Retribuiu o cumprimento, imerso em suas próprias preocupações.

Havia também o sorriso onipresente, o sorriso de quem ri dos tolos.

Aquilo o incomodou e foi se pôr para fumar em outro lugar.

Mas os detalhes, claro, de novo eram obscuros, ora se lembrava de uma maneira, ora de outra.

Ás vezes eles estão na frente do hospital, outras vezes estão no estacionamento. Algumas vezes, o homem está até mesmo com a máscara de estopa na cara enquanto fala, e suas mãos denunciam sua cor.

A única coisa que se lembrava com exatidão era a proposta sinistra que o homem lhe fez.

 

– Às vezes as coisas simplesmenti dão errado. – disse o velho com simplicidade. O homem quis ir embora, mas por algum estranho motivo, simplesmente ficou parado, escutando, fitando o cigarro.

– Não é questão de justiça, intendi né? Às vezes elas só não dão certo. É issu. – prosseguiu.

O cigarro morreu em sua mão. Jogou-o ao chão e esmagou com o pé, preparando-se para voltar.

– Miopatia congênita. Grandi problema, grandi, grandi.

O homem estaqueou. A voz seguiu.

– Puro azar. Indiferenti.- Seus cabelos eriçaram. Ele podia sentir o sorriso do velho, mesmo sem ver. Estava tudo na voz, na entonação. – Nada a vê com certu ou erradu. Decididamenti.

O homem respirou fundo, não percebeu, mas seus pés se moviam de um lado para o outro, revolvendo as partículas de areia do estacionamento.

– Seu filhu não vai passá dessa noiti – a voz do velho foi fria, decidida. Era a voz de alguém dizendo uma verdade universal. O homem virou-se rápido, sentindo um pânico crescente, um arrepio em cada poro. Aquele homem à sua frente estava apenas parado, mas seus olhos não pareciam olhos. Ou ao menos não olhos humanos.

Eram olhos escuros, olhos sem alma.

Olhos escuros como os de uma máscara.

– Em brevi o médico vai operá. Vai fazê todo o possívil – disse no mesmo tom de voz carregado de sotaque. Um tom de voz simples, com uma pequena nota de ironia. Ele não estava sorrindo. Não estava sorrindo. Mas não precisava, o tom dizia tudo. O homem não ousava se mexer.

O velho sacudiu a cabeça.

– Mas a malformação já comprometeu u coração. É issu. É issu.

O velho fumou, sentado na mureta, uma longa tragada, olhando o céu com seus olhos que não eram olhos.

O homem engoliu em seco duas vezes, abriu e fechou os punhos, sentindo a impotência, o medo, a vontade de fugir, de esmurrar, de negar.

Mas não fez nada.

O velho soltou a fumaça, ela espiralou pelo ar da noite, o homem não estava atento a isso.

– Ele morri às 4 horas 15 minutos dessa madrugada. I tenho ditu. Na mesa de cirurgia.

O homem tentou balbuciar algo.

– Mas tem algo que você pode fazê quanto a issu – sorriu, e novamente, seu rosto não parecia um rosto, parecia uma máscara utilizada por algo maior, negro e profano – Simplesmenti não se trata de certo e errado.

E foi então que o homem gaguejando, em um tom quase inaudível disse a única coisa que não poderia ter dito, a única coisa que conseguiu pensar.

– O-o…Quê?

 

Era Robson! Era Robson o nome do filho! A lembrança foi súbita, avassaladora, gemeu alto e caiu do sofá, rastejou, mais inseto que homem, até a garrafa e virou outro gole, arranhando sua garganta.

Era tarde demais, as lembranças não iriam parar.

Não agora.

 

– Só o que você tem qui fazê é concordá – falou a mansa voz do velho. Era impossível desviar os olhos das fendas de seus olhos.

– Existe otros qui fizeram esse acordo. Por que si meteram em problemas qui não sabiam como saí, por glória, às vezis por quere fazê um bem. Mas quasi sempri…

Parou, como que para conferir se o homem estava realmente prestando atenção.

– …É pela vida de alguém.

O homem respirou fundo.

O velho sorriu novamente, um sorriso cortês de desdém.

– Os motivo não me importa não. Im absoluto, como dize os refinadu.

Bateu a cinza do cigarro. Os olhos sem órbitas a olhar fixo o homem.

– Só o qui mi importa é a resposta, sinhô Nunes.

Ele caminhou em direção ao homem. Era pequeno, só notava agora, magro, e o frio parecia se acentuar ao seu redor, e a voz tocando acordes gelados no coração de sua alma.

– Somo ambus homens ocupados, sinhô Nunes, o que tenho a dizê, sem maior rodeio, é qui si aceitá, seu filho vai tá salvu.

– E di tempu im tempu… U sinhô recebi uma caixa.

A voz parecia mais humana, escondendo uma exultação, um senso de vitória. Era óbvio, ele já sabia qual seria a resposta.

– Podi demorá um mês, uma hora, deiz ano… Mas di tempu im tempu u senhô recebe uma caixa.

A cada passo, mais próximo do homem. Nunes só sentia a vontade de correr, de gemer como animal acuado. De se esconder.

Mas seus pés não se moviam, mas seus olhos não se arredavam.

– E vai havê um nomi dentro dela, sinhô Nunes.

Foi então que percebeu que estava suando.

– E issu sim será uma questão di certu e errado, sinhô Nunes.

O homem apenas olhava para ele, sentia uma vaga vertigem, uma sensação estranha de irrealidade.

– Porque há coisas que simplesmenti devi ser punida.

– E alguém tem que sê a mão qui castiga…

 

————————————————————————————-

 

A primeira caixa chegou dois anos depois. O filho brincava no pátio e a filha menor era apenas um bebê. Era isso que se lembrava.

 

————————————————————————————-

 

– Ana, onde você está! Vem que é hora do banho! – gritava a sua mulher no andar de cima. A menina vivia se escondendo, detalhes desimportantes, mas tão, tão vívidos que faziam o homem ser quase transportado para aquele momento.

A campainha soando.

O homem caminhou até a porta da sua casa. Os gritos da mulher ecoando ao fundo.

Havia uma impressão, uma sugestão no fundo de sua mente.

Abriu a porta, e a pequena caixa preta, de madeira estava ali ao chão.

Apanhou, olhou de um lado ao outro.

Apenas um menino passou de bicicleta.

Sua esposa finalmente encontrara a filha, detalhes, detalhes pequenos. Seu caminhar mecânico até a mesa da sala, a certeza terrível do que estava para acontecer, instalada em sua alma.

Detalhes, sendo revividos pela milésima vez em minúcias, como olhar um quebra-cabeça por incontáveis ângulos com a certeza que jamais chegará nem mesmo perto da solução.

Como se deter nos detalhes de uma resposta por tanto tempo, que inevitavelmente perderá o todo e com o tempo, verá que nem sequer sabe mais qual é a pergunta.

Sua esposa gritando.

O filho no pátio.

A caixa na mesa.

O frio na alma.

Detalhes.

Seus dedos roçaram a caixa preta de madeira, sem detalhes, apenas ranhuras.

E então abriu a tampa.

 

Dentro havia uma máscara de estopa velha, uma máscara simples, com uma boca e dois olhos cortados toscamente e naquela simplicidade, um efeito psicológico arrebatador, coisas sombrias e poderosas adormecidas em seu interior.

A promessa de coisas terríveis.

Quantas coisas não fariam juntos? Sim senhor.

Debaixo da máscara, havia um bilhete simples, batido à máquina, com o nome de um estranho.

De maneira sucinta, o que ele fez.

E as instruções do que deveria fazer.

Em precisos e terríveis detalhes.

 

O nome era Júlio Palloni.

Naquelas instruções, havia seu endereço, e um rosto toscamente desenhado em carvão ou giz negro.

Haviam também regras bem definidas.

Basicamente eram três: a morte sempre deveria ser no terceiro dia após o recebimento da caixa. Sempre.

Ele nunca deveria contar a ninguém sobre ela.

E no momento que a vítima desse seu último suspiro, ele sempre deveria estar usando a máscara.

Com cuidado escondeu a caixa no sótão, mas era tarde demais.

Já não conseguiria dormir aquela noite.

 

A manhã seguinte foi um sábado. Não havia trabalho à espera e ficar dentro de casa, sabendo que dividia espaço com aquele objeto negro e terrível, era impossível.

Se livraria dela o mais rápido possível.

Calçou os tênis e se pôs a correr, achou que talvez o desgaste físico o acalmaria e o ajudaria a chegar a uma resolução de seus problemas.

A quadra onde Júlio morava ficava a menos de 15 da sua, não foi uma surpresa, em absoluto, que seus pés o levassem até lá.

Se lembrou que ficou parado 12 minutos em frente à casa simples. Sentindo as ondas do destino a bater em suas costas, ouvindo as engrenagens ocultas e sinistras do futuro em movimento.

Subiu a pequena escada e se aproximou da porta. A mão ao ar, a dúvida entre bater ou não.

Dentro, sons de TV.

Baixou as mãos. O que dizer?

O que faria?

– Opa.

Se virou, respiração tensa. Reconheceu o rosto de imediato. Era alguns anos – poucos – mais velho que o desenho. Uma calva já começava a se insidiar, mas o queixo, os óculos e os olhos eram inconfundíveis.

Era ele. Júlio Palloni, subindo a escada com um prosaico saco de leite dentro de uma sacola.

– Oi, procurando alguém?

Sacudiu a cabeça, refeito, tentou agir da maneira mais natural que pôde.

– Sim, sim, aqui não é a casa do Vitor?

Júlio fez uma cara estranha. Avaliando o homem.

– Não, me mudei aqui a pouco tempo, mas não, não é a casa dele não.

– Ah, eles disseram que era na Gonçalves Ledo, 261? É aqui não?

Apontou para o número.

– É sim, mas não é aqui que ele mora não. Já tentou perguntar para os vizinhos? Sou novo aqui na zona, sabe?

O homem fez uma cara de intrigado, levemente surpreendido pela sua extrema facilidade em mentir.

– Que estranho…. Bem, de qualquer maneira obrigado. E desculpa o incômodo.

– De nada.

E sem maiores cerimônias, desceu a escada e tornou a se colocar a correr, em passos cadenciados de maratonista.

Seguiu correndo, até sumir de vista.

Em nenhum momento olhou para trás.

 

Passou os dois dias seguintes absorto na questão. O que deveria fazer?

E em momento algum tornou a abrir a caixa.

Ao fim do terceiro dia, escreveu uma carta anônima a Júlio, dizendo que alguém ameaçava sua vida e o melhor a fazer era fugir da cidade.

A carta foi deixada por debaixo da porta de madrugada.

Provavelmente julgando ser um trote, foi prontamente ignorada.

De qualquer maneira foi tarde demais.

O simples ato de escrevê-la foi um dos piores erros da vida de Nunes.

 

A tragédia desabou sobre seus ombros apenas dois dias depois, mas claro, não havia como saber.

E cada vez que ele se permitia relembrar, tudo se movia em minúcias de detalhes, em um terrível torpor, uma agonizante câmera lenta, antes de desaparecer novamente, no gélido nevoeiro chamado esquecimento.

Levou a garrafa de novo aos lábios, com fúria e desespero, em vão, o líquido já havia acabado, as emoções não estavam suficientemente entorpecidas, sabia tudo que se sucederia, mas era tarde demais para parar.

Primeiro ela e o menino saindo do shopping.

Depois, a bolinha caindo da mão da criança e como se coreografado, quicando pelo meio rua.

Ele sai para pegar.

Ninguém vê.

O carro vem.

E então o barulho seco, a freada tarde demais, o barulho horrível, horrível.

E então a vez de Nunes correr em câmera lenta.

Lento. Lento.

Ele nunca chegou a tempo. A boca aberta gritando, tarde demais.

Demais.

Reprisou esta cena durante todo o funeral.

Tudo o mais foi um longo borrão.

 

Quando o pequeno caixão foi baixado, foi então que ele viu todo o padrão. Ele sabia que não era coincidência.

Seus lábios se moveram, sem emitir som, apenas uma simulação de gemido, como um animal agonizante.

E o enterro seguia, em um filme sem fim em câmera lenta.

 

Três dias depois ele achou em cima da mesa, uma nova caixa.

A mulher e as filhas estavam na casa dos avós, o homem arrumava suas coisas para encontrá-las, para se refugiar na casa dos parentes, para começar o lento e tortuoso processo de reconstruir os fragmentos da vida.

Suas mãos tremeram quando abriu a caixa, não queria, mas sabia que devia.

Havia um desenho, no mesmo traço rude, tosco, onde reconheceu o rosto da filha mais nova.

Um outro desenho do homem que não tardou a identificar como Júlio Palloni e um bilhete com uma mensagem inequívoca.

“3 dias”.

A viagem foi cancelada.

 

Seguiu Júlio por três dias, ao fim do primeiro já tinha em mente onde aconteceria, na segunda quadra depois do estacionamento onde ele deixava o combalido Ka à noite.

Ali havia o ponto cego ideal, uma casa abandonada, uma mecânica que só funcionava durante o dia e uma lãneira igualmente abandonada defronte. Era uma questão de agir rápido e fazer o que tinha que fazer. A adrenalina disparava em seu corpo e em momento algum se permitia pensar mais profundamente sobre o peso e as conseqüências do que estava a fazer.

Seu coração disparou ao reconhecer o homem vindo. Quando os passos ficaram mais próximos, é que saiu da sombra e ficou à mostra.

Júlio parou, nem sequer respirou. Diante dele, um homem de roupas de corrida, luvas de motoqueiro, uma faca pequena e discreta à mão, com uma máscara de estopa à cara.

Tentou dizer algo, seus olhos denotavam medo e confusão e antes que tivesse a chance de articular qualquer coisa, Nunes em um golpe direto levantou a faca e a cravou no peito de Júlio, na altura do abdome, ela ofereceu alguma resistência e em seguida entrou fácil, surpreendentemente fácil, o homem teve um súbito espasmo, como se atingido por uma forte descarga elétrica, Nunes tentou segurar o cabo o mais firme que pôde, mas a faca escorregava, o manuseio era difícil com as luvas, não sabia se este era o procedimento correto, apenas lhe pareceu o mais certo a fazer.

Não havia como saber.

Nunca havia matado ninguém antes.

O homem agitou os braços, em um golpe cego, um agitar cômico, como um nadador a seco, Nunes se afastou, impedindo que uma das mãos o acertasse e foi então que Júlio cambaleou dois passos para trás, olhando com expressão abobalhada a faca cravada pela metade em seu peito.

Falou, mais surpreso do que com dor, olhos arregalados:

– Porra! Porra! – suas mãos balançavam no ar, indecisas quanto ao que fazer, se aproximando do cabo da faca e recuando.

Nunes avançou, tentou achar o cabo com as mãos cegas, agarrou-o, se atracaram os dois homens e então, em um só golpe, decidido, cravou a faca até o fim, ambos grunhindo, sentiu quando Júlio conseguiu pegar seu braço.

Foi então que em um gesto instintivo, sem pensar, girou a faca ainda cravada e seguiu-se um urro terrível, estridente, sentiu uma satisfação feroz e notou que os joelhos do homem fraquejavam.

Retirou a lâmina, sangue espirrou, limpando os olhos com uma das mãos olhou ao redor para ver se o grito não atraíra alguém, o que não acontecera.

Quando voltou a olhar para o homem, este estava cambaleando, a uns quatro ou cinco passos de distância, segurando o próprio peito, tentando gritar, mas a voz era falha, esganiçada.

Arrancou as luvas das mãos, e segurou com força o cabo da faca.

Caminhou com passos firmes, sem pressa, até alcançar o homem, sem dificuldade, e achar o ângulo certo para o que pretendia fazer.

Com violência agarrou os seus cabelos.

E deu a estocada seguinte na altura dos pulmões. A tentativa de grito do homem foi rouca, quase inaudível.

Arrancou a faca de novo e deu outra estocada.

Outra.

Outra.

Outra.

E só então soltou os cabelos de Júlio, que deu mais um passo, para então cair de joelhos ao chão e em seguida desabar pesadamente o resto do corpo.

Tentou puxar ar uma última vez, em vão.

O homem tirou a máscara e com rosto congelado, misto de fascínio e espanto, viu sua obra.

E só então atirou longe a faca e se pôs a correr.

 

A segunda caixa chegou sete meses depois. Novamente, havia um desenho, um nome e o que o culpado havia feito.

A terceira, quatro dias depois.

A quarta, um ano e meio.

Mas a esta altura já não importa mais.

Sua família há muito havia abandonado aquele lar.

 

Cada vez mais ele desconfiava dos reais propósitos do que fazia, cada vez mais ele pensou em se libertar, sem nunca ousar nada, mas a máscara sabia das suas dúvidas, ela sabia! Tinha certeza disso!

E ele também sabia que mais cedo ou mais tarde, para alguém haveria uma outra caixa com uma máscara.

E um desenho tosco com seu rosto, com seu nome, estaria nela.

 

Deixou o que restou da garrafa rolar pelo chão, fez uma pequena flexão e constatou como suas costas ainda doíam.

Recostou-se melhor no sofá. Com o tempo, seu desinteresse custou também seu emprego, em pouco tempo, tudo acabara.

Foi então que a caixa chegou novamente, com uma foto, um nome, o que ele precisava saber… E dinheiro.

E assim foi a cada dois meses. Sabia que não podia gastar tanto assim com as pílulas e bebida, sabia que isso desagradaria a máscara, mas também não havia muito mais que pudesse fazer.

A garrafa acabou. Este pensamento surgiu, puro e cristalino.

Se levantou, apanhou duas notas em cima da mesa e foi à rua comprar outra. Era fácil, era só dobrar a esquina.

Uma esquina apenas a separá-lo da realidade, da espiral negra da máscara.

Cambaleou quatro passos pela rua, parou a fitar o bar.

Era bobagem, sabia.

Sabia onde realmente deveria estar.

Com os últimos trocados, andou até a loja de conveniências e comprou os sete últimos rolos de fita adesiva.

 

————————————————————————————–

 

Juliano Costa acordou com o barulho.

No começo pareciam ratos, eles andavam infestando o velho apartamento.

Era o sótão, sabia. Uma hora teria que limpá-lo.

Novo barulho. Mais nítido. Algo o sobressaltou. Lutou contra as forças da sonolência.

Pensou em esfregar os olhos, mas seu braço não se moveu.

E isso bastou para fazê-lo despertar de sopetão.

Estava amarrado à cama. Não conseguia ver muita coisa, mas estava atado á quina da cama, pelos braços e pernas.

E havia o som, agora podia ouvir melhor.

Parecia o som de gavetas sendo reviradas.

Gritou assustado, com todas as forças que seus pulmões podiam ter. Estava amarrado à cama com fita adesiva, agora percebia claramente isto, devido ao ângulo que seus braços estavam posicionados, não conseguia exercer a força necessária para se libertar.

Debateu-se com fúria, a cama rangeu, mas não conseguiu se soltar.

Arquejou, suando e então reparou que os ruídos cessaram.

Com a cabeça levemente virada sobre o ombro, podia ver quarto todo, revirado, entrou em seu campo de visão, um homem usando um moletom e uma máscara de estopa, com uma faca na mão.

Gritou, gritou desesperado, até o homem colocar um naco de fita em sua boca.

Ainda esperneou e gritou, até parar, era em vão.

O homem agora estava sentado na beira da cama, olhando para ele.

Seus olhos perscrutaram todo o quarto.

– Você deve estar se perguntando onde está a mulher. – falou, a voz era suave.

– Ela está amarrada lá embaixo. Ela está bem, está assustada, mas bem…

Juliano não esboçou nenhuma reação.

– Eu procurei por toda a casa pela máscara.

O homem de máscara olhou ao redor, antes de concluir.

– Não achei. Acho que lhe devo desculpas. Por isso, e por… Isso também – apontou para o inchaço no rosto de Juliano. – Me desculpe, mesmo.

Pousou a faca na cama, ficou fitando a parede por alguns minutos, até levantar um pouco a máscara, apanhar uma garrafa de cerveja e entornar um gole.

– Foi tudo um engano. Desculpa. – repetiu, o tom era confuso, quase lacrimoso.

– Às vezes fico um pouco confuso.

Suspirou.

– Às vezes.

Finalmente, se levantou, e jogou a carteira no colo de Juliano.

– Aqui a carteira. Foi tudo um mal-entendido. Eu achava que você era um deles.

– Deles…

Caminhou pelo quarto, pegou a faca de novo, Juliano não ousava desviar o olhar, tentou forçar um pouco os braços, a cama rangeu levemente, ele parou.

O homem de máscara pareceu não notar.

– Eu peguei 2,55 para pagar o ônibus até aqui. Espero que não se importe.

– Mas… Mas, todos os documentos estão aí dentro. Eu não tocaria neles, em hipótese alguma, pode conferir. Eu sou um dos heróis, sabe. – riu, sem alegria – Sei que não parece, mas eu faço coisas boas.

Baixou a cabeça, encarando a faca.

– Se você viu os filmes, sabe como é… Todo herói usa uma máscara.

A voz ia ficando mais baixa, mais cansada.

– É para proteger aqueles que ama…

Finalmente parou de costas, a encarar o próprio reflexo no vidro da janela. A respiração pesada, cansada. A faca rodando em sua mão, distraidamente.

– … Máscaras….

Começou a caminhar em direção à cama e Juliano mais do que nunca, sentiu uma vontade brutal de gritar. Se encolher.

De chorar. Como uma menininha.

– …Vou lhe contar como ganhei a minha…

 

Dia 3

A senhora abriu a porta às nove da manhã, para botar o lixo para rua, um ritual que cumpria a cada dia, fizesse chuva ou sol.

Ele estava parado diante dela, máscara no rosto, barra de ferro nas mãos.

Ela o olhou e entendeu. Tudo isto em um único instante.

Seus olhos se encheram de água, era a punição tão aguardada. O momento cristalizado, trinta anos de espera, sem saber quando, nem onde, a espera muda.

Sim, sussurrou ela.

A culpa naqueles olhos, era tudo que o homem precisava.

A barra de ferro se ergueu uma vez e então desceu em um impacto molhado.

O saco de lixo se abriu ao cair ao chão, alguns papéis velhos voaram e se chocaram à parede do vizinho, tudo bem.

Não havia ninguém na rua para reclamar disso.

Não foi necessário um segundo golpe.

 

Anúncios
Categorias:Entretenimento
  1. Jozias Cullen
    20/11/2012 às 11:43

    Nem li.

  1. No trackbacks yet.

O que você achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: